Volume 1
Capítulo 0: O Deus Vagabundo
Acho que estou atrasado.
Um, dois… quatro… seis… sete? Isso. Sétima vez neste século. Número redondo se arredondar pra cima e ignorar os três atrasos menores que ninguém percebeu. Ou perceberam e fingiram que não para não terem que lidar comigo. Considerando as circunstâncias, ambas as opções são igualmente prováveis e igualmente deprimentes.
Enfim.
Eu, Nora, estou com um problema.
Um baita problema, para ser exato. Daqueles que fazem as entranhas revirarem, os joelhos tremerem e o cérebro decidir que agora, justo agora, é o momento perfeito para entrar em pânico total. Tipo, o momento não poderia ser mais perfeito. Parece até planejado. Algum deus do timing cósmico olhou pra mim e disse: "esse aí vai ser divertido".
Mas não existe um Deus do Timing Cósmico. Eu saberia. Nos santuários sagrados a gente se conhece. Infelizmente.
E o pior de tudo? Toda essa crise é culpa minha.
O corredor à minha frente se estende como a garganta de alguma fera mitológica prestes a me engolir. As tochas nas paredes dançam numa luz tremida que projeta sombras inquietas sobre as pedras gastas — deveria ser acolhedor, certo? Fogo geralmente é. Mas não. Tudo que sinto é um frio incômodo rastejando pela espinha, como se algum verme gelado estivesse fazendo turismo por dentro da minha coluna vertebral.
Que agonia.
E no final desse corredor, a porta.
Meus olhos se fixam nela — mármore branco, entalhes dourados, aquela aura irritantemente divina que praticamente grita "sou mais importante que você" em cada centímetro de superfície. Uma porta pretenciosa para um salão pretensioso cheio de deuses pretenciosos que provavelmente estão lá dentro me esperando com as cusparadas já preparadas.
Faz tanto tempo que não subo até este andar que quase tinha esquecido o quão insuportavelmente brilhante tudo é. Tudo é dourado. As paredes são douradas. As tochas são douradas. Até o ar parece dourado. Se eu ficar aqui muito tempo, vou começar a brilhar por osmose, e aí sim minha reputação seria destruída. O deus vagabundo com brilho dourado. Inaceitável.
Okay. É só empurrar a porta e entrar.
Simples.
…
Não. Isso não é nada simples!
Sabe, ser um deus deveria facilitar as coisas. Pelo menos é o que os humanos adoram pensar. "Ah, queria ser um deus! A vida deve ser tão fácil! Sem preocupações, sem ansiedade, sem atrasos…"
Essa piada é deliciosa. Quase consigo sentir o gosto amargo dela.
Vou revelar um segredo: na vida de um deus, existe uma única constante universal, imutável e absoluta. Ser infinitamente pior do que parece.
E agora? Agora é um desses momentos.
A pior parte nem é o atraso. Claro, atrasar é ruim — não me entenda mal. Chegar atrasado numa reunião dos santuários é mais ou menos como aparecer num funeral rindo. Só que o funeral é meu. E eu sou o palhaço. Mas a verdadeira cereja no bolo é o sermão que vou ter que engolir em seguida. "Nora, bastardo. Problemas, brincadeiras e travessuras advindas de ti não serão mais tolerados." Foi o que me disseram da última vez. Da penúltima, na verdade. Da última, não disseram nada. Só cuspiram.
É. Quem diria que ser chamado de bastardo pelos próprios irmãos seria o menor dos problemas?
Certo, calma! Pensar racionalmente e resolver as coisas da melhor forma para mim, é isso que um deus faz!
Errado! Totalmente errado!
O que está errado não é resolver as coisas da melhor forma para mim — isso está certíssimo — mas o tal "pensar racionalmente"! Eu sou o Deus da Procrastinação! Pensar racionalmente é um exercício de masoquismo! Tortura autoinfligida! O meu cérebro não funciona assim! Ele funciona por espirais de pânico alternadas com momentos de falsa lucidez que me convencem a fazer exatamente a coisa errada!
E agora?! Atrasado, cercado por deuses irritados e com a perspectiva de uma eternidade de punição como recompensa por ser quem sou!
