Gimai Seikatsu Japonesa

Tradução: Ayko

Revisão: Enigma


Volume 5

Capítulo 11: 31 de Outubro (Sábado) - Yuuta Asamura

31 DE OUTUBRO (SÁBADO)—YUUTA ASAMURA

Era o último dia de outubro. Eu estava de folga, então dormi até mais tarde e passei o tempo relaxando.

Depois, quando deu quatro da tarde, saí para o trabalho.

Imaginei que hoje estaria ainda mais cheio, então deixei a bicicleta em casa novamente. Como iria a pé, precisei sair um pouco mais cedo, e Ayase e eu fomos para o trabalho separados, como de costume.

À medida que me aproximava da estação de Shibuya, ficava cada vez mais óbvio que dia era. Amanhã era o Dia de Todos os Santos, e hoje era a véspera — Halloween.

Uma multidão enorme de pessoas fantasiadas de monstros caminhava pelas ruas de Shibuya. Havia de tudo: zumbis, vampiros, múmias, lobisomens… Também havia personagens de anime misturados aos monstros tradicionais. Shibuya havia se transformado em um baile de máscaras ainda maior do que o do dia anterior.

[Ayko: Shibuya no halloween havia se tornado a Liberdade no carnaval…]

   “Estou ficando tonto…”, murmurei enquanto tentava evitar a multidão.

A rua estava tão lotada que as pessoas esbarravam umas nas outras. Suspirei. O trabalho com certeza seria puxado hoje.

Lançando um olhar de lado para outro grupo fantasiado, entrei na livraria.

Assim que entrei, percebi que ali dentro também estava um caos.

O número de clientes entrando e saindo era pelo menos 30% maior que o normal, e muitos deles estavam fantasiados.

Fui até a sala dos fundos, cumprimentei o pessoal e estava prestes a ir ao vestiário quando o gerente me chamou.

   “Ah, Asamura. Hoje você fica no caixa”, disse ele, me entregando o mesmo chapéu de bobo da corte que eu havia usado no dia anterior.

Ele me lembrou de que estaríamos vendendo itens especiais de Halloween naquele dia e me avisou para não esquecer disso.

Depois de trocar para o uniforme, fui até a área de vendas e encontrei itens de festa que não tinha visto no dia anterior empilhados em uma prateleira especial ao lado do caixa. Eram coisas típicas de lojas de desconto — pequenos acessórios de fantasia, velas de vários formatos e, por algum motivo, bastões luminosos. Devem ter colocado tudo isso após o fechamento na noite anterior.

Eram itens especiais vendidos apenas naquele dia. A época em que livrarias conseguiam sobreviver vendendo apenas livros já havia ficado para trás.

O gerente provavelmente decidiu que deveríamos vender o que fosse possível enquanto havia tanta gente.

Para mim, isso só significava mais coisas para lembrar no caixa.

Com o chapéu de bobo da corte na cabeça, fui para trás do balcão. Com aquela multidão, o dia prometia ser corrido.

Qualquer coisa que pudesse dar errado provavelmente daria errado hoje.

Em momentos assim, a Lei de Murphy sempre parecia estar em pleno funcionamento.

Como estávamos muito ocupados, não havia tempo para conversar com os colegas. Shibuya já era movimentada normalmente, mas hoje havia quase o dobro de clientes. O fato de o Halloween ter caído em um fim de semana certamente contribuía para isso. Até pessoas que normalmente não saíam deviam ter aparecido este ano.

Era bom ver o movimento, mas eu nunca tinha ficado tão ocupado no caixa. Quando meu turno finalmente terminou, eu estava exausto. Minhas pernas doíam de tanto ficar em pé, e eu tinha certeza de que meus músculos estariam doloridos no dia seguinte.

Pela primeira vez, me peguei invejando o Maru e sua rotina de exercícios. Claro, eu não fazia ideia de quanta dor muscular era necessária para alcançar um corpo que não sentisse mais isso. No fim das contas, a vida nunca é fácil.

Para piorar, uma tragédia aconteceu bem no final do meu turno infernal. Ouvi dizer que alguém havia vomitado perto da entrada da loja.

Provavelmente algum bêbado inconveniente. Mas, se deixássemos aquilo ali, com certeza afastaria os clientes. Alguém precisava resolver, e como o gerente estava ocupado dando ordens, sobrou para mim.

Com um balde cheio de água e um esfregão, fui até a entrada da loja. O “local do crime” ficava bem diante das portas automáticas. O responsável já tinha sumido. Restava apenas uma poça desagradável de vômito. Era um completo incômodo.

Fiquei ali, no ar frio da noite de outono, limpando aquilo mecanicamente com o esfregão. Enquanto isso, pessoas fantasiadas continuavam passando ao meu lado.

