Volume 4

Capítulo 823: Nuvens Negras Sobre Hermes

Embora nevasse um pouco, era um dia agradável na Região Norte.

Por puro tédio, Nils passava óleo lubrificante no cano da arma. Ele ocasionalmente olhava para a Cordilheira Intransponível com a luneta. Ultimamente, ele não observava as montanhas com tanta frequência. Normalmente, ele checava de duas a três vezes por dia e passava o resto do tempo fazendo manutenção na arma e conversando com seus companheiros.

Para fazer manutenção na arma, o soldado precisaria ser muito bem orientado. A cada quinze dias ou mais, cada soldado receberia uma “barrinha de óleo lubrificante” [1] do tamanho de um polegar. Diziam que esses produtos eram feitos a partir do óleo descartado da fábrica de sabão. Para usá-lo, eles precisavam esquentar a “barrinha de óleo lubrificante” e depois passá-la na vareta de limpeza, que tinha uma escova nas duas extremidades, uma maior e outra menor . Em seguida, inserir a vareta de limpeza no cano da arma e no cartucho para limpar e lubrificar. No passado, cada esquadrão recebia apenas um conjunto de ferramentas de limpeza. Mas agora, já que havia cada vez mais fábricas na Cidade de Primavera Eterna, as varetas de limpeza haviam se tornado acessórios básicos para as armas, e todo mundo tinha uma.

Claro, se não houvesse alguma fogueira por perto, eles poderiam esquentar a “barrinha de óleo lubrificante” com a temperatura do corpo ou da boca. Embora fosse proibido comer esse óleo descartado, alguns soldados haviam desenvolvido o hábito de esfregar a barrinha de óleo na comida, como uma espécie de tempero.

Como líder de esquadrão, Nils preferia fingir que não estava vendo nada.

Afinal, as equipes responsáveis por proteger a Região Norte eram basicamente compostas por veteranos. Alguns eram até mesmo vinte anos mais velhos do que ele. Se ele não tivesse recebido aulas de educação básica, certamente não teria sido selecionado como líder de esquadrão. Ele poderia apenas sorrir para aqueles que costumavam ser seus colegas com a mesma posição no passado.

Após montar as partes, uma por uma, o rifle se mostrou lustroso novamente. Ele pressionou o gatilho várias vezes para se certificar de que o rifle vazio estava funcionando adequadamente. Em seguida, ele pegou a luneta e olhou novamente para a Cordilheira Intransponível. Nada à vista.

Ele ainda não conseguia se esquecer da batalha defensiva que havia acontecido no outono. Toda vez que ele fechava os olhos, a imagem daquela menina inocente lhe vinha à cabeça. Foi nesta torre que ele havia presenciado a morte dela. Ele sabia que ela era uma inimiga e uma Bruxa Pura da Igreja, mas a dor que ela havia mostrado ao ser atingida pelos projéteis ainda o fazia sentir-se desconfortável. Se não fosse pelo comando de Machado de Ferro e pela lealdade à Sua Majestade, ele teria escolhido deixar o exército e voltar para o seu antigo trabalho, como operador de máquinas a vapor na Área de Mineração.

Embora ainda servisse ao Primeiro Exército, Nils havia pedido para sair da equipe de metralhadora e se tornar um “observador” que protegia uma das torres. Ele sabia que estava enganando a si mesmo, mas ele não conseguia superar esse obstáculo em seu coração.

O campo de batalha, que meses atrás estava coberto de sangue, agora havia retornado ao normal, como se nada tivesse acontecido. Os arames farpados já haviam sido retirados há muito tempo, deixando apenas várias estacas de madeira secas enfiadas no chão. As trincheiras também estavam cobertas de neve. Se não fosse pelas torres de metralhadora, ninguém saberia que aqui era uma base do Primeiro Exército. Ninguém saberia que neste lugar havia morrido mais de duas mil pessoas.

— Chefe, a lenha está acabando. Posso ir pegar mais? — Um soldado, tão jovem quanto Nils, disse. A lenha, que ele havia mencionado, eram as estacas de madeira espalhadas pelo campo de batalha que eles antes usavam para colocar os arames farpados. O soldado continuou: — Caso contrário, o outro esquadrão vai dizer que pegamos toda a lenha e esquecemos de reabastecer.

— Mas é horário de serviço agora… — Nils balançou a cabeça e disse. — Você vai ser visto pelos outros, e talvez te relatem aos superiores, dizendo que você abandonou seu posto.

