LOVCI Brasileira

Autor(a): Ana Júlia


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 20: Enterro na Colina

Vertó, Porto – Tarde, 11:45

Mabuchi não conseguiu carona, grande parte dos navios já havia deixado o reino e os que sobraram transportava somente mercadorias. Ficou sentado em um píer isolado, observava a garota de antes, estava muito assustado para ir até ela. Depois que percebeu que ela estava lavando sangue de suas mãos e rosto, ficou ainda mais aterrorizado.

Sua razão a repugnava, mas seu coração continuava batendo forte sempre que ela remexia nos cabelos ou sorria olhando algum peixe nadando.

“Ela é uma assassina, ela é ainda pior que Ezza”, tentava se convencer.

Marshmallow havia notado a presença do Professor, ele não sabia se esconder e ela conseguia sentir as frequências descontroladas vindo dele. Depois de se limpar, vestiu uma blusa azul por cima da branca suja de sangue, antes de ir embora ela acenou para Mabuchi.

― Eu estou te vendo! ― Ela gritou e riu da expressão de susto que ele fez. ― Espero te encontrar novamente um dia, cara que eu não sei o nome!

― Meu nome é Mabuchi Yoichi! ― Ele gritou de volta nervosamente.

― Ok… Yoichi! ― Ela lhe deu uma piscadela e se virou indo embora.

Mabuchi ficou observando até ela desaparecer na outra ponta do tablado. Sentia-se estranho, uma atração pelo próprio medo.

 

Vertó, Centro – Manhã, 11:50 

Serp ficou algum tempo encarando o corpo de Ezza, não sabia o que faria dali em diante.

― Olá! ― Ele escutou uma voz estridente, se virou e viu a garota que estava com Ezza antes do jogo.

Aura caminhava animada e contente, mas parou bruscamente ao ver o corpo de Ezza caído na calçada. Aumentou os passos até correr, chegando perto dos dois, caiu de joelhos ao lado do cadáver.

― O que houve? ― Aura tocou o pulso de Ezza e soube, a pele estava perdendo o calor rapidamente.

― Ela morreu, de repente caiu e morreu. ― Serp estava irritado. ― Mas ela sabia, essa maldita!

― Ezza… ― Aura estava em choque.

Começou a fazer massagem cardíaca, enquanto chorava.

― O que você fez? ― Ela questionou Serp.

― Eu não fiz nada, ela morreu sozinha, não… Ela se suicidou! ― Serp estava tão irritado que sentia vontade de bater em Ezza, mas ela já estava morta.

― Ela estava doente. ― Aura parou e encarou o rosto imóvel de Ezza. ― Eu não deveria ter deixado ela participar do jogo, eu sabia, não fui uma boa amiga e nem uma boa médica!

― Você está me ouvindo? ― Serp segurou o braço de Aura, a garota lhe olhou chorosa. ― Ela se matou!

Serp puxou o suéter de Ezza, mas assim que fez não havia mais nenhuma marca, apenas a pele pálida e os ossos aparecendo.

― Ué, mas… ― Ele estava confuso.

― Para com isso, ela não gostava que olhassem o corpo dela assim! ― Aura tirou a mão de Serp com um tapa.

― Ela estava amaldiçoada, olha isso… ― Ele pegou o cristal, mas ele estava transparente. ― Que merda é essa? Eu sei que ela se matou, eu vi aquelas marcas de feitiçaria!

― Ela está ficando fria, precisamos enterrá-la. ― Aura fungou o nariz.

Serp concordou com a cabeça, se lembrou da árvore onde Ezza estava descansado quando a conheceu, ela se parecia exatamente com sua irmã e por um segundo ele pensou que fosse ela.

“Mas ela também está morta”, pensou ele amargurado.

Aura continuou chorando sem parar, enquanto Serp olhava severamente para o corpo estirado no chão, estava muito enfurecido para lamentar.

 

Vertó, Um Quarto de Pensão Qualquer – Tarde, 12:09

Após os fatos, Mabuchi já possuía lábios cortados e hematomas expostos no rosto, ainda estava amarrado na cadeira e cercado por dois homens estranhos.

― Eu não sei onde ela está! ― Ele repetia, já havia dito isso dezenas de vezes.

― Você sabe quem é aquela garota? Não ouse escondê-la ou pode ser pior para você! ― O homem baixinho de barba espinhosa ameaçava, fedia a bebida barata e não possuía alguns dos dentes frontais.