Sempre odiei eventos barulhentos como esse, e não sentia a menor inveja daquelas pessoas se divertindo. Mas, quando casais passavam, eu não conseguia evitar olhar de relance.

Mesmo agora, vi um casal, aparentando ser universitário, trocando olhares bem próximos em frente a um cartaz de cinema.

Eles continuavam se beijando, alheios às pessoas ao redor. Eu já tinha visto algo parecido em Ikebukuro e comecei a me perguntar se casais simplesmente não conseguiam evitar se beijar em público.

   “Hmm?”

De repente, notei algo estranho na cena.

Alguém estava agachado diante do casal, observando-os enquanto se beijavam.

À primeira vista, a figura me lembrou um demônio, disfarçado de mulher.

Ela usava uma tiara com chifres negros e uma cauda fina com ponta em forma de seta. Seu vestido gótico preto, com saia rodada e mangas largas, a fazia parecer uma bruxa. O traje parecia uma mistura dos dois. Em qualquer outra época do ano, ela pareceria extremamente suspeita.

Mas, como se fosse mágica de Halloween, ninguém parecia notar sua presença. Eu parecia ser o único prestando atenção naquela figura chamativa. Nem mesmo o casal que ela observava parecia perceber, completamente absorvido no beijo.

De repente, o “demônio” falou com eles.

   “Hmm. Posso falar com vocês dois?”

O homem e a mulher pareceram notá-la pela primeira vez e se viraram.

Ainda bem. Achei que só eu conseguia vê-la.

O homem a encarou com cautela e deu um passo à frente, como se estivesse protegendo a namorada.

Sem sequer piscar, o demônio disse:
    “Vocês dois estão se preparando publicamente para o ato sexual, correto? Costumam fazer esse tipo de preliminar em público?”

[Ayko: É a Professora Kudou, 100% de certeza.]

   “O quê…?” O homem ficou atônito.

Era compreensível. Que tipo de coisa aquele demônio estava dizendo?

   “Ah, é só uma pergunta simples. Estou curiosa para saber até que ponto o clima de Halloween leva jovens a ignorar normas sociais — ou se apenas facilita que jovens sem essas normas se juntem. É pura curiosidade.”

   “H-hã? O que você quer dizer com isso?”

   “Vamos embora!” A garota puxou o braço do rapaz, tentando fugir.

   “Ei, espere!” disse o demônio. “Não era a intenção de vocês se estimular exibindo-se em público? Nesse caso, não deveriam acolher minha atenção?”

   “Estamos indo! Não chegue perto da gente!”

   “Podem ao menos responder uma pergunta? Vocês só agem assim em público hoje ou fazem isso com frequência? Só preciso disso. Podem gritar a resposta enquanto vão embora.”

   “A gente não estava fazendo isso!”

A mulher lançou um olhar furioso para o demônio e saiu em direção ao Center Gai, puxando o namorado.

   “Obrigada por fornecerem um material valioso. Prometo utilizá-lo bem em minhas pesquisas futuras”, disse o demônio, acenando para o casal. “Agora, vamos procurar meu       próximo alvo de observação… Hmm?”

   “Oh.”

Nossos olhares se encontraram quando ela se virou.

Um único vislumbre daqueles olhos escuros, como joias cobertas de fuligem, trouxe de volta uma memória intensa. A pele pálida, o cabelo desalinhado, os ombros levemente curvados — e aquele jeito desagradável de falar com o casal.

Eu já tinha encontrado alguém exatamente assim antes.

Era a mulher que havia debatido com Yomiuri naquele café. Lembrei-me de Yomiuri chamá-la de Professora Kudou. Pensando bem, Yomiuri tinha dito que sairia com pessoas da faculdade depois do trabalho. Talvez a professora tivesse chegado um pouco mais cedo.

   “Ei, você aí. Já nos vimos antes?”, ela perguntou.

   “Ah, hum, não. Desculpa por ficar encarando.”

   “Sem problemas. Não vou te culpar. Afinal, toda experiência de aprendizado começa com um olhar atento.”

   “S-sim…”

   “Você viu o comportamento de cortejo daquele casal, não viu? O que achou?”

Ela estava me perguntando o que eu pensava. A pergunta foi inesperada, mas consegui formular uma resposta na hora.

   “Eu achei constrangedor.”

   “Ah.”

   “Ou melhor, foi assim que me senti instintivamente.”

   “Entendo. Então você se imaginou fazendo a mesma coisa e sendo observado por estranhos.”

