O Primeiro Serafim Brasileira

Autor(a): Anosk


Volume 1

Capítulo 23: As Formas da Deusa

Na manhã seguinte, Luna tentou em vão usar magia mais uma vez antes de partir.

Como não conseguiu, todos seguiram seu caminho. Sempre que tinham a oportunidade, Sariel, Luna e Raymond tentavam ajudar a princesa a usar magia, mas sempre resultava em falhas.

Eventualmente, o grupo parou para almoçar. O trio se afastou um pouco do acampamento e procurou uma clareira.

Conforme caminhavam, a princesa acabou tropeçando em algo, quase caindo no chão.

— Ah! — gritou de susto.

— O que foi? — perguntou Raymond.

— Tropecei em algo — disse ela, olhando para o que causou seu desequilíbrio. — O que é isso?

A princesa se agachou e viu o que parecia um objeto de mármore do tamanho de um melão enterrado no chão.

Raymond se aproximou e disse: — Deve ser algum espólio da guerra.

Contudo, isso não convenceu Luna, que usou as duas mãos numa tentativa de removê-lo.

Percebendo o esforço dela, Sariel se aproximou.

— Deixe que eu lido com isso — disse conforme pegava no objeto com uma mão e o puxava.

Sem nenhum esforço, retirou da terra uma estátua de anjo feito de mármore. Esta estátua não possuía olhos, boca, expressões faciais e nem mesmo parecia ter roupas, se assemelhava mais a uma silhueta alada branca e sem nenhum detalhe extra exceto sua forma, como um manequim.

— Uma estátua de anjo? Por que isso está aqui? — perguntou Luna.

— Boa pergunta... Por que não descobrimos? — disse Sariel apontando para o chão.

Ao olhar para o buraco formado pela falta da estátua, Raymond pode perceber um pedaço de mármore abaixo do solo.

— O que é isso?

— Se afastem — disse Sariel preparando um soco no chão.

Ao perceber suas intenções, Raymond e Luna se afastaram alguns metros do viajante.

Quando estavam longe o bastante, Sariel socou o chão com força, fazendo terra e concreto voarem ao redor e criando um buraco de 2 metros de tamanho.

Ambos se aproximaram novamente e olharam para baixo, avistando um chão que não estava muito alto e cercado pela escuridão absoluta. Se não fosse pela luz do sol, não seriam capazes de precisar o fundo daquele buraco.

— Um santuário dos anjos? — perguntou Raymond.

— Sim... e um bem antigo por sinal, já que está completamente soterrado com terra e árvores. Deve ter sido construído logo quando vieram.

— E nós vamos descer aí? Pode ser perigoso!

Contudo, o viajante ignorou o guarda-costas e se jogou no buraco, pousando com tranquilidade e suavidade. Em seguida, ergueu sua mão, que brilhou em marrom, e condensou esse brilho em uma pequena esfera de luz, iluminando bem os arredores.

— Podem descer.

— Nem pensar, é perigoso para Luna.

— Eu quero ver o que tem lá! — disse a princesa.

— É bom que desçam, este não é um santuário comum... — disse Sariel em um tom misterioso ao mesmo tempo que jogava a estátua no chão. — Pode pular, Luna. Eu a pego.

Ouvir isso apenas deixou Raymond mais acanhado.

— Não, ela vai...

Entretanto, antes que terminasse, a princesa se jogou no buraco sem pensar duas vezes. O viajante, como era de se esperar, a pegou e a colocou no chão.

Ao ver aquilo, o guarda-costas desistiu de ir contra e pulou dentro.

Assim que pousou, se deparou com um grande espaço aberto. O teto era arqueado e feito de mármore e ouro, e os arcos eram estatuas de anjos que seguravam o teto. As paredes eram decoradas com vidro colorido que retratavam a silhueta branca de um anjo, sem nenhum detalhe assim como a estátua nas mãos de Sariel. Vários assentos de concreto e acolchoados se estendiam por todo o espaço, e no fim daquela sala, havia um altar, com uma pedra marrom de um metro de altura.

Atrás deles, havia um corredor desabado, provavelmente era a entrada original antes de sucumbir ao tempo.

— Uma... Igreja? — perguntou Raymond.

— É o que parece — disse Sariel. — Me pergunto o que há naquela Gema de Alteração — disse o viajante apontando para a pedra marrom.

— Uma gema daquele tamanho... Acho que só encontraríamos algo similar no reino de Acrópolis... — comentou o guarda-costas.

Sariel se aproximou lentamente do altar. Atrás dessa Gema de Alteração havia uma imensa estátua com 10 metros de largura daquela mesma silhueta branca. Inúmeros livros e folhas rasgados e queimados se espalhavam por todo o chão, sendo impossível lê-los.

