LOVCI Brasileira

Autor(a): Ana Júlia


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 26: A Garotinha de Teresa (2)

Teresa, Bosque – Manhã, 10:23

Naquela manhã Ezza foi procurar insetos com Tim, os dois se embrenharam no pântano mais do que já fizeram antes. Estavam empolgados por encontrarem tantos sapos e rãs, já possuíam uma caixa com dezenas.

― Você se lembra do caminho de volta? ― Tim olhava ao redor assustado, o pântano ia ficando cada vez mais escuro.

― Sim, acho que sim. ― Ezza tentou puxar da memória.

― Sua tia está mesmo com a Peste Verde? ― Tim perguntou e ganhou um olhar irritado de Ezza.

― Não é peste nenhuma! Esse povo não sabe de nada, minha tia está bem melhor! ― Ezza refutou assustando o garoto que começou a fazer cara de choro, ela suspirou impaciente, se aproximou e esfregou as costas de Tim para tranquilizá-lo. ― Desculpa por gritar, mas se dizer isso de novo eu vou te bater, ok?

Ele concordou com a cabeça tentando segurar o choro.

Quando escutaram um barulho de tambores, Ezza e Tim se esconderam atrás dos arbustos e ficaram quietos. Ezza foi a primeira a ver o que estava acontecendo, ficou horrorizada e ao perceber que Tim iria gritar, colocou a mão em sua boca o impedindo.

Existia uma enorme fogueira no centro, ao redor vários cadáveres desmembrados e um homem baixinho queimando os corpos, Ezza o conhecia, era Ed o Louco, ele também recitava palavras estranhas. Tinha muito sangue para todo o lado, mas daquela vez Ezza sentiu medo ao invés de ficar fascinada, por isso assim que conseguiu mover suas pernas novamente, segurou a mão de Tim e correu na direção oposta.

Tim chorava e Ezza tentava encontrar a trilha de volta, sentia seu coração acelerado.

― Ezza, estou com medo. ― Tim repetia choroso.

― Vou tirar a gente daqui, não fique com medo! ― Ezza dizia isso, mas não sabia em que direção ir.

“Estou com medo, me ajude tia Erin…”.

 

Teresa, Ruas – Tarde, 16:24

Erin já havia procurado Ezza por todo o bosque, cada parte da cidade, estava prestes a chamar os guardas quando avistou uma multidão na porta de sua casa. Correu até lá imaginando o pior, seu corpo já tremia.

“Ezza…”, pensou primeiramente na sobrinha.

― Ela está aqui! ― O governador anunciou ao ver Erin.

Erin veio entrando na multidão, tinha tanta gente que a rua inteira estava preenchida. Quando ela passava as pessoas se afastavam com medo de serem tocadas, algumas até usavam máscaras.

― O que houve? ― Ela questionou ao ver que não era nada com Ezza, afinal ela não estava lá. ― Onde está Ezza?

― Erin Matiara, você deve sair dessa cidade imediatamente! ― O governador ordenou.

― O quê? ― Erin não conseguiu entender a súbita ordem.

― Leve também sua sobrinha, não aceitaremos que infecte nossas famílias! ― A Sra. Melo completou.

― SAIA! SAIA! SAIA! ― A multidão começou a gritar em uníssono.

Erin não conseguia compreender a situação, mas assim que olhou para o Dr. Porch do outro lado da rua ela entendeu, ele estava tão envergonhado que nem conseguia encará-la de volta.

“Esse filho da puta fez isso comigo?”, Erin precisou respirar fundo para não ir até lá e atacá-lo.

― Se não ir por bem iremos forçá-la! ― Ameaçou o governador, estava determinado.

― Não estou com Peste Verde, eram larvas de pele! Aquele imbecil mentiu, liguem no laboratório do governo e perguntem! ― Erin afirmou, suas palavras eram equilibradas e isso fez com que algumas pessoas repensassem.

Entretanto, a Sra. Melo não deixaria que seus esforços morressem ali.

― Então mostre seus braços! ― Ela desafiou, Erin lhe olhou séria. ― Mostre, se não tiver nada deixaremos você livre.

Erin ficou parada, usava um suéter para cobrir as manchas verdes, ela sabia que não teria jeito. A Sra. Melo sabia que todos acreditariam diante da “evidência”, Erin a fitou indignada, mas não abaixaria sua cabeça.

― Vocês terão que me matar antes de me tirar daqui! ― Ela desafiou e todos lhe olharam sobressaltados, ninguém havia falado em matar e a palavra foi pesada de se escutar.