…
Espera.
Pensando bem, por que essa reunião é tão importante? Pense, Nora! Se fosse algo realmente crucial, será que me chamariam?
Não. Claro que não.
Eu sou o cara que eles preferem evitar em todas as festas. O nome que ninguém pronuncia sem uma cusparada de acompanhamento. Se fosse algo sério — uma guerra, um cataclismo, a queda de um santuário — teriam me excluído como sempre fazem. Me chamar significa que é algo burocrático. Ou que precisam de alguém para culpar.
Muito, muito suspeito…
Mas isso não justifica o atraso. E atraso aqui no céu é algo que leva a sermão ou, no meu caso, promessas de tortura eterna que provavelmente são vazias. Provavelmente. Preciso dar um jeito nisso. Mentir? Não… sou péssimo com mentiras. Minha cara me entrega antes de a boca terminar a frase. Diferente de Pseudea, o Deus da Mentira, eu não tenho esse talento. É só olharem para mim e BAM. Acabado.
Então… e se eu omitir?
É isso!
Omitir não é mentir! Tecnicamente!
É uma zona cinzenta! Uma zona cinzenta maravilhosa e espaçosa onde eu posso me esconder com conforto! Se eu acreditar que estou omitindo, não é mentira. Se não é mentira, não é pecado. Consciência limpa! Puro como uma gota de orvalho divino!
O plano é o seguinte. Sem detalhes. Sem explicações. A omissão perfeita consiste em dizer o suficiente para parecer que disse alguma coisa sem na verdade ter dito nada. Tipo um político humano. É uma arte, e eu vou dominá-la aqui e agora.
A narrativa: "Primeiro, me desculpem pelo atraso. Infelizmente, ocorreram alguns problemas no caminho. Vocês sabem como a vida é repleta de imprevistos… não pude fazer nada quanto a isso. Me desculpem, de verdade."
Impecável. Uma obra-prima da omissão divina. Curta, vaga, levemente contrita. Tão perfeitamente genérica que poderia ser sobre qualquer coisa. Atraso? Problemas. Que problemas? Imprevistos. Que imprevistos? A vida. Inquebrável.
Ensaio uma vez na minha cabeça. Duas vezes. Na terceira, quase acredito.
Respiro fundo.
É só entrar e falar. Fácil, certo?
…Minhas pernas começam a tremer.
Não. Não é fácil.
Dois sentimentos que raramente experimento tomam conta de mim: ansiedade e medo. Não o medo que mortais sentem — aquele medo primitivo e sincero que faz sentido. Não. Este é um medo divino. Um medo patético. Medo dos olhares. Medo do silêncio que vem antes do desprezo. Medo de abrir uma porta e encontrar exatamente o que sempre encontro: que ninguém me quer ali.
Que patético.
Vamos lá, Nora! É isso ou ser torturado pela eternidade!
Estendo as mãos para a maçaneta. Giro. Empurro.
Nada.
Giro e empurro de novo.
Nada.
A porta não se moveu.
— Ei… o que é isso?!
Será que está trancada? Essas portas não podem ser trancadas! É uma regra sagrada dos santuários! Trancá-las seria uma afronta à transparência divina!
Será que estão segurando do outro lado?!
— Infelizes!
Toda a ansiedade e medo foram substituídos por pura determinação e ego ferido. Até dois segundos atrás eu queria fugir. Agora eu quero entrar. É assim que o meu cérebro funciona. Me nega algo e eu vou querer com toda a força da minha alma imortal.
Planto os pés no chão, agarro a maçaneta com as duas mãos e coloco toda a minha força divina. Que, sendo honesto, não é muita. Sou o deus da procrastinação, não o deus da musculação.
Nada. Não abre.
Chega de sutilezas.
Dois passos para trás. Respiração profunda. Ombro posicionado.
— Agora você vai abrir!
Com esse grito de guerra, me lanço contra a porta com tudo que tenho: corpo, determinação, honra e orgulho.
E a porta abriu.
