LOVCI Brasileira

Autor(a): Ana Júlia


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 21: Dragão Negro

Vertó, Colina do Sul – Tarde, 13:02

Os três foram colocados de joelhos e com as mãos apoiadas no chão para garantir que não reagiriam, cada um com uma arma de fogo apontada para sua cabeça. Aura e Serp não estavam entendo a situação, Mabuchi era o único que sabia, mas estava muito abalado para explicar, quando viu o corpo de Ezza não conseguiu mais pensar em nada.

― Ela está realmente morta, já está até apodrecendo! ― Um dos capangas que checava o corpo informou, estava curioso com o fenômeno.

― Não estranhem, essa garota é cheia dessas coisas estranhas. O Mestre nunca explicou, mas disse que deveríamos ser cuidadosos com ela, então verifiquem direito se ela está morta! ― O encarregado, um homem de barba longa e olhos pequenos, ditava.

― Ela já está até podre! ― Ele confirmou cobrindo o nariz, o corpo estava se decompondo em uma velocidade anormal.

Enquanto eles conversavam entre eles, Aura e Serp conversavam baixinho um com o outro.

― Por que eles querem o corpo dela? ― A garota sussurrou para o espadachim.

Serp deu de ombros, não conseguia encontrar uma maneira de sair daquela situação, sem uma espada e com uma bala ameaçando estourar sua cabeça, era impossível para ele.

― Ezza se envolveu com o Dragão Negro. ― Mabuchi explicou, ainda com os olhos fixos no chão.

― Aquele de Teresa? ― Aura questionou e Mabuchi concordou com a cabeça.

― Dragão Negro? ― Serp franziu a testa, então uma luz se acendeu em sua cabeça. ― Então era isso…

― O quê? ― Mabuchi e Aura perguntaram ao mesmo tempo.

Serp abriu a boca para explicar, mas foi interrompido. Aura foi agarrada pelos cabelos de súbito e todos os três se assustaram.

― Vamos prevenir, essa marca é de um Orasukiro! ― O homem informou aos outros enquanto segurava Aura pelos cabelos.

Aura ficou quieta para evitar ser agredida, todavia quando viu o que eles haviam preparado para ela, a médica entrou em pânico e tentou fugir mesmo que isso lhe custasse algumas mechas de seus cabelos.

Era uma estaca de cristal, afiada e reluzente.

― Não, por favor! ― Ela choramingou, mas não foi levada em conta.

Aura foi colocada de joelhos novamente e a estaca foi cravada em sua perna, Serp e Mabuchi tentaram ajudá-la, mas foram derrubados pelos os outros.

Aura lamuriava e chorava alto sentindo dor, era uma dor muito mais forte do que o normal e ela não conseguia aguentar, então acabou desmaiando.

― Babacas! Seus filhos da puta! Covardes! ― Serp estava extremamente irritado, tentava se levantar para defendê-la, mas possuía em suas costas os pés pesados de um capanga alto e pesado.

― Aura… ― Mabuchi estava horrorizado, os gritos de Aura ainda estavam ecoando no ar.

“O que você fez com a gente, Ezza?”, Mabuchi pensava enquanto a bile lhe sufocava, sentia raiva de Ezza e se arrependia do momento em que tinha a conhecido.

 

Haiarys, Ilha Desconhecida – Manhã, 10:30

Algumas horas atrás…

Quando sentiu a conexão desaparecer, Arcana retornou imediatamente à cúpula e encontrou suas outras irmãs presentes.

― Ileza? ― Questionou ela e todas as outras concordaram em conjunto.

Arcana suspirou.

A cúpula era um local criado para a reunião das grandes bruxas responsáveis por organizar a comunidade da magia no plano real. O local era um plano criado por magia compartilhada, ligando o conhecimento de todas as bruxas anciãs e o tornado sólido, a cúpula. O local mais seguro de todos os planos, a magia sólida e indestrutível, algo que poderia ser feito somente por grandes bruxas que possuíam o conhecimento completo.

― O Dragão Branco matou o filho mais novo do líder do Clã das Sombras, obviamente para manipular a direção da guerra prevista pelo oráculo. ― Uma das anciãs, de cabelos ruivos ondulados, explicava ao restante, havia sido ela a primeira a saber de todo o plano de Mister. ― O Clã Ninja possui guerreiros tenazes e furtivos, se eles se unissem aos guerreiros das sombras teriam uma grande chance de se destacarem durante a guerra.