   “E-eu quer dizer, não foi bem assim…”

   “Claro que foi. Uma pessoa suspeita como eu fez uma pergunta, e você respondeu imediatamente. Isso significa que você já tinha uma opinião, e que essa é sua impressão sincera. Você poderia ter achado irritante ou irrelevante, mas disse que era constrangedor. Isso se chama vergonha empática. A vergonha se transfere para o observador porque ele consegue se imaginar na mesma situação.”

Eu não conseguia respirar. Ela tinha me enxergado completamente.

Ela tinha vencido Yomiuri num debate. Não havia chance alguma de eu discutir com ela.

   “Quando analisamos estatísticas sobre a porcentagem de pessoas confortáveis em se beijar em público, os resultados variam dependendo da idade, gênero e estado civil, mas geralmente ficam em torno de oito por cento. Porém, se você pergunta às pessoas se elas já beijaram em público, pouco menos de vinte por cento dizem que sim.”

   “Hum, e…?”

   “Apesar de a maioria das pessoas não se sentir confortável com beijos em público, um bom número de casais já fez isso. Então, quando e onde essas pessoas decidem se envolver em atividades que normalmente não aprovam? Não há muitos estudos sobre isso, e atualmente estou investigando as condições em que a ética das pessoas tende a se enfraquecer.”

   “…Entendi.”

O que ela dizia era interessante. Mas também assustador.

A cada palavra, a cada som, aquela mulher me envolvia. E, quando percebi, já estava preso ao ritmo dela.

Como ela estava vestida de demônio, comecei a imaginá-la como um Mefisto me    enfeitiçando.

[Ayko: Me corrijam se eu estiver errado, mas Mefisto pode ser tanto o vilão da Marvel, quanto o demônio do folclore medieval alemão, Mefiso ou Mefistófeles, que foi popularizado pela obra Fausto de Goethe (a qual recomendo a leitura!)]

   “Você sabe que o Halloween em Shibuya é famoso por fazer os jovens perderem o controle todo ano, não é?”, ela perguntou.

   “Sim, sei.”

   “Quando digo ‘perder o controle’, me refiro a comportamentos que fogem das normas sociais. Eu suponho que isso possa ter um efeito semelhante nas relações entre homens e mulheres.”

   “Então você está fazendo trabalho de campo. Você é bem dedicada à sua pesquisa, mas imagino que isso seja esperado de uma professora universitária.”

   “Oh? Então você sabe quem eu sou, afinal.”

Droga. Eu deixei escapar.

Eu sabia sobre ela, mas apenas porque tinha escutado escondido uma conversa que ela teve com seus alunos, e não queria contar isso.

Enquanto eu pensava no que fazer, o demônio me analisou da cabeça aos pés.

   “Ah, você é funcionário desta livraria. Então é colega da Yomiuri.”

   “Sim, ah, acho que sim.”

   “Você é o Asamura, por acaso?”

   “O quê?! Você sabe até o meu nome?”

   “Sim, mas eu não sabia como você era até agora.”

Que jeito desagradável de responder.

   “Meu nome é Eiha Kudou. Sou professora associada na Universidade Feminina Tsukinomiya, onde Yomiuri estuda. Também já conheci sua irmã.”

   “Ela comentou um pouco sobre isso.”

Ayase disse que tinha ido a um evento aberto da faculdade e acabou se envolvendo com uma professora difícil.

Depois de apenas alguns minutos de conversa, eu já entendia o que ela quis dizer. Só podia imaginar o desgaste emocional que aquela mulher causara em Ayase.

   “Não é bom eu te interromper durante o trabalho. Acho que já está na hora de eu ir.”

   “Isso é… surpreendente.”

   “O que é?”

   “Eu tinha certeza de que você continuaria falando.”

   “Ha-ha-ha. Não tenho interesse em interromper as atividades dos outros ou interferir desnecessariamente em assuntos fora do meu campo de interesse.”

Que ironia, depois do que eu tinha acabado de ver. Ainda assim, guardei esse comentário para mim.

O assustador era que a Professora Kudou parecia estar falando com sinceridade. Ela não duvidava de suas próprias palavras nem por um segundo.

   “Bem, então”, disse ela, virando-se.

Aliviado, eu estava prestes a voltar a passar o pano no chão quando ela parou e se virou novamente.

   “Ah, é mesmo. Já que tenho essa oportunidade, vou agir como uma verdadeira demônio e lançar uma maldição em você antes de ir.”

   “Uma maldição? Isso parece perigoso.”

   “Por que jovens que normalmente não flertam em público fazem isso hoje? Acredito que a chave está em uma queda temporária do quociente de inteligência.”

   “Você quer dizer… que a atmosfera do Halloween os deixou idiotas?”