No exato instante em que meu ombro ia acertá-la, ela deslizou para dentro. Sem resistência. Como se nunca tivesse estado trancada. Como se ela estivesse esperando justamente esse momento para me humilhar com a máxima eficiência.
E eu fui direto para o chão. Rosto no mármore frio. Bunda para cima.
O som que o meu corpo fez ao atingir o piso sagrado do nono santuário pode ser descrito como: vergonha materializada em ondas sonoras.
O mármore reflete a luz dourada dos ornamentos do salão. Colunas esculpidas, teto que parece tocar o céu, tapeçarias em fios de ouro contando histórias que — obviamente — não me incluem. A tábula redonda dourada no centro é gigantesca, cercada por tronos decorados com almofadas bordadas e símbolos que gritam autoridade.
E dez pares de olhos me perfurando com ferocidade.
Levanto a cabeça. A visão está meio embaçada, meio pelo impacto, meio pela vontade do meu corpo de não processar o que está vendo.
Dez deuses me observam como se eu fosse uma mancha de sujeira em uma toga branca. Alguns franzem as sobrancelhas. Outros torcem a boca em desprezo. Dois simplesmente balançam a cabeça como quem diz: "Que patético." E um — justo o mais velho — nem sequer me olha. Está examinando as próprias unhas divinas, como se isso fosse infinitamente mais interessante do que minha existência.
Para ser justo, provavelmente é.
Meu plano perfeito, minha omissão divina, cuidadosamente planejada, ensaiada três vezes na minha cabeça…
Sumiu.
Evaporou. Derreteu. Se dissolveu no mármore junto com os restos da minha dignidade.
— E-Então… O-Olá! Foi mal pelo atraso. Os atrasos me adiantaram o caminho de imprevistos…
NÃO! SEU IDIOTA!
Isso não foi nada do que eu tinha planejado! Que frase foi essa?! "Os atrasos me adiantaram o caminho de imprevistos"?! Nem o deus da estupidez conseguiria algo assim! E olha que eu convivi com o cara!
E então… todos cuspiram.
O quê?!
Espera. Todos. Ao mesmo tempo. Sincronizado. Como se tivessem ensaiado. Como um coral da humilhação.
De novo.
E de novo.
De novo.
Na vigésima vez, pararam. Acho que ficaram sem saliva divina.
Isso é ofensivo? Terrivelmente. Mas para mim é quase rotina. Apenas mais um dia no nono santuário sagrado. Às vezes me pergunto se será assim pelo resto da eternidade. A eternidade é muito tempo. Uma quantidade absurda de tempo, na verdade. E se cada encontro com meus irmãos envolver ser cuspido vinte vezes… deixe-me calcular. Séculos multiplicados por encontros multiplicados por cusparadas... são muitas cusparadas.
É. Seria muito legal ser tratado com um mínimo de civilidade. Tipo, algo como "Seja bem-vindo, nosso glorioso irmão!" ou qualquer coisa parecida. "Obrigado por vir, Nora!" "Sentimos sua falta, Nora!"
Isso nunca vai acontecer.
— Acho que devo dizer — cruzei os braços, tentando parecer mais composto do que realmente estava — eu sei que vocês me odeiam e aceito isso, mas cuspir porque me veem é exagero, não acham?
Todos viraram o rosto com desprezo.
E então uma voz cortou o silêncio. Feminina, doce como veneno, aguda como garras no quadro negro.
— Você se atrasou, Nora.
Cuspiu.
— De novo.
Pronto. Aí vem o sermão.
— Ficaria grato se ao menos tivesse se esforçado para me ouvir — resmunguei. — Tenho quase certeza que me desculpei pelo atraso. Não é como se eu tivesse cometido um crime divino.
— E eu fiz esse esforço. Um dos mais doloridos da minha existência. Só ouvir sua voz já é um martírio, mas quando adicionamos uma desculpa mentirosa, o fardo fica ainda pior.
Cuspiram de novo. Vinte e uma vezes. Sim, estou contando. É o único entretenimento disponível.
— Não era uma mentira! — protestei, com toda a convicção de alguém que sabe que estava mentindo. — Tive vários problemas no caminho.
