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Capítulo 47: A Batalha pelo Selo do Sábio (2)
— Ed Rothstaylor é uma pessoa que vale a pena usar.
Havia muita comida sobre a mesa.
A Princesa Penia não tinha um grande apetite, então mais da metade dos pratos ainda permanecia intocada.
Como membro da realeza, a comida em sua mesa sempre precisava ser farta e abundante.
Embora fosse um desperdício, ela não tinha permissão para fazer uma refeição simples devido ao seu status.
Depois de terminar de comer, a Princesa Penia dirigiu-se ao centro estudantil, no distrito dos professores, e encontrou um bom banco para se sentar.
Era um banco de madeira perto da praça, com uma mesa à frente. Não havia outro lugar disponível com uma sombra tão perfeita.
Assim que se sentou, os atendentes que a acompanhavam rapidamente abriram uma sombrinha, serviram seu chá com um conjunto de porcelana e usaram magia para ferver a água.
— Ele parece ter conhecimento sobre os assuntos internos da Família Rothstaylor. Ele tem fingido não saber de nada, mas talvez, se o persuadirmos mais, ele acabe abrindo a boca. Se conseguirmos convencê-lo a ficar do nosso lado, talvez ele possa agir como um espião.
De pé, com as mãos cruzadas atrás das costas, Claire continuava a falar enquanto a Princesa Penia bebia seu chá. A conversa iniciada durante o jantar ainda não tinha chegado a uma conclusão.
— ……
Ainda faltava um tempo até sua aula da tarde.
A Princesa Penia passou os dedos finos pelos cabelos loiros platinados e ergueu os olhos para o céu azul do outono.
Os Olhos Perspicazes de Penia gritavam o nome de Krepin Rothstaylor.
Ele se apresentava como um nobre benevolente e digno, mas havia uma escuridão viscosa e insana escondida dentro dele.
Porém, sem nenhuma prova concreta, ela não poderia fazer nada contra ele.
Ao menos, estava convencida de que o Selo do Sábio jamais poderia cair em suas mãos.
— Ouvi dizer que negociadores da Família Rothstaylor chegarão à Ilha Acken na próxima semana.
— Isso é estranho. A decisão de vender o Selo do Sábio é extremamente desonrosa, então era de se esperar que tentassem manter o máximo de discrição possível. Como Krepin, que é um terceiro interessado, conseguiu enviar negociadores?
— Aquele garoto… Pode ter sido através de um relatório de Ed. Como ele vive no campus, pode ter ouvido algum rumor.
— Ele teria algum motivo para isso? Ele já foi excomungado da família Rothstaylor, então não há razão para ainda ser leal a eles.
— Se eu estivesse no lugar dele, faria qualquer coisa para ser reconhecido novamente e poder retornar à família.
Claire expressou sua visão enquanto assentia.
Para aquele garoto, que vivia na floresta, o luxo da nobreza deveria ser algo difícil de esquecer.
Ela ouviu que ele passava por trabalhos árduos todos os dias, apenas para sobreviver… Talvez quisesse voltar à sua vida anterior.
"Depois de ser excomungado, ele parecia indiferente às dificuldades da vida. Será que foi tão difícil para ele suportar a diferença entre essa nova realidade e sua antiga vida como aristocrata?"
A Princesa Penia fechou os olhos suavemente, sentindo o peso da ironia em tudo aquilo.
— Bom, eu não acho que seja isso.
A resposta veio de outro lugar.
Claire e Penia viraram a cabeça em direção a um rosto familiar, enquanto uma garota se aproximava e se sentava de frente para Penia.
Seus olhos encantadores e os lábios ligeiramente curvados lhe davam uma aparência de demônio travesso.
Seus cabelos avermelhados, normalmente amarrados de um lado e caindo sobre o ombro, estavam soltos naquele dia.
E seu capuz, que geralmente escondia seu rosto sob as sombras, estava abaixado, revelando sua expressão com uma rara leveza.
