LOVCI Brasileira

Autor(a): Ana Júlia


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 11: Suspeitas

Em Algum Lugar do Mar de Haiarys – Tarde, 14:32

Mabuchi não conseguia se acalmar, sentia-se encurralado pelos olhares especulativos que recebia de Ezza, a garota havia se isolado de todos de repente. Nos três primeiros dias de viagem ela estava bem e até participou de pescarias com os outros, parecia gostar das atividades em grupo. O Professor não conseguia entender o porquê da súbita mudança, há dois dias ela havia ficado quieta e se isolou, começou a soar vaga e lançava olhares intrigantes na direção de Mabuchi e Aura.

― Precisamos tomar cuidado com Ezza, tenho a sensação de que ela vai fazer algo ruim com a gente, ela nos espreita como uma serpente preparando seu bote. ― Mabuchi alertou Aura, os dois conversavam sozinhos na cabine.

― Ela não faria nada de mal com a gente, deve ser coisa da sua cabeça! ― Aura se recusava a acreditar, mas no fundo também se sentia ameaçada.

― Não sei o que pode ter acontecido, mas devemos deixá-la assim que chegarmos em Vertó, será melhor assim. ― Mabuchi estava nervoso e sentia muito por tudo acabar dessa forma, mas não poderia arriscar ser a próxima vítima de Ezza. ― Eu tenho quase certeza que Ezza já matou antes…

― Não diga isso! ― Aura se levantou da cama, colérica. ― Não julgue as pessoas assim, Mabuchi!

O rapaz se surpreendeu com o surto de Aura, ela estava realmente irritada, pois nunca havia pronunciado seu nome antes.

― Não gosto de preconceitos, isso que estamos fazendo é errado! Não quero mais falar disso, não fale mais disso comigo! ― Aura saiu da cabine batendo forte a porta atrás de si.

“Estou errado?”, se perguntou olhando para suas próprias mãos. Não queria acreditar, mas a verdade nem sempre é agradável.

 

Ezza estava no convés como o de costume, não dormia na cabine com Mabuchi e Aura, fitava o céu azul pensativa. Levou a mão até seu pescoço, abaixo da gola da sua blusa existia um corte superficial, apertou a mandíbula irritada. “Aquele maldito, como me achou tão rápido?”, remoeu ela.

Para entender o que aconteceu, devemos retroceder dois dias atrás…

 

Dois dias Atrás, Convés do Veleiro – Madrugada, 02:45

A noite estava quente e o céu estrelado, a lua iluminava o mar e oferecia um belo cenário. Ezza observava tudo maravilhada, ainda não havia se cansado do espetáculo de cores, era tão belo que transcendia aos contos que escutou quando criança. O mar azul e o céu, a lua e o sol, a natureza enfeitava tudo com simplicidade e paixão, sentia seu coração leve quando contemplava tudo aquilo.

Escutou passos pesados e se virou para tentar ver algo, era a única acordada aquela hora e a estar no convés, olhou na direção do castelo de popa e a porta estava fechada. Tomou um susto quando percebeu a sombra de uma enorme caravela mais a frente, estava tão distraída que nem percebeu eles chegando. Tentou entrar para avisar os outros, mas era tarde.

Levou uma gravata de um homem alto e robusto, não conseguiu se soltar pois ele era mais forte e parou de se debater assim que sentiu a lâmina afiada e gélida contra sua garganta.

― O meu mestre vai ficar muito feliz de saber que te encontramos, Ezza. ― O homem disse no ouvido de Ezza.

Ezza levantou o máximo seu pescoço para evitar que ele fosse cortado, mas já sentia ardência no local.

― Você se lembra do meu mestre? ― Ele a empurrou para frente e Ezza tropeçou até se apoiar no parapeito evitando de cair. ― O Dragão Negro.

Ezza não disse nada, apertou seu pescoço com a mão para verificar a profundidade do corte, o homem a sua frente não era totalmente visível pois estava muito escuro, mas agora ela já sabia quem o tinha enviado.

― Aquele maluco ainda está andando por aí dizendo isso? ― Ezza zombou e soltou uma risada irônica. ― Diga a ele que não tenho medo, nunca fiz nada a ele!

― Você sabe o que fez! ― O homem apontou a faca para Ezza, mas ela continuou impassível. ― Você destruiu a vida do Mestre!

― Ah, vão se foder! ― Refutou.

― Nós sabemos para onde você está indo, sabemos que você está atrás da feiticeira… ― Quando o homem disse isso Ezza ficou séria. ― O próprio mestre vai te matar, ele irá pessoalmente ao seu encontro!

Após o recado o homem caminhou até as extremidades do veleiro, antes de saltar ele olhou por cima do ombro.

― Aconselho a não desafiá-lo, sabemos da sua sorte para continuar viva, mas agora sabemos seu ponto fraco. ― Ele alertou e depois desapareceu.

