Volume 1 – Arco 2
Capítulo 16: Fim do Ciclo
— Você sabe porque há três sóis no céu diurno?
— Como é? — questionou Talyra
— Essa é a pergunta que eles fazem para todo indivíduo que recebe uma missão pessoal d’O Círculo. O ponto dela é que ninguém sabe a resposta.
— Eles quem? — Vaia se inclinou mais à mesa
— O grupo que se autodenomina a Elite d’O Círculo e, por consequência, do mundo místico por completo — Jasmyne, em sua altura imponente, observava a todos na mesa com um semblante sombrio
— Espera… — interveio Cálix. Ele entregou a bebê nos braços de Talyra
— Cálix, moleque… — disse Heinrich
Cálix bateu com as mãos na mesa, frustrado, ele se levanta, derrubando a cadeira no processo.
— Como sabemos que podemos confiar em você? Lembre-se, você ainda é uma assassina maculada pelo seu misticismo
— Vai querer comentar de algo assim? Com essa aberração no barco? — disse a mulher, apontando para Vaia
Ela começou a suar frio, nervosa com o repentino ataque à sua pessoa. Ela não poderia deixar apenas palavras a ferirem. Contudo, a postura, o tom de voz e a presença assustadora deixavam Vaia estressada como nunca.
Num reflexo quase instantâneo, Lâmina Gélida estendeu o braço para alcançar sua espada, apoiada no canto da mesa.
— Cálix, por favor. Prometemos manter uma neutralidade e bom-comportamento aqui — disse ele, logo após, ele segura o cabo da arma — Já você, xamã… recomendo que meça suas palavras
Jasmyne estava sendo contrariada por todos naquele momento, até mesmo a pequena maga a encarava com certo desprezo. Diante da posição que se encontrava, ela sentia que tinha uma concentração de Aura muito maior que a dos jovens juntos.
Entretanto, algo, no fundo do ser dela, dizia para ela não realizar nenhum ato agressivo na direção da criança, nem dos jovens.
— Pessoal, por favor… — resmungou Heinrich em uma voz cansada
— Dona Thuzaryn… peço para que deixe as provocações para outras pessoas — disse Mirele sem nem olhar para a mulher, apenas mastigando seu peixe
Milene acenou com a cabeça em concordância com a irmã.
— Certo… Eu digo… Vocês podem confiar em mim, afinal, eu sou a única fonte de informação que vocês têm — Jasmyne soltou da cadeira de Heinrich e começou a rondar a mesa
— Hmpf! — bufou Cálix
— Alguma dúvida?
Talyra foi a primeira a levantar a mão
— Sobre as classificações de cores por missão… como funciona, exatamente?
— O Círculo separa os tipos de missões em três cores principais, os tipos de missão mais comuns: Verde para busca de artefatos ou objetos; vermelho para missões de caça e assassinato e azul para missões de escolta e proteção de alvos de alto valor.
— E a cor da carta que a xamã recebeu era vermelha, assim como as cartas que caíram com o objetivo de te eliminar? — perguntou Milene
— Não, na verdade… Minha carta… — Jasmyne levou sua mão às costas, para dentro de uma bolsa de couro. Tirando de lá um pedaço de papel vermelho-escuro, bem escuro, mas não brilhava, parecia estar… apagado… — É carmesim, difere um pouco do vermelho.
— Heinrich nos disse que se trata de uma missão especial concedida pelo Círculo após eles te considerarem digno…
— Você deve realizar uma demonstração de poder, ou fazer um sacrifício… — Jasmyne parou de andar por um instante — O meu feito… foi alcançar o quarto estágio do xamanismo
— Algo que ainda me faz coçar a cabeça… — disse Cálix — missões podem ser feitas em grupos, certo? Mas e no nosso caso? Nas nossas cartas, não está escrito nada sobre outros participantes nesta missão, mesmo assim, nosso objetivo é o mesmo.
Jasmyne olhou para o jovem de cabelos rosados, e fez um gesto de indiferença.
— Essa pergunta eu não vou saber responder… Sinto muito
— Serve pra nada, também, hein…
Jasmyne rangeu os dentes e sacou outro objeto de sua bolsa, um pequeno boneco de palha, com pétalas de ipê-rosa na cabeça. Deu-lhe um peteleco na cara.
Cálix sentiu o impacto no mesmo momento, caindo para trás.
— Jas! — exclamou Heinrich
— Me desculpe, Heinrich, mas esse moleque é insuportável!
— Enfim concordamos em algo, xamã — disse Lâmina
Vaia estava encolhida, um pouco triste até o momento. Quando Cálix foi acertado pelo boneco vudu, ela colocou a mão sobre a boca para segurar uma risada. Já Talyra nem se esforçou para rir bem alto.
