LOVCI Brasileira

Autor(a): Ana Júlia


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 02: Conflito na Muralha

Taisan, Muralha – Tarde, 18:00

A cansativa subida até o topo da muralha ainda não estava nem na metade, pacientemente Gamborie esperava e incentivava quando alguém travava. A pioneira Marta estava com toda a animação, se dependesse dela a subida seria mais rápida, todavia ainda existiam pessoas que insistiam em olhar para baixo e paralisar as pernas.

― O próximo que fizer isso eu juro que vou jogar daqui de cima! ― Ameaçou Ezza em algum momento da viagem.

Aura estava com as mãos doloridas, nunca tinha feito algo parecido e sua pele era extremamente sensível. Suas costas doíam muito e ela já não aguentava mais, mas procurou resistir tudo aquilo e apenas tentou chorar baixinho para aliviar sua dor. Ezza que percebeu o que estava acontecendo, suspirou pesadamente. “O que essa garota veio fazer aqui?”, se perguntava exasperada.

― EM FRENTE PESSOAL! ― Encorajou Gamborie.

 

Meia hora mais tarde… 

O barulho das respirações já começava a criar uma sinfonia, a essa altura até mesmo Marta já estava cansada, todos haviam diminuído a velocidade sem perceber. Gamborie também começava a desanimar, fazia muito tempo que ele não se exercitava assim.

― Aguenta firme. ― Ele dizia para si mesmo.

Ezza olhou para baixo e só viu uma densa neblina, eles deveriam estar na metade do percurso aquela altura. Olhou para cima, mas não conseguia enxergar direito com tantos traseiros na sua frente, continuou subindo pensando sobre isso. Foi quando veio a notícia:

― ESTOU VENDO O CÉU! ― Gritou Marta animada e levantando a moral da turma.

Suspiros de alívio, “Graças aos deuses” expressados e uma nova carga de energia se formou no grupo. Alguns degraus a mais e lá estava o céu, nublado como de costume, mas agora eles conseguiam ver o topo da muralha.

― Quantos minutos você prevê? ― Ezza perguntou se virando para Gamborie.

― Mais meia hora. ― Ele fez caretas ao calcular mentalmente.

― Precisamos parar um pouco. ― A garota o alertou.

― Agora?! Estamos quase lá! ― Refutou Gamborie.

Ezza avaliou Aura, ela estava sofrendo muito e isso já estava enchendo o saco, contava no máximo dez minutos para ela cair lá de cima.

― Ela precisa de descanso, ou você quer um corpo esmagado lá embaixo? ― Ezza o colocou contra a parede.

Gamborie pensou um pouco e concordou, mas não atrasaria os outros.

― PESSOAL SIGAM EM FRENTE, NÓS TRÊS FAREMOS UMA PAUSA! ― Ele gritou e todos pararam de subir.

― O que houve? ― Marta olhava para baixo tentando ver alguma coisa.

― Será que alguém se machucou? ― Mabuchi se preocupou.

― APENAS CONTINUEM! ― Ezza gritou firme e eles continuaram.

Aura estava com os olhos inchados de tanto chorar.

― Me passa sua mochila! ― Ezza ofereceu sua mão se segurando com a outra na corda.

Aura teve dificuldades para tirar a mochila e quase caiu, mas Ezza empurrou seu tronco para a frente a equilibrando novamente. Gamborie colocou a mochila de Aura em um dos seus braços, levava a sua no outro, mas tinha braços fortes e a mochila de Aura não estava tão pesada.

― Agora vire-se, eu vou te segurar! ― Ezza indicou e Aura obedeceu um pouco relutante, ficando de costas para a muralha ela conseguiu soltar suas mãos e aliviar um pouco as feridas.

Ezza ficou no mesmo degrau que Aura, depois segurou firme com as duas mãos na corda atrás da garota simulando um abraço. Aura conseguiu relaxar e até apoiou o queixo no ombro de Ezza. Não era de grande ajuda já que Aura precisava firmar mais ainda as pernas, mas ela parecia bem melhor já que não precisava se preocupar em se segurar.

― Obrigada. ― Agradeceu profundamente.

Ezza apenas suspirou impaciente, não estava contente com aquela situação, ainda mais com o perfume enjoativo de morango de Aura.

― Que cena linda! ― Gamborie zombou.

Aura achou graça, mas Ezza revirou os olhos se arrependendo da boa ação.

 

Mais Meia Hora Depois… 

Os que seguiram em frente chegavam ao topo, Marta subiu na muralha com uma sensação de dever cumprido e deu pulinhos de alegria ao ficar de pé, ajudou Tito a subir e assim foram ajudando os próximos. Ezza, Aura e Gamborie ainda estavam subindo já que perderam dez minutos descansando.

― Será que eles estão bem? ― Mabuchi ainda estava preocupado, ele tinha certeza que era algo com Aura, ela era frágil demais para uma viagem assim.