— Então nos conte, Nora. — Cuspiu novamente. — Que tipo de problema?
Okay. Hora de improvisar. Meu plano original está morto. O plano B nem existiu. Vamos direto para o plano "dizer a primeira coisa que vier à cabeça e torcer para funcionar."
Respirei fundo.
— Tinha um cachorro com uma das patas traseiras machucadas.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que eu podia ouvi-lo.
— Um cachorro? Por isso você se atrasou?
— Sim, exatamente. Não tinha nada que eu pudesse fazer. Você sabe como somos — misericordiosos e justos por natureza. Não podia deixar o cachorrinho lá, com o focinho arranhado…
Silêncio.
Aliás, não mencionei — estou no céu. Mais precisamente, no nono santuário sagrado dos deuses, e todos aqui são deuses. Como eu. Incluindo essa garotinha que me acusa de mentiroso.
Pequena, com pele brilhante como jaspe e cabelos prateados que parecem prata líquida. Sentada elegantemente no maior trono de ouro, parecendo uma garota no início da adolescência, com rosto de quem nunca conheceu miséria. O tipo de rosto que faz mortais caírem de joelhos e orarem. O tipo de rosto que faz outros deuses a respeitarem.
Mas um conselho: nunca se deixe enganar pela aparência. Ela carrega uma arma poderosa. Um único vacilo e você será atingido por um olhar cinza repleto de sarcasmo e ranço. Aquele olhar que diz "eu te tolero porque te destruir daria trabalho demais."
Terrível.
…Espera. Eu disse "focinho"?
Merda.
Quando a ficha caiu, já era tarde. Ela estreitou os olhos, farejando a mentira como um predador fareja sangue.
— Ele não havia machucado a pata traseira?
O chão poderia ter me engolido agora. Eu deixaria. Com prazer.
— Isso! É! A pata! Eu não poderia deixá-lo com a patinha machucada! Seria desumano!
— Sinto muito, Nora. Você é um péssimo mentiroso. Deixe isso para o Pseudea. E aquilo que você diz ser "desumano" não é algo que possa ser aplicado a si. Nem sequer é humano. E, caso tenha esquecido, não existem cães aqui.
Risadas disfarçadas dos outros deuses. Não disfarçadas o suficiente.
Ela invocou um pirulito com um estalar de dedos, como quem precisa de algo doce para não me estrangular com as próprias mãos divinas. Um pirulito dourado. Claro. Até os doces neste lugar são dourados.
— A menos que "cachorro" seja um apelido para algum outro inútil como você. Nesse caso, sua mentira ao menos se torna engraçada.
Lambeu o pirulito. Devagar. Sem tirar os olhos de mim.
— Cãonora.
Cuspiram novamente. Todos. Vinte e duas vezes. Atualizando a contagem.
— Cãonora?! — Minha indignação explodiu. Desculpe, eu aceito muita coisa. Aceito o desprezo, as cusparadas, o exílio social. Mas apelidos? — Tudo bem! Admito! Esqueci e nem sinto remorso! Mas para de cuspir toda vez que fala meu nome! Urgh! É nojento, pirralha!
O salão congelou.
Deixa eu explicar algo. Existe uma regra não escrita no céu. Uma regra que todos os deuses, desde os mais poderosos até os mais insignificantes, seguem com diligência religiosa. Essa regra é: não chame Halala de pirralha.
Eu acabei de quebrar essa regra.
A expressão mansa da deusa endureceu como mármore. Ela destruiu o pirulito com uma mordida seca. O estalo reverberou como um tiro. O estilhaço dourado caiu no chão em câmera lenta. Silêncio total. O tipo de silêncio que precede desastres naturais, declarações de guerra e decisões das quais você vai se arrepender pela eternidade.
A tensão virou algo sólido, palpável, com peso e textura.
Ela se levantou.
Halala mede pouco mais que um metro e meio. Não deveria ser intimidante. Matematicamente, fisicamente, em qualquer cálculo racional, eu sou maior, mais velho e teoricamente mais poderoso. Mas ela tem algo que eu não tenho: convicção. E dentes.