Ezza apareceu de repente e abraçou as pernas de Erin, que saltou assustada, a menina estava suada e coberta de lama.

― Ezza, graças aos deuses! ― Ela a abraçou aliviada.

― Tia Erin, eu vi vários corpos no bosque, muitos deles! ― Ezza contava de forma agitada.

A multidão parecia mais calma, percebendo que nada seria resolvido daquela forma, a Sra. Melo retirou do seu casaco uma pistola de fogo e disparou na direção de Erin.

A bala rasgou o ar e atingiu a barriga de Erin que cambaleou para trás com o impacto, como a autora estava misturada com a multidão, ninguém soube de onde o tiro foi disparado.

― Quem fez isso? ― O governador correu para socorrer Erin. ― Um médico! Dr. Porch! Céus, quem fez isso?

A multidão começou a falar ao mesmo tempo, estavam todos chocados e aos poucos foram cada um entendendo a gravidade da situação. O Governo Celestial era muito rígido sobre segurança, caso algum deles fosse acusado do crime, seria pena de morte sem direito a julgamento. Diante dessa possibilidade, a multidão foi evacuando aos poucos, cada um retornando para sua casa discretamente até que a rua ficasse completamente vazia, apenas Ezza e Erin ficaram ali, o governador também conseguiu aproveitar o movimento para desaparecer.

― Estou bem, não chore. ― Erin tentava tranquilizar Ezza que já fazia careta de choro. ― Me ajude a entrar em casa, estou bem.

Ezza ajudou Erin a entrar, por onde elas passavam era deixado um rastro de sangue e isso deixava Ezza apavorada.

 

Teresa, Prefeitura – Noite, 19:05 

O governador intimou seu conselheiro para uma conversa séria, deveriam tomar uma decisão rápida sobre o disparo efetuado contra Erin.

― Se o governo souber que estava ocorrendo um linchamento, o senhor certamente será preso. ― O conselheiro explicou, era um homem alto e sem barba, usava chapéu e terno de corte curto amarelo. ― A cidade entrará em investigação e pode acontecer de ser totalmente evacuada, o que o senhor fez foi muito imprudente.

― Precisamos evitar que isso vaze, abafar o caso. ― O secretário aconselhou, recebendo a atenção dos dois continuou. ― A cidade inteira está envolvida nisso, vamos fechar a cidade e cortar todas as comunicações.

― Aquela mulher precisa de cirurgia, não temos condições de realizá-la aqui. ― O conselheiro estava sério sobre isso, mas o governador já havia caído na conversa do secretário. ― Ela vai morrer sem cirurgia!

― Só precisamos evitar que saibam disso, temos o Dr. Porch, chamem ele e peça para que ele realize a cirurgia. ― O governador falava com desdém, não estava preocupado com a saúde de Erin.

O secretário saiu da sala por alguns minutos, ao retornar voltou com os olhos arregalados e pálido.

― O que houve? ― O governador questionou o jeito do rapaz.

― O Dr. Porch… ― Ele murmurou vagamente.

― O que tem ele? Fala logo! ― O conselheiro já estava impaciente com o suspense.

― Ele acabou de se matar, saltou do prédio. ― O secretário revelou e um silêncio pesado caiu sobre os três.

O governador não via outra solução, acionou o bip sobre a mesa.

― Aqui é o governador Eric Botas, código 09876, estou enviando uma ordem de corte das comunicações e interdição das fronteiras, todos os moradores de Teresa estão proibidos de sair da cidade ou se comunicar. ― Ao dizer isso ele desligou o bip e olhou para os dois homens a sua frente. ― Garantam que aquela mulher morra, e também sumam com a sobrinha dela!

 

Teresa, Casa de Erin e Ezza – Noite, 19:15 

Ofélia, mãe de Tim, ajudava a cuidar de Erin, que continuava a perder muito sangue. A mulher estava em pânico, não sabia nada sobre primeiros socorros.

― A comunicação não funciona, não consegui chamar um transporte de emergência! ― Ezza voltou do escritório, aflita.

― Isso não é bom, vou tentar consegui outro transporte para levá-la, ajude sua tia! ― Ofélia disse a Ezza e depois saiu da casa rapidamente.

Ezza se sentou no sofá com Erin e ficou lhe olhando nervosamente, a mulher estava com os olhos fechados e ardia em febre.

― Ezza, preciso te falar algo muito importante. ― Erin murmurou, ainda de olhos fechados.

― Eu sei… ― Ezza segurou a mão ensanguentada da tia, a mulher pressionava o local para evitar sangramento. ― Eles não vão ajudar, não é?

