Volume 6
Capítulo 7: 20 de Dezembro (Domingo) - Yuuta Asamura
20 DE DEZEMBRO (DOMINGO) — YUUTA ASAMURA
Eu passei o dia inteiro inquieto.
Desde o momento em que acordei, já estava agitado, e durante toda a tarde no trabalho, na livraria, não consegui me concentrar direito.
O tempo voou. Quando percebi, faltava apenas meia hora para o fim do meu turno, às seis da tarde.
Com o Natal se aproximando, o número de pessoas circulando por Shibuya só aumentava. Senti um pouco de culpa por sair mais cedo num dia tão movimentado.
A segunda metade de dezembro traz todo tipo de complicação para livrarias. As distribuidoras param durante o fim de ano, então os lançamentos são adiantados e já ficam disponíveis antes do esperado. Ou seja, há mais livros nas prateleiras do que em qualquer outra época do ano.
Novembro e dezembro sempre foram assim no mundo editorial. Já ouvi dizer que autores e editores enfrentam uma rotina infernal, cheia de prazos apertados, desculpas e pressão — e o resultado disso acaba sobrando para quem trabalha nas livrarias.
Se normalmente lidamos com dez lançamentos por semana para certo público, de repente passamos a ter vinte. Sem reorganizar tudo, simplesmente não caberia nas prateleiras. E ainda precisaríamos fazer o dobro de materiais promocionais.
Enquanto isso, os clientes continuam chegando como sempre, sem saber de nada disso — e acabam confusos. Isso significa ainda mais trabalho para ajudar cada um deles…
Enquanto alguns aproveitam as festas, outros estão se desdobrando, trabalhando o dobro.
É assim que o mundo funciona.
O que eu podia fazer era ser grato. Hoje era minha vez de aproveitar, mas esperava poder ajudar alguém quando fosse a vez deles.
Foi então que me lembrei de que a Yomiuri tinha assumido o turno meu e da Ayase naquele dia.
Antes de sair, comecei a organizar as prateleiras. Era o mínimo que eu podia fazer para aliviar o trabalho de quem ficaria depois.
Quando chegou a hora, fui até a sala dos funcionários.
“Hã?”
Mas, ao abrir a porta, encontrei alguém inesperado: Yomiuri.
Alguns funcionários que entrariam às seis já estavam no salão, então não esperava vê-la ali ainda.
“Isso é raro”, comentei.
“Vai me perguntar se estou matando serviço?”
“Não, claro que não.”
“‘Sai daqui logo’, é isso? Que cruel. Buáá, buáá♪”
“Você definitivamente não está chorando.”
“Hehe.”
Não importa o que eu diga, ela sempre dá um jeito de provocar.
“Haah…”
Suspirei — e nesse momento a porta se abriu, e Ayase entrou.
“Hã? Yomiuri? Você não deveria estar trabalhando agora?”
“Que maldade! Eu juro que não estou enrolando.”
“Então está atrasada?”
“Também não. Estava esperando você, Saki! Vem aqui. Tenho seu presente.” Ela puxou Ayase pela mão em direção ao vestiário feminino.
“Hã?! O quê?!”
“Relaxa. Deixa tudo com a tia Yomiuri.”
Então ela mesma admite que parece um velho…
Mas isso não era o mais importante agora. Fiquei surpreso com a ousadia dela. O turno já tinha começado, e o gerente estava ali, vendo tudo.
“Tem certeza de que está tudo bem?”, perguntei.
“Não consigo tocar isso aqui sem ela”, respondeu ele, com um sorriso sem graça.
“Entendi…”
“Vou considerar isso como trabalho em equipe.”
Yomiuri devia ser essencial ali.
[Ayko: Mesmo que geralmente não pareça, a Yomiuri é uma pessoa que aparenta ser bastante, muito, deveras, excepcionalmente responsável]
Pouco depois, ela saiu do vestiário, acenou casualmente para mim e foi direto para o salão. O sorriso dela me deixou meio desconfiado.