― Eles estão subindo, vai ficar tudo bem. ― Marta o tranquilizou.

Ela olhou ao redor, tinha um pouco de neblina ali e estranhamente o chão estava todo em terra, destaque para o fato da muralha ser feita de concreto e ferro. Mabuchi olhou na direção oposta procurando o fim da muralha, mas não conseguiu ver com toda aquela neblina.

― Que coisa monstruosa! ― Tito comentou também percebendo o extenso diâmetro da muralha.

― E pensar que construíram isso há 800 anos! ― Mabuchi completou, estavam todos impressionados.

Enquanto esperavam os outros, a parte do grupo que já havia chegado resolveu se sentar e cuidar das mãos que estivessem feridas, Marta que trouxe comida repartiu com os outros. Lá em cima além de Tito, Marta e Mabuchi, estava também Saulo o aspirante a espadachim, sentindo-se bastante isolado e excluído. Era um garoto aparentemente de dezesseis ou dezessete anos, de cabelos ruivos e sardas no nariz.

― Que viagem difícil, né? ― Mabuchi se aproximou tentando puxar assunto, se sentou perto do rapaz.

― Eu serei um guerreiro poderoso, essa pequena escalada não me causou dano algum! ― Afirmou ele com ufania.

― Essa espada é bem bonita, parece importante. ― Mabuchi apontou para a espada.

A espada não era tão grande, mas parecia pesada. Possuía uma lâmina grossa com pequenas marcas que pareciam pequenos símbolos de raios, tinha um fio prateado e aparentava ser uma arma muito valorosa, quase uma relíquia na visão profissional de Mabuchi.

― Pertencia ao meu pai, ele era o melhor espadachim desse lugar. ― Contou ele com orgulho, mas então caiu em devaneios que lhe sombreavam o rosto.

― Então você quer se tornar como seu pai? ― Mabuchi insistiu, não queria deixar a conversa morrer.

― Sim, dizem que Haiarys é um lugar onde os mais poderosos espadachins do mundo vivem, já ouviu falar do Clã do Sol Nascente? ― Ao falar isso, os olhos de Saulo brilharam com admiração.

― Sim, o mais poderoso clã de espadachins do mundo. ― Mabuchi respondeu mostrando-se bem informado, era um viciado em qualquer tipo de história.

― Um dia quero ser ainda mais poderoso do que eles, derrotarei cada um e me tornarei o mais forte espadachim do mundo! ― O rapaz discursava de forma determinada.

Mabuchi lhe fitou modestamente, a essa altura do campeonato nenhum sonho deveria ser desprezado, mas ele sabia que Haiarys não era um lugar recomendado para pessoas tão imprudentes assim.

 

Muralha, Alguns Metros ao Lado – Noite, 19:23

A neblina atrapalhava mais do que a escuridão da noite, Jonks corria com dez subordinados o seguindo. O elevador havia sofrido alguns problemas e eles estavam atrasados. Agora ele corria com medo de ter perdido Ezza de vista, talvez devesse mesmo ter atirado neles enquanto teve chance.

Armados com espadas e porretes, os soldados celestiais raramente usavam armas de fogo em batalhas. Jonks era um espadachim que agora carregava a arma que pertenceu seu Mestre, a mesma que o matou. Sempre que se lembrava disso sentia seu coração palpitar, fumegava de ódio.

― RÁPIDO! ― Ele ordenou aos seus soldados. ― NÃO PODEMOS PERDER ELES DE VISTA!

Ali perto o grupo escutou os gritos e ficaram em alerta, quando os soldados chegaram eles nem mesmo tiveram tempo para avisar ao restante que ainda escalava, foram rendidos por um círculo de soldados que se formou subitamente surgindo da neblina. Jonks, no entanto, ficou furioso ao chegar e não encontrar Ezza.

 

No Topo da Muralha – Noite, 19:45

Aura foi a primeira que conseguiu subir, logo em seguida foi Ezza e depois Gamborie. Estavam cansados e esperavam poder descansar, mas assim que se ergueram perceberam os soldados. Era uma situação pela qual Gamborie não esperava, já que aquele local da muralha não era muito conhecido, mas Ezza esperava e por isso não ficou surpresa.

― Ezza, os soldados estão procurando você. ― Mabuchi a informou temeroso.

― Você se lembra de mim, Ezza? ― Jonks lhe acertava olhos fulminantes.

”Ele encontrou o corpo”, concluiu ela. Se virou para Gamborie, ignorando totalmente Jonks, aproximando-se de seu ouvido para que os outros não escutassem.

― Cuide da corda. ― Disse ela, mas a frase vaga o deixou confuso.

― Sua cadela maldita, está me ignorando?! ― Jonks ficou furioso.

Jonks era um Capitão do Exército, mas não passava de uma criança birrenta para Ezza que não era mais velha que ele, mas tinha muito mais maturidade. O Capitão era alto e de pele castanha como Ezza, olhos negros e cabelos cortados no padrão militar, tinha melhor porte físico que ela, contudo a garota não se intimidou.