― Aquele Sovereign acha que está acima de todos, hoje ele cometeu um grande delito, foi longe demais! ― Arcana estava indignada.

― Precisamos reunir nosso povo, a guerra começou e já sabemos o que vai acontecer daqui para frente. ― A anciã mais velha, de cabelos brancos e olhos cor de safira, começava a ditar o que as outras deveriam fazer. ― Arcana, você deve ir ao Templo das Ninfas e buscar a sacerdotisa, devemos cuidar de sua proteção.

― Eu gostaria de ir até Vertó, se não se importa. ― Pediu Arcana, sentiu a energia de Ezza quando tentou encontrar Ileza, queria muito reencontrá-la.

― Não posso te conceder isso, você é a mais rápida de nós, precisamos levar a sacerdotisa para o esconderijo o mais rápido possível. ― Ela explicou e Arcana entendeu, lamentou, mas estava contente por saber que Ezza ainda estava viva.

Quando as bruxas retornaram ao plano real, Arcana se deparou novamente com a deserta floresta selvagem. A pequena aprendiz de doze anos, Camila, a esperava assustada. Assim que Arcana retornou, a garota correu para abraçá-la.

― Eu não estava com medo. ― Informou ela arrancando um sorriso da bruxa.

― Teremos que fazer uma viagem assustadora, já se teletransportou antes? ― Questionou ela enquanto criava um círculo no chão com um pedaço de graveto.

― Me disseram que eu era muito nova para isso. ― Camila observava curiosa o desenho.

― É verdade, mas você é especial então provavelmente não terá seu corpo dividido em partes. ― Arcana informou sorrindo com tranquilidade, mas a garota lhe olhou apavorada.

― Você disse que “Ezza” estava em Vertó, ela que é a sua filha? ― Camila estava muito interessada nisso, Arcana não falava muito sobre si mesma.

― Sim, estou feliz em saber que ela está viva, já era para o feitiço ter acabado com ela há anos… ― Arcana devaneou um pouco, era uma mulher de cabelos negros e pele pálida, apesar de aparentar a faixa etária de trinta e poucos, ela possuía cento e quatro anos.

― “Aquele” feitiço? ― A garota perguntou e Arcana concordou com a cabeça. ― Por que ela te pediu isso?

― Ela estava triste, Ezza já estava morta há tempos, eu apenas estou lhe ajudando a partir. ― Arcana terminou o desenho do círculo.

― Mas por quê? ― Camila estava confusa. ― Não se sente mal por isso? Ela não é sua filha?

― Justamente por isso, só quis ser a melhor mãe possível, mas somos todos tão errôneos. ― Ela estendeu a mão para a garotinha. ― Está pronta?

Camila sentiu seu estômago revirar, com hesitação ela segurou a mão da mulher. Quando elas entraram no círculo, o chão foi sugado por uma fração aleatória da massa temporal, deformando um pouco o ambiente. Após a partida, tudo voltou a normal e o círculo desapareceu.

 

Vertó, Colina do Sul – Tarde, 13:23

Aura ainda estava inconsciente, mas o sangramento em sua perna já havia cessado. Serp acabou levando uma surra quando mordeu um dos capangas, agora o único que conseguia se mover era Mabuchi, mas ele também estava com algumas fraturas causadas pela tortura anterior.

― Por que você está se envolvendo nisso? ― Mabuchi indagou Serp, o rapaz estava caído encarando o céu desmotivado.

― Ela me lembra a minha irmãzinha, o jeito e a aparência, como eu poderia deixá-la? ― Serp parecia um lunático falando isso, na visão de Mabuchi, mas para o espadachim fazia sentido.

Os capangas pareciam estar com problemas, alguns queriam levar o corpo e outros discordavam.

― O Mestre disse que devemos levar o corpo! ― Um afirmava.

― Ele disse para esperá-lo! ― O outro contradizia.

O grupo estava prestes a começar uma briga, Mabuchi aproveitou o momento e rastejou até Aura. A garota estava inconsciente, possuía febre e tremia. O Professor avaliou a perfuração, estava fundo, mas não o suficiente para causar uma hemorragia, pelo menos era o que ele achava.