Ezza sentiu a raiva queimar dentro de si e começou a tossir até sangrar. Seu corpo estava cada vez pior, morreria em breve, mas sentia que precisava resolver seus problemas antes que acontecesse.

 

Atualmente…

Diante disso Ezza estava realmente pensando em matar Mabuchi e Aura, ou algo menos radical como apenas deixá-los para trás na próxima parada. “Meu ponto fraco…”, examinava essa frase em sua cabeça desde o dia do acontecido, não considerava os dois seu ponto fraco já que poderia simplesmente se livrar deles quando quisesse. “Até doente eu conseguiria matá-los”, concluiu, repassava isso em sua mente para não esquecer.

― Como estão seus pontos? ― Aura se aproximou.

― Melhores. ― Ezza levantou as mangas para mostrar, depois de inflamar, a ferida estava enfim cicatrizando.

― Vamos mergulhar hoje, quer ir junto?

― Não.

Aura concordou com a cabeça, mas ao invés de ir embora ficou ali perto de Ezza em silêncio, examinava as águas azuladas com uma expressão óbvia de inquietação.

― O que foi? ― Ezza notou o sentimento na garota.

― Você me mataria? ― Aura foi direta, ainda encarando as águas. ― Sabe, só de…

― Depende. ― Ezza a cortou, Aura lhe olhou sobressaltada com a revelação. ― Você me mataria?

― Claro que não! ― Ela se ofendeu.

― Então eu não tenho motivos para te matar. ― Ezza obviamente não estava sendo sincera ao dizer aquilo, mas Aura não esperava que alguém pudesse mentir olhando dentro de seus olhos, então acabou acreditando.

A médica ficou mais tranquila, não sabia como entender Ezza, mas apesar de tudo sentia afeto por ela.

 

12 horas de Vertó – Manhã, 08:23

Chi Ah havia avisado que a tarde eles chegariam em Vertó, mas todos já estavam cientes disso. Nas últimas horas vários navios começaram a passar por eles, gente de todo tipo com navios poderosos que reduziam o veleiro a uma formiga, o que atiçou a curiosidade do trio.

― Vertó é um reino pacífico e conhecido pelos festivais abundantes, nesse momento deve ter centenas de tendas de todos os tipos espalhadas pelo centro, a família real Queixo vai estar presente nos jogos Pentatlo, o maior espetáculo dos jogos. ― Chi Ah explicava ao trio desinformado.

― Vi um navio com o brasão do Clã dos Trolls! ― Moh voltou agitado segurando sua luneta, parecia apreensivo.

Chi Ah e Rich se entreolharam mudos.

― Algum problema? ― Mabuchi questionou a reação dos pescadores.

― Os Trolls são inimigos dos Elfos, sempre arranjam problemas! ― Rich explicou.

― Mas vocês não disseram que durante o festival está proibido brigas entre clãs? ― O Professor questionou, voltando a sentir o nervosismo de antes.

― Os Trolls são criaturas ignorantes, mesmo não podendo brigar diretamente com a gente, vão acabar encontrando uma maneira de nos atingir. ― Chi Ah parecia preocupado.

― Então vamos ficar bem longe de vocês. ― Ezza relatou, indiferente.

― Ezza! ― Mabuchi a advertiu.

Chi Ah riu.

― Sábia escolha, vou arranjar um mapa pra vocês e… ― Ele pensou um pouco. ― Vocês trouxeram algum dinheiro?

― Eu trouxe uns cem sagrados! ― Aura tirou do bolso e mostrou.

― Sagrados? ― Chi Ah se aproximou para olhar aquilo, franziu o cenho. ― Esse dinheiro não vale aqui!

― No Mar de Haiarys nós utilizamos gralhões! ― Moh mostrou as notas com a imagem do pássaro gralhão, era um valor de cem gralhões. ― Essa é uma das poucas coisas que os reinos concordaram em conjunto.

― E agora? ― Aura ficou preocupada, precisava comprar novos ingredientes para os seus medicamentos.

― Vou emprestar vocês, como são espertos tenho certeza que ganharão nos jogos e poderão me pagar, ok? ― Chi Ah estava sendo gentil como sempre, deu a cada um dos três uma nota de cinquenta gralhões.

O mar foi ficando cada vez mais agitado naquela região, Aura viu um navio passar bem perto levando um homem semelhante a um lagarto gigante com trajes humanos, ficou tão impressionada que não soube explicar mais tarde o que tinha visto.

― O que você viu deve ter sido um reptiliano. Vocês devem abrir a mente agora que estão em Haiarys, existem tantos povos diferentes que podem até assustá-los! ― Chi Ah aconselhou.

― Para mim isso parece interessante! ― Mabuchi tinha um brilho nos olhos, era o sentimento de explorar e conhecer coisas novas.