   “Sim. E quanto mais idiotas nos tornamos, mais cedemos aos nossos impulsos primitivos… de buscar contato sexual com nossos parceiros.”

   “Essa foi uma forma bem direta de dizer isso.”

   “É a verdade. Mas… não é totalmente ruim ser um tolo.”

 

[Ayko: De fato, em certas situações ser ignorante pode acabar sendo uma benção]

 

   “Não consigo imaginar nada de bom nisso.”

   “Pode te deixar feliz, por exemplo.”

   “Agora você está ficando espiritual?” Ela não estava sendo lógica até agora há pouco?

   “Os seres humanos sempre coexistiram com a espiritualidade. É uma parte essencial da nossa sociedade”, disse Kudou, apontando para o lado.

Olhei naquela direção e vi uma multidão fantasiada preenchendo o cruzamento de Shibuya. Aquilo me lembrou da noite em que caminhei pela cidade com Fujinami.

Naquela ocasião também havia pessoas procurando desculpas para se degradar. Na época, era o álcool. Hoje, era o Halloween que ajudava todos a deixarem de lado suas faculdades racionais.

   “Vocês dois são inteligentes demais, então deixem-me lançar uma maldição para transformá-los em tolos — Feliz Halloween.”

   “Tolos…? Por favor, pare de brincar.”

Ela estava sugerindo que eu ou Ayase faríamos algo tão idiota? Nem pensar.

Exasperado, olhei novamente para a Professora Kudou, mas depois de dizer o que queria, o demônio já havia desaparecido.

   “Ela não é realmente um demônio, né…?”

Não. Claro que não. Ha-ha-ha.

Refletindo sobre essa experiência estranha, terminei a limpeza e voltei para a loja.

Um pouco mais tarde, meu turno terminou. Ao entrar no escritório vindo do caixa, vi o gerente distribuindo grandes sacolas de presente para os funcionários que haviam terminado o expediente.

   “Aqui está, Asamura. Obrigado por trabalhar em um dia tão movimentado.”

A sacola parecia conter vários doces, e eu a aceitei com gratidão.

   “Aqui, Ayase. Obrigado pelo seu esforço.”

   “Obrigada.”

Ayase terminou um pouco mais tarde, e ouvi sua troca de palavras com o gerente.

Yomiuri estava atrás dela. Pela primeira vez, ela estava saindo no mesmo horário que Ayase e eu. Segundo ela, encontraria amigos da faculdade para uma festa à fantasia depois.

Eu contei que tinha visto alguém que parecia ser a professora dela quando saí mais cedo.

   “Você está bem?”, ela perguntou, preocupada. “Ela não fez nada estranho com você, né?!”

Quando eu disse que estava tudo bem, mas que a professora tinha lançado uma maldição em mim, Yomiuri ficou chocada.

Depois disso, troquei de roupa e voltei justamente quando Ayase e Yomiuri também terminaram. Ayase estava com roupas normais, mas Yomiuri agora vestia uma fantasia. Ela usava um chapéu de bruxa de aba larga e um vestido preto, e aquilo combinava tanto com ela que quase esqueci como ela normalmente parecia.

Não era uma bruxa sensual e estilosa mostrando muita pele, mas sim o tipo tranquilo que você encontraria no fundo de uma floresta. Achei que combinava com ela. Quando Yomiuri fazia algo, ela se entregava completamente. A pedra do broche em seu peito tinha um símbolo rúnico gravado, e, no lugar de uma vassoura, ela segurava uma pequena varinha em forma de bengala, que aparentemente comprara em um parque de diversões.

   “Hi-hi-hi! O que acham?” Yomiuri fez uma cara orgulhosa enquanto balançava a barra do vestido.

   “Ah, hum, sim. Você está ótima, parece até de verdade.” Eu realmente falava sério.    Dava para ver que ela estava pronta para se divertir muito.

   “Aposto que você preferia ver a Saki fantasiada”, ela disse.

Não neguei, mas sabia que Ayase provavelmente não se vestiria.

   “Eu não vou me fantasiar”, disse Ayase ao meu lado. Sua resposta foi imediata. Eu disse alguma coisa?

   “Depois que você se acostuma, é até legal”, insistiu Yomiuri.

   “Prefiro não.”

   “Só tenta. Que tal algo simples?” Yomiuri mexeu em uma bolsa. Devia ser onde ela trouxe a fantasia. “Olha! Uma tiara de orelhas de gato!” disse ela, imitando um certo gato azul robótico. “Vai, experimenta.”

   “Não, obrigada.”

   “Deixa de ser careta! Vai, tenho certeza de que vai ficar fofa. E seu irmão vai adorar! Né, garoto?”

   “Por favor, não me peça para concordar.”