Algum tempo depois, Ayase saiu do vestiário já com roupas comuns, e nós dois batemos o ponto e saímos da livraria.
Eram pouco depois das seis. A reserva era às seis e meia, então ainda tínhamos tempo.
Seguimos para o restaurante.
No caminho, mencionei o presente da Yomiuri, mas Ayase foi vaga e não quis entrar em detalhes. Talvez fosse algo que ela preferisse não comentar… embora até a Yomiuri não fosse dar algo estranho para uma colega… certo?
[Ayko: “...também pensei em comprar um brinquedo sexual para você…” - Yomiuri, Shiori. 13 de Dezembro, Vol. 6. Definitivamente pensaria em algo estranho, sim.]
“É aqui?”
“Hm?”
Quando percebi, já tínhamos chegado. Ayase olhava as placas na entrada com certa hesitação.
“Parece caro… tem certeza?”
“Acho que é mais voltado para famílias. Os preços são mais acessíveis do que parecem.”
O andar superior do prédio era cheio de restaurantes — japoneses, ocidentais e chineses. Procurei o nome no mapa e encontrei.
“Ah, é aqui.”
O interior era bem iluminado, com um clima tranquilo. O espaço era amplo, e as mesas ficavam bem separadas. Eu estava acostumado com lugares barulhentos, então aquilo parecia outro mundo.
Como eu disse, havia muitos casais jovens e famílias. Era um pouco mais sofisticado que um restaurante comum, mas sem ser formal demais.
“É a primeira vez que venho a um lugar assim”, disse Ayase.
“Eu também nunca viria sozinho.”
“É seu aniversário. Por que não aproveitar algo especial?”
Informei meu nome ao garçom, e ele nos levou até a mesa. Sentamos um de frente para o outro.
“Mas por que aqui?”, ela perguntou. “É famoso?”
“Bom… é que…”
Por que revelar uma surpresa era tão difícil?
“Ouvi dizer que o ensopado de carne daqui é muito bom.”
Até então, Ayase parecia cansada — provavelmente por causa do trabalho. Mas ao ouvir “ensopado de carne”, seus olhos se abriram.
“O quê…?”
“Eu… ouvi dizer que é o seu favorito.”
Será que eu estava errado? Comecei a ficar nervoso.
“Como você sabe?”
“Desculpa… eu pedi para a Akiko me contar, em segredo.”
Eu queria surpreendê-la, já que ela já sabia qual seria o presente. Mas também não queria fazer nada que a incomodasse.
Depois de ouvir isso, Ayase ficou em silêncio por alguns segundos… e então fez uma careta.
“Isso não é justo.”
“Hã?”
“Não é justo você fazer isso quando eu não tive a chance.”
“Ah… desculpa, eu acho.”
“Eu também queria te surpreender.”
“Ah…”
Faz sentido.
Essa é a Ayase — alguém que sempre quer retribuir na mesma medida.
Receber algo especial sem poder fazer o mesmo devia incomodá-la.
Mas eu nunca tinha visto ela fazer bico e dizer que algo era injusto assim. Antes, ela jamais teria sido tão direta comigo.
Será que isso significava que ela estava começando a baixar a guarda quando estava comigo?
Pensando assim…
Até aquela pequena birra dela parecia… adorável.

[Ayko: Fofo.]
O garçom retirou o cartão de “Reservado” da nossa mesa e colocou dois cardápios diante de nós. Demos uma olhada enquanto ele trazia os talheres e os guardanapos.
“Uau. Tudo parece delicioso”, disse Ayase. “Ah… posso pedir isso?”
Ela apontava para o ensopado de carne, um dos pratos recomendados do restaurante.
“Claro.”
Pedimos ambos o ensopado de carne, e a comida chegou sem demora.
“Cuidado”, disse o garçom. “Está quente.”