Erin sorriu, fraca.

― Você é tão esperta. ― Erin abriu os olhos castanhos, agora carregados de dor. ― Deite-se aqui comigo, me deixe sentir seu cheiro um pouco.

Ezza deitou sua cabeça no peito da tia e deixou que ela alisasse seus cabelos, escutava o coração dela se contraindo e isso a deixava calma.

― Você precisa crescer… ― Erin murmurava rouca. ― … ok?

― Ok. ― Ezza concordou, sentia seu coração apertando, sabia que era uma despedida. ― Obrigada por cuidar de mim, tia Erin.

Erin sorriu, seus olhos transbordaram. Não era assim que ela queria acabasse, mas não conseguia vencer aquela batalha, mesmo que estivesse lutando tão bravamente para viver. Não havia mais palavras para serem proferidas, apenas o abraço quente que uma oferecia a outra.

O mundo havia parado e se tornado um lugar silencioso, Ezza só conseguia escutar o coração de Erin. Não conseguia mais se mover, as lágrimas não conseguiam parar e mesmo que ela quisesse dizer tantas coisas, a bile sufocava todas as suas palavras.

Após alguns minutos a morte de Erin, Ezza enfim conseguiu se mover. Observou a tia, a mesma morreu com os olhos semicerrados, encarando o vazio. Parecia muito triste e aquela visão fez com que Ezza se sentisse estilhaçada, era doloroso e por isso ela saiu da casa, correu para o mais longe que conseguiu.

 

Teresa, Ruas – Noite, 20:12

A quantidade anormal de guardas que cercavam as ruas assustava a todos. Todas as saídas estavam bloqueadas, até mesmo o bosque estava ocupado pelas forças de segurança de Teresa.

Teresa, cidade com exatos 922 moradores. Área norte com 400 moradores, periferia. Área leste com 100 moradores, nobres. Área oeste com 200 moradores, classe média. Área sul com 120 moradores, comércio. Todas as áreas estavam interditadas, os moradores foram proibidos de deixarem suas casas e os comércios foram fechados.

A notícia se espalhou e a população entrou em acordo com o governador, afinal todos eles poderiam acabar prejudicados. Ofélia pedia ajuda, mas era recusada. Ninguém queria se envolver com Erin, nem mesmo seu nome deveria ser pronunciado para que não caíssem em suspeitas.

Quando retornou a casa de Erin encontrou alguns guardas deixando a casa, carregavam uma maca com um corpo coberto com um lençol branco, Ezza havia desaparecido.

 

A cidade continuou interditada nos dois dias seguintes, reuniões foram feitas e a população assinou um acordo de confidencialidade, todos concordavam que Erin morreu de Peste Verde. Ofélia estava indignada, mas ficou aliviada ao saber que não iriam fazer mal a Ezza.

Após liberarem o corpo, Erin foi enterrada na colina, onde Ezza passava grande parte do dia. A garota não falava, não comia e nem chorava. Ofélia estava preocupada, ela parecia estar em outro mundo.

Ezza sentia raiva, não conseguia sentir tristeza. Sempre que caminhava pelas ruas e as via movimentadas, as pessoas vivendo suas vidas normalmente e a olhando como se ela fosse um animal doente indesejado, ela sentia ódio.

O governador adiou o fim da interdição para mais dois dias, e esse foi o seu maior erro.

 

Teresa, Apartamento 21 – Tarde, 15:34 

Quando a Sra. Melo atendeu a porta ficou surpresa ao ver quem era, Ezza. Ela estava com um sorriso gentil, usando seu tradicional vestido florido rodado e com fitas nos cabelos. Se sentiu bem ao vê-la daquela maneira, a culpa diminuiu.

― Olá Ezza, que surpresa. ― Ela abriu a porta. ― Entre.

― Com licença. ― Ezza entrou.

A Sra. Melo fechou a porta e indicou o sofá para a garota se sentar, a mesma fez. Ezza parecia muito bem, seus olhos brilhavam e ela olhava ao redor com curiosidade infantil.

― Sinto muito pela sua tia, como você esteve nesses dias? ― A Sra. Melo perguntou enquanto buscava uma jarra de suco e copos na cozinha ao lado.

― Tia Erin não gostaria que eu ficasse triste. ― Ezza se levantou e foi até a mulher.

― Verdade, ela era uma pessoa… alegre. ― A Sra. Melo não conseguia disfarçar seu incômodo em falar da mulher.

Quando a mulher se virou, assustou-se ao encontrar Ezza logo atrás de si, a menina segurava uma das suas facas de corte longo.

