Light Novel

Capítulo 12: Gato de Rua (1)

Como era de conhecimento geral, jogos normalmente eram jogados do ponto de vista do protagonista. Isso significava que não havia muito o que eu pudesse fazer, já que minha queda já havia acontecido, meu papel tinha sido cumprido, e eu, essencialmente, havia saído de cena.

No entanto, a grande vantagem era que, como já tinha jogado o jogo várias vezes do ponto de vista do protagonista, eu conseguia ter uma noção aproximada de qual evento estava acontecendo no momento, apenas com base no cronograma da academia e no tempo decorrido.

Isso significava que não havia motivo para me sentir frustrado por não saber qual era o estado atual da academia ou o que estava acontecendo. Esse pensamento me confortava.

Pelo contrário, o que me surpreendia era a quantidade de coisas que eu não sabia, justamente porque o jogo progredia pela perspectiva de Taylee.

Um exemplo disso era o currículo do Departamento de Magia.

Sendo o protagonista, Taylee era um estudante do Departamento de Combate, o que justificava o título do jogo, O Mestre de Espadas Fracassado. Isso significava que o jogador não tinha como saber como era a vida dos estudantes do Departamento de Magia.

Outro exemplo eram os acontecimentos que ocorriam fora das atividades de Taylee.

Como os novos edifícios e estátuas sendo construídos sob o patrocínio da Filha Dourada, Lortel. Ou os cavaleiros reais estacionados na entrada do distrito acadêmico para escoltar a Benevolente Princesa Penia.

Mesmo que esses eventos não fizessem parte da história principal, eles faziam com que o mundo parecesse mais vivo e real.

Na verdade, havia várias histórias que despertavam minha curiosidade, mas que nunca foram reveladas no jogo.

Eram inúmeras, mas se eu tivesse que escolher apenas uma… teria que ser a de Yennekar Palerover.

Como a chefe final do Ato 1, sua história de ser possuída pelo espírito das trevas de alto nível, Velosper, nunca foi explorada a fundo.

Ela poderia ser considerada a chefe final no papel, mas o verdadeiro inimigo era Velosper, o espírito que ela invocou, o braço direito do espírito das trevas de nível mais alto, Glasskan.

Mas espíritos das trevas de alto nível só podiam descer através dos pensamentos pessimistas de um Elementalista ou da escuridão em seu coração.

E, embora houvesse algum nível de escuridão dentro de todos, fosse grande ou pequena… não era Yennekar alguém completamente distante desse tipo de escuridão?

Ela sempre teve uma personalidade vibrante, naturalmente cheia de alegria e energia.

Então… o que diabos aconteceu com Yennekar para que ela sucumbisse à influência de um espírito das trevas de alto nível?

Não que eu tivesse tempo para me preocupar com isso.

Seja o que for, Taylee cuidaria de Velosper e salvaria o centro estudantil.

— Isso é difícil demais…

Já fazia dez dias desde o início das aulas.

— Eu não vou acabar morrendo desse jeito? Sério mesmo…?

Eu estava descansando em um banco no distrito acadêmico, observando o sol se pôr no horizonte, quando fui atingido por um momento de clareza repentina do nada.

Eu acordava antes do amanhecer e me lavava completamente no riacho, garantindo limpar cada canto do corpo, já que morria de medo de ficar com mau cheiro.

Depois, corria pela floresta ao norte até o distrito acadêmico, vestindo roupas casuais que eu podia lavar todos os dias.

Ao chegar, já estava coberto de suor, então me lavava discretamente no banheiro do Glockt Hall.

Em seguida, trocava para o uniforme escolar e escondia minhas roupas casuais na grama do Jardim das Rosas, para pegá-las depois da aula.

Só então eu ia para o prédio das minhas aulas. Como dividia o espaço com filhos de nobres e estudantes de alto nível, precisava sempre manter um comportamento impecável.

