LOVCI Brasileira

Autor(a): Ana Júlia


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 04: Um Voo Entre a Neblina

Em Algum Lugar no Céu Sobre o Mar Negro – Madrugada, 02:23

Ezza acordou atordoada, sentiu um cheiro forte de ervas e ao olhar ao redor percebeu que estava sobre o Cisne. O animal estava planando graciosamente, todos do grupo estavam admirando a vista e conversando baixinho, pareciam cansados e estavam abalados pelos acontecimentos com Tito e Marta.

”Então conseguimos”, concluiu Ezza aliviada, só se lembrava de ser carregada por alguém. Ao tentar se levantar não conseguiu mover os braços, estavam pesados e por um momento ela entrou em pânico.

― Não se preocupe, coloquei bastante anestesia para que você conseguisse descansar, como se sente? ― Aura se aproximou e tocou a testa de Ezza. ― A febre passou.

― Conseguirei usar meus braços novamente? ― Ezza perguntou os olhando, estavam com curativos. ― O que vocês fizeram?

― Nós não fizemos nada, a médica Aura que fez! ― Mabuchi revelou deixando Ezza surpresa.

“Ela parece ter quinze anos”, pensou Ezza avaliando a garota.

― Respondendo sua pergunta, sim, você vai conseguir movê-los novamente. Felizmente nenhum nervo importante foi atingido, já seus ossos vão dar alguns choques pois quase se partiram, você tem osteoporose? ― Aura perguntou fazendo Ezza franzir o cenho. ― Seus ossos, eles são fracos demais. Fiz alguns exames físicos em você, não sabia que tomava adrenalina. Tem problema no coração também?

― Porque está fuçando tanto o meu corpo? Agradeço por ter cuidado de mim, mas o resto não é da sua conta. ― Ezza respondeu ríspida.

Aura abaixou a cabeça envergonhada e Mabuchi a consolou olhando feio para Ezza, o Professor concluiu que ela estava bem, já que tinha voltado a ser indiferente com eles.

Saulo e Gamborie tentavam observar o Mar Negro lá embaixo, a neblina ainda não os deixava ver completamente, o silêncio era a forma que eles aproveitavam aquele momento. Aura havia cuidado dos ferimentos de todos, sua mochila foi bem preparada e ela conseguiu levar até mesmo um chá.

― Obrigado garotinha, você realmente foi uma heroína hoje. ― Gamborie disse pegando um copo do chá.

― Além de conhecer esse Cisne, ainda nos ajudou com curativos, não sinto mais nenhuma dor! ― Saulo completou, havia ferido suas costas no conflito.

― Obrigada. ― Aura sorriu lisonjeada.

― Esse seu remédio é realmente bom, as feridas desincharam rapidamente como nunca vi antes! ― Mabuchi elogiou já que era um remédio caseiro, ele havia levado alguns chutes aqui e ali durante o conflito.

― Eu gosto muito dessa área de fármaco da medicina, eu mesma gosto de produzir meus remédios, porém o Arquipélago é bastante limitado com plantas e ervas. ― Ela explicou e bebericou um pouco do chá, olhou de relance para Ezza que dormia novamente.

― Mais tarde eu levo um pouco para ela. ― Mabuchi a tranquilizou. “Aura realmente tem um coração”, pensou ele a olhando com ternura.

― Quando você me disse que gostaria de fugir eu fiquei me perguntando, “Por que uma jovem nobre iria querer fazer isso”, até agora continuo me perguntando isso. ― Gamborie se dirigia a Aura, que fez uma expressão opaca ao escutá-lo.

― Minha família iria me impedir de continuar na medicina, desde os meus doze anos eu estudava no Instituto de Pesquisas Médicas do Governo Celestial, como nobre eu poderia fazer o que quisesse então optei por seguir os passos da minha mãe. No entanto, não era esse o plano do Governo para mim, no próximo ano eu teria que entrar para Academia Militar e aprender usar minhas habilidades como arma. ― Aura fez uma careta chorosa. ― Eu não queria isso, só vi essa alternativa, não sei se foi o certo.

― Verdade, você tem o Selo dos Deuses. ― Mabuchi se lembrou. ― Qual é a sua habilidade?

Aura abriu a palma da mão e uma bola de luz pequena se formou, tudo se iluminou e até o Cisne olhou curioso.

― UAU! ― Os três admiraram.

― Eu controlo a luz, mas a verdade é que nunca explorei muito. ― Aura fechou a mão e a bola de luz desapareceu.

― Que incrível, você poderia ser uma guerreira das fortes! ― Saulo sonhou com os olhos brilhantes.

― Você tinha um poder desses? Estou ficando cada vez mais impressionado com você, garotinha. ― Gamborie comentou.