Ela usava uma tiara adornada com uma rosa azul, que combinava perfeitamente com seus cabelos avermelhados, criando uma atmosfera quase serena ao seu redor.
Em vez da imagem de uma mercadora cruel e misteriosa, ela parecia apenas uma garota que havia se arrumado bem.
Mas todos ali sabiam muito bem que, se fossem enganados por sua aparência, acabariam cavando a própria cova.
— Apesar da minha humilde posição, poderia ter a honra de compartilhar uma xícara de chá com a princesa?
Ela exibia um sorriso amplo no rosto.
— ……
Enquanto a Princesa Penia lançava um olhar afiado para ela, um dos atendentes trouxe mais uma xícara de chá e a colocou à sua frente.
O aroma das melhores ervas se espalhou pelo ar, mas, no fim, nenhuma das duas se moveu para pegar suas xícaras.
Lortel Kehelland, que já possuía influência dentro da Companhia Elte, era também a herdeira mais provável para assumir seu comando no futuro. Era apenas uma questão de tempo.
A princesa não pretendia iniciar uma conversa com Lortel, o que a fazia sentir-se um pouco nervosa.
— Pode ser presunçoso da minha parte dizer isso, mas gostaria de esclarecer sua especulação sobre Ed apoiar a família Rothstaylor.
— Isso é inesperado vindo de você, Lortel.
Os olhos da Princesa Penia se estreitaram.
A imagem de Lortel refletia em suas pupilas enquanto a garota levantava levemente a barra de seu robe e aproximava a mão da xícara, como se quisesse apenas apreciar seu aroma.
A Princesa Penia decidiu não perder tempo com rodeios.
— Achei que você me odiava.
— Ora, princesa, isso não é justo de se dizer. Se fosse o caso, por que eu teria vindo aqui para conversar com você?
Astúcia desse nível era uma arte por si só.
— Quem trouxe Krepin Rothstaylor para as negociações pelo Selo do Sábio não foi Ed. Foi meu pai, Elte.
— O que disse?
A Princesa Penia já tinha ouvido rumores sobre Elte. Notícias de que sua demissão era praticamente certa, já que ele havia perdido quase toda a sua influência e poder.
Ainda assim, a princesa sentia que havia algo errado.
Se Elte Kehelland estava sendo encurralado, então por que Lortel parecia tão tranquila?
— A Companhia Elte planejava comprar o Selo do Sábio e revendê-lo para Krepin a um preço mais alto.
— Havia algum tipo de acordo entre meu pai, Elte Kehelland, e Krepin Rothstaylor. Embora… Eu não saiba muito sobre os detalhes.
— Então…
— Bem, mesmo que meu pai tenha sido demitido, os planos para adquirir o Selo do Sábio não mudaram.
Lortel sorriu levemente enquanto tocava de leve a borda da xícara.
— Afinal… A Companhia Elte já investiu muito tempo e esforço nisso.
A Princesa Penia permaneceu em silêncio, ouvindo a história de Lortel.
Sem perceber, ela quase não estava falando nada.
— Está na hora de mudar os ‘responsáveis’ pelo Selo do Sábio, então este é o momento ideal para negociar sua compra.
Lortel pegou sua xícara de chá, girando-a levemente.
— A Companhia Elte também estará ocupada com isso. Se não prestarmos atenção, podemos acabar perdendo o selo para a família Rothstaylor.
— Isso tudo é muito estranho. A Companhia Elte não estava planejando comprar o Selo do Sábio para revendê-lo à família Rothstaylor? Se esse for o caso, então deveria haver um consenso entre as duas partes. Então por que parece que a Companhia Elte e a família Rothstaylor estão competindo pela compra do selo?
— Isso porque… Eu não desejo vender o selo para a família Rothstaylor.
Lortel falou em um tom calmo, mas firme.
— Estou em uma situação um pouco especial no momento, então não quero estar tão próxima de um cliente que esteja ligado ao meu pai.
Ao ouvir essas palavras, a Princesa Penia ficou sem palavras.