Atravessou a tábula com passos decididos, cada um exalando autoridade. Quando chegou diante de mim, se inclinou. O cheiro de doce ainda nos lábios. Os olhos, não. Os olhos eram cinza, frios, sem uma gota de doçura.
— Repita. Do que você me chamou, parasita imundo?
Aquele olhar. Horrendo. Cruel. Repita e eu te mato. Não como metáfora. Literalmente.
E nesse momento…
Eu ri.
Não sei por quê. Foi mais forte que eu. O pânico fez a curva e virou histeria. Ou talvez eu só seja incapaz de ter a reação correta em qualquer situação.
— Desculpe! Só imaginei você mordendo algo muito azedo para fazer essa cara!
— Rindo? Por que está rindo?
— Acabei de dizer. Se esforce um pouco mais para me escutar. Mas a pergunta certa seria: por que você ficou tão irritada? Só porque não vim na hora certa, Halala? Relaxa.
Ela ergueu o queixo.
— Certamente. Pela primeira vez concordamos. Você realmente não faz diferença alguma.
Ah. Essa doeu.
Não deveria ter doído. Estou acostumado. Não faz diferença nenhuma. Certo? Certo.
— Sim, sim. — Sacudi as mãos, espantando uma mosca imaginária junto com o peso daquela frase. — Certo, estou indo. Já ocupei bastante do tempo de vocês e justifiquei o meu atraso. Trabalho concluído com sucesso!
Halala fez um som de desprezo. Aquele som que sai do fundo da garganta e carrega mais significado do que um discurso inteiro.
— Seria correto dizer que vai morrer para ficar na sua mesmice de renascer, correto?
— Correto.
— Passatempo desprezível. Morrer e renascer sem motivo. Mas combina com o tipo de ser que você é.
— Sim, sim. Mas me diga, Halala…
— O quê?
— Não acha que hoje é um belo dia para morrer?
Não esperava uma resposta. Não recebi nenhuma.
* * *
Fui chutada para fora da sala.
Não. Fui chutado. Perdão, o impacto atrapalha a conjugação verbal e a percepção da realidade.
E não foi um chute qualquer. O som das botas divinas raspando no mármore — o aviso. Um segundo de silêncio — a antecipação. E o impacto — transcendental. Literalmente. Me fez transcender as leis da física, da gravidade e da dignidade pessoal, tudo simultaneamente.
A trajetória aérea: mortal involuntário, pirueta desajeitada no ar que deve ter arrancado risadas até dos querubins que varrem os corredores. Quiquei duas vezes. Duas. Como uma pedra num lago, mas com menos graça e mais dor.
Ah, como ela consegue chutar tão forte com essas pernas curtas?! É fisicamente impossível! A proporção de força por centímetro não faz sentido nenhum! Desafio qualquer lei do universo a explicar isso!
Deusa do nono santuário sagrado. Deusa do Grito de Guerra. Halala.
Essa é a pirralha.
Quanto a mim, sou um dos deuses dos cento e trinta e nove santuários sagrados que governam o que acontece na terra e no céu. Ao menos é o que dizem. Na prática, eu governo um santuário vazio onde ninguém me visita e a poeira se acumula com a mesma determinação com que eu evito responsabilidades.
Quantos nomes eu poderia me dar? O vagabundo divino, a mancha nos santuários, a piada que os outros deuses contam quando precisam de alívio cômico. O apêndice do panteão. Aquele. "Ah, existe um deus da procrastinação?" Existe. Sou eu. Prazer.
Mas o título oficial é mais simples.
Deus do centésimo trigésimo oitavo santuário sagrado. Deus da Procrastinação.
Nora.
O deus vagabundo.
É. Este sou eu.
* * *
Uns minutos depois, já estava de pé de novo, vagando pelos corredores do nono santuário como se nada tivesse acontecido. O que, sendo justo, é verdade. Nada aconteceu. Nada nunca acontece comigo. Esse é o problema e o privilégio de ser quem sou.
Meus passos ecoam num ritmo preguiçoso, e o pensamento do momento é simples: morrer.