Minha reputação já estava no fundo do poço dentro da academia, então tinha que lidar com todo tipo de fofoca sempre que passava. Na verdade, ultimamente até estranhava quando não ouvia nada.

Já estava acostumado a ser invisível durante as aulas.

Depois de focar nos estudos, chegava a hora do almoço.

Não podia pagar as refeições caras e luxuosas do Ophelis Hall, nem a cafeteria do prédio da união estudantil. Então, sempre levava marmitas com as comidas selvagens do meu acampamento.

Ultimamente, vinha usando sal-gema para fazer carne seca. Deixava a carne curada pendurada no secador simples que construí por cerca de três dias. De alguma forma, isso me permitia fazer uma carne seca decente.

Não havia comida mais prática e nutritiva do que carne seca, pois era um alimento portátil que saciava minha fome. Além disso, minha habilidade culinária também aumentava graças a isso, o que era um bônus!

Depois de me alimentar, eu terminava as aulas da tarde como um fantasma invisível até o final do dia.

Então, pegava as roupas casuais escondidas e voltava pela floresta ao norte. Sair ao pôr do sol me permitia chegar ao acampamento quando já estava escuro.

No início, tentei treinar minha Vitalidade correndo de volta para casa o máximo possível. Mas, desde que as aulas práticas de magia começaram, o uso constante de poder mágico me deixava sem energia, então passei a voltar caminhando.

A primeira coisa que fazia ao retornar era lavar as roupas casuais suadas da manhã. Precisava secá-las com antecedência para poder usá-las no dia seguinte.

Também verificava meu uniforme escolar, garantindo que estivesse sempre elegante e bem cuidado. Se houvesse sujeira ou rasgos, consertava imediatamente usando linhas retiradas de outros tecidos.

Depois de lidar com minhas roupas, realizava as tarefas pendentes do dia, que variavam conforme a necessidade.

Se estivesse ficando sem ervas ou plantas medicinais, saía para coletá-las. Também checava o estado da pilha de lenha que havia preparado.

Verificava a caverna onde armazenava a carne. Se notasse que estava acabando, pegava meu arco e saía para caçar. Embora fosse mais eficiente usar o arpão ou a lança que fiz anteriormente, eu me forçava a praticar com o arco para aumentar minha proficiência.

Claro, se a caça com arco fosse um desastre, acabava recorrendo a outro método. No fim das contas, eu precisava comer para sobreviver.

Quando o sol já havia se posto completamente, acendia a fogueira para garantir uma fonte segura de luz. Então, começava a fazer a lição de casa.

Usava uma grande pedra plana que transformei em bancada para revisar as tarefas. Meus pontos fortes eram disciplinas em que a escrita era um fator essencial, como História da Magia e Estudos Elementais. Felizmente, ainda era um pensador rápido.

Fazia tempo que não segurava uma caneta, mas já passei pelo inferno que é estudar para o vestibular coreano. Parecia que meu corpo ainda lembrava dos velhos hábitos de estudo daquela época. Viva o sistema exaustivo de educação privada da Coreia…?!

Usava um pequeno graveto para escrever na pedra com cinzas. Também pegava livros emprestados da biblioteca estudantil, pois não tinha dinheiro para comprar meus próprios livros, muito menos uma pena e tinta.

E, quando a lua já estava alta no céu, começava a treinar magia sozinho.

Meu primeiro objetivo era elevar minha proficiência em magia elemental para nível 10. No segundo ano, já começavam as magias intermediárias, então eu estaria perdido se ficasse preso às magias básicas.

Treinava na prática, usando Lâmina de Vento para aparar galhos e controlando a fogueira com magia de fogo.

Nessa altura, o sono começava a bater, mas eu sabia que ainda não era hora de dormir. Ainda havia muito a fazer antes de me deitar.

Verificava minha cabana em busca de problemas, reabastecia a fogueira para garantir que durasse a noite inteira e conferia o estado da carne seca que levaria no dia seguinte. Também inspecionava o recipiente de água, reabastecendo-o conforme necessário.

