Volume 6

Capítulo 344: A Nação dos Homens-Fera

Ponto de vista: Kraug

Eu sou o tapir-cinza Kraug. Eu sou o melhor da Inteligência de Greengoat. Bem, mesmo que pareça fazer parte de uma organização de inteligência, nunca fizemos nada de espetacular como nos infiltrar no território inimigo e trazer de volta informações importantes ou algo semelhante. De qualquer forma, nosso principal papel era ficar de olho nos agentes inimigos que podiam se infiltrar em nossa cidade.

Há pouco tempo, conseguimos capturar a mente por trás dos assassinos que atacaram a Princesa do Raio Negro. Por falar nela, ela era a heroína local mais popular do momento, depois de romper com a sabedoria convencional que dizia que a tribo dos gatos-negros era incapaz de alcançar a evolução. Ao usurpar essa crença profundamente enraizada, ela pôde até enfrentar Goldalfa. Por isso, seria imperdoável que alguém sequer pensasse em tirar essa esperança da tribo dos gatos-negros.

Embora tenha demorado um pouco, conseguimos apreendê-los no final. Por outro lado, no entanto, foi muito mais fácil do que o esperado os forçar a falar. Não, em primeiro lugar, parecia que a missão deles era vazar essas informações.

— A família real Krishna? A família real que governava a Nação dos Homens-Fera antes da família Narasimha, certo?

— Sim, é isso mesmo. Vamos curvar nossas cabeças apenas para a legítima família real.

Então me lembrei de um boato. Dizia-se que a atual família do Rei das Feras tinha uma história sombria que as pessoas aqui não falavam mais ou sequer conheciam. Uma das razões para isso era a falta de pessoas que trabalhavam em uma determinada profissão. Havia apenas um punhado de pessoas dessa profissão ou título específico na Nação dos Homens-Fera.

Esta profissão a que me refiro é um historiador. Apesar de nosso país ser mais militarista e combativo que outros, isso não significava que apenas bárbaros moravam aqui. Havia também feiticeiros, estudiosos e, de fato, meu pai costumava ser biólogo.

No entanto, mesmo tendo todas essas aulas de conhecimento, infelizmente, ainda havia um número muito pequeno de estudantes de história, historiadores e arqueólogos nessa região. Na verdade, era mais seguro dizer que quase não havia nenhum deles.

Uma das maiores razões para isso era que não tínhamos a documentação histórica adequada e, portanto, não havia registros antigos a serem estudados ou mantidos. Ao que parecia, foi a família do Rei das Feras do passado que destruiu os documentos antigos. Portanto, essa situação levou ao fato de que realmente não havia necessidade desse tipo de ocupação.

Outra razão foi que essa profissão foi reprimida pelos Reis das Feras de algumas gerações anteriores, e a maioria dos historiadores do passado foram presos e executados. Como resultado, a própria profissão desapareceu.

Tendo sido tão meticulosos em suas ações, era óbvio que havia um grande segredo que a Família Real não queria que nenhum de seus cidadãos, ou qualquer outra pessoa, soubesse. Embora o atual Rei das Feras tenha sido muito indulgente com relação a esse incidente até o ponto em que somos capazes de aprender sobre a situação, até algumas décadas atrás, era proibido sequer mencionar algo sobre assunto.

E se esse segredo fosse a existência de uma antiga família real chamada Krishna? Além disso, o que aconteceria se o atual trono real não passasse de uma mudança regular no regime de herança sucessora, mas de uma usurpação de seus predecessores?

Eu queria saber mais sobre isso. Mas, independentemente do passado, não estava insatisfeito com a atual Família Real das Feras, que administrava um bom governo. Em vez disso, eles estavam fazendo um bom trabalho e eram líderes honoráveis de nosso país.

Mas e a política por trás de tudo isso? E se uma pessoa, uma sobrevivente da família real Krishna, que se dizia cooperar com a família real de Bashar, estivesse planejando nos bastidores um restabelecimento e restauração a realeza? Em alguns casos, eles poderiam reivindicar legitimidade.

No mínimo, eles poderiam não ser capazes de afirmar que o Reino de Bashar era o único lado "mal". Independentemente disso, mesmo de relance, era uma situação confusa.

Segundo um agente do Reino de Bashar, as autoridades do reino estavam em débito com a família real Krishna do passado e não podiam recusar seu pedido. Essa é uma certeza. Mas não havia país que pudesse ser levado a agir apenas pela gratidão.

Em vez disso, você poderia dar legitimidade a suas ações, aparentando estar trabalhando a favor dos outros. Em outras palavras, desta vez, a guerra não era apenas uma escaramuça, e o lado do Reino de Bashar, antecipando isso, deveria estar bem preparado.


Meio dia depois. Fomos enviados para o norte para explorar a região. Então, perto de Schwarzekatze, encontramos um grupo de aventureiros. Eles eram os homens hábeis que marcharam com a Mestra Kiara para interceptar os seres malignos. Eles também disseram que um cavaleiro de Bashar estava entre os que foram capturados.