― Ezza, o que você… ― Antes que ela terminasse foi apunhalada na barriga, derrubou a jarra de vidro e já caiu sendo apunhalada mais cinco vezes.

― Eu sei que foi você, eu vi! ― Ezza disse a mulher de forma fria, sua expressão havia se transformado em algo odioso. ― Morra sozinha!

Ezza limpou sua mão cuidadosamente para que não manchasse seu vestido, ao sair escutou os gemidos da mulher que tentava gritar em vão. A garota retirou a chave da porta e trancou o apartamento pelo lado de fora, após isso foi embora.

 

Teresa, Pântano – Tarde, 17:32 

Ed o Louco estava decepcionado com os resultados do ritual, nenhum Orasukiro apareceu mesmo após dias de espera. Ele havia feito tudo corretamente, começava a pensar que talvez a bruxa o tivesse enganado.

― Eu mato ela! ― Ameaçou.

― E agora chefe? ― O subordinado perguntou.

― Vamos encontrar mais vinte garotas, se não funcionar outra vez… Bem, então vamos procurar outra bruxa! ― Para Ed era tudo muito simples, mas seus subordinados suaram frio ao pensar que teriam de sequestrar mais garotas.

Ed não desistiria, seria um Orasukiro de qualquer forma e sacrificaria o que fosse preciso.

 

Não tão longe dali, um homem vagava confuso. Era alto e usava um sobretudo marrom, seus cabelos eram ralos e possuía olhos dourados profundos. Havia sido invocado, mas estava procurando por algo mais forte. Era uma energia perturbadora que o incomodava, no entanto era perfeito.

Quando encontrou o que era ficou ainda mais fascinado, era apenas uma garotinha emanando toda aquela energia. “Perfeita”, concluiu ele.

Ezza chorava com raiva e medo, estava assustada por ter matado alguém. Eram tantos sentimentos confusos que ela não conseguia controlar, ficavam rastejando como vermes. A imagem da Sra. Melo morta não saia da sua cabeça, então se misturava com Erin chorando.

― Ahhhhhhh! ― Ezza gritou para tentar aliviar seu peito, arranhava a terra até suas unhas ficarem em carne, tinha algo preso dentro dela e sufocava.

Escutou um barulho atrás de si e olhou assustada. “Me descobriram, vieram me prender!”, pensou ela já planejando fugir.

Então uma criatura fantástica saiu do meio dos arbustos, apenas sua cabeça era grande o suficiente para engolir parte do pântano. Ezza olhou sobressaltada, era um dragão com escamas negras e olhos dourados gigantes.

― Quem é você? ― Ela possuía curiosidade no olhar

― Sou o Dragão Negro. ― Respondeu ele.

A voz da criatura era como trovão, Ezza conseguiu sentir o calor latente do seu bafo. Ficou de pé para observar melhor, era impressionante.

 

Arredores de Teresa – Tarde, 17:00

As duas mulheres caminhavam pelas as estradas solitárias, vestidas em negro e usando um longo chapéu para proteger do sol.

― Arcana, onde pensa que está indo? ― Questionou a garota ruiva de olhos cinzentos. ― Temos uma missão!

― Estou sentindo a presença de um Deus Caído, pensei que não houvesse essas coisas nesse lugar. ― Arcana ameaçava entrar na mata.

― Arcana! ― A ruiva advertiu. ― As anciãs ficarão irritadas!

― Eu sou uma anciã, faço o que quiser! ― Arcana disparou. ― Você continue a missão, verei o que está acontecendo e logo a seguirei.

A ruiva não teve outra saída a não ser obedecer, Arcana era cabeça de vento e apesar de ser um membro importante na sociedade mágica, se comportava como uma criança rebelde sempre que tinha oportunidade.

A bruxa entrou na floresta seguindo a energia, conhecia aquelas características.

― Marshmallow? ― Se perguntou confusa. ― Não…, Mas é um dragão, sinto o cheiro daquele nojento do Mister, não é possível que exista outra daquelas coisas!

 

Teresa, Pântano – Tarde, 17:40 

― Que energia terrível você tem, pensei até que fosse um espectro. ― O dragão falou e Ezza lhe olhou boquiaberta.

― Você é mesmo real? ― Ezza ainda não conseguia assimilar, dragões não existiam.

― É claro que sou, sou um Orasukiro Demoníaco. ― Se apresentou.

― Então você é do mal? ― Ezza perguntou ficando séria.

― Sou. ― Afirmou ele sem hesitar.