Raymond e Luna o seguiram curiosos. Aquela grande estátua era feita de um material diferente de mármore, pois refletia a luz da magia do viajante como um espelho, iluminando toda a sala apenas com o seu reflexo.

Ao chegarem perto do altar, os três rodearam a Gema de Alteração e logo perceberam que ela estava danificada, com algumas rachaduras e o topo com um formato diagonal irregular, provavelmente o local onde a pedra quebrou.

— O que faremos agora? — perguntou Luna.

— Tocamos — respondeu Sariel.

— É muito arriscado! Algo desse tamanho pode conter mais memórias que possamos suportar — protestou Raymond.

— Como assim? — perguntou Luna.

— Isso é uma Gema de Alteração, é capaz de armazenar e mostrar memórias.

— Por isso eu disse que é perigoso.

— Então eu vou primeiro — disse o viajante aproximando a mão do objeto. — Se eu sentir que é seguro, então vocês poderão tocá-la.

Então, Sariel tocou a pedra, e inúmeras memórias passaram por sua mente.

Segundos depois do toque, ele retirou sua mão e permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— O que foi? — perguntou a princesa.

— De fato, é melhor que não toquem nela, podem ser demais para vocês — disse enquanto suspirava pesadamente. — E pensar que há uma boa parte faltando.

— E o que você viu? — perguntou Raymond.

— Parece que esse era um lugar onde os anjos reuniam humanos e os ensinavam sobre Kura e sobre as origens deles...

— Espera, livremente? Sem uso de força?

— Sim, pelo que parece, Kura contatava os anjos assumindo essa forma — explicou Sariel apontando para a grande estátua branca.

— O quê? Mas Kura não possui uma forma humana? Aqueles que a viram sempre disseram que ela era como uma silhueta humana feita de luz.

— Parece que ela apenas usa formas diferentes quando conversa com raças diferentes.

 — Não me surpreenda isso, ninguém a ouviria se aparecesse a um humano com forma angelical — disse Raymond. — Se bem que ninguém mais a viu desde o início da guerra... 

— Então Kura realmente guiou os anjos para nosso mundo? — perguntou Luna. — Então por que eles tentariam destruir a humanidade se ela auxiliava ambas as raças?

— Infelizmente a resposta não está aqui.

— Será que os anjos se viraram contra Kura? — perguntou Raymond.

— É uma possibilidade.

— Mas não faz sentido... — murmurou Raymond. — Se fosse o caso, por que ela não se comunicou com nenhum humano desde a guerra?

Sariel permaneceu em silêncio.

Enquanto ponderavam, Luna observava com curiosidade da estátua e se sentiu atraída por ela. Após um tempo, percebeu algo caído próximo da estátua e se aproximou para ver. Olhando de perto, notou se tratar de um livro cuja capa estava destruída, mas o interior ainda estava um pouco preservado.

Havia apenas um capítulo que estava legível e, como estava escrito em uma língua que não conhecia, o recitou alto o suficiente para que Sariel e Raymond ouvissem.

— “Dies Irae...”

Ao ouvir isso, o viajante instantaneamente abandonou seu silêncio e se aproximou da princesa rapidamente.

Ao chegar perto o suficiente, conseguiu ler o conteúdo do capítulo.

Dies irae, dies illa

Solvet saeclum in favilla, teste David cum Sibylla

— Quantus tremor est futurus... — murmurou Luna. — Quando judex est venturus... Cuncta stricte discussurus...

Luna não percebeu, mas durante todo este tempo Sariel a esteve encarando atentamente.

— Sabe o que isso significa? — perguntou o viajante.

— Não... — murmurou ela pensativa. A primeira parte lhe era desconhecida, porém já tinha ouvido aquela segunda, em seu pesadelo.

— Por que isso está aqui? — perguntou Luna se referindo ao livro.

— É uma igreja, é natural que esse tipo de texto esteja aqui... Por acaso conhece isso?

Percebendo que Sariel estava sendo insistente, Luna se virou e perguntou olhando no fundo dos olhos dele: — Você não sabe? A pedra não mostrou nada?

— Não, ela está danificada, lembra? Por isso gostaria de saber se você conhece isso.

— Por que eu conheceria?

O viajante e encarou o livro novamente, percebendo que o próximo capítulo estava totalmente ilegível, exceto pelo título.

— “Tuba Mirum...”

— Tem certeza de que não há mais nada aqui? — perguntou Raymond observando a pedra. — Não acredito que este lugar só servia como uma igreja.

— Não há mais nada aí, não toque nela — disse Sariel em tom imperativo.

Contudo, Raymond aproximou a mão lentamente da pedra danificada.

— Talvez eu possa ver outras memórias...

Percebendo sua aproximação, o viajante se moveu rapidamente e agarrou a mão do guarda-costas.