― Certa vez fiz um artigo sobre os Orasukiros, o Governo Celestial não fornece muitas informações sobre isso, mas procurei bastante até encontrar algumas coisas que eles esqueceram de acobertar, tipo o Dragão Negro. ― Mabuchi disse aquele nome e todos ficaram sérios, quem não conhecia a história de Teresa?

― Já ouvi falar sobre esse tal de Dragão Negro, algumas pessoas dizem que foi invenção do Governo para acobertar o massacre de Teresa. ― Saulo disse e Mabuchi discordou.

― O Governo Celestial realmente costuma fazer isso, mas o Dragão Negro foi o verdadeiro responsável por dizimar a cidade de Teresa, as pouco mais de cem pessoas que sobreviveram o viram. ― Mabuchi afirmou.

― Minha vizinha foi uma dessas pessoas, a mulher ficou com graves sequelas mentais. Ela disse que foi uma criança que fez aquilo! ― Todos ficaram alarmados com o que Gamborie disse, essa informação era nova.

― Impossível, crianças não podem ser Orasukiros Demoníacos, algo assim explodiria o corpo delas feito um balão, ainda mais o Dragão Negro! ― Mabuchi contrariou.

― Disso não sei, mas a mulher jurou de pés juntos. Disse que viu uma criança arrancar membros, envolta de uma fumaça negra e com olhos dourados, também não acreditei no início, mas sei lá… ― Gamborie suspirou pensativo.

― Um Orasukiro Celestial, como Aura, nasce assim por causa do poder menos agressivo da essência do deus. Vocês sabem como isso funciona? ― Ele perguntou e todos negaram. ― Um Orasukiro não tem mais sua essência humana, ele troca isso pela essência de um deus, no caso dos Orasukiros Demoníacos por um Deus Caído.

― Então Aura é uma deusa? ― Saulo perguntou a olhando admirado.

― Sim e não, esses deuses que trocam suas essências são como espíritos comuns no plano espiritual. Os Orasukiros Demoníacos são deuses fortes que foram jogados no submundo, eles são 70% mais fortes que um Orasukiro Celestial por causa da Ambição. ― Mabuchi estava prendendo a atenção de todos.

― O que é essa Ambição? ― Gamborie perguntou.

― Cada Orasukiro Demoníaco tem algo que o deixa mais forte, algo sombrio, o Dragão Negro é movido pela ira. Talvez seja esse o motivo dele ter destruído a cidade inteira, quanto mais raiva ele sente, mais ele fica forte. A ambição é um pecado já que vai contra o que é bom, não conheço muito sobre isso, mas sei que o Governo Celestial ficou aliviado quando o Dragão Negro desapareceu. ― Mabuchi esticou suas pernas. ― É um assunto polêmico, no final Aura é semelhante ao Dragão Negro, o Governo Celestial criou essa coisa de Selo dos Deuses, mas não existe nada disso.

Aura não gostou de ser comparada ao Dragão Negro, mas ficou quieta.

― Se um Orasukiro Demoníaco não nasce assim, então como acontece? ― Saulo parecia interessado, especialmente nessa parte.

― Depende do Deus Caído que você deseja invocar, cada um te um ritual diferente que somente bruxas sabem fazer, mas sei que envolve sacrifícios humanos e outras coisas macabras. É algo muito pesado, a essência de um Deus Caído é algo muito forte e difícil de controlar, por isso tenho certeza que não foi uma criança que fez aquilo. Como uma criança controlaria algo que se move pela ira? ― Mabuchi levantou o ponto e todos concordaram com sua linha de pensamento.

Ezza escutava tudo, abriu os olhos e encarou o céu escuro. Sempre que se lembrava daqueles olhos dourados sentia um vazio dentro de si, puxou de dentro da sua blusa o pingente de cristal negro. “Como é que você está?”, pensou aflita com o olhar perdido.

 

Mar Negro, Farol – Madrugada, 03:12

A pequena porção de terra pedregosa com apenas uma torre, era a marca de que o Mar Negro estava chegando ao seu fim, para muitos o alívio de enfim poder entrar no mar azul de Haiarys, mas para outros o pesadelo de ter seu objetivo frustrado. O farol do mar negro era um lugar perigoso, principalmente para os desavisados.

No topo da torre uma mulher de longos cabelos negros observava o céu entediada, seus olhos azuis cintilantes apenas devaneavam. Uma coruja pousou na janela onde ela estava escorada, a criatura tinha uma aparência estranha, mas ainda assim era uma coruja.

― Uuu Uhu! ― A coruja crocitou para a mulher.

― O que foi Félix? ― Perguntou ela irritada.

― Uuu Uhu! ― Crocitou novamente.

― Sério? ― A notícia lhe arrancou um sorriso, olhou na direção do céu novamente. ― Isso vai ser ótimo, estava mesmo precisando de diversão!

