Volume 5
Capítulo 9: 30 de Outubro (Sexta-Feira) - Yuuta Asamura
30 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)—YUUTA ASAMURA
Era sexta-feira, véspera de Halloween.
Durante o intervalo do almoço, a turma inteira estava animada. Dizem que a véspera de um festival pode ser até melhor do que o próprio evento, e até existe um anime sobre o dia anterior ao festival cultural escolar que parece durar para sempre. Talvez fosse por isso que todo mundo estivesse tão elétrico.
Eu não podia culpá-los. Quando um festival começa, o fim já está à vista. Ainda assim, não esperava que meus colegas estivessem tão empolgados com o Halloween. Todos falavam sobre fantasias e para onde iriam. A única exceção era a área num raio de trinta centímetros ao redor da minha mesa.
“Yuuta. Posso falar com você um minuto?”
Shinjou entrou na sala com uma expressão séria. Aquilo era incomum vindo dele, e me deixou preocupado.
“Ah… O que foi?” perguntei. “Você parece inquieto.”
“Quero falar com você em particular. Podemos ir até a varanda?”
“Comigo?”
“Sim, você mesmo, Yuuta.”
“Shinjou, espera aí. Você não vai me contar algo ruim, vai?”
“Não vou. Por favor. Tomokazu?” disse ele, virando-se para o Maru.
“Hmph. Bem… eu não me importo, se o Asamura não se importar.”
“Por mim, tudo bem,” respondi. “Vamos.”
Levantei e fui em direção à varanda, com Shinjou logo atrás.
Quase não havia alunos ali, apesar de ser o horário de almoço — provavelmente por causa do frio. Os poucos que estavam à vista brincavam lá embaixo, e, apesar de ser um espaço aberto, parecia o lugar perfeito para compartilhar um segredo.
“Então, Yuuta,” começou Shinjou. “Depois da festa de Halloween da nossa turma, quero convidar a Ayase para um after só nós dois.”
“…Ah. Entendi.”
Eu tinha trabalho naquele dia e não poderia ir, mas não queria revelar meu emprego de meio período, então apenas fingi não saber de nada.
“Tem uma coisa que eu quero confirmar com você antes,” ele disse.
“O quê?”
“Yuuta. Você está apaixonado pela Ayase, não está?”
[Ayko: Gimai tem um elenco bastante perceptivo…]
“O quê?!” Fiquei tão surpreso que nem sabia se tinha falado em voz alta.
As vozes dos alunos lá embaixo pareceram desaparecer. Olhei para as mãos de Shinjou, agarradas ao corrimão. As veias em seus pulsos estavam saltadas — ele estava claramente tenso. Fiquei surpreso com o quanto aquilo parecia importante para ele.
Para mim, Keisuke Shinjou sempre pareceu um cara estiloso e popular. Ele sempre parecia confiante com garotas, e eu nunca o imaginei como alguém que se prenderia a uma pessoa específica.
Eu tinha achado que a aproximação repentina dele comigo e com a Ayase era só uma espécie de jogo — por isso ele agia com tanta naturalidade.
Mas agora, Shinjou estava me encarando diretamente. Pelo olhar dele, dava para ver que não estava brincando nem me enganando.
“Você quer dizer como irmão?” perguntei.
“Você sabe que não é disso que estou falando.”
“O que você pretende fazer depois de ouvir minha resposta?”
“Depende de qual for.”
Ele não ia recuar, e eu não conseguia ver uma saída.
Eu não sabia como responder. Como poderia? Eu e a Ayase ainda não tínhamos certeza se nossos sentimentos eram românticos ou familiares. Como explicar algo que eu mesmo não entendia direito? Comecei a perceber como rótulos simples como “namorado e namorada” ou “irmãos” eram úteis.
Eu conseguiria declarar ali, diante do Shinjou, que estava apaixonado pela Ayase?
Naquele dia em que nos abraçamos no quarto dela, definimos nossa relação como a de irmãos excepcionalmente próximos. Não deveria ser tão diferente da relação do próprio Shinjou com a irmã dele. Nesse caso, seria certo falar da Ayase como se estivéssemos apaixonados?
…Será que isso era mesmo certo?
Meus pensamentos giravam, até que de repente pararam.
Eu não sei como a Ayase se sente, mas e eu?
Vamos supor, hipoteticamente…
Eu ficaria bem com o Shinjou continuando apaixonado pela Ayase? Me incomodava que ele quisesse chamá-la para sair?