Depois, revisava o cronograma do dia seguinte e organizava meus pensamentos sobre como administraria meu tempo. Só então espalhava fumaça de fogueira dentro do abrigo para espantar insetos. Depois, ventilava o local e, finalmente, ia dormir.

Conseguia tirar, no máximo, quatro horas de sono.

Felizmente, independentemente de quão cansado estivesse, nunca dormia demais. Ter servido no exército ajudou a me acostumar rápido a essa rotina.

Essa foi minha vida nos últimos dez dias.

Meu corpo inteiro gritava de dor muscular.

Enquanto descansava no banco, olhando para o céu alaranjado pelo pôr do sol, fiz uma breve pausa para me desligar da realidade. Quando voltasse ao acampamento, haveria uma montanha de tarefas à minha espera.

— Pelo menos, eu deveria mover o acampamento um pouco mais para perto…

Pensei nisso por um momento, mas logo balancei a cabeça. Nada de bom viria de morar próximo aos outros alunos. Além disso, a longa caminhada diária ajudava a treinar minha Vitalidade. Não, não seja fraco!

— Aaaaghhhkk!

Com muito esforço, consegui me levantar do banco de madeira, sentindo as articulações rangendo, pronto para voltar ao caminho.

Mas o que mais eu poderia fazer, estando preso neste corpo?

Eu simplesmente tinha que aceitar.

Certamente, dias melhores viriam.

Enquanto atravessava a floresta ao norte, um pensamento animador passou pela minha mente.

Os últimos dez dias me deram confiança na minha capacidade de sustentar esse estilo de vida.

De alguma forma, consegui me manter firme, não importa o quão exaustivo e infernal tenha sido.

Provavelmente porque minha vida estudantil estava mais tranquila e pacífica do que eu imaginava.

As pessoas ainda cochichavam e me olhavam com desprezo por onde eu passava, mas, no fim, já nem ligava mais para isso.

O que eu poderia fazer a respeito? Nem fui eu quem fez aquelas coisas. Além disso, Ed Rothstaylor já era naturalmente odiável desde o começo.

Minha situação era bem melhor do que a dos alunos do primeiro ano, onde o caos acontecia sem parar e todos estavam sempre em busca de uma aventura.

Como ainda era o começo do primeiro semestre, o Lança da Natureza, Ziggs, provavelmente já tinha explodido o prédio de pesquisa, e a Preguiçosa Lucy já devia ter eletrocutado o gato do reitor com magia de raio. O primeiro ano já estava repleto de eventos caóticos.

Além disso, os alunos do primeiro ano dos Departamentos de Combate, Magia e Alquimia já deviam ter tido sua primeira aula prática contra monstros. Logo, o protagonista, Taylee, começaria a conhecer os outros personagens principais e a se aproximar deles.

Enquanto isso, eu continuava vivendo minha vida surpreendentemente tranquila nos bastidores. Sim… visto dessa forma, não parecia tão ruim.

Afinal, se alguém vive dia após dia uma rotina difícil e cansativa, eventualmente acaba se acostumando.

Tudo o que eu precisava fazer era manter distância dos protagonistas e seguir com minha vida. Então, terminaria meu curso e, quando a academia mergulhasse no caos… Até mais!

Bom, não que a academia fosse entrar em colapso. Era uma crise que acabaria se resolvendo sozinha, então não havia motivo para eu me envolver.

Pensando assim, percebi que estava me saindo bem até agora.

Sim, não havia motivo para me sentir frustrado com nada.

Exceto por uma variável.

Yennekar Palerover.

— Oi!

— O que você está comendo?! Carne seca?

— Bom dia!

— Sua próxima aula é Estudos Elementais?

— Quer almoçar comigo na cafeteria estudantil?