Yomiuri podia parecer diferente, mas continuava agindo igual — como um velho. Se passasse dos limites, aquilo facilmente viraria assédio no trabalho.

   “Hum, eu vou indo para casa”, disse Ayase.

   “Hã? Vai mesmo? …Bom, tudo bem. Vai ter muitas outras oportunidades.”

Vai?

   “Não, não vai.”

   “Mas você quer parecer fofa, não quer?”

Por um momento, Ayase congelou. Então disse: “Tanto faz — eu vou para casa.”

   “Tá bom. Então, garoto — já está tarde, então garanta que ela chegue em segurança.”

   “Pode deixar.”

Com um movimento de mão, a bruxa da floresta jogou uma bolsa esportiva no ombro. Era uma imagem surreal. Talvez ela fosse deixar a bolsa em algum armário de moedas. Fiquei me perguntando se ainda encontraria um disponível àquela hora. Ou talvez já tivesse reservado um lugar com antecedência. Conhecendo Yomiuri, provavelmente já tinha planejado tudo.

   “Então, até mais!” disse ela. Mas, quando estava prestes a sair, eu a chamei.

   “Ah, Yomiuri?”

   “Hã? O que foi?”

   “Aqui.” Estendi uma pequena sacola na palma da mão.

   “O que é isso?”

   “Doce. Pastilhas para a garganta. Você disse que ia ao karaokê depois.”

   “Ah! Não achei que você fosse lembrar. Bom garoto!”

   “Eu não gostaria que você pregasse peças em mim.”

   “He-he. Obrigada.” Ela encostou a sacola no rosto e sorriu. “Então vou lançar um feitiço em vocês dois para compartilharem da minha felicidade. Hyah!” Ela balançou a varinha.
  “Feliz Halloween! Até mais!”

   “Tá. Até mais!”

   “Divirta-se.”

Ela girou, o vestido esvoaçando, e deixou o escritório.

Ayase acenou enquanto a observávamos ir embora.

   “Certo”, eu disse. “Acho que também devemos ir. Vamos.”

Ayase assentiu, e eu peguei minha bolsa.

Então dei um passo em direção a ela, tirei outro item da bolsa e estendi.

   “Hã? O que é isso?” ela perguntou, surpresa.

   “É para você.” Era uma pequena sacola, como a que dei à Yomiuri.

   “Pastilhas para mim?”

   “Não… chocolates.”

   “Mas eu não trouxe nada para você.”

   “Não se preocupe. É só uma lembrancinha. Feliz Halloween.”

   “Obrigada. Feliz Halloween.”

Pouco antes de sairmos da loja, Ayase parou e pediu que eu esperasse um minuto. Então voltou para dentro.

Será que ela esqueceu algo?

Saí da entrada para não atrapalhar os clientes e fiquei observando.

Alguns minutos depois, Ayase voltou, mas não parecia estar carregando nada.

   “Desculpa a demora”, disse ela.

   “Esqueceu alguma coisa?”

   “Algo assim”, respondeu vagamente, ficando ao meu lado.

   “Certo… vamos então.”

   “Tudo bem.”

Ficamos ambos surpresos quando saímos para a rua. O lugar estava lotado de pessoas fantasiadas. Não havia espaço para andar.

Eu já esperava isso. Por isso não fui de bicicleta ao trabalho, e estava certo. Mas…

   “Não achei que seria tão ruim…”

   “Essa quantidade de gente é absurda.”

   “Não consigo imaginar alguém nos reconhecendo nesse meio.”

Eu tinha me preocupado com a possibilidade de encontrarmos alguém da escola, mas com tanta gente fantasiada, duvidava que alguém reconhecesse nossos rostos mesmo passando ao nosso lado.

Parecia que teríamos que nos espremer entre estrangeiros e jovens universitários festeiros. Imaginei que a multidão diminuiria quando nos afastássemos da estação, mas naquele momento estava tão lotado quanto o Santuário Meiji no Ano Novo.

   “Ah!”

Ayase soltou um pequeno grito e tropeçou. Talvez tivesse esbarrado em alguém. Rapidamente a segurei. Assim não dava.

   “Não está tão ruim onde passam carros. Vamos por ali.”

   “O-ok.”

Tentamos andar por áreas menos cheias, mas era difícil atravessar aquela onda de pessoas, e eu temia que nos separássemos.

Estávamos indo para o mesmo lugar e não éramos crianças, então provavelmente não nos perderíamos, mas…

   “Ayase. Aqui.”

Estendi a mão, e Ayase a segurou com força.

Senti o calor da sua palma, e meu coração acelerou. Sua mão era menor que a minha, e tive medo de apertar demais e machucá-la. Ainda assim, não queria soltá-la e perdê-la, então continuei segurando e a puxei para perto.