— Eles não vão dizer nada. — Um veterano disse, rindo. — Tá tão frio hoje. Ninguém vai ligar se sairmos pra pegar lenha, já que só queremos nos aquecer. Já se passaram vários meses desde que os covardes da Igreja recuaram. Você acha que eles virão hoje?

Todos os outros soldados concordaram com as palavras do veterano.

Nils também sabia que o veterano estava certo. De primeira, Machado de Ferro havia designado quinhentos soldados para ficar no sopé da Serra do Vento Congelante a fim de conter uma possível reação da Igreja ou uma invasão de bestas demoníacas. No entanto, para a surpresa de todos, nenhum inimigo havia aparecido. Com o tempo, talvez por não mais acreditarem que os inimigos viriam, os superiores transferiram mais de duzentos soldados para outros lugares e dividiram o resto dos soldados em equipes de patrulha, cuja missão era ficar em torres de metralhadora para monitorar o noroeste em turnos.

Nils hesitou, mas no final concordou com o veterano e disse:

— Você sozinho seria muito lento. Leve mais pessoas com você.

O soldado respondeu:

— Sim, chefe!

Nils virou de costas e pegou a luneta para olhar em direção ao campo nevado. Tudo o que ele conseguiu ver foi a neve branca. Nada havia mudado.

Quando Nils estava prestes a tirar o olho, ele de repente viu dois ou três pontinhos negros, que eram particularmente chamativos em meio à neve branca.

Ele ficou atônito e gritou:

— Esperem!

Os soldados, que estavam prestes a descer as escadas, pararam imediatamente, e os outros próximo à fogueira se levantaram rapidamente e se aproximaram.

— O que foi que aconteceu?

Nils limpou a lente da luneta na sua gola de lã e olhou novamente em direção ao noroeste. Ele viu mais pontinhos negros. Ele segurou o fôlego por um momento ao descobrir que havia um grupo de pessoas caminhando pela neve.

— Sopre a corneta para alertar os soldados! Pessoas se aproximam!

— Uoooo-Uooooo-Uooooooooooo-Uoooooooooooooooooo — Quando a corneta soou, o acampamento ficou em total alerta.

Com o rifle na mão, Nils levou os soldados para fora da torre e pediu para que eles se enfileirassem e se agachassem, posicionando suas armas acima dos sacos de areia, que estavam cobertos de neve. Já que as trincheiras haviam sumido em meio à neve, eles tinham que adiantar a linha ofensiva a fim de proteger os soldados que operavam as metralhadoras pesadas nas torres.

— São da Igreja? — Alguém perguntou.

— E quem mais viria dessa direção? — O veterano murmurou, descontente. — Faz meses que a Serra do Vento Congelante foi abandonada por Sua Majestade. Somente as pessoas de Hermes viriam dessa direção. Eu subestimei a coragem deles.

— Eu espero que eles não sejam aqueles guerreiros monstruosos que não sentem dor. Nós não temos o suporte do Batalhão de Artilharia desta vez.

— Não precisamos ter medo. Eu não acredito que eles possam correr rapidamente com a neve na altura dos joelhos. — O veterano falou. — Caso estejam usando armaduras, eles com certeza vão afundar na neve e se tornar nossos alvos.

— Chefe, a que distância eles estão?

— Uns mil metros. — Nils respondeu, franzindo as sobrancelhas. — Isso é muito estranho. Tem algo de errado…

— O que é estranho?

— Eles não parecem… Guerreiros da Punição Divina.

— Então a Igreja só mandou Guerreiros de Julgamento? — Todos os soldados se sentiram aliviados. Se fossem apenas Guerreiros de Julgamento, os inimigos nunca conseguiriam se aproximar das metralhadoras pesadas nas torres.

— Não, não são Guerreiros de Julgamento… Eles não estão usando armaduras. Na verdade, as vestes deles estão em farrapos. — Nils, segurando a luneta, disse, surpreso. — Deus! Como eles conseguiram chegar até aqui nessa neve? Eles parecem… refugiados!

— Ou talvez Guerreiros da Punição Divina disfarçados de refugiados. — O veterano deu de ombros. — Ei, pra onde você está indo?

— Vou pedir para que parem! — Nils disse sem olhar para trás. — Caso contrário, os outros esquadrões vão atirar neles!

[1] – Imaginem uma espécie de gordura vegetal, só que ideal para lubrificar maquinários. A imagem que deixei anexada ao termo não é a mais adequada, mas dá uma ideia de como parece para os soldados, com exceção da cor.

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