Caminhou pelo quarto escuro arrastando a longa cauda do seu vestido negro, abriu um baú no canto mais escuro do local, tirou uma varinha dos seios fartos e tocou com a ponta sobre o conteúdo do baú.

― Despertem meus filhos, já é hora! ― A luz vermelha brilhou por todo o quarto e até a coruja se encolheu diante do que saiu do baú em seguida.

 

Em Algum Lugar no Céu Acima do Mar Negro – Madrugada, 03:20

Ezza já conseguia mover um pouco seus braços, mas em consequência do fim da anestesia vinha a dor. Começava pinicando e depois torturava aos poucos com pequenas ondas de choque. Ficou sentada no canto tentando inibir a dor por si mesma, Aura percebeu que talvez ela pudesse está sentindo dor e procurou mais um pouco do seu remédio.

― Você deveria deixá-la sozinha, acho que ela não quer companhia. ― Mabuchi aconselhou.

― Ninguém gosta de ficar sozinho Professor, ela está sentindo dor e eu cuidarei dela mesmo que ela me rejeite, sou uma médica e me considero agora sua amiga! ― Aura disse firme e caminhou na direção de Ezza.

Aura se abaixou ao lado de Ezza e lhe ofereceu um comprimido de aparência estranha, Ezza apenas o bebeu sem hesitar e deixou Aura checar seus pontos.

― Vai aliviar um pouco, mas ainda vai sentir dor, se quiser posso aplicar um pouco mais de anestesia. ― Aura ofereceu, mas Ezza recusou.

― Não posso ficar sem mover meus braços, ninguém pode prevê o que acontecerá. ― Ezza olhou para os braços decepcionada consigo mesmo. ― Estou doente, meu coração está parando, por isso preciso tomar adrenalina.

Aura ficou extremamente preocupada com aquela notícia, Ezza poderia precisar de um transplante urgente.

― Posso sentir seu pulso? ― A médica pediu permissão e Ezza lhe ofereceu o pulso direito, o ritmo era algo realmente preocupante. ― Quando começou isso?

― Não importa, eu já aceitei… é o preço. ― Ezza murmurou pensativa.

― Preço de quê? ― Aura perguntou curiosa.

― Pode me dar alguns desses comprimidos estranhos? Vou carregar comigo por garantia. ― Ezza mudou o assunto e Aura apenas deixou para lá, entregou cinco comprimidos.

― Eu não sei fazer do jeito tradicional, por isso ficou feio, mas funciona! ― Ela garantiu e Ezza acenou com a cabeça.

― Obrigada. ― Agradeceu deixando Aura surpresa.

― D-De nada! ― Gaguejou ela.

O Cisne arensou fazendo todos se preocuparem, Gamborie e Mabuchi correram para perto do pescoço e avistaram uma torre, estava escuro então não conseguiram ver quando um morcego gigante com formato estranho surgiu e rasgou o espaço do cisne. O animal bateu as asas tentando mudar a rota fazendo todos rolarem, Aura ajudou Ezza a se segurar em algum lugar.

― O que é isso? ― Gamborie perguntou ao ver a coisa voar na direção do Cisne novamente.

― Isso era para ser um morcego? ― Mabuchi franziu o cenho confuso.

― Ele está tentando nos derrubar! ― Alertou Saulo.

A criatura dessa vez atingiu o Cisne que perdeu o controle e começou a tombar para o lado, emborcando, o Cisne mirou na água e então pousou. A criatura veio na direção deles, nenhum deles conseguia ver nada já que a criatura se camuflava na escuridão.

― Aura, acenda aquela bola! ― Mabuchi pediu se lembrando da habilidade da médica.

Aura assim fez e tudo ao redor se iluminou, aquela luz espantou a criatura e ela mudou o curso voando para a ilhota mais a frente.

― O que é aquele lugar? ― Mabuchi tentou visualizar algo.

― Por que esse lugar é tão escuro? ― Saulo perguntou.

― O sol não consegue atravessar as nuvens do Mar Negro, por isso sempre é noite aqui. ― Mabuchi explicou, como um bom professor.

― Então como tem sol lá no Arquipélago de Jade? ― Questionou o jovem espadachim.

― Por causa dos refletores, eles captam a luz solar no mar de Haiarys e reflete na ilha. ― Gamborie quem respondeu.

― Exatamente! ― Concordou Mabuchi e acrescentou. ― Por isso o Arquipélago mesmo tendo sol não passa dos vinte graus.

Ezza estreitou os olhos quando viu algo se movimentar perto da torre.

― Tem algo lá. ― Constatou ela e todos olharam na direção.

― Bem… ― Gamborie se levantou. ― Acho que é hora de falar para vocês que lugar é esse.

Todos lhe olharam apreensivos, Gamborie estava com uma expressão séria e isso não significava boa coisa.



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