— De qualquer forma, não fui eu quem concordou em vender o selo para os Rothstaylor. Como era um contrato confidencial, mesmo que reclamem com a Companhia Elte, isso não terá muito efeito.
Lortel pousou a xícara na mesa, sem sequer dar um gole.
— Por isso, Krepin Rothstaylor decidiu entrar pessoalmente nas negociações para a compra do selo.
— Por que está me contando tudo isso…?
— O inimigo do meu inimigo é meu aliado.
Ao dizer isso, Lortel sorriu, fechando os olhos.
A verdade era que a escola estava encurralada por sua crise financeira, e apenas alguns poucos sabiam sobre a venda do Selo do Sábio.
Nem mesmo as verdadeiras intenções da Companhia Elte ou a posição atual da família Rothstaylor haviam sido reveladas por completo.
Penia jamais imaginaria que Lortel entregaria tantas informações tão facilmente.
— Parece que você, Princesa Penia, quer manter a família Rothstaylor sob controle. Então… Não seria isso uma situação vantajosa para ambas?
Lortel continuou, com um sorriso afiado.
— A família Rothstaylor é retirada das negociações, e eu ficarei feliz em sair com o selo.
— ……
— Devemos manter um relacionamento amigável, haha. Afinal, somos colegas de escola que compartilham várias aulas.
Seu sorriso era como a ponta de um prego afiado.
Mesmo parecendo útil, bastava estender a mão para ela para acabar sendo ferido no processo.
Lortel Kehelland e Penia Elias Kroel…
Elas eram como dois lados opostos do mesmo espelho.
Provavelmente jamais se entenderiam ou se reconheceriam, nem mesmo em seus últimos dias de vida.
— Bem, pensei que Ed, que é inocente, poderia acabar se machucando com tudo isso. Como sua veterana, eu me preocupei.
— Você… se preocupou com ele?
— Ele já foi cortado de sua família e agora está vivendo uma nova vida. Não seria injusto tratá-lo como parte da família Rothstaylor?
Os olhos da Princesa Penia se estreitaram novamente.
Ela sabia muito bem que essa garota não ajudaria alguém apenas por bondade.
Era certo que havia alguma outra intenção oculta por trás da defesa de Ed.
— Ainda assim, aquele garoto… Ele definitivamente tem valor.
Afinal, Ed era o único que poderia ter uma noção da situação interna da família Rothstaylor.
Tendo passado boa parte da vida como membro dessa família, mesmo sendo incompetente ou arrogante, havia grandes chances de que soubesse de alguma coisa relevante.
No entanto, julgar as pessoas por seu valor e usá-las como descartáveis… não era o estilo da Princesa Penia.
— Tentei pedir ajuda pessoalmente, além de usar minha autoridade para dar ordens… Mas se ele ainda assim não abrir a boca…
— Se ele não…?
— Então… Não terei escolha a não ser ‘usá-lo’.
A Princesa da Benevolência, Penia, era alguém que tratava todos com respeito, mas não caía sempre no idealismo.
Se necessário, também havia momentos em que precisava endurecer seu coração.
O problema era que ela mesma não percebia isso.
Diante da resposta da Princesa Penia, o rosto de Lortel se endureceu por um momento.
Subitamente, ela ergueu a mão e puxou seu capuz sobre a cabeça.
Ela começou a tremer ligeiramente, abaixando a cabeça sob a sombra do capuz.
— Lortel Kehelland?
Que tipo de reação era essa?
Estava perdida em pensamentos?
Sem demonstrar qualquer preocupação com a perplexidade da Princesa Penia, Lortel manteve a cabeça baixa por um longo tempo.
Pouco depois, um pombo majestoso pousou em seu ombro.
Ainda assim, Lortel continuou imóvel, antes de lentamente estender a mão em direção ao pombo.
— O-oh meu… Um pombo-correio enviado da sede…
Falando suavemente, com a voz trêmula, Lortel levantou a cabeça.
Por um breve instante, a Princesa Penia ficou desconcertada.