Talvez perguntar se eu gostava dela fosse a forma dele ser respeitoso.
Se o mundo fosse só eu e a Ayase, poderíamos manter uma relação vaga e incomum o quanto quiséssemos. Mas, quando outras pessoas entram na equação, definições vagas não bastam. Precisamos de algo que todos entendam.
Para ser honesto, eu não tinha provas se meus sentimentos pela Ayase eram de irmão ou de um garoto por uma garota. Mas, se tivesse que escolher — mesmo que fosse simplificar demais — havia uma resposta que eu podia dar.
“Shinjou. Eu não me importo em te responder, mas preciso que você me prometa uma coisa.”
“O quê?”
“O que vou dizer é apenas sobre como eu me sinto. Não inclui os sentimentos da Ayase. E também não define nosso relacionamento, então não tire conclusões precipitadas.”
“Ah… tá. Não entendi muito bem, mas tudo bem.”
Mesmo que houvesse sentimentos românticos entre mim e a Ayase, não pretendíamos tornar isso público. Nós éramos irmãos, não um casal. Eu precisava continuar dizendo isso. Além disso, ela ainda não tinha me aceitado oficialmente como namorado.
Ainda assim, havia algo que eu podia afirmar com base no que eu sentia.
“Em resumo…” Se Shinjou precisava de uma resposta clara para desistir da Ayase, eu não tinha problema em dizer como me sentia. “…Sim, eu amo a Ayase. Espero que isso seja suficiente para você.”
[Ayko: NIIICE, meu mano Yuuta aceitou seus sentimentos!]
Depois de colocar meus sentimentos em palavras, comecei a me sentir mais seguro.
Eu queria que ele desistisse dela. Esse era o meu verdadeiro sentimento.
E, se era assim, então era evidente que, no fundo, eu queria ir além com a Ayase.
Levantei o olhar para ver a expressão de Shinjou. Nunca tinha enfrentado um rival amoroso antes, então não fazia ideia de como ele reagiria. Raiva? Tristeza? Frustração?
Mas nenhuma dessas coisas aconteceu.
“Entendo,” ele disse, com o rosto neutro e a voz calma. Era como se tivesse recebido a resposta que já esperava. “Obrigado por me contar, Yuuta.”
“De nada.”
“Então, até mais.”
“Até.”
Shinjou se espreguiçou, virou as costas e foi embora. Observei ele retornar à sala antes de olhar novamente para baixo, da varanda. Eu não sabia o que ele estava pensando, nem se mudaria sua atitude.
Mas o agradecimento dele parecia sincero. Vinha do fundo do coração.
Isso me deu esperança de que as coisas não terminariam mal. Ou talvez eu só estivesse otimista demais. Depois de expressar meus sentimentos pela Ayase, me senti mais firme.
Quando voltei para a sala, Maru levantou os olhos do livro e perguntou, preocupado:
“Então, sobre o que vocês falaram?”
“Ele só queria minha opinião sobre algo. Não posso entrar em detalhes, mas parece que já se resolveu.”
“Hmm… Bom, então tudo bem,” disse Maru, ainda desconfiado, mas deixando o assunto de lado.
Vários grupos conversavam sobre se reunir em Shibuya no dia seguinte para festas.
Tentando distrair o Maru, perguntei: “Você tem algum plano?”
“Tipo… pro Halloween?”
“É.”
“Não vou a nenhuma festa,” ele respondeu. Mas, quando perguntei se ele estava livre, disse que tinha sido convidado para karaokê.
“Vai vir, Asamura?”
“Infelizmente, tenho trabalho.”
Maru assentiu e não insistiu.
Eu nunca tive muitos amigos, mas achava que o motivo de eu me dar tão bem com o Maru por tanto tempo era porque ele nunca ultrapassava limites. Já o Shinjou se aproximou sem hesitar — e isso também deu certo. Talvez fosse sinal de que eu estava amadurecendo.
De qualquer forma, ver meus colegas tão animados me fez perceber que muitos deles estariam em Shibuya no Halloween — exatamente quando eu e a Ayase estaríamos trabalhando numa livraria perto da estação.
Eu tinha acabado de revelar meus sentimentos para o Shinjou, mas duvidava que ele espalharia isso. Ainda assim, seria problemático se começassem rumores. Eu realmente esperava que ninguém nos visse no trabalho.