― Para quem estava com medo há alguns dias… ― Ezza provocou.

― É como você disse, a chance de morrer é a mesma, então vou pelo menos aproveitar. ― Mabuchi dizia isso, mas não conseguia evitar de sentir medo.

― Vocês são pessimistas, esqueçam essa imagem assustadora que vocês têm de Haiarys e apenas aproveitem! ― Chi Ah aconselhou espontaneamente.

― Estou tão ansiosa, nunca pensei que estaria em um lugar assim, posso até conhecer outras pessoas iguais a mim! ― Aura estava eletrizada, a ideia de encontrar outros Orasukiros lhe parecia confortável.

 

Ezza ficou sem suas bagagens e por isso precisou pegar algumas roupas emprestadas de Aura, a única que encontrou que lhe agradava era um suéter vermelho, mas o fato da gola não ser alta a incomodava.

― Não sei como você conseguiu ficar todos esses dias usando roupas tão fechadas, fez quase quarenta graus ontem! ― Aura comentou exibindo seu vestido amarelo de alças, estava bronzeada e com o rosto avermelhado por causa do sol.

― Nem eu… ― Ezza observou o suéter pensativa, teria que ser esse mesmo.

Olhou para Aura que estava na cabine com ela, a médica ficou parada por alguns segundos sem entender o que Ezza queria lhe dizer.

― Eu preciso me trocar, saia. ― Pediu ela e Aura fez careta.

― Nós somos garotas, não tem problema! ― Aura estava tranquila com isso, mas Ezza manteve o olhar inquisidor na médica. ― Eu prometo não ficar te olhando estranho, eu olho para o outro lado!

― Vou me trocar no banheiro. ― Ezza saiu da cabine levando o suéter consigo.

Após vestir o suéter todos perceberam o corte na garganta em sua garganta, apesar de ficarem curiosos, ninguém perguntou nada. Aura, no entanto, ficou rondando ela por um bom tempo até que conseguiu convencê-la de realizar um curativo.

― Você é do tipo irritante. ― Ezza comentou com Aura depois que ela terminou o curativo.

― Não seja má, eu só gosto de ajudar. ― Aura tocou na testa de Ezza. ― Você parece melhor, sua temperatura voltou ao normal, mas você continua perdendo peso.

― Mabuchi acha que eu vou matá-lo? ― Ezza perguntou, olhando de relance para o Professor que observava as duas sem disfarçar.

Aura não sabia se deveria falar, acabou hesitando, confirmando as suspeitas de Ezza.

― Se você quiser continuar comigo depois de Vertó eu a levarei, mas não quero mais que Mabuchi venha atrás de mim, não gosto dele. ― Ezza estava sendo sincera, detestava pessoas covardes e Mabuchi era um. ― Se ele não tem peito o suficiente para encarar esse mar, deveria ter ficado mofando naquele maldito Arquipélago!

― Ezza… ― Aura estava desconfortável, outra vez estava entre os dois. ― O Professor é uma boa pessoa, sentir medo é normal.

― Você escolhe Aura, apenas faça o que for melhor para você. ― Ezza aconselhou finalizando a conversa, se levantou dos degraus do convés e caminhou na direção do castelo de popa.

Aura suspirou pesadamente, o que faria?

 

Ilha Desconhecida, Mar de Haiarys – Manhã, 08:36

Dois dias atrás…

A casa de banho do templo possuía enormes pilastras de mármore e estátuas de argila, o piso era uma mistura de joias raras e cascalho do mar, ao redor gárgulas de ouro saindo das paredes e no centro uma piscina retangular feita de areia branca.

A pequena garota de minissaia e moletom azul de gatinho, parou diante da banheira, a névoa de fumaça que saía da água a impedia de visualizar a pessoa sentada tomando banho, apenas via sua silhueta.

― Estou partindo Mister, soube que O Dobrador de Sombras do Clã Ninja já chegou em Vertó. ― Informou a garota olhando na direção da silhueta.

― Então eles vão mesmo fazer isso, huh? Você tem minha permissão para fazer o que quiser, desde que cumpra sua missão corretamente. ― A voz masculina soou branda como águas se chocando contra uma muralha.

― Também tive notícias do Dragão Negro, ele reapareceu depois de anos. ― A garota não gostava de falar sobre isso, torceu o nariz emburrada.

― Isso é bom, preciso recuperar algo que deixei com ele. ― A silhueta mergulhou na água da piscina e nadou até a extremidade onde a garota estava, quando apontou sua cabeça a encarou com olhos firmes. ― Precisamos impedir que essa guerra nos prejudique, conto com você Marshmallow.

― Sim Mister, garanto que darei o meu melhor para que tudo ocorra perfeitamente como o planejado. ― Ela não desviou o olhar, Mister aprovou sua convicção e a deixou ir.



Comentários