Claire, que estava ao seu lado, sentiu seu sangue ferver.
Lortel estava segurando o riso à força, e parecia prestes a explodir.
— Você me enganou e me usou.
Lortel, incapaz de se conter mais, se levantou ao dizer isso.
— Quem fez o quê com quem?
— Você! Isso é uma blasfêmia…! Como ousa fazer isso com a princesa…?!
— Princesa Penia.
Lortel Kehelland já compreendia Ed Rothstaylor completamente.
Mesmo que ele estivesse encurralado, ela sabia que uma princesa como Penia, que havia crescido cercada de mimos e proteção, jamais conseguiria usá-lo a seu favor.
Normalmente, Lortel teria apenas rido às escondidas, vendo a Princesa tentar algo impossível.
— Princesa Penia. Apenas neste caso, somos aliadas. A família Rothstaylor, que é um inimigo público, precisa ser expulsa da Ilha Acken.
Com os olhos semicerrados, Lortel sorriu levemente.
— Por isso, gostaria de lhe oferecer um conselho sincero.
— ……
— Não tente usá-lo de forma leviana… Pois ele pode acabar te usando no lugar.
Ao dizer isso, Lortel se levantou, ainda segurando o pombo-correio.
— Espero que tenha generosidade para perdoar minha insolência. Esse foi meu conselho mais sincero para a princesa.
— Para onde você vai, Lortel?
— Tenho um encontro com alguém. Mesmo tendo me arrumado bastante, acabei bagunçando meu cabelo desnecessariamente ao colocar este capuz. Ugh.
Lortel suspirou, ajeitando os cabelos com um leve toque nos fios soltos.
— Não seria educado continuar interrompendo o tempo de descanso da Princesa, então vou me retirar.
Então, com um gesto cortês, Lortel se despediu.
— Espero que permaneça saudável.
— Você precisa responsabilizá-la por suas ações desrespeitosas, Princesa.
— Está tudo bem, Claire.
Embora não gostasse de impor sua autoridade, as ações de Lortel foram, sem dúvida, grosseiras.
A Princesa Penia também não se sentia bem com aquilo, mas tinha coisas mais importantes com que se preocupar.
Acima de tudo, a atitude de Lortel em relação a Ed havia mudado drasticamente.
Simplificando, Lortel era alguém que, por fora, parecia educada e respeitosa com seus superiores, mas, por dentro, estava sempre calculando o valor de cada pessoa ao seu redor.
Entender suas intenções e como ela tratava Ed era algo confuso demais.
Mesmo depois de ser excomungado, Ed se adaptou surpreendentemente bem à vida na academia, teve um desempenho razoável em algumas disciplinas e costumava ser descrito como alguém mais esforçado do que se esperava.
Além disso, até mesmo a raposa da Companhia Elte, Lortel, passou a observá-lo.
Dessa forma, Penia começou a duvidar se seus Olhos Perspicazes haviam falhado em julgá-lo corretamente.
— ……
Então, pouco a pouco, começou a sentir um peso em seu coração.
Ed Rothstaylor.
Afinal, foi ela mesma quem causou sua excomunhão.
Mesmo que não tivesse essa intenção, o fato continuava o mesmo.
No fim, o sentimento que crescia dentro dela era culpa, ainda que apenas em uma pequena dose.
A diferença de status entre eles era gigantesca, e não havia nenhum vínculo especial entre os dois.
Deixar-se levar pela culpa de causar um inconveniente a pessoas inferiores seria apenas um obstáculo para seu crescimento como monarca.
Como uma soberana, ela precisava aprender a ignorar até mesmo o menor vestígio de culpa.
— Claire. Eu enviei uma carta pessoal, mas quero que a verifique pessoalmente. Precisamos convocá-lo para que visite a residência real em breve.
De qualquer forma, seria necessário acompanhar de perto os movimentos de Lortel Kehelland.
Ela era uma oponente assustadora.
Penia se perguntava se um dia veria aquela garota ser pega de surpresa ou ficar sem palavras.