― Você veio me buscar porque matei uma pessoa? ― Ezza estava assustada, mas tentava disfarçar.

― Huh… Você matou uma pessoa? ― O dragão estreitou os olhos. ― Por que fez isso?

― Ela merecia, todos naquele lugar merecem morrer. ― Ezza não tinha qualquer emoção em suas palavras.

― Você gostaria de matá-los? ― Ele a rondava interessado. ― Gostaria de ser um dragão como eu?

― Não sei… ― Ezza o observava atenta enquanto ele a rondava.

― Você será a pessoa mais forte desse lugar, poderá matar todas as pessoas que quiser. ― Ele propunha, mas Ezza não parecia convencida.

― Minha tia não gostaria disso, o que eu fiz hoje foi errado. ― Ezza murmurou olhando para suas mãos.

― Matar gente ruim não tem problema! ― Ele disse e Ezza lhe olhou interessada. ― Isso faria de você uma pessoa boa, livrando o mundo de pessoas ruins.

― Isso também não me faria uma pessoa ruim? ― Ezza refutou.

O dragão sorriu mostrando as mandíbulas gigantes.

― Que espertinha, mas isso é apenas questão de opinião. Alguém precisa fazer o serviço, não acha? ― Ezza concordou com o ponto de vista do dragão. ― Então o que me diz, deseja ser um dragão?

― Tá bom. ― Ezza concordou.

O dragão começou a se contorcer e os ossos foram encolhendo, era uma cena macabra e isso fez com que Ezza arregalasse os olhos espantada. O dragão se transformou em um homem, parecia doloroso já que ele fazia caretas.

― Uau! ― Ezza admirou. ― Você é mágico?

― Eu sou um Deus Caído, e você será a minha descendente. ― Ele explicou.

― Como se chama? Já que serei sua descendente podemos ser amigos! ― Ezza parecia animada com a ideia.

― Ulisses. ― Respondeu ele se sentindo mal.

Ulisses sabia que Ezza não resistiria a transformação, por causa de sua energia ruim a essência conseguiria penetrar no espírito dela, mas seu corpo era muito fraco. A vendo ali tão inocente ele repensava, todavia também pensava em si.

“Aquele homem virá atrás de mim em breve, não quero morrer”, pensou ele assustado.

― Ei! ― Ele voltou a si quando Ezza o cutucou. ― Como faz? Eu também poderei me transformar em dragão?

― Sim, fique paradinha. ― Ele ordenou e Ezza obedeceu.

Ulisses começou a esfumaçar na parte central do seu tórax, enfiou a mão e retirou uma esfera pequena e dourada. Segurou a mão de Ezza e colocou a esfera sobre ela, a garota olhou totalmente arrebatada.

― Eu vou fazer algo que vai doer um pouco, mas será rápido. ― Ele avisou e Ezza lhe olhou hesitante. ― Confie em mim.

― Tá. ― Ezza concordou.

Transformando seu indicador em uma garra ele abriu um corte sobre a clavícula de Ezza, a garota se assustou e ele precisou segurá-la para terminar o corte.

― AHHH! ME SOLTA, TÁ DOENDO! ― Ezza se debateu.

― Espera, pronto! ― Ele a soltou, Ezza lhe olhou chorosa.

Ulisses fechou os olhos e invocou de dentro de Ezza uma esfera que saiu flutuando e pousou na palma de sua mão, possuía uma cor rosa, era a essência humana da garota.

― Como você fez isso? ― Ezza estava admirada.

― Será uma troca, posso ficar com ela? ― Ele perguntou segurando a esfera.

― Pode. ― Ezza aceitou e olhou para a esfera em sua mão. ― O que eu faço com isso?

Ulisses pegou a esfera que retirou de Ezza e empurrou sobre sua mão, existia uma marca negra que subia pela sua mão e cobria todo seu antebraço, assim que fez ela desapareceu e apareceu em Ezza sobre sua clavícula.

Ezza o imitou e empurrou a esfera para dentro de si, sentiu um choque de leve, mas nada mudou.

― Não aconteceu…! ― Ezza sentiu um forte impacto no peito, ficou um pouco zonza.

A garota caiu de joelhos e ficou assim por um longo tempo, nem mesmo se movia. Ulisses se preocupou, talvez houvesse se enganado e ela não havia suportado a essência.

― Oi? ― Ele a cutucou se aproximando. ― Está tudo bem?

Ezza ergueu a cabeça lhe mostrando seus novos olhos dourados, ele sentiu um forte arrepio ao vê-la sorrindo diabolicamente.

― Estou… muito bem.



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