Volume 4

Capítulo 704: Uma Conversa Entre Eras

Número 76 fechou a porta do cubículo [1] para abafar o barulho da taverna e, em seguida, aproximou-se de Agatha e sentou-se de frente a ela.

Número 76 sabia que ela seria facilmente exposta se agisse sozinha e se afastasse das bruxas do Reino de Coração de Lobo, mas esconder a identidade já não era mais uma prioridade para ela agora.

— Pensei que você me levaria para algum lugar isolado. — Agatha olhou ao redor do cubículo. — Nunca imaginei que você me traria aqui.

— As tavernas sempre foram bons lugares para trocar informações e se manter em contato, minha Lady. — Número 76 encheu um copo de cerveja para Agatha. — Espero que a senhora me perdoe por não te levar para um lugar mais elegante que este. Afinal, este é apenas o meu segundo dia na Cidade de Primavera Eterna.

Conversar numa taverna faria Agatha se sentir mais segura, já que havia diversas pessoas. Nenhuma das duas temia o frio que estava lá fora, mas Agatha com certeza não aceitaria conversar com uma estranha num lugar isolado. Até mesmo Número 76, se estivesse no lugar de Agatha, não aceitaria algo assim.

Mais importante ainda, já que ela não tinha nenhuma hostilidade em relação à Cidade de Primavera Eterna, nem à União das Bruxas, ela não se considerava uma inimiga. Ela só havia se escondido até agora porque queria encontrar a Escolha Divina. Já que havia surgido uma forma melhor de fazer isso, não havia mais a necessidade de seguir o plano original.

As pessoas comuns e as bruxas encaravam agora um inimigo em comum. O perigo estava logo adiante.

— Como você me encontrou em apenas dois dias?

— Eu tentei descobrir onde a senhora trabalhava, o horário que a senhora retornava ao castelo e por onde a senhora passava… Eu fiz as bruxas do Reino de Coração de Lobo perguntarem a Wendy as duas primeiras coisas, e ouvi alguns moradores dizendo que a senhora passava todo dia por aquela rua estreita. — Número 76 foi curta e direta. — Depois que eu soube que a senhora pertencia à União das Bruxas, decidi tomar a iniciativa de entrar em contato com a senhora.

— Entendi. — Agatha olhou para ela, interessada. — Então há outras bruxas de Taquila que sobreviveram?

— Sim, mas elas não são mais bruxas. — Número 76 sabia que a única razão pela qual Agatha estava disposta a falar com ela era porque ela tinha notícias sobre Taquila, então ela não escondeu nada sobre isso. — Já que não havia forma de preservarmos nossos corpos por centenas de anos, tivemos que adotar outra medida para estender nossas vidas. Por exemplo, o corpo que a senhora está vendo agora pertence a uma Guerreira da Punição Divina da Igreja.

— Você quer dizer… que não apenas você pode controlar o corpo, como também possui o poder para ativar o domínio da Pedra da Retaliação Divina?

— Sim, esse foi o objetivo da Lady Alice. Criar Guerreiros da Punição Divina que podem combater os demônios. Chamamos eles de receptáculos, e eles são bem resistentes. Caso sejam feridos gravemente, só precisamos migrar nossas almas para outros receptáculos e formaremos novas “Extraordinárias”.

— Eu sabia que o plano dela não era tão simples assim. — Agatha ficou em silêncio por um longo tempo e, logo depois, terminou de beber a cerveja. — Mas a julgar pelo seu tom de voz, parece que as outras sobreviventes de Taquila não gostaram muito dessa ideia. E… Por que você está aqui?

— Antes de lhe responder, gostaria de lhe fazer uma pergunta muito importante. — Número 76 disse em voz baixa.

— Vá em frente.

— A senhora já contou tudo para a União das Bruxas? Digo, sobre os demônios, a Batalha da Vontade Divina e a Aliança?

Agatha assentiu com a cabeça.

Número 76 de repente mostrou um sinal de ânimo.

— E como elas reagiram? Elas acreditaram na senhora?