Essa ideia parecia distante demais.
A Princesa Penia suspirou.
O caminho de um monarca lidando com os outros era longo e difícil.
◇ ◇ ◇
— O que é isso…?
Lortel sentou-se no sofá da sala de reuniões da Companhia Elte, com uma expressão desconcertada.
Ela parecia completamente perplexa.
— Aconteceu simplesmente.
— Oi, Lortel! Faz tempo! Como você tem passado?
Yennekar sorriu e a cumprimentou calorosamente.
Seu sorriso era tão brilhante que quase parecia que pétalas de flores estavam flutuando ao redor dela.
Apesar de sua aparência limpa e luxuosa, a sala de reuniões da filial da Companhia Elte em Silvenia era pouco utilizada.
Pouquíssimos VIPs visitavam a filial da loja em Acken, que tinha um espaço limitado.
Assim, mesmo ser usada quatro ou cinco vezes por ano já era considerado muito.
Dado o quão bela era sua decoração, era um desperdício que ficasse tão vazia.
Lortel e Yennekar estavam frente a frente, trocando cumprimentos com sorrisos que pareciam os mais felizes do mundo.
— Peço desculpas. Não sabia que você viria, então só pude preparar duas xícaras de chá de alecrim das Montanhas Pulan. Gostaria de água gelada?
— Claro, sem problemas! Parecia haver bastante chá no estoque, mas imagino que você não possa usá-lo, já que está à venda?
— Sim, exatamente! Se tivesse me avisado com antecedência, eu teria preparado algo especial. Achei que jantaria apenas com Ed, então não pensei nisso antes.
— Vou beber água gelada, então. Aqui, Yennekar, pode ficar com o chá.
Yennekar sorriu e respondeu com um “claro”, pegando a xícara de chá.
Lortel suspirou, lançando-lhe um olhar afiado e cheio de desprezo.
— Bem, eu revisei tudo na carta. Pelo que vi, era sobre Elte.
— Sim, exatamente. A Companhia Elte parece ter finalizado o processo de sua demissão, mas parece que ele está tramando algo. Ele aceitou a demissão com muita facilidade… Mais do que eu esperava.
O clímax da história do Ato 2, a Subjugação de Glast, aconteceria logo após a batalha pelo Selo do Sábio.
Até aquele momento, não parecia haver mudanças drásticas na linha do tempo.
No entanto, a demissão antecipada de Elte e a participação de Krepin eram elementos inesperados que precisavam ser cuidadosamente administrados.
Krepin Rothstaylor, que manipulava o poder do deus maligno Mebula, não era um inimigo que poderia ser derrotado nesse ponto da história.
Era necessário "adiar" esse confronto até que Taylee e eu estivéssemos mais preparados.
Afinal, a Princesa Penia, que deveria estar na linha de frente contra Krepin, ainda estava fraca demais.
Ela não podia usar sua influência real, pois estava sendo vigiada pelas princesas mais velhas.
Ela também não podia falar em nome da escola, pois ainda não havia se tornado presidente do conselho estudantil.
— Fiquei preocupada que Ed pudesse estar sendo assediado. Por isso, chamei você, para ver se havia algo de errado.
— Entendo. Certamente, com Elte encurralado, é impossível prever o que ele pode fazer. Precisamos ficar atentos.
— Ainda assim, há um limite para o que ele pode fazer com tão pouca influência e poder. Ah, é verdade. Você gostaria de levar alguns itens de engenharia mágica com você?
Enquanto falava, Lortel abriu um armário, revelando diversos itens mágicos, como esferas de cristal, grimórios, uma pena mágica, frascos de tinta encantada e outros objetos.
— São produtos que não vendem há um bom tempo, então não há problema em levá-los.
— Lortel, esses são produtos novos. Nem um grão de poeira neles. Você vai ser criticada por doar mercadorias assim. Isso vai contra a ética de um comerciante.