   “Nem consigo ver nossos pés. Toma cuidado.”

   “Estou bem.”

Ela se aproximou ainda mais para não ser levada pela multidão. Já fazia um tempo desde que estávamos tão próximos a ponto de sentir o calor um do outro.

Olhei para a colina de Dogenzaka; estava tão cheia que nem uma formiga passaria.

Além dela, vi prédios com luzes brilhando contra o céu escuro. A escuridão aveludada da noite cobria Shibuya.

Ayase e eu continuamos avançando, abrindo caminho entre a multidão fantasiada.

O crepúsculo passou, e a noite caiu completamente. Era a hora em que crianças pequenas já deveriam estar dormindo.

Palhaços maquiados dançavam pela rua, bruxas riam com vassouras nas mãos, e vampiros com presas falsas vagavam pelas calçadas. Todos esperavam nos cruzamentos, cantarolando músicas populares. Um rebanho de monstros falsos. Se um ou dois fossem reais, ninguém perceberia.

A cada mudança do sinal, os movimentos da multidão mudavam como um grande redemoinho.

Um balão vermelho escapou da mão de alguém e subiu ao céu, refletindo as luzes da rua antes de desaparecer na escuridão.

Buzinas soavam ao longe, misturadas com risadas de um casal envolto em bandagens. Um carro passou rapidamente, deixando um rastro de luz vermelha. A música “When the Saints Go Marching In” escapava de uma loja de conveniência sempre que a porta abria.

Eu me sentia como se estivesse flutuando.

[Ayko: When the Saints Go Marching In é uma música do Louis Armstrong!]

Naquele cenário quase irreal, a garota que segurava minha mão era incrivelmente bonita — e era minha irmã. Ou melhor, minha meia-irmã.

Tínhamos confirmado que gostávamos um do outro, e aquilo parecia completamente fora da realidade.

Isso estava mesmo acontecendo?

A única coisa que parecia real era o calor do corpo dela, vindo de nossas mãos entrelaçadas.

Será que aquele homem-lobo que passou rindo por baixo da máscara era alguém da minha escola?

As chances eram pequenas, mas ainda assim possíveis.

À medida que nos afastávamos da estação e nos aproximávamos de casa, a quantidade de pessoas diminuía gradualmente. Quando as luzes do nosso prédio apareceram, já não havia mais ninguém na rua além de nós.

Finalmente soltamos as mãos ao atravessar um parque próximo e cruzar uma rua larga.

Ambos suspiramos, aliviados.

   “Sabe de uma coisa?”, disse Ayase.

   “Hum?”

   “Se estivéssemos fantasiados, talvez não precisássemos nos preocupar com alguém nos ver.”

   “Acho que você tem razão.”

Nenhum de nós tinha planejado voltar para casa de mãos dadas. Mas, depois que começamos, não conseguimos soltar até estarmos quase chegando. Ambos ansiávamos pelo calor um do outro.

Aquele tinha sido um dia estranho e especial, em que quase todos estavam fantasiados. Se tivéssemos simplesmente entrado no clima e nos vestido também, poderíamos ter caminhado de mãos dadas sem preocupação alguma. Mas, para Ayase, eu tinha certeza de que usar uma fantasia era diferente de usar maquiagem, e que, mesmo se tivéssemos planejado isso, ela ficaria envergonhada demais para levar adiante.

   “Algum dia…”, comecei.

Eu me perguntava se algum dia poderíamos caminhar de mãos dadas como um casal comum, sem precisar pensar em mais nada.

Mas, ao mesmo tempo, pensei nas pessoas que queriam que continuássemos sendo apenas irmão e irmã.

   “Sim?”, ela perguntou.

   “Não… não é nada.”

Nossas sombras se estendiam atrás de nós, ainda sobrepostas e de mãos dadas. Pareciam dizer: “Quero ficar aqui fora brincando juntos para sempre.”

As luzes estavam acesas em todos os apartamentos acima, e cada um deles abrigava uma família — incluindo algumas que tinham acabado de começar suas vidas juntas.

Continuamos andando em silêncio. Depois daquilo, não consegui oferecer minha mão novamente.

Abrimos a porta e acendemos as luzes.

   “Chegamos!”, dissemos ao mesmo tempo, mas não houve resposta.

Ué?

Eu sabia que Akiko estava trabalhando, mas meu pai deveria estar em casa.

Ayase, que entrou na sala um passo à minha frente, soltou um som confuso.

   “Hã?”

   “O que foi?”, perguntei.

   “Olha isso”, disse ela, balançando um bilhete na mão.