— Não apenas elas acreditaram na informação, como também já começaram a se preparar para a terceira Batalha da Vontade Divina. — Agatha respondeu. — Na verdade, pouco tempo atrás, a União das Bruxas confrontou alguns demônios, matando um Eversivo Mágico e dois Demônios Temíveis.

Número 76 cerrou os punhos, animada. Era como ela havia imaginado. Agatha já havia revelado a informação para as bruxas locais. Neste caso, a União das Bruxas e Taquila haviam se tornado aliadas naturais, o que significava que ela não precisava mais esconder a identidade e poderia ir direto ao ponto.

Embora ela estivesse curiosa em como a União das Bruxas havia derrotado um Demônio Sênior antes da chegada da Lua Sangrenta, havia algo mais urgente que ela precisava discutir.

Sem hesitar, Número 76 contou tudo sobre o confronto entre Natália e Alice, e também sobre o plano da Escolha Divina.

— Eu descobri que a bruxa, que pode ativar o Instrumento da Retribuição Divina e aniquilar todos os demônios, vive no Castelo, e espero que a senhora possa me ajudar a identificá-la.

Agatha ficou um pouco surpresa.

— Existe uma bruxa que pode ativar isso?

— Sim. — Número 76 pegou o Anel Mágico e colocou na frente de Agatha. — Esse anel me foi dado por Lady Pasha. Se alguma bruxa invocar o poder mágico dela, poderei, por meio desse anel, ver um feixe de luz laranja que simboliza a “Chave” da respectiva bruxa.

Agatha franziu os lábios e pegou o anel. Ela observou por um instante e disse:

— Sugiro que você fale com o Lorde de Primavera Eterna.

— Claro, vou explicar tudo a Wendy… Espere! — Número 76 ficou surpresa. — O Lorde de Primavera Eterna? A senhora se refere… ao líder local das pessoas comuns?

— Sim, Roland Wimbledon, uma pessoa comum, que também é um pouco teimoso. — Um leve sorriso apareceu nos lábios de Agatha. — Ele é o núcleo da União das Bruxas.

Número 76 franziu as sobrancelhas e disse:

— Eu não entendo… O que a senhora quer dizer?

— Eu era igual a você no início. — Agatha entregou o anel de volta. — Mas rapidamente percebi que, sem Roland, a União das Bruxas não existiria, a Cidade de Primavera Eterna nunca estaria do jeito que está agora e o Reino de Castelo Cinza nunca teria derrotado a Igreja. Todas essas conquistas partiram dessa pessoa comum. Se você quiser encontrar a Escolha Divina e levá-la com você, é com Roland que você precisa falar, não com Wendy.

— Mas…

— Não se preocupe, ele sabe muito mais do que você imagina. — Agatha riu. — Você sabe o que ele me disse logo depois que eu acordei do Caixão de Gelo? Ele me disse que as pessoas comuns podiam derrotar os demônios.

— Mas isso é muito…

— Arrogante, né? — Agatha interrompeu. — É, eu sei. Mas na verdade, eu vi esperança nele. Um tipo de esperança que todas as bruxas da Cidade de Primavera Eterna acreditam de coração. Portanto, se Taquila quiser trabalhar com a União das Bruxas para lutar contra os demônios, você deve conseguir a aprovação de Roland.

Por um momento, Número 76 não conseguiu acreditar em seus ouvidos. Se fosse uma bruxa selvagem falando isso, até que faria sentido. Afinal, mais de quatrocentos anos haviam se passado desde o período em que a Aliança reinava absoluta. Mas ela não entendia por que Agatha, que era uma bruxa autêntica de Taquila, tinha tanta fé numa pessoa comum.

Número 76 pegou o anel e ficou em silêncio por um instante antes de dizer:

— Por favor, dê-me um tempo para pensar nisso.

Logo após, ela se levantou para saudar Agatha novamente e, em seguida, saiu da taverna.

[1] – Como dá pra ver na imagem anexada ao texto, um cubículo de taverna é uma partição menor dentro do estabelecimento, que os clientes usam para beber em privacidade com os amigos. Normalmente tem uma porta para fechar; e um sino para tocar, caso queiram alguma bebida.

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