— Ora, Yennekar. Parece que você não tem um bom olho para essas coisas. Veja bem, são todos itens com defeitos.
Ao ouvir isso, Yennekar se aproximou do armário e examinou os itens um a um.
A esfera de cristal tinha uma rachadura discreta.
A pena mágica estava quebrada na ponta.
A tinta encantada estava ligeiramente aberta, com parte do líquido já derramado.
— Está óbvio que você fez isso de propósito! Como podem haver falhas assim em itens novos?!
— Bem… Isso não cabe a mim julgar. O que importa é se consigo vender ou não.
— ……
— Bem, considerando a posição de Ed, o importante é saber se isso vai ajudá-lo ou não.
Lortel sorriu levemente, enquanto Yennekar ficava sem palavras.
— Agradeço, mas receber tudo isso de graça é um pouco… Eu nem terminei de pagar pelos itens de engenharia mágica que me deu da última vez.
— Ah, eu já transferi o pagamento para o próximo contrato. É mais conveniente pagar tudo de uma vez. Além disso, quanto mais tarde for a data de pagamento, mais conveniente fica, certo?
Lortel sorriu de canto.
— Sempre é melhor quando o vencimento do pagamento é adiado.
— Isso é verdade, mas o prazo de pagamento já não foi adiado quatro vezes?
— Bem, não há problema, desde que você continue renovando seu contrato. Para nós, essa quantia de dinheiro é insignificante.
Lortel olhou para mim, inclinando a cabeça e sorrindo brilhantemente.
Yennekar, de repente, inflou as bochechas de irritação.
— Não seria mais conveniente quitar tudo de uma vez e encerrar o contrato o mais rápido possível? E se Ed estivesse planejando gastar esse dinheiro com outra coisa? Agora ele vai acabar tendo que gastar tudo nisso!
— Bom, isso é algo que ‘eu e ele’ devemos discutir sozinhos, não acha?
— Ahhh! Sério!
Yennekar resmungou, batendo o pé no chão.
Lortel a ignorou completamente, agindo como se não fosse nada.
Enquanto isso, eu apenas me recostei no sofá, sem dar muita atenção a nenhuma das duas.
— Mesmo assim… Ed é…
— O lugar onde ele faz isso é…
Mais uma vez, uma sensação familiar começou a se espalhar pelo meu corpo.
Era como se eu estivesse nadando na água.
Ultimamente, eu vinha caindo nesse estado com muita frequência.
Os sons ao redor começaram a desaparecer, tornando-se ecos distantes, enquanto minha mente entrava em um estado de leveza, como se estivesse flutuando pelo ar.
Agora que pensava nisso, ainda tinha muito trabalho a fazer depois da visita à Loja Elte.
Eu precisava guardar a carne seca que estava pendurada para secar no acampamento, antes que Lucy viesse e pegasse para si.
Também precisava limpar a cabana novamente, antes de colocar a cadeira, a escrivaninha e a estrutura da cama para dentro.
Além disso, ainda tinha que fazer um colchão para a cama.
Não dava para criar um colchão moderno com molas, mas talvez fosse possível deixá-lo um pouco mais macio, cortando tecidos e enchendo com penas, pedaços de roupa e retalhos.
Ainda precisava preparar o cervo que capturei dois dias atrás.
O processo de remover a pele para couro, tirar as entranhas, cortar a carne e fumar as peças levava muito tempo.
Também não terminei meus deveres de Estudos Elementais e Introdução à Magia Intermediária.
Além disso, havia a tarefa de História da Magia, e ainda precisava me preparar para a prática de Herbologia da próxima semana.
Agora que pensava nisso, eu estava completamente sem flechas.
Precisava garantir que minhas roupas de treino estivessem secas para a corrida matinal até a escola.
A janela da cabana ainda precisava ser concluída, e eu precisava armazenar mais lenha antes da chegada do inverno.
Sem falar no problema da conservação dos alimentos, que ainda precisava resolver, e a necessidade de aprender a fazer roupas adequadas para o frio.
— Ed. Ed!