Parecia que o homem era muito leal e não cedia a nenhuma forma de interrogatório ou extorsão. Mas a Mestra conseguiu colocá-los em transe e extraiu informações deles. Em circunstâncias normais, seria difícil forçá-los a fazer o que queríamos, e nem eu era forte o suficiente para obrigá-los a algo. Mas, ao que parecia, o transe tornou mais fácil a hipnose. Bem, mesmo assim, o limite era de apenas um minuto.

O cavaleiro também mencionou o nome "Murellia". Para pagar a dívida com a mulher, o Reino de Bashar estava dando uma mãozinha.

Essa mulher Murellia, ela tinha muitos culhões. Ao impressionar o respeito próprio ou o patriotismo, era possível que uma pessoa instilasse um sentimento favorável de outra para si. Era semelhante ao modus operandi de uma prostituta ao escolher um homem.

No entanto, havia uma alta probabilidade de que os cavaleiros já tivessem levado em conta as informações que vazaram para nós e tenham fornecido apenas informações convenientes. Em primeiro lugar, parecia que esses cavaleiros já tinham sofrido uma lavagem cerebral. Em essência, o testemunho anterior não era muito credível.

— Qual é o verdadeiro objetivo desta tal de Murellia? Não, não é meu trabalho pensar sobre isso. Enquanto isso, devo relatar isso ao meu senhor...


Ponto de vista: Rigdalfa

— Excelente trabalho, como sempre. Construir uma muralha dessas em tão pouco tempo...

— Ó, Lorde Rigdalfa. Você também, obrigado pelo seu trabalho duro.

À minha frente, o jovem que sorria era da raça humana, Lysius Laurentia. Um membro do ramo da família real laurentiana que pereceu na famosa tragédia de Laurentia, ele era um dos feiticeiros da corte de nossa nação. Falando de Lysius da Grande Muralha, ele também era conhecido como um dos melhores magos da terra neste continente.

Era impensável que essa figura levemente sorridente pudesse levantar a terra e enterrar centenas de soldados inimigos em um piscar de olhos. No entanto, sabia que por trás desse sorriso havia um forte espírito de luta. Ele tinha a mesma idade que eu e também era um amigo que lutou comigo no campo de batalha muitas vezes desde nossa primeira batalha há 30 anos.

— Eu acho que você já passou por muita coisa, não é?

Tinha certeza de que eles estavam usando a técnica da Grande Muralha para construir essas paredes, mas ouvi dizer que isso usava uma enorme quantidade de mágica. Além disso, se ele quisesse batalhar, seu consumo deveria ser tremendo.

— Como isso poderia ser difícil? Estou fazendo isso para proteger meu lugar neste mundo. Os laurentianos agora são famosos por serem descendentes de mestres malignos. É uma zombaria em todos os países. É somente aqui, no país dos homens-fera, que as pessoas se atrevem a me aceitar por completo.

— É mesmo?

— É. E acho que você também é imprudente. O avanço heroico do Rinoceronte-Branco era visível mesmo do topo das muralhas da cidade. Não pensei que iríamos invadir as linhas inimigas com centenas de infantaria1.

— Fuhaha. Porque não posso mostrar a meu irmão uma luta patética agora que ele se foi.

Meu nome é Rigdalfa. Eu sou o irmão de Goldalfa da Muralha Vajra2, o chefe da tribo dos Rinocerontes-Brancos e um associado próximo do Rei das Feras. E eu também era o segundo em comando nesta batalha contra o Reino de Bashar. Era meu dever liderar e inspirar meus aliados.

— Então, como posso ajudá-lo? Não é como se você se desse ao trabalho de nos visitar no campo de batalha apenas para aquecer velhas amizades, não é? Então, há algum problema?

— Você é astuto. Dê uma olhada nisso.

— Isto é…

Lysius examinou a carta enviada ao centro de comando. Enquanto ele lia, um forte sentimento de perplexidade e um leve sentimento de impaciência apareceram em seu rosto.

Eu sabia como ele se sentia. Porque foi o mesmo para mim.

— A família real Krishna, é isso? Receio nunca ter ouvido esse nome.

— Parece ser uma família real que governou nosso reino há 500 anos. Mas diz nesta carta que eles sofreram uma rebelião da atual Casa Narasimha e foram usurpados do trono.

Também falei com meu comandante, o general, mas não me importava se essa história era verdadeira ou não. Ou melhor, importava, mas era inútil discutir mais sobre esse ponto agora.

Claro, não imaginei que fosse uma mentira completa.

Certamente, existiam alguns aspectos duvidosos da situação no momento da ascensão da família real Narasimha ao trono. No entanto, ele era um bom rei para nós agora, e para ser honesto, não queria que ele renunciasse.

Mas nas guerras entre nações, era rotina que tais eventos passados fossem trazidos à luz e usados como justificativa para ações vingativas. E era isso que você não poderia subestimar. O processamento pós-guerra e outras questões teriam um efeito horripilante.