Vapor subia dos pratos de ferro com o ensopado. Um aroma levemente ácido se elevava do espesso molho demi-glace, enquanto dois pedaços de carne magra despontavam no meio do molho marrom-escuro.
Havia duas fatias de cenoura alaranjadas, cortadas em tiras finas, ao lado de pedaços de brócolis verde-vivo. Fatias de cogumelo flutuavam no centro, adicionando um toque branco ao prato. A apresentação era equilibrada, o que deixava tudo ainda mais apetitoso.
Enfiei a ponta do garfo na carne; bastou um leve giro para que ela se desfizesse. Espetei metade de um pedaço e levei à boca, mas, no instante em que tocou minha língua, senti uma queimação.
“Ai! Tá quente!”
“V-você tá bem?”
Eu tinha dado uma mordida grande demais.
Em pânico, engoli meio copo de água de uma vez. O garçom apareceu rapidamente e completou meu copo.
“Obrigado.”
Ele era um verdadeiro profissional. Manteve uma expressão neutra o tempo todo e saiu em silêncio, como se nem tivesse notado o que eu fiz.
Bebi mais um pouco de água do copo agora cheio.
“Ainda tava muito quente…”
“Sim. Vou tomar cuidado.”
Ayase cortou a carne com cuidado usando faca e garfo e levou um pequeno pedaço à boca. Um sorriso se abriu em seu rosto.
“Delicioso!” Ela disse que o sabor lembrava o ensopado que comia quando era criança. “O que será que faz ele ser diferente do que a gente faz em casa?”
“Nem você consegue dizer?”
“Não… Em ensopados, o sabor dos ingredientes acaba se misturando no caldo.”
“Ah. Verdade.”
Agora que eu vinha ajudando na cozinha, sabia bem disso. Sopas e ensopados realmente absorvem os sabores dos ingredientes.
“Parece que eles conseguiram concentrar bem o sabor da carne.”
Continuamos comendo, conversando sobre várias coisas.
Depois de nos satisfazermos, tirei o presente de Ayase da bolsa e entreguei a ela. Era o sabonete que ela tinha pedido.
Ela abriu o pacote na hora.
“Ah… um saquinho para sabonete.”
“Isso é um extra.”
“Obrigada. Isso é perfeito.” Ela sorriu. “Esses sabonetes são tão bonitos e elegantes. Dá até pena de usar. Fiquei curiosa sobre o que você escolheria, mas não imaginava algo assim.”
Pelas palavras dela, tive a impressão de que havia percebido que eu escolhi fragrâncias relaxantes de propósito. Se fosse o caso, então eu tinha seguido bem o conselho do Maru — mostrar que me esforcei. Era meio constrangedor, para ser sincero.
“Ei, é que… você me deixou muito feliz. Então… eu quero te dar algo também.” Ayase levantou a pequena bolsa no colo, abriu o fecho e tirou o que parecia ser um envelope. “Quer ir ver um filme depois disso?”
Ela tirou dois papéis de dentro e virou um deles para mim.
Eram ingressos de cinema. A sessão começava às oito e cinquenta da noite, num cinema perto da estação. Eu reconheci o título. Claro que reconheci — era o novo filme de anime de um diretor que eu gostava muito. O primeiro em três anos.
Foi aí que caiu a ficha: isso não podia ser coincidência.
“Não me diga que…”
“Isso foi o que a Yomiuri me deu de presente. Ela disse: ‘Pode usar como quiser. São dois, então convida o Asamura!’”
Eu sabia. A Yomiuri realmente adorava armar coisas.
Depois do jantar, fomos para o cinema.
Não dava para desperdiçar os ingressos, já que só valiam para aquele dia. Mas isso era só uma desculpa. Eu realmente queria ver o filme. Afinal, esperei três anos.
Chegamos bem a tempo. Havia uma regra que proibia menores de ficarem em estabelecimentos comerciais depois das onze da noite, incluindo cinemas. Se o filme passasse desse horário, não poderíamos entrar. Felizmente, ele terminava às dez e cinquenta.