A bebê riu também, parecendo agradada pela situação do clérigo.
— Que coisa, né… Sempre que o Cálix apanha a bebê fica feliz
— Xamã… vejo que está para graças também…
Cálix não tinha como prever aquilo, pensou em como poderia ter feito uma bênção com Teurgia, mas já era tarde.
“Pelo menos o clima aliviou um pouco” pensou.
— De qualquer forma… — disse Jasmyne, guardando o boneco de palha na sua bolsa — as missões também recebem outros dois tipos de classificação: o alcance e a dificuldade
— Alcance, como assim?
— É basicamente a área de atuação da missão. Quando estive conversando com a Elite d’O Círculo, eles não especificaram quais eram todos os graus dessas duas classificações — a xamã coçou a nuca.
Jasmyne explicou que as propriedades atribuídas à missão dela eram de grau nacional — possivelmente pelo fato da bebê estar dentro do território de Arquoia — e que era de dificuldade especial.
Na curiosidade, os jovens também pegaram suas cartas para verificar essa informação:
Também nula. Não havia nada descrito nos locais apontados pela xamã. Todos resmungaram de cansaço por ainda não terem as respostas que queriam — a perplexidade só aumentava.
— Isso provavelmente tem algum tipo de relação com o fato de vocês não serem considerados colegas de missão… precisam ter um objetivo em conjunto.
— Mas… não faz sentido! Nós temos um objetivo alinhado… Proteger a criança! — disse Talyra
— Estão certos disso? — perguntou Jasmyne. Ela olhava o oceano com uma preocupação crescente na voz
— M-Mas…
— Mas nada, maga! — gritou a xamã, se virando para a mesa de novo — As missões d’O Círculo se inclinam muito mais para o lado espiritual e emocional do que o próprio dever em si! Querem saber a minha dedicação em ir até essa ilha na casa do chapéu para matar uma criança?!
Talyra ficou quieta, todos ficaram. Jasmyne nem percebeu que estava com lágrimas nos olhos e se curvava diante de uma adolescente com uma bebê no colo.
Sua voz era trêmula, e ela parecia cada vez mais envergonhada da própria postura.
— Minha filha, morreu…
Repentinamente, as estrelas pareciam brilhar mais intensamente para Jasmyne. Ela olhou para cima, deixando que uma lágrima escorresse.
— Morreu sem que eu pudesse dar uma vida digna à ela… Estava doente…
…
— O Círculo havia me prometido que a conclusão da minha missão a traria de volta!
Cálix se sentia péssimo agora, não podia negar que estava diante de alguém que tirou a vida de muitas pessoas. Entretanto, será que suas mortes recentes foram sem sentido assim como ele imaginava? Os batimentos dela… Ela não mentia
Vaia estava destruída por dentro. Não conseguiu sequer soltar um som pela boca. Se sentia mal de ser comparada com a xamã, agora sabendo da situação dela. Vaia sentia o cheiro da mulher… nada soava falso.
Lâmina fechou o rosto e observou o corpo da xamã com mais intensidade: uma postura relaxada, que parecia apenas tentar manter o equilíbrio para não cair no chão, colapsar por completo… Nenhum instinto de luta…
E Talyra, segurando a bebê, arfou surpresa. A Aura da xamã, tinha a aparência escura de um lodo de pântano roxo, permeado por imagens leves de caveiras. Por um instante, o tom de cor se clareou para um lilás-claro… Ali também não havia mentiras.
— Se vocês realmente desejam suas recompensas pela missão. Devem colocar seu desejo de proteção acima de todos os seus princípios! Suas ambições pessoais
Jasmyne fechou o punho diante do peito, e abaixou a cabeça.
— Ao menos… vocês não estão matando pessoas… Eu…
Ela respirou fundo, incerta sobre como prosseguir, agora que se fragilizou frente aos jovens.
— Você não tem mais que matar a bebê, então…? — perguntou Cálix, hesitante
— Eu não ganharia nada com isso. Minha missão já foi desativada, o contato com os membros da Elite foi cortado também… — Jasmyne pegou sua carta de missão novamente, tentando se convencer.
O clima na mesa ficou extremamente denso, o apetite de todos sumiu num piscar de olhos.
Envergonhada, de tudo, Jasmyne aperta o passo para sair do convés. Batendo a porta da cabine de Heinrich ao entrar.
— Droga…
Cálix estava acabado, apesar de tudo o que ela fez… Ela mesma disse:
“Vocês teriam feito o mesmo no meu lugar”
“Eu nunca estaria no seu lugar, para começo de conversa”
Ele se lembrou da praça de Fajilla, do instante em que ergueu o punho contra Jasmyne. E da estranha sensação de que não conseguiria feri-la… a mesma fraqueza que sentia diante de Heinrich.