Era a letra do meu pai, e dizia: Fui ver a Akiko.

Rapidamente peguei meu celular e conferi. Meu pai tinha me mandado mensagem. Disse que, como era sábado e ele estaria de folga no dia seguinte, decidiu jantar no bar da Akiko.

Ele provavelmente percebeu que eu não tinha visto a mensagem e resolveu deixar um recado.

   “Parece que o pai pretende voltar para casa com a Akiko”, eu disse.

   “Sim, parece mesmo.” Ayase também tinha uma mensagem da Akiko. Como não tínhamos checado o celular, nenhum de nós fazia ideia.

Se eles voltassem depois que Akiko terminasse o trabalho, seria bem tarde. Tínhamos voltado rápido para casa achando que meu pai estaria com fome. Que pena. Provavelmente levaria algumas horas até que eles retornassem.

   “Bom, o pai tem estado ocupado ultimamente, então merece um tempo com a Akiko…”

Eles ainda estavam no primeiro ano de casamento. Com horários de trabalho diferentes, ele devia sentir falta de passar tempo a sós com ela. Ultimamente, eu conseguia entender perfeitamente esse sentimento. Mas isso significava que…

   “Então somos só nós dois até eles voltarem?”, perguntou Ayase.

   “Acho que sim.”

   “Certo. Então o que vamos jantar? Eu estava pensando em fazer nabe de novo, já que achei que mamãe e papai comeriam em casa, mas… talvez seja melhor algo mais simples, já que somos só nós. Tem algum pedido?”

Pensei um pouco. Era sempre difícil responder quando perguntavam do nada o que eu queria comer. Ainda assim, eu sabia que não podia simplesmente dizer “qualquer coisa” numa situação dessas.

   “Deixa eu ver…”

Hmm. O que comer…?

   “Desculpa. É difícil pensar em algo assim do nada, né?”, disse Ayase, observando minha indecisão.

Ela também parecia sem ideias, ou não teria perguntado. Se tivesse algo em mente, bastava dizer: “Quero comer isso, então vou fazer.” Simples.

   “Ei, você que vai cozinhar. O mínimo que posso fazer é sugerir algo.”

Dito isso, eu não costumava pensar no que cozinhar, então era ainda mais difícil para mim.

   “Espera um pouco”, eu disse. “Tem um truque para essas situações.”

   “Um truque?”

   “Dizem que as pessoas têm mais dificuldade de escolher quando podem escolher qualquer coisa.”

Essa era uma técnica usada por aplicativos de streaming. Não era considerado uma boa ideia oferecer um menu totalmente aberto. Apesar de parecer prático, poucas pessoas acessam já sabendo exatamente o que querem.

Imagine alguém com fome: sabe que quer comer, mas ainda não decidiu o quê.

Então, o que fazer?

   “Primeiro, forçamos uma decisão. No caso da comida, podemos começar decidindo o que não queremos comer.”

   “Hã? Por quê?”

   “Porque é mais fácil. Pelo menos, eu acho. Esse é o truque. No geral, as pessoas se cansam de comer a mesma coisa repetidamente. Então podemos começar pensando no que comemos recentemente.”

   “De manhã comemos um café da manhã japonês. E no almoço… macarrão instantâneo, porque era rápido.”

   “Então eliminamos esses dois. Não queremos comida japonesa porque já comemos no café, e também podemos descartar comida chinesa por causa do macarrão.”

   “Acho que sobra comida ocidental.”

   “Fica mais fácil depois que reduzimos as opções, né?”

   “Sim, fica.”

   “A praticidade também importa. Mesmo que queiramos fazer algo, não adianta se não temos os ingredientes. A menos que peçamos comida. De novo, podemos pensar pelo negativo. Temos algum ingrediente que precisa ser usado logo?”

   “Ovos, eu acho.”

   “Então é um prato com ovos, estilo ocidental. Omelete, frito, ou ovos estrelados…    Desculpa, só consigo pensar em coisas que comemos sempre.”

   “Ah, então que tal rabanada?”

   “Não tinha pensado nisso. É, já estou começando a ficar com vontade.”

Antes, eu só tinha lido sobre rabanada em livros, mas Ayase começou a fazer de vez em quando, e agora já parecia algo familiar.

   “É fácil de fazer e não é pesado”, disse ela.

   “E é meio parecido com bolo, o que combina com a ocasião.”

Depois de decidir o prato principal, o resto foi fácil. Como seria estilo ocidental, escolhemos sopa de milho em vez de missô. Ainda tínhamos caldo pronto. Também havia vegetais suficientes para uma salada.

Dividimos as tarefas, preparamos tudo e colocamos a comida na mesa.