Considerando a multidão dos anos anteriores, era improvável que alguém conseguisse reconhecer rostos. Mas, como sairíamos tarde, provavelmente eu acompanharia a Ayase até em casa — e isso significava andar lado a lado pelas ruas de Shibuya.
Como isso pareceria para os outros? Era melhor ter cuidado.
Depois da aula, fui para casa e, de lá, segui a pé para o trabalho. Imaginei que haveria muito movimento perto da estação e não quis ir de bicicleta. Conforme me aproximava da estação de Shibuya, vi cada vez mais pessoas com roupas estranhas.
Havia uma bruxa com uma vassoura, usando um vestido preto rendado, e um zumbi com um machado enfiado na cabeça. Duas garotas pareciam normais à primeira vista, mas tinham adesivos de cicatrizes no rosto e sangue escorrendo pelos cantos da boca.
…O Halloween não era só amanhã?
O feriado deveria ser a véspera do Dia de Todos os Santos. Faz sentido comemorar a véspera da véspera?
Quando tradições se espalham, acabam sendo distorcidas. É comum, mas ainda assim surpreendente ver isso de perto. Naquele momento, parecia que Shibuya inteira tinha virado uma casa mal-assombrada.
Um desfile de demônios passava enquanto a lua minguante começava a subir.
Assim que cheguei ao trabalho, me preparei para o turno.
Clientes circulavam pela loja usando fantasias tão estranhas quanto as que vi na rua.
“Tá brincando… O Halloween é só amanhã.”
E não era só isso. Assim que troquei de roupa, o gerente me entregou um chapéu esquisito.
“Aqui, Asamura. Pra você.”
“O que… é isso?”
“É um chapéu.”
Tinha pontas coloridas caindo para todos os lados, como casca de banana. Em outras palavras, um chapéu de bobo da corte.
“Você quer que eu use isso…?”
“Sim. É Halloween. Use hoje e amanhã. Temos que atrair clientes.”
Atrair clientes? Era isso?
Olhei ao redor e vi que todos — gerente, funcionários e até os temporários — estavam usando o mesmo chapéu. Era surreal. Comecei a me perguntar se tinha cometido um erro ao aceitar trabalhar nesses dois dias. No fim, aceitei meu destino, coloquei o chapéu e fui para o depósito.
Livros novos não chegam aos sábados e domingos, então sexta-feira é o dia mais movimentado. Por mais espaço que houvesse nas prateleiras, era impossível acomodar tudo. Revistas grandes eram especialmente problemáticas, já que não podiam ser empilhadas muito alto. O jeito era repor aos poucos.
Cumprimentei ao entrar no estoque.
“Tá atrasado, garoto,” disse Yomiuri.
“Oi, Asamura,” cumprimentou Ayase.
“Ah, oi. Vocês chegaram antes de mim.”
As duas estavam colocando revistas em caixas de papelão sobre um carrinho.
Quando olhei para o rosto da Ayase, meu coração disparou. Minhas bochechas esquentaram ao lembrar da conversa com Shinjou. Eu tinha definido claramente meus sentimentos como românticos… e agora começava a me arrepender.
“Tá atrasado, garoto! Atrasado!”
“Hã?!”
Como assim atrasado?
“Tá tudo bem, Asamura,” disse Ayase. “Ainda faltam cinco minutos.”
“Ah, tá… Yomiuri, você me assustou.”
Conferi o relógio. Ayase estava certa. Yomiuri estava só aprontando.
Ela, que estava inclinada enchendo caixas, se esticou com um gemido exagerado.
“Já cansada?” perguntei.
“Ugh. Saki, seu irmão tá me tratando como velha.”
“Mas você disse que estava cansada,” rebateu Ayase.
“Não acredito que me traiu! …Ah, Saki, que cruel. De que lado você está?!”
“Fingir que está chorando não convence quando você está com esse chapéu ridículo.”
Era verdade. Com aquele chapéu balançando, ela parecia um bobo da corte.
“Fico feliz que você esteja se adaptando, Saki! Acho que vou ter que mudar minha estratégia.”
“Você não podia simplesmente parar?”
“Não. Isso seria muuuuito chato!”
Ela girou e veio até mim com os braços estendidos, como um zumbi.
“Hee-hee! Doces ou travessuras, garoto! Me dá doce ou vou aprontar!”
“O Halloween é só amanhã.”