“Deus maldito…”
O jantar continuou com uma atmosfera triste, sem vida. Heinrich tentava superar a saída repentina da amiga após sua confissão. Entre o silêncio desconfortável da mesa e as palavras da xamã, alguns dos jovens não puderam evitar: começavam a repensar a moralidade dela.
No dia seguinte, Jasmyne voltava a observar as ondas na plataforma do leme. As ondas do Abismo Revolto estavam… estranhamente calmas. Ela sabia que Heinrich havia suspeitado dessa calma antes, mas ela se pergunta a razão.
Olhou para baixo, no convés, Lâmina e Mirele estavam fazendo uma prática de esgrima com as espadas de madeira de Heinrich. O barulho era irritante, mas dava um pouco de vida ao azul monótono do oceano.
Mirele pediu para que eles parem de lutar por um instante. Onde ela se dirigiu à um cantil com água para beber.
Ofegante e exausta, em comparação ao espadachim, Mirele parecia incrédula em como ele conseguia se manter sem cansaço.
— C-Como… Você nem sua!
Lâmina tirou um pedaço de papel do bolso de sua blusa e começa a olhar para ele fixamente:
— Acho que é a Aura fria, a maga falou isso pra mim quando estávamos em Fajilla. Meu corpo não se aquece, então, eu não transpiro.
“Realmente, há um abismo de diferença” Mirele pensou. Nunca conseguia acompanhar seus movimentos. Acertou um golpe de sorte em Fajilla por meio de uma distração.
Ela abaixou a cabeça…
—Não fique assim, pelo menos seu pai apoia você em suas ambições…
— E quem é essa? — disse ela, olhando para a mulher no papel que Lâmina observava.
A mulher de cabelos escuros e de roupão expressava um sorriso doce no retrato.
Lâmina geralmente reagiria de maneira negativa à uma pergunta como essa, mas ele confiava em Mirele. Ele se abaixa até chegar na altura da jovem e coloca a imagem perto do rosto dela.
— Essa aqui, é minha avó…
Mirele franziu a testa e massageou os olhos… Avó? Tão jovem assim.
— Todo treino que já fiz foi sozinho, já que ela sempre quis me proteger dos perigos. Por isso, imagino que seu sonho esteja mais próximo do que o meu… Essa missão de escolta… pode ser a minha chance de mostrar para ela, do que eu sou capaz — Lâmina olhou para o céu com um semblante calmo.
— Como exatamente essa persistência em não usar sua espada entra aí? Se quer mostrar todo seu potencial, use ela! — exclamou Mirele
— Bem, é meio constrangedor dizer isso… Mas… é que eu era incapaz de perder quando usava uma espada…
— Hã?
— Eu simplesmente nunca perdia um duelo. Deixava as coisas fáceis demais, por isso jurei nunca sacar minha espada. Apenas contra oponentes realmente fortes.
— Entendi… — Mirele ficou um pouco cabisbaixa novamente.
— Olha, se te animar dizer isso… Eu admito que toquei no cabo por um instante enquanto estávamos no outro navio do seu pai.
— Heh… Você é um ótimo guerreiro, Lâmina Gélida… Mas é um péssimo mentiroso…
Jasmyne parou de ouvir a conversa dos dois. Ela conseguia sentir a enorme Aura do espadachim, superando até mesmo a dela, isso não a assustava, entretanto. A Aura era grande, mas era instável e muito dessincronizada. O completo oposto da maga, com Aura pequena, mas tão refinada quanto ao de um usuário de Misticismo experiente.
A xamã não podia fazer nada se não observar, ouvir, confiar nela… Isso era uma decisão que se encontrava na mão daqueles quatro jovens. Do fundo da alma dela, ela queria ajudar, pois sabia que O Círculo enviaria mais alguém.
— Dona xamã?
Jasmyne virou-se para trás como um relâmpago, não havia sentido a presença de ninguém, muito menos o som dos passos. A mulher morena de vestido vermelho segurava a bebê de cabelos roxos.
A xamã foi surpreendida pela primeira vez na vida, não conseguia sentir a Aura da bebê, nem os passos de Vaia.
— Ah, senhorita… Desculpe, qual era seu nome mesmo?
— É Vaia, senhora.
Jasmyne pigarreou e se apoiou no corrimão da plataforma, passando a palavra para Vaia com um gesto de mão.
— Eu estou disposta a confiar em você… Os outros podem até não concordar comigo, mas vim aqui de boa vontade, falar para você que eu acredito.
— Peço desculpas pelo meu comportamento ontem na mesa, eu não tinha a intenção de ofender você.