— Ei, Ed?
Enquanto organizava mentalmente todas as tarefas, comecei a ficar tonto novamente.
Era como se eu estivesse me afundando ainda mais no sofá, lentamente sendo engolido pelo vazio.
[Você foi afetado por uma condição anormal!]
— Aquele cara… Parece que finalmente entrou na linha.
— Ele só fica quieto na aula, faz os deveres e vai embora.
— Ouvi dizer que ele foi expulso do dormitório. Onde ele está morando agora? Imagino que seja difícil encontrar um lugar decente para ficar em uma ilha tão remota. Além disso, ele está completamente falido.
— Surpreendentemente, ele é bem aplicado nos estudos. Parece que está realmente se esforçando.
— Antes, ele parecia tão arrogante e desagradável, então eu nem queria chegar perto dele. Mas agora… Por mais que me irrite admitir, ele parece alguém trabalhador e dedicado.
— Pensando bem, é verdade que ele era uma pessoa horrível antes. Talvez, com o tempo, ele tenha se dado conta disso e começou a mudar.
— De vez em quando, vejo ele na sala de aula, mas ele nunca fala nada. Parece sempre estar completamente focado nos estudos. O que será que houve com ele?
— Será que ele sempre foi uma pessoa honesta e trabalhadora?
Quando alguém tentava mudar de vida e se tornar uma pessoa melhor, no máximo durava um mês.
Depois disso, voltavam aos velhos hábitos.
Mas Ed…
Ele já levava essa vida ridícula no acampamento há quase meio ano.
— ……
◇ ◇ ◇
Um quarto privado na residência real.
Sentada sozinha à frente de uma mesa luxuosa e espaçosa, a Princesa Penia soltou um suspiro profundo.
Estava na hora de admitir a verdade.
A imagem de Ed, trabalhando honestamente e se esforçando, enquanto pescava no acampamento…
A cena da Subjugação de Glasskan, onde manteve a calma e formulou um bom plano de ação…
Os rumores entre os alunos, que o descreviam como alguém completamente focado nos estudos…
E o aviso de Lortel, para não julgá-lo precipitadamente…
Além de tudo isso, sua intuição e as pistas ao seu redor continuavam a sussurrar para ela.
"Talvez, apenas talvez… meus Olhos Perspicazes estavam errados."
Se esse fosse o caso, então sua decisão equivocada teria feito um jovem saudável e trabalhador ser expulso de sua família, deixado na miséria e forçado a sobreviver na floresta…
"Eu realmente cometi esse erro…?"
De qualquer forma, ela havia enviado uma carta pessoal a Ed através de Claire, solicitando que ele comparecesse à residência real imediatamente.
Como era uma ordem real, ele inevitavelmente apareceria.
Seria a oportunidade perfeita para julgá-lo corretamente.
E se, por acaso, seu julgamento estivesse errado…
Então ela teria que aceitar a verdade de uma vez por todas.
— Princesa.
— Claire.
Com esse pensamento em mente, Claire bateu à porta.
Devia ter vindo fazer um relatório, e era óbvio sobre o que se tratava.
— Você finalizou o cronograma de amanhã? A que horas Ed Rothstaylor…
— Princesa, receio que ele não poderá comparecer por enquanto.
— Por quê? Independentemente da situação, ainda assim era uma ordem real… Se ele pretendia recusar, não deveria ter enviado uma justificativa adequada?
Ela não gostava de recorrer à sua autoridade, mas, de qualquer forma, uma carta pessoal escrita pela Princesa Penia não era diferente de um decreto real.
Recusar uma ordem dessas exigia uma razão válida.
— … Ele desmaiou de exaustão.
Ele sempre foi um homem forte.
Por isso, ao ouvir essa notícia, a Princesa Penia não pôde deixar de duvidar.
— Ele deve ter ultrapassado seus próprios limites, tentando equilibrar suas atividades de sobrevivência e seus estudos. No momento, ele está inconsciente.
No fim, até a diligência tinha seu limite.
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