— Eu disse para não tocar. — Após dizer isso, Sariel chutou a pedra com força e a destruiu completamente.

— Ei! O que pensa que está fazendo? — irritou-se Raymond. — O que deseja esconder tanto o que viu ali?

— É para seu bem, agora vamos embora, não há mais nada aqui.

Com Raymond e Luna insatisfeitos pelo comportamento de Sariel, ambos o seguiram para fora do local.

Logo quando saíram, o viajante carregou em seus ombros uma grande pedra e escondeu o buraco que fizera.

— Bem, vamos esquecer aquilo e focar em seu treinamento, certo? — disse Sariel olhando para Luna.

— Tudo bem... — murmurou a princesa, curiosa do porquê ele estava agindo de maneira tão estranha.

Com isso, os três focaram-se em ajudar Luna a usar magia, mas ela sempre falhava.

Sariel e Raymond pensavam em inúmeras possibilidades e sugestões que talvez a ajudaria, mas nada surtia efeito.

Após meia hora, o guarda-costas se afastou por alguns minutos para conferir Aegreon e Shiina, deixando o viajante e a princesa a sós.

Luna tentou seguir todos os ensinamentos, mas a cada tentativa falha se frustrava mais ainda, resultando em falhas mais rápidas e repetitivas.

— Não consigo... — disse deprimida. — Por que tenho que ser tão inútil?

Ela pressionava as mãos com força, sentindo raiva de si mesma. Mesmo sendo um anjo — o que teoricamente a faria superior a qualquer humano — não era capaz de criar uma mísera bola de neve.

Sariel a observava com curiosidade, quando decidiu tentar uma aproximação diferente.

— Tente de novo, mas feche os olhos dessa vez, e não importa o quanto sua cabeça doa ou seu fluxo de magia diminua, tente pelo menos manter a magia ativa. Não tente completá-la, apenas a mantenha.

— Certo.

Seguindo essas instruções, Luna fechou os olhos e iniciou a magia novamente. Como nas vezes anteriores, conseguiu criar uma esfera do tamanho de uma formiga, mas logo seu fluxo magico reduziu e uma pontada em sua mente a desconcentrou.

Porém, dessa vez ela não iria se dar por vencida. Ignorando a dor em sua mente, focou todas as suas forças em manter aquela esfera de neve do tamanho de um inseto.

Por isso, a dor de sua mente se intensificou cada vez mais. Resistiu como pôde, mas logo a dor se tornou tão intensa que sentia como se estivessem atravessando uma faca em seu crânio, por isso acabou cedendo e falhando mais uma vez.

— Não... Consigo — disse ofegante. Sua voz estava quase inaudível, como se tivesse acabado de correr uma maratona.

— Creio que descobri o problema — disse Sariel com um olhar intrigado.

— E qual... qual é?

— Preciso que repita o que acabou de fazer.

— Mas não deu certo antes, por que daria agora?

— Apenas confie em mim.

Luna encarou Sariel com dúvida, mas decidiu tentar novamente. Fechando os olhos, começou a magia mais uma vez, sentindo a mesma dor assim que o mínimo de neve fosse formado em sua mão.

Sariel a observava atentamente e se aproximou dela assim que ela fechou os olhos. Quando percebeu que a magia estava falhando, tocou com uma mão na testa dela e a outra no antebraço.

A princesa sentiu este toque, mas estava focada em manter sua magia, que se tornava cada vez mais difícil devido à dor em sua mente que crescia cada vez mais.

Ela sentiu que estava prestes a falhar, quando sentiu o fluxo de magia — o “frio” — que passava por seu braço aumentar, e a dor em sua mente reduziu. Em resposta, mais neve se acumulou em sua mão e pela primeira vez atingiu um tamanho maior, próximo de uma uva.

Seu coração acelerou assim que percebeu que fizera progresso, mas não tardou muito para que sua mente doesse novamente e o fluxo diminuísse.

Enquanto isso acontecia, sentiu o toque que estava em seu antebraço mover até sua barriga, e dessa vez percebeu um sentimento estranho e desconfortável, mas ela focou em continuar a magia.

Dessa vez, a dor que sentiu foi maior ainda, mas ela fez o possível para mantê-la.

Mais uma vez, sentiu que estava à beira do colapso, quando a dor diminuiu gradativamente, até que, subitamente, toda a dor desapareceu e uma energia enorme percorreu todo seu corpo e foi em direção à sua mão, como se todo seu corpo fosse um oceano e sua energia um tsunami, invadindo o continente e varrendo tudo em seu caminho.

Com todo aquele poder súbito correndo por seu corpo, foi incapaz de parar sua magia a tempo, que cresceu bem mais que uma simples bola de neve.

Seu gelo consumiu tudo.



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