Em menos de meia hora, já estávamos sentados frente a frente, comendo rabanada, sopa de milho e salada.

   “Fico pensando”, eu disse. “A gente passa tão pouco tempo comendo comparado ao tempo que leva para preparar.”

   “É… Mas não é assim com tudo? A maioria das coisas que usamos sem pensar leva tempo para ser feita, mas a gente aproveita num instante.”

Talvez fosse verdade.

Eu gostava de livros. Podia ler um em uma ou duas horas, mas o autor provavelmente levava dias ou meses para escrevê-lo.

Isso me fez lembrar de como devemos ser gratos a quem cria as coisas.

   “Obrigado, Ayase, por sempre fazer refeições deliciosas.” Eu me curvei, e ela desviou o    olhar, como sempre. Ultimamente, percebi que era timidez.

   “Só faço o que posso”, disse ela.

   “Mas sou muito grato.”

   “Você também tem cozinhado de vez em quando.”

   “Vai levar um tempo para eu chegar ao seu nível… E sim, a rabanada estava deliciosa.”

   “…De nada.”

Ela virou ainda mais o rosto. Perguntei se queria café.

   “Vai dificultar para dormir…”

Ela tinha razão.

   “Ah, é…” Levantei e peguei uma caixa no armário. Era café descafeinado que meu pai ganhara. “Que tal isso? É descafeinado.”

Ela assentiu. Liguei a chaleira e peguei duas xícaras, enquanto Ayase lavava a louça.

Logo a água ferveu, e preparei o café.

O aroma subiu com o vapor, e eu estava prestes a beber quando Ayase disse:

   “Ah, espera um pouco, Asamura.”

   “Hum?”

Ela abriu uma bolsa que havia deixado na cadeira e tirou um pacote.

   “Hã? Isso não é da nossa loja…?”

   “É. Estavam vendendo só hoje.”

Ela abriu e tirou uma caixa pequena. Dentro havia um recipiente em forma de abóbora.

   “…Isso é uma luz?”, perguntei.

   “Sim.”

Ela colocou sobre a mesa.

Na caixa estava escrito: LED CANDLELIGHT.

[Ayko: Essa vela… boa sacada Mikawa.]

Era uma abóbora estilo jack-o’-lantern com uma luz de LED em forma de vela dentro. Ao ligar, emitia um brilho suave.

   “Vou apagar a luz do teto”, disse Ayase.

Depois disso, o único brilho no quarto vinha da abóbora.

Olhei para dentro dela. A luz parecia uma vela de verdade.

   “Antigamente, era preciso usar fogo de verdade, mas agora dá para criar o efeito sem perigo. Os tempos modernos são incríveis”, disse Ayase, sentando-se.

Ficamos ali, na penumbra, olhando um para o outro.

   “Há muito tempo… quando eu era pequena…”, começou ela.

   “Hum?”

   “…minha mãe me comprou uma vela de abóbora parecida com essa. Mas era de verdade.”

   “Talvez seja da mesma linha?”

   “Talvez. Eu estava no ensino fundamental, e minha mãe trabalhava e não podia voltar para casa, igual hoje. Fiz minha própria festa de Halloween… e acendi a vela. Depois, levei bronca.”

Imaginei o perigo, mas talvez ela já soubesse disso naquela época.

A luz era um símbolo da presença humana. Ver luz no escuro sempre me trazia conforto.

   “Não sei por quê”, disse ela, “mas sempre sinto que voltei para casa quando vejo as luzes acesas.”

   “Eu entendo.”

   “Por causa do trabalho da minha mãe, eu quase não a via em casa. Eu me sentia muito sozinha quando voltava da escola. Mas…” Ela fez uma pausa. “…fico feliz de poder estar com você este ano.”

A luz fraca iluminava apenas nossos rostos.

   “Ei”, eu disse.

   “Hum?”

   “…Ah…”

Inclinei-me levemente, e ela aproximou o rosto.

Toquei sua bochecha sem perceber, afastando fios de cabelo.

   “Seu cabelo cresceu um pouco.”

   “Ainda está bem mais curto que antes.”

   “Fica bem em você.”

   “…Obrigada.”

Íamos ser irmãos próximos.

Mas eu estava prestes a quebrar essa promessa.

   “As duas são inteligentes demais… então vou transformá-los em tolos.”

A voz da “demônio” ecoou na minha mente.

Talvez houvesse limites que não deveríamos cruzar.

Mas, quando pensei se queria continuar sendo feliz com Ayase, a resposta era clara.

Eu queria tocá-la.

Queria que ela me aceitasse.

Talvez fosse egoísmo. Talvez fosse tolice.

Lembrei das nossas sombras de mãos dadas.

Era assim que eu me