Não sei se 500 anos era pouco ou muito. Com certeza, era um longo intervalo para nós, homens-fera, mas para algumas das espécies de vida longa, era possível que eles ainda considerassem um evento recente e não seria surpreendente que alguns deles ainda se lembrassem disso.

Contudo, se o Reino de Bashar tivesse pelo menos uma pessoa da família real Krishna com eles e estavam planejando tirar essa pessoa das sombras, era quase certo que criariam complicações nas negociações do pós-guerra. Dependendo de como o Reino de Bashar pretendia reproduzir sua história, havia uma chance substancial, que não poderíamos ignorar, de que as nações vizinhas não estariam do nosso lado neste conflito.

— Além disso, diz-se que ela agora é um ser maligno...

— Sim, isso mesmo. Parece que a ex-chefe da família Krishna, enfrentando a terrível situação do passado, procurou o deus maligno em busca de ajuda. Assim, como estava impotente contra o ataque dos usurpadores, ela não teve escolha senão dedicar-se ao deus maligno e, desde então, tornou-se a sacerdotisa do deus maligno...

— Eles planejam denunciar a família real Narasimha como usurpadores e se contentam em enfatizar o jogo de uma mulher com sangue Krishna sendo transformada em uma vítima das circunstâncias.

— Também se diz que eles não têm escolha a não ser ajudar, porque estão em dívida com os Krishnas do passado. E eles também dizem que é seu dever como vizinhos denunciar a família real usurpadora e restaurar os direitos à família real de direito.

Era tentador questionar se o Reino de Bashar era sensato o suficiente para unir forças com um ser maligno, mas podia ser que as probabilidades estivessem contra eles. Aliás, parecia que esta carta foi distribuída não apenas ao nosso país, mas também aos outros.

Foram enviadas várias perguntas de nossos países vizinhos, as quais foram endereçadas ao comandante. Teríamos que cuidar disso também. Cada país parecia querer avaliar o cenário e dar uma olhada cuidadosa na situação antes de fazer qualquer outra coisa. Pelo visto, a mesma história estava circulando para outros países por outros canais que não cartas, e até agora nenhuma nação parecia pensar que o conteúdo fosse uma total besteira, ou melhor, eles não poderiam simplesmente ignorar essa notícia como uma piada completa.

— Na minha opinião, intrometer-se com o poder de um deus maligno não seria nada além de uma tolice.

— É algo muito empático.

— Bem... é que... eu tenho lutado com isso desde que era jovem. Como descendente de um mago maligno, não passou um dia em que alguém não atirou uma pedra em mim.

— Rynford, o mago, hum?

— Ele desapareceu antes dos meus 10 anos, então não me lembro muito dele. Agora que penso nisso, ele devia estar com algum distúrbio mental. Ele era um homem velho que sempre tinha um sorriso assustador no rosto. Fui aceito pelo Rei das Feras, mas meu pai foi desprezado por décadas como descendente de um mago maligno, então talvez eu não possa evitar, mas...

— Você ainda não consegue encontrá-lo?

— Sim. Para começar, eu nasci quando meu pai já estava velho e, se meu avó estivesse vivo, teria quase 100 anos. Talvez em algum lugar... ele já…

— Eu sinto muito. Eu fui rude.

— Está tudo bem. A razão pela qual estou procurando por ele é que vou entregá-lo a você. Em vez de falar sobre ele, vamos consultar essa carta agora.

— Ó, sim.

Seria realmente irritante se eles estivessem dizendo isso apenas para ter vantagem na guerra.


Notas

1 ― A infantaria é a arma mais antiga do Exército e geralmente dotada dos maiores efetivos, formada por soldados que podem combater em todos os tipos de terreno e sob quaisquer condições meteorológicas, podendo utilizar variados meios de transporte para serem levados à frente de combate. Sua principal missão é conquistar e manter o terreno, aproveitando a capacidade de progredir em pequenas frações, de difícil detecção e grande mobilidade. A infantaria contemporânea frequentemente emprega o princípio de fogo e movimento para atingir uma posição dominante em relação àquela do inimigo. A infantaria moderna segue uma organização que divide as tropas de infantes agrupando-os em unidades chamadas de divisões, brigadas, batalhões, companhias e pelotões.

2 ― Vajra é uma palavra sânscrita (língua antiga usada no Nepal e na Índia) que significa tanto "diamante" quanto "relâmpago". Como diamante, remete à indestrutibilidade da essência espiritual. Enquanto relâmpago, como aquilo que ilumina velozmente. Como objeto ritual, o cetro/clava/pilão curto vajra tem a natureza simbólica do diamante, que tudo corta mas que não pode ser cortado. Como arma mitológica, representa a natureza do relâmpago, uma força irresistível. Representa a firmeza do poder espiritual e, enquanto ferramenta ou implemento ritualístico, é usado simbolicamente pelo budismo, jainismo, hinduísmo, todos os quais são tradições do darma. Por causa de sua importância simbólica, o vajra expandiu-se com a cultura e religião indianas para outras regiões asiáticas, como Nepal, Tibete, Butão, Camboja, Mianmar, China, Coreia e Japão.



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