Nos últimos dez dias, sempre que Yennekar me via pelo distrito acadêmico, ela me cumprimentava animadamente, sem falhar uma única vez.

Claro, suas duas melhores amigas sempre apareciam logo em seguida para arrastá-la dali.

— Hmmm…

Isso não estava nos meus planos.

Não havia motivo para ela se interessar tanto por mim… Será que fiz algo de errado? Ou havia algum detalhe que eu ainda não tinha percebido?

— Bom… deve estar tudo bem.

O sol começava a se pôr através das árvores da floresta. Entre os galhos, já conseguia avistar meu acampamento, que agora era meu lar.

Mas ainda havia um longo caminho até lá.

Já disse isso antes, mas eu era um forasteiro nesse mundo, alguém que deveria apenas seguir sua história original.

Se eu me tornasse uma variável capaz de alterar o rumo da história, perderia minha maior vantagem, o conhecimento do futuro.

Por isso, o mais sensato era manter uma certa distância das figuras importantes deste mundo.

Forçar uma aproximação poderia ser estranho, mas manter distância era fácil.

'Eu consigo fazer isso!'

A clareza momentânea que tive mais cedo começava a desaparecer, e a esperança de que eu conseguiria me sair bem tomava seu lugar.

Sim, de uma forma ou de outra, tudo daria certo!

Eu tinha evitado tanto o contato com outras pessoas que minha vida tinha se tornado monótona, mas estava tudo bem! Eu aguentaria firme!

Com meu coração renovado pela esperança e a determinação de viver mais um dia, dei um passo para dentro do meu acampamento.

— Zzz… Zzz…

Foi então que vi uma garota encolhida, dormindo dentro do meu abrigo improvisado.

A aba de seu enorme chapéu de bruxa cobria completamente seu rosto. Sua respiração, pesada e cheia de preguiça, entregava sua identidade imediatamente.

Sentei-me em uma pedra.

— Sigh…

Soltei um suspiro profundo, vindo do fundo da alma.

— Mas por quê… por que essa garota está dormindo aqui?!

Era minha primeira vez vendo-a pessoalmente, mas como eu poderia não reconhecê-la?

Ela desempenhava um papel ativo do começo ao fim em O Mestre de Espadas Fracassado de Silvenia.

Era uma personagem tão importante que poderia ser considerada no mesmo nível das quatro heroínas principais. Sua presença na história era essencial.

Pode não parecer à primeira vista, com sua aparência desleixada e apática, mas ela era, sem dúvida, uma das personagens mais importantes.

Então… por que diabos ela estava dormindo aqui?!

Olhei ao redor do meu acampamento.

Estávamos na floresta ao norte da Ilha Acken. Um lugar distante onde ninguém costumava ir.

Mas para uma aluna tão genial quanto ela, usar seu poder mágico para atravessar o espaço com rapidez era tão fácil quanto respirar. Para ela, esta floresta não era nada longe.

Antes de tudo, seu comportamento poderia ser comparado ao de um gato de rua.

Com seu corpo pequeno e seu talento para saltar rapidamente usando magia, ela podia ir até o topo da torre do relógio, o telhado do Glockt Hall ou qualquer outro lugar perfeito para uma soneca, onde a luz do sol batesse na medida certa… Ela podia literalmente ir para onde quisesse.

Então por que diabos ela veio parar aqui?!

Neste lugar onde não havia ninguém, longe dos prédios acadêmicos, onde havia um abrigo com um teto, onde o vento fresco soprava e o som do riacho era relaxante…

Não existia um lugar melhor para matar aula e tirar uma soneca.

— Merda! Foi culpa minha!

Gritei tarde demais, meu desabafo sem propósito algum.

Pude ouvir Lazy Lucy suspirar suavemente enquanto dormia, como se estivesse sussurrando.

Cobri os olhos com uma das mãos, completamente exasperado.

Não tive escolha a não ser sentar e ficar parado por um tempo.

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