― Me desculpa Aura… ― Ele segurou a estaca com as duas mãos e respirou fundo.

Apoiando um dos pés na perna de Aura, ele usou todo o peso do corpo para ajudar a puxar a estaca, quando ela se soltou ele se desequilibrou e tropeçou cambaleante, acabou esbarrando em um dos capangas.

― Ele retirou a estaca! ― O capanga notou, agarrou Mabuchi pela gola da camisa e lhe atingiu um soco certeiro.

Mabuchi caiu vendo estrelas, sentiu um estalar do seu maxilar e a parte inferior do seu rosto ficou dormente. Agora os três estavam nocauteados, mas a situação ficou ainda mais assustadora quando um deles anunciou:

― O Mestre chegou!

Por um momento eles ficaram tensos, o Dragão Negro pessoalmente?

Mabuchi se lembrava de todos os detalhes de Teresa, por anos ficou obcecado em encontrá-lo e descobrir mais sobre a criatura que tanto assustava o Governo Celestial. No entanto, era um alerta falso, isso gerou ainda mais conflito entre os capangas.

― Esses idiotas não sabem nem mesmo entrar em consenso, estou começando a duvidar que o Dragão Negro esteja realmente por trás disso! ― Mabuchi comentou com dificuldade na fala, seu maxilar estava desencaixado na parte esquerda.

― Dragão Negro? ― Aura murmurou, acordava confusa e bastante abatida. ― Onde estou?

― Você está bem? ― Serp e Mabuchi perguntaram em uníssono.

― O que aconteceu com vocês? ― Ela se preocupou ao vê-los feridos.

― Cuide de você mesma, estamos vivos. ― Serp aconselhou, ainda encarava o céu azul. ― Mas eu tenho uma sensação estranha sobre isso.

― Como assim? ― Mabuchi estava curioso, Serp era alguém de Haiarys, então ele com certeza sabia mais sobre Orasukiros.

Os três estavam tendo uma conversa caídos no chão, eles falavam baixo para não chamar a atenção dos capangas, que ainda discutiam.

― Não sei explicar… ― Serp suspirou. ― Sei lá, algo está me incomodando nessa história.

― O Dragão Negro está mesmo vindo? ― Aura se agitou, havia escutado parte da conversa dos capangas.

― Eu acho que não tem Dragão Negro nenhum nessa história, o cara destruiu uma cidade inteira sozinho, acha que ele mandaria pessoas tão inúteis resolver um problema que ele poderia facilmente cuidar? ― Mabuchi levantou o ponto e os outros dois começaram a avaliar.

― Quem você chamou de inútil? ― Um dos capangas estava parado logo acima de Mabuchi, segurando uma barra de metal ameaçadoramente.

Mabuchi engoliu seco.

 

Submundo

Ezza sentia frio, seu corpo ainda estava molhado com sangue e ela continuava sendo arrastada pela criatura alta. O local parecia escombros do que um dia foi um grande templo, assim que ela adentrou em uma parte mais quente, se sentiu melhor.

― Siga em frente, ele te espera. ― A criatura ditou.

Ezza obedeceu e continuou andando, o piso do local era sólido e isso aliviou um pouco. Escutava chiados ao redor, vultos passando ao seu lado e vozes conhecidas. Parou de frente para um altar de pedra, não conseguia ver quem estava lá, mas a sombra era gigantesca e bastante imponente.

― Você que é o tal Deus da Morte? ― Ezza perguntou de forma arrogante.

Ele riu fazendo as paredes e o chão tremerem, Ezza se assustou com aquilo e recuou alguns passos.

― Não pensei que te veria tão cedo aqui, tinha grandes expectativas para você, mas humanos são mesmo decepcionantes. ― Ele disse com sua voz pesada, o tom grave fazia com que os destroços soltos vibrassem.

― Você me conhece? ― Ezza estava surpresa e desconfiada.

― E quem não te conhece? ― Ele se inclinou para frente e deixou que Ezza visse seu rosto. ― Dragão Negro.

Ezza o encarou de volta, o ser possuía uma aparência bestial, mas ela apenas se segurou no seu lugar e enfrentou a criatura com seus olhos dourados tenazes.

― Nem me lembro da última vez que me chamaram assim. ― Ezza sorriu.



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