“E daí?! Feriados chegam de surpresa! Agora me dá doce.”
“Agora você só está exigindo. E eu não preciso de feriados que aparecem como zumbis.”
“Baaah, ousa me desafiar?!”
[Ayko: bah que a Yomiuri tá gaúcha rapazkkk.]
Ela mudou de direção, abraçou Ayase por trás.
“Pronto! Agora tenho uma refém! Me dá doce ou faço algo com sua irmã.”
“Hã?! Ei… isso faz cócegas…”
“Hee-hee-hee. Cadê o garoto malvado que não quer me dar doce?”
Parecia mais um demônio folclórico do que algo de Halloween.
“Para com isso, Yomiuri,” eu disse. “Você é nossa veterana, isso pode ser considerado assédio. Eu te dou doce, então para, tá?”
Ela soltou Ayase imediatamente.
“Certo, garoto. E lembre-se: como irmão mais velho, você deve sempre ter um ou dois doces no bolso para sua querida irmãzinha. Entendeu?”

Aquilo não soava muito realista.
Yomiuri sabia que eu e Ayase agora éramos meio-irmãos, e nunca perdia a chance de nos provocar.
Tudo bem até aí, mas… de onde eu ia tirar doces?
“Tudo bem,” eu disse. “Eu trago alguma coisa amanhã.”
“Isso! Promessa é promessa! E se você não cumprir…” Yomiuri soltou Ayase, balançou os dedos na minha direção novamente e disse: “Isso não foi nada. Espere até ver amanhã!”
“Tá, tá.”
Nesse momento, o relógio marcou o início do nosso turno.
“Oh, acabou o intervalo! Saki, garoto! Vamos trabalhar!”
“Acho que quem estava mais longe de trabalhar era você…”
Mas Yomiuri era a mais experiente entre nós, e, quando levava o trabalho a sério, era extremamente eficiente. Ela parecia já ter conferido as prateleiras da loja antes e começou a colocar mais revistas nas caixas, dizendo: “Vendemos algumas dessas, então vamos repor mais duas.”
Depois de um tempo indo e voltando entre a loja e o estoque para reabastecer, nós três fizemos uma pequena pausa.
Enquanto conversávamos tomando o chá gratuito na sala dos fundos, o assunto acabou mudando para como passaríamos o Halloween.
Como cairia num sábado, as festas durariam o dia inteiro. Claro, nós três teríamos que conciliar isso com nossos turnos.
Yomiuri disse que sairia desfilando fantasiada por Shibuya com seus amigos da faculdade e depois passaria a noite inteira cantando no karaokê. Ela falava abertamente sobre seus planos, bem mais ousados do que qualquer coisa que um estudante do ensino médio faria. Disse até que sua professora associada estaria lá.
Aparentemente, ela queria ver de perto os jovens enlouquecendo no Halloween.
“Ela disse que era um estudo acadêmico, mas tenho a impressão de que só quer se divertir.”
“Você está falando da professora com quem você estava aquele dia?” perguntou Ayase, juntando as peças.
“Exatamente. Professora Kudou.”
“Ah, sim… lembro dela.”
Ao ouvir o nome, Ayase empalideceu, e Yomiuri riu.
“Acho que você já teve o suficiente dela, hein?”
“Todos os professores universitários são assim?”
“Hm? Acho que a professora Kudou é uma exceção. Ela é famosa pelo comportamento estranho, muito além da compreensão de uma pessoa comum. É a mulher mais brilhante do departamento e tem uma mente afiada como a de um demônio.”
“Bem, dá para entender por que você não diria que ela é ‘sábia como um anjo’.”
Parecia uma professora e tanto.
Mas… espera.
“Ela é aquela pessoa com quem você e suas amigas estavam tomando café?” perguntei. “Sabe, naquele lugar de panquecas?”
“Ah, é mesmo. Você estava bisbilhotando.”
Eu preferia que ela não falasse como se eu tivesse feito algo errado. Eu só estava passando e acabei ouvindo.
“Bem, acho que ela devia se controlar um pouco, ou vamos acabar perdendo candidatos para a faculdade,” suspirou Yomiuri.
Curiosamente, Ayase murmurou: “Não necessariamente.”
A voz dela foi tão baixa que não tive certeza se Yomiuri ouviu.
“A professora Kudou realmente dá trabalho.”
Apesar disso, Yomiuri estava sorrindo.
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