― Não sei, meu erro foi ter me envolvido com ela, caramba! Parece que o mundo inteiro odeia ela, agora me odeia também! ― Mabuchi desabafou, estava exasperado.

― Acharam ela. ― O outro entrou no quarto avisando.

― Ufa! ― Mabuchi respirou aliviado.

― Ela já está morta, duas pessoas estão levando o corpo na direção do campo ao sul! ― O homem de olhos fundos, dizia para o outro.

“Morta?”, Mabuchi sentiu um peso cair sobre o seu corpo.

― Ezza morreu? ― Perguntou aos homens.

― Morreu, ainda bem, que pessoa mais difícil de morrer! No final acabou morrendo do coração, vai entender. ― Ele deu de ombros.

― Ahahaha! O Mestre vai amar isso, mas precisamos buscar o corpo. Essa missão que durou anos, enfim acabou! ― O outro comemorou.

“Morta…”, Mabuchi encarou o assoalho. Não conseguia acreditar nisso, era impossível. “Ela só deve estar fingindo, sim! Ezza não seria morta com tanta facilidade, não depois de tudo pelo que passamos.”.

― Vamos levá-lo, podemos usá-lo caso tentem algo, um deles é um daqueles espadachins do Sol Nascente e o outro um Orasukiro. ― Sugeriu e outro concordou.

Depois de soltarem o Professor, o levaram com eles para buscar o corpo de Ezza.

 

Vertó, Taverna Olho Mole – Tarde, 12:32

Cerina tomava uma limonada com o olhar fixo nas prateleiras atrás do balcão, estava com hematomas pelo corpo e os cabelos arrepiados, sentia-se extremamente cansada e frustrada. Sentia raiva também, o universo parecia conspirar contra ela, nada funcionava como deveria e ela sempre acabava do mesmo jeito, sozinha.

― Deveria beber algo mais forte, parece precisar. ― Hibrigis, o taverneiro, aconselhou.

― Tenho dezessete anos, no meu país é proibido. ― Ela explicou, depois riu amargurada. ― Mas provavelmente não voltarei lá, então…

― Uma elfa perdida, huh? Isso não é bom, o que você fez? ― Questionou ele, curioso.

Cerina pensou um pouco, deu um último gole terminando a limonada.

― Confiei nas pessoas erradas, parece que não sou boa em julgar caráter. ― Suspirou melancólica. ― Mas deve existir algum lugar para mim nesse mundo, enquanto isso apenas vagarei, não posso ficar parada ou serei morta.

― Já pensou nas ilhas fantasmas? ― Sugeriu ele.

― Seria ótimo, mas não conheço nenhum ser da água que poderia me ajudar a encontrá-las, você sabe que o meu povo é inimigo das criaturas do mar. ― Cerina disse e Hibrigis concordou com a cabeça.

― Então te desejo sorte nessa jornada, volte sempre que precisar de uma limonada! ― Hibrigis convidou amigavelmente e depois foi atender outro cliente que entrou no local.

Saindo da taverna, Cerina avistou Serp passando carregando algo e sendo seguido por uma garota chorosa. Não conseguiu ver o que era, estava coberto por um lençol. Pensou em ir atrás deles, mas repensou e seguiu pelo lado oposto da rua.

Naquele dia Cerina mudou sua rota, começou a trilhar o caminho que a levaria a ser uma importante peça no futuro dos mundos…

 

Vertó, Colina do Sul – Tarde, 12:46

Serp terminava de cavar a cova, estava cansado e pensativo. A colina possuía uma vista perfeita do mar, o sol estava quente e as árvores ao redor proporcionavam sombras ideais.

― Ela ia gostar daqui, Ezza gostava do sol e do céu. ― Aura comentou fungando o nariz.

Serp bufou, saiu da cova com um salto e bateu as mãos no corpo retirando a terra.

― Vamos enterrar? ― Perguntou ele indiferente, visivelmente irritado.

― Por que está agindo assim? ― Aura questionou e ele desviou o olhar.

― Essa morte foi muito estranha, estou falando há horas que ela se matou e você age como se estivesse surda! ― Serp puxou o cadáver pelos pés e o jogou de qualquer jeito na cova.

― PARE! ― Aura gritou desesperada, agora o corpo estava no fundo da cova. ― Não faça isso com ela!

― É só um corpo agora! ― Serp pegou a pá para jogar a terra sobre o corpo, mas Aura o empurrou e a tomou de suas mãos.