— Não consigo entender como você deve se sentir, então imagino sequer falar sobre isso. Eu nunca tive filhos, então… Ouvir que você perdeu sua filha… Eu…
— Pare! Eu não preciso de seus pêsames… O pentelho de cabelos rosas está certo, eu sou uma assassina! E como já perdi tudo o que tinha, estou cedendo a informação que posso como vingança…
— Acho que você não viu, mas eu também fiz coisas horríveis, quase feri a filha de Heinrich e deixei Lâmina à beira da morte! — exclamou Vaia colocando a mão sobre o peito.
Os olhos da mulher de vermelho se encheram de lágrimas. Jasmyne apenas conseguiu se ver naquela situação, na mesma noite em que cometeu o massacre, neste mesmo barco. Agora ela se lembra…
Suplicou em seu coração, do fundo de sua alma para que aquilo acabasse. Sua sede por poder nunca trouxe a satisfação que tanto quis. As pessoas que feriu… Zaltan… a família dessa bebê…
— Você não viria aqui apenas para dizer isso. Vamos logo… — Jasmyne se virou para o oceano — diga o que quer saber.
Vaia limpou as lágrimas dos olhos, tomando cuidado para não borrar a maquiagem. Ela olhou para a bebê, refazendo sua promessa interna de nunca ferir ela, nem ninguém de novo.
— Tem algo nessa missão que ainda não faz sentido… Se O Círculo quer a bebê morta, por que eles enviaram você? Nossa missão já é a de deixar ela num posto de coleta…
— Como vocês devem ou não saber… a bebê não pode morrer por maneiras convencionais. Entretanto, ela ainda deve morrer, após isso, ela deve chegar no posto de coleta. Eu acredito que houve algum erro na missão de vocês… Talvez a classificação dela ou alguns passos que foram pulado.
— Mas, como um erro tão óbvio desse teria sido deixado passar pela tal Elite d’O Círculo?
— A Elite não cria as missões, eles apenas gerenciam elas. O sistema que produz as cartas é completamente desconhecido, mas, acredito se tratar de uma fonte de misticismo que ainda é desconhecido…
…
— Era isso?
Vaia aparece ao lado de Jasmyne, do mesmo jeito que ela não percebeu a jovem se aproximando, ela fica um pouco surpresa… Parando para reparar agora, Vaia não emitia uma sombra no convés, mesmo com todo o brilho dos três sóis.
— Toma, segura ela um pouco…
— Vaia… — Jasmyne olha, incrédula, para a mulher. Um voto de confiança já bastava. Ela estava com os braços estendidos, entregando a bebê para Jasmyne novamente.
A criança sorria com os olhos fechados em um semblante despreocupado e inocente. Jasmyne conseguia apenas ver o rosto da própria filha ali, muito antes de sentir que a abandonou, e a deixou morrer.
A xamã segura a bebê nos panos com muito cuidado, Vaia sorria para ela:
— Eles diriam que eu sou ingênua, mas penso que as pessoas de fato podem mudar…
Jasmyne lacrimeja um pouco, sentia seu poder enfraquecer… Mas não se importava mais.
Ela abraçou a menina, que deu algumas risadinhas leves e começou a mastigar o cabelo louro de Jasmyne. Tantas memórias desperdiçadas, tantos erros cometidos… Ela sentia o peso em sua alma se esvair aos poucos…
“Alessa… me desculpe…”
Jasmyne cai de joelhos, com as lágrimas genuínas saindo de seus olhos aos montes.
Vendo os jovens esses dias… ela descobriu que eram, de fato, ingênuos e um pouco impulsivos. Mas eram bondosos por coração, e queriam fazer o bem, proteger a criança, acima de tudo…
Jasmyne olhou para as escadas que desciam ao convés. Delas, subiam os outros… Cálix, Lâmina, Talyra.
— Putz, Vaia… Se ela estivesse nos enganando, eu teria te matado… — disse Cálix
— Xamã, posso dizer com certeza de que você está se curando, espiritualmente…
— Olhem, tem alguma coisa saindo de trás dela — comentou Talyra, apontando para a xamã
Fragmentos de papel, vermelhos como brasas, se dispersavam ao vento marinho. A carta de Jasmyne, símbolo de seu passado e de seus erros, se desfazia lentamente, como se finalmente liberasse o peso que carregava.
O cheiro de queimado misturava-se à brisa salgada, e, por um instante, tudo parecia lindo: a criança nos braços de Jasmyne, Vaia ao lado dela, e o convés tomado por uma sensação de renovação. Era o fim de um ciclo sombrio na vida daquela xamã.
Diante dos jovens, ela havia se redimido, mas será que o mesmo podia ser dito para o rei no qual ela tanto feriu o coração?
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