― Se veio aqui me matar, então mate! ― Provocou ela.

Ele disparou furiosamente em sua direção carregando a espada que pertenceu ao seu Mestre, antes que pudesse erguê-la contra Ezza, Saulo entrou na frente o parando com sua espada.

― Quer ferir uma garota com as mãos limpas? ― Saulo segurava com toda sua força a lâmina inimiga. ― Onde está sua honra?

― Não se meta! ― Jonks chutou o rapaz no estômago o jogando para o lado.

Procurou Ezza, mas ela havia desaparecido. Gamborie não deixaria as coisas assim, partiu para cima de um dos soldados e com um soco certeiro o derrubou, tomou sua clava e começou a atacar o restante.

― Ajude quem puder, precisamos continuar nosso trajeto! ― Pediu Gamborie e começou a duelar com um soldado próximo.

Tito era um homem robusto como sua esposa, mas tinha porte para combates físicos.

― QUEM NÃO FOR CAPAZ DE LUTAR TIRE A CORDA, ANTES QUE ELES A PEGUEM! ― Gamborie gritou ao restante, que se resumia em Aura, Marta e Mabuchi.

Jonks passou perseguir Mabuchi que corria na direção da corda, quando ele percebeu já era tarde, a lâmina já estava sobre o seu rosto. Sentiu uma pancada que o jogou para o lado, Ezza havia o chutado sem cerimônia. Mabuchi rolou ralando todo seu corpo.

― MORRA! ― Jonks atacava a garota com repetidos golpes verticais, Ezza afastava-se com dificuldade.

Um golpe horizontal fez um pequeno corte em seu rosto e ela recuou cambaleando para fugir do ataque, Jonks investiu na vertical para finalizar o golpe, mas Ezza lhe chutou a mão e a espada voo para longe. Antes que ele a recuperasse, ela lhe deu uma rasteira que quase o derrubou. Ezza ficou de pé e colocou seus punhos frente ao rosto ofegante.

― Por que não vem na mão? Está com medo? ― Ela desafiou.

Jonks foi mais rápido e acertou o punho da esquerda no maxilar de Ezza, ela caiu no chão zonza com o impacto. O Capitão a segurou pelo pescoço com uma mão, apertava forte para sufocá-la.

― Você deveria se colocar em seu lugar! ― Ele avisou com os dentes cerrados.

Ezza ainda estava zonza, mas conseguiu rolar por cima dos ombros e se livrar da mão de Jonks. Era habilidosa, o que revelava que Ezza sabia um pouco de artes marciais, no entanto ela era muito mais lenta do que o guerreiro. Assim que caiu agachada levou um chute no peito e voltou ao chão. Jonks procurava sua espada ao redor, quando o Capitão se distraiu, Ezza se levantou e lhe acertou um chute lateral nas costelas. Jonks desequilibrou, mas avançou com uma joelhada que fincou duramente no estômago da garota. Ezza perdeu todo o ar e ele completou com uma forte cabeçada que a fez cair totalmente fora de si.

― Você precisa de muito mais para ser uma guerreira, não sei como matou meu Mestre, mas sei que você não o deixou lutar! ― Ele despejou sua raiva e cuspiu sobre ela. ― Vou encontrar algo para arrancar sua cabeça, depois vou levar preso todos esses idiotas!

Aura observava tudo de longe assustada, Ezza estava atordoada no chão e com sangramento por todo o rosto. Aura ficou paralisada, Tito e Gamborie lutava contra alguns soldados, contudo eles também estavam apanhando. Saulo protegia Mabuchi dos soldados que tentavam roubar a corda, ele lutava ferozmente, mas eles eram mais habilidosos.

“O que eu faço?”, se agachou e tapou os ouvidos. “Me ajude”, pediu aos céus. Estava aos prantos quando escutou um chiar estranho, olhou ao redor procurando a fonte do barulho, mas não encontrou. O chiar se repetiu como o de um pássaro, olhando para baixo da muralha, Aura mal acreditou no que seus olhos estavam contemplando, sentiu um misto de emoção e admiração lhe tomar.

Jonks pegou a espada do chão e assim que virou recebeu um soco certeiro no nariz que o deixou tonto com a dor, Ezza acertou mais socos diretos um atrás do outro até que o rapaz sucumbisse. Estava tonta pela cabeçada então não conseguiu reagir quando Jonks a acertou com um chute na horizontal ainda em solo, Ezza foi ao chão novamente. Jonks se ergueu e mirou seu pé para acertar a garota caída, mas paralisou o golpe ao escutar um chiar agudo vindo de algum lugar.

Todos pararam para observar a criatura que surgiu voando majestosamente, era tão grande que ao pousar ao lado de Aura a fazia menor que suas patas. Aura o contemplou deslumbrada e ele retribuiu o olhar.

― Você…? ― Ela abriu um sorriso de esperança.



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