Não de forma dramática. Não por desespero, não por rebeldia, não por alguma razão filosófica profunda. É mais como… um passatempo. Morro, renasço, e a eternidade fica um pouquinho menos entediante. A sensação de renascer — aquela explosão de luz e energia preenchendo cada átomo — é quase boa o suficiente para compensar a morte ridícula que vem antes. É o que faço. É o que sempre fiz. Os humanos têm hobbies como colecionar selos ou escalar montanhas. Eu morro.
É bem mais divertido do que soa. Juro.
Viro numa esquina e dou de cara com dois anjos de Halala. Altos, armados, com aquela postura certinha de quem tem a existência inteira resumida em servir e obedecer. Armaduras polidas, olhos fixos adiante, mandíbulas travadas. O modelo básico de anjo soldado. Um deles carrega uma lança — longa, afiada, estrategicamente apoiada no chão como se estivesse posando para um afresco.
Uma lança.
Meus olhos se fixam nela por um segundo. Talvez dois.
Os anjos me encaram. Eu os encaro de volta.
— E aí — digo, casual, como quem encontra um vizinho no corredor e não dois soldados divinos que provavelmente receberam ordens específicas de me ignorar.
Nenhuma resposta. Claro. Anjos de Halala são treinados para me ignorar. Faz parte do treinamento básico, provavelmente. Aula um: como empunhar uma espada. Aula dois: como fingir que Nora não existe.
— Bonita lança — comento, apontando. — É nova?
Silêncio.
— Certo, certo. Vocês são do tipo forte e calado. Respeito. Comunicação não-verbal. Muito maduro.
Começo a caminhar ao lado deles. Eles continuam marchando em perfeita formação, olhos fixos adiante, me ignorando com uma dedicação quase admirável.
— Sabe — continuo, porque claramente não sei a hora de parar, e talvez esse seja o meu verdadeiro domínio divino — o lance com vocês anjos é que são certinhos demais. Olha essa postura. Esses capacetes. Essa seriedade. Ninguém consegue ser tão perfeito assim o tempo todo. Deve ser exaustivo. Eu já estou exausto de olhar para vocês.
Nenhuma reação. Nem um piscar.
— Vou provar o meu ponto.
Estico a mão na direção do elmo do mais alto. Um tapinha. Algo bobo. Inocente. Só para ver se ele reage. Só para ver se existe algo ali dentro além de protocolo e obediência.
Mas o destino — esse palhaço incompetente, esse comediante de quinta, esse roteirista preguiçoso que rege o universo — resolveu se meter.
Tropecei.
Na minha própria perna.
Na minha. Própria. Perna.
O equilíbrio se foi como se nunca tivesse existido. A gravidade, que para um deus deveria ser opcional, deveria ser uma sugestão leve e educada, decidiu que hoje ela é obrigatória e vai cobrar juros.
Caí com a graça de um saco de batatas celestial.
E aterrissei numa ponta afiada e estrategicamente posicionada no chão.
A lança.
Direto no pescoço.
Engraçado. A última coisa que vi foi meu próprio reflexo na armadura do anjo. Despentado, boca aberta, olhos arregalados. Uma expressão que dizia: "Ah, sério?"
O último som que ouvi foi um estalo seco.
O último pensamento foi algo como "Ah, que irônico".
E o último sentimento?
Nada.
É sempre nada.
Morrer é só uma pausa. Uma vírgula na frase infinita da existência. Você para, espera, e o texto continua.
…
Mas espera.
Normalmente, depois de morrer, vem a melhor parte. Renascer. Uma explosão de luz, calor e energia te preenchendo até o último átomo. Um êxtase. Um reset. Como acordar de um cochilo perfeito multiplicado por mil. Quase bom o suficiente para valer a morte ridícula que veio antes.
Normalmente.
Mas desta vez…
Não veio nada.
Não senti a luz.
Não senti o calor.
Não senti o meu santuário me puxando de volta como sempre fazia, como uma âncora de existência que diz "você pertence aqui."
Senti… cinza.
Cinza e silêncio e algo que demorei um longo, longo momento para reconhecer.
Frio.
Um frio que deuses não deveriam sentir.
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