― Suma daqui! ― Ela ordenou, colérica. ― Você não tem o direito de fazer isso com o corpo dela!

― Eu vou embora mesmo, deveria apenas deixar de lanche para os abutres! ― Ele refutou.

Aura estava espumando de ódio, era como se Serp pisasse em seu coração e nas lembranças que ela tinha de Ezza.

― Não desconte suas frustrações nela, você não a conhecia… ― Ela murmurou voltando a chorar.

― Nem você pelo visto, já que não viu que ela estava se matando! ― Serp se sentou desconsolado, inspirou fechando os olhos, estava muito agitado. ― Ela se matou, nunca saberemos o porquê, mas ela se torturou até a morte.

Aura o encarou tentando segurar o choro.

― Eu pensei que a conhecia… ― Aura se sentou por cima do monte de terra. ― Só porque convivi com ela por alguns dias, eu pensei que estava tudo bem.

― Provavelmente existia uma história fodida por trás de tudo, ela também não parecia do tipo que iria se sentar e contar tudo. ― Serp concluiu e Aura concordou.

― Ela não falava muito, pensei que fosse apenas desconfiança, mas ela realmente era assim. ― Aura sorriu tristonha. ― Mas ela foi minha primeira amiga de verdade, pescamos juntas e fizemos compras, ela me ajudou quando estava machucada e também se preocupou comigo. Quando ela me convidou para seguir viajando com ela… foi tão legal, mas seria ainda mais legal se o Professor fosse junto.

― Eu não tenho lembrança dela, então não sei o que dizer. ― Serp foi sincero. ― Mas sei lá, é triste do mesmo jeito.

O silêncio reinou por alguns minutos, os dois com seus próprios pensamentos.

O vento soprava a brisa de verão, os pássaros cantavam e o céu estava azul. O dia era perfeito, então eles decidiram cobrir o corpo e encerrar o funeral.

Serp estava com a pá cheia de terra, pronto para jogar sobre a cova, mas parou quando escutou alguns gritos vindo da parte debaixo.

― AURA! ― Mabuchi gritou.

― Professor? ― Ela franziu o cenho, então percebeu que ele estava acompanhado por um grupo de homens mal encarados.

Serp procurou pela gládio que Ezza havia lhe entregado, mas se lembrou que a deixou no mercado quando pegou o lençol para cobrir o corpo, bateu a mão na testa.

“Burro!”, se insultou.

 

Submundo

Ezza acordou sentindo frio e algo pegajoso escorrendo pelo seu corpo, olhando ao redor ela percebeu que estava deitada sobre carne podre e banhada em sangue. O cheiro forte lhe fez torcer o nariz, tentou se levantar, mas estava grudada entre as carnes.

Escutava sussurros e via vultos passando ao seu redor, enfiou as unhas entre as carnes e conseguiu com esforço se soltar. Pisando nas carnes amolecidas, seus pés enchiam-se de material em decomposição, ignorando esse fato, Ezza continuou andando em qualquer direção.

“Que lugar é esse?”, se perguntava tentando ver algo.

― Então é você? ― Ela escutou uma voz aguda, se virou e encontrou uma criatura muito magra e alta, mesmo olhando para cima ela não conseguia ver a face do ser. ― O Deus da Morte te espera.

― Deus da Morte? ― Ezza andou para trás. ― Eu morri? Ahh…

― Vamos. ― Ele segurou o braço de Ezza com suas mãos excessivamente magras.

― Não! ― Ela tentou se desvencilhar ― Não vou para lugar algum! Me solta!

Ezza tentou permanecer imóvel, mas a criatura lhe arrastou pelo braço para um local ainda mais escuro que aquele.

― Eu vou aceitar meu castigo, então é só me soltar! ― Ela pediu, mas foi ignorada.

Atrás de algumas colunas abandonadas no campo escuro de carnes podres, Ezza conseguia ver algumas silhuetas negras espreitando e cochichando. Eram tantas e não paravam de surgir, pareciam-se reunir para assistir ao julgamento.

― Eles vieram ver o seu fim, Ezza. ― A criatura informou. ― Estavam todos te esperando.

Ezza riu.

― Sentiram minha falta? ― Perguntou ela irônica.

Ezza sabia de quem se tratava, olhava na direção das criaturas e elas se encolhiam com medo.

“No final vamos todos apodrecer no mesmo lugar, os deuses realmente estão de sacanagem comigo”, pensou ela, não evitando rir da situação.



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