O filme devia ter cerca de uma hora e quarenta minutos. Se a Yomiuri tinha calculado nossos horários e comprado os ingressos com tudo isso em mente, era realmente impressionante.
“Vamos ter que ir embora assim que acabar”, disse Ayase, e eu concordei.
Já tinha avisado nossos pais. Eles deixaram, desde que voltássemos direto. Também disseram que poderíamos pegar um táxi se atrasássemos, mas acho que não seria necessário.
“Que tipo de filme é esse?” perguntou Ayase, olhando para o painel na frente do cinema.
O pôster digital mostrava um garoto e uma garota em idade escolar, mas não revelava muito sobre a história.
“É terror? Fantasia? Ficção científica?”
“Bom… na verdade, eu não sei direito”, admiti.
Ayase pareceu surpresa.
“Não sabe?”
“Quis assistir sem saber muito, então evitei procurar.”
“Ah… então você estava mesmo ansioso, né?”
“Eu acho que sim.”
Dito assim, fiquei um pouco constrangido.
Entregamos os ingressos, entramos e seguimos até a sala três.
Nossos lugares eram bons — um pouco atrás do centro, então não precisaríamos forçar o pescoço.
Assistir a um filme no cinema era bem mais empolgante do que em casa, embora talvez fosse diferente com uma tela enorme. Ainda assim, havia algo especial na atmosfera do cinema. Era como compartilhar a experiência com todos ali.
Sentamos e esperamos enquanto passavam os trailers.
Então as luzes se apagaram, e o filme começou.
A história se passa em um colégio comum. Começa com uma cena vista pela janela da sala, então a câmera se aproxima de uma aluna sentada no canto — uma garota de cabelo preto, a mesma do pôster. A cor do cabelo era diferente, mas achei que ela parecia com a Ayase.
A primeira parte mostra o cotidiano da garota tímida.
Então, um dia, ocorre um roubo na sala.
As pessoas suspeitam dela. Até uma amiga não acredita em sua inocência. Desesperada, ela vaga pelas ruas até ser atropelada e morrer.
Achei que ela reencarnaria em outro mundo, mas, em vez disso, volta no tempo com suas memórias intactas.
Ela passa a repetir os dias, tentando mudar o destino. Mas é traída novamente e se fecha cada vez mais.
Até que um novo aluno chega.
É o garoto do pôster.
Aos poucos, ele conquista sua confiança e cura seu coração.
Então chega o dia decisivo novamente. Desta vez, ela é acusada de assassinato.
O garoto revela ser um viajante do tempo.
“O que você está vivenciando é uma oscilação temporal localizada, com você no centro. Se nada fosse feito, o universo poderia colapsar.”
Ele veio de dez mil anos no futuro para corrigir isso.
“Então foi por isso que você se aproximou de mim?”
Mas ele nega.
“Não. Foi porque você era a única que me tratava normalmente.”
E acrescenta:
“Além disso… sua sopa de missô é a mais deliciosa que já provei.”
Pelo visto, a sopa de missô não sobreviveu ao tempo.
Eu ri — assim como a garota na tela.
Logo depois, ele a abraça.
“Eu vou te tirar daqui.”
Ela retribui o abraço, chorando.
[Ayko: Se fosse uma obra real, eu com certeza leria ou assistiria, ou os dois]
Foi então que percebi Ayase no canto da minha visão.
Ela estava inclinada para frente, totalmente envolvida. Uma lágrima escorreu por seu rosto.
Virei rapidamente para a tela.
Senti como se tivesse visto algo que não deveria… mas, ao mesmo tempo, uma emoção quente surgiu dentro de mim.
Eu queria cuidar dela.
Era isso que eu sentia.
Na tela, o filme chegava ao clímax, com a música tema ecoando.
Durou uma hora e quarenta e três minutos.
E então acabou.
Eu sabia que nunca esqueceria aquele dia — o décimo sétimo aniversário da Ayase.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios