Volume 4

Capítulo 789: Reservatório de Almas

— Isso é… muito gostoso! — Phyllis finalmente parou depois de devorar a comida por um bom tempo.

As pessoas que passavam pelo local ficavam todas chocadas quando viam as inúmeras caixas de hambúrgueres e pastéis de nata empilhadas em cima da mesa. Essa quantidade de comida aparentemente era o bastante para alimentar cinco ou seis pessoas. No entanto, eles só viam três pessoas sentadas ali, e duas delas eram garotas bonitas e magras, que certamente não comeriam aquela quantidade. Diante disso, a maioria das pessoas que passavam achava que Roland era o guloso.

Ao ver a expressão de desdém no rosto dessas pessoas, Roland se sentiu impotente, mas ao mesmo tempo feliz por ter escolhido uma lanchonete barata ao invés de um restaurante caro. Caso contrário, Phyllis teria acabado com todo o dinheiro dele. Ele disse para Zero:

— Limpe a boca dela.

A garotinha pegou um guardanapo para limpar a sujeira no canto da boca de Phyllis. Graças à beleza natural de uma bruxa, Phyllis não precisava de maquiagem. Caso contrário, ela ficaria horrível após comer essa quantidade absurda de comida com lágrimas no rosto. Essa provavelmente era a primeira vez que a garotinha conhecia uma pessoa tão miserável que até mesmo os lanches de um KFC a faria chorar. Por pura compaixão, a atitude de Zero em relação a Phyllis havia mudado completamente.

Roland bebeu um pouco de refrigerante e disse para Phyllis:

— Aqui estão os sorvetes de casquinha, mas vamos falar do Mundo dos Sonhos primeiro. Antes de entrar, você percebeu alguma coisa estranha?

— Mas… — Phyllis olhou para a garotinha sentada ao lado e hesitou.

Roland piscou o olho para a bruxa de Taquila e disse:

— Está tudo bem. É apenas um sonho que você teve na infância.

Ela imediatamente entendeu as intenções de Roland e falou:

— Ah, bem… Aconteceu há muito tempo. Deixe eu pensar… Não, nada de especial. Eu só me encostei na parede e me desconectei. Dessa forma, eu consigo me recuperar rapidamente sem ser pega com a guarda baixa.

— Mesmo depois de se desconectar, você consegue sentir as mudanças ao seu redor?

Ela assentiu com a cabeça, dizendo:

— Sim. Ao fazer isso, eu paro de controlar meu corpo e mando minha consciência para a escuridão. Nessa escuridão, eu ainda consigo sentir os perigos que me rodeiam, mas eu não os vejo, nem os ouço. É uma sensação difícil de descrever. É como se tivesse outra pessoa na escuridão que me avisasse dos perigos. Celine chama esse fenômeno de conexão subconsciente. Só quando somos armazenadas no Reservatório de Almas é que ficamos verdadeiramente inconscientes.

Zero franziu os lábios, perguntando:

— Do que vocês estão falando? Quem é Celine?

— Uma psicóloga. Não se meta em conversa de adulto. — Roland olhou para Zero e continuou: — Caso esteja se sentindo entediada, pode passear pelo parque, mas não se distancie muito da gente.

Zero deu um “humpf” e foi embora, descontente, com o sorvete de casquinha na mão.

Ao olhar para a garotinha pela janela, Phyllis perguntou:

— É seguro deixá-la sair sozinha?

Roland deu de ombros e disse:

— Vai ficar tudo bem. Este mundo é seguro, e ela é uma garota esperta. Vamos continuar.

— Certo. Quando estou no sono profundo, não consigo fazer nada, exceto vagar pela escuridão infinita, onde não há luz, nem som. — A bruxa de Taquila parou de repente, mas logo continuou: — No entanto, desta vez, no meu sono profundo, eu vi sua residência nesse Mundo dos Sonhos. Eu fiquei completamente atônita quando isso aconteceu. Felizmente, no momento seguinte, eu vi você.

Após pensar um pouco, Roland disse:

— Bem… A única coisa diferente nisso tudo foi que você dormiu no meu castelo.

— Sim, só isso. — Phyllis engoliu o resto do sorvete de casquinha e deu um longo suspiro de satisfação.

Ao ver a casquinha do sorvete desaparecer na boca da bruxa de Taquila, Roland de repente teve uma ideia.

— Feixes de luz!

— O quê?

— Você me disse que, quando eu durmo, aparece um feixe de luz do tamanho de uma muralha, não é?

Phyllis ficou surpresa e pareceu ter entendido.

— Sim, é verdade.

— E você também tem um feixe de luz, né?

— O senhor quer dizer que… nossos feixes de luz se conectaram?

— Sim. Meu castelo é apenas uma construção normal. Ele não tem o poder de te trazer pro Mundo dos Sonhos. Somente nossos feixes de luz podem fazer isso. — Roland de repente juntou as mãos. — Mas essa conexão de feixes de luz não explica tudo. Pra chegar aqui, parece que também é necessário se desvincular da consciência. Senão Anna, Rouxinol ou alguma outra bruxa teria vindo pro Mundo dos Sonhos antes de você.

Ao mesmo tempo, Roland se lembrou de algo. A palavra “alma”, usada pelas bruxas de Taquila, sempre o intrigou.

Elas haviam transferido suas respectivas almas para receptáculos diferentes, tais como as Bruxas da Punição Divina e aqueles Portadores deixados pela civilização subterrânea. Porém, elas nunca haviam explicado para ele o que eram essas almas.

Com base no que ele sabia, a alma de uma pessoa era a unificação de suas memórias e pensamentos, que eram gerados pela comunicação entre os neurônios através das correntes elétricas. Ele não acreditava que a alma era algo real que podia continuar a existir depois de sair do corpo. No entanto, as bruxas de Taquila haviam dito que o Reservatório de Almas, também conhecido como Núcleo de Almas, da civilização subterrânea conseguia não apenas extrair a alma de um ser, como também inseri-la em outra coisa.

Roland havia atribuído tudo isso às maravilhas criadas pelo poder mágico, mas agora ele pensava diferente.

E se for possível acessar as memórias e os pensamentos de alguém? Se os feixes de luz e o poder mágico realmente vêm da Lua Sangrenta, essas “almas” também podem vir de lá. Quando o Reservatório de Almas (ou Núcleo de Almas) é ativado para extrair a alma de alguém, as memórias e os pensamentos dele ou dela são de algum modo copiados e armazenados na Lua Sangrenta. Os feixes de luz serviriam apenas como as rotas de transmissão.

Pasha costumava dizer que o processo de transformação de poder mágico em algo real era extremamente complicado, e que por isso as divindades haviam assumido esse papel e distribuído feixes de luz de diferentes tamanhos para as bruxas. Estando certa ou errada, a teoria dela, até certo ponto, explicava por que os feixes de luz das Bruxas da Punição Divina haviam ficado mais finos após a Transferência de Alma. Transferir as memórias e os pensamentos de alguém seria muito mais fácil do que transformar o poder mágico em diferentes habilidades no Mundo Real. Diante disso, esse processo de Transferência de Alma não precisaria de uma rota larga de transmissão.

Meu Mundo dos Sonhos é muito mais complicado do que a maioria das habilidades das bruxas. É por isso que minha rota de transmissão, ou melhor, meu feixe de luz é tão largo quanto a muralha de uma cidade. Quando Phyllis desligou a própria consciência dentro do meu feixe de luz, os pensamentos e as memórias dela se conectaram com meu Mundo dos Sonhos. Foi assim que ela veio parar aqui. [1]

Roland ficou empolgado com essa descoberta, já que essa teoria parecia explicar todas as coisas que o haviam intrigado por muito tempo. Se a conexão de feixes de luz realmente havia trazido Phyllis para o Mundo dos Sonhos, isso indicava que este mundo também fazia parte da Lua Sangrenta. Por meio da habilidade de Zero, ele de algum modo havia criado este mundo no Domínio Divino do Poder Mágico.

Quando Roland estava prestes a contar tudo isso a Phyllis, uma explosão bem forte veio da lanchonete ao lado, precisamente do McDonald’s. Pessoas fugiam em pânico, chorando e gritando, o que fez os clientes da lanchonete KFC ficarem nervosos e confusos.

[1] – Hora de explicar a teoria por trás disso. Pelo que entendi, Roland acredita que todas as informações são guardadas num lugar, que ele supôs ser a Lua Sangrenta. Os feixes de luz seriam os tubos por onde correm essas informações. Portanto, se o feixe de luz é mais grosso, quer dizer que ele transfere mais informações. O de Roland é gigante porque o Mundo dos Sonhos contém mais informação do que qualquer outra coisa e é muito mais complexo. Quando Phyllis se desconecta do corpo, a alma dela precisa se conectar com a Lua Sangrenta pelo feixe de luz, mas como ela estava dentro do feixe de luz de Roland, ela acabou indo para o “espaço no HD” reservado para Roland. É como se cada feixe de luz ocupasse um espaço desse HD, mas o de Roland ocupa uma parte muito grande. E Phyllis, que pode se desvincular totalmente do corpo, conseguiu ter acesso a esse espaço de Roland.

Faz muito sentido Phyllis conseguir entrar no Mundo dos Sonhos. Pensem bem, as almas absorvidas por Zero não são diferentes das almas que ocupam as Bruxas da Punição Divina. A diferença era que antes as almas ocupavam o corpo de Zero e não tinham controle sobre ela. Quando o Mundo dos Sonhos foi criado, essas almas foram sugadas pela “Lua Sangrenta” e passaram a fazer parte do Mundo dos Sonhos. A única diferença é que Phyllis tem autonomia sobre si, mas as almas consumidas por Zero, não. Por que Phyllis tem autonomia? Provavelmente porque ela tem um link de conexão com o Mundo Real, que seria o receptáculo dela. Ela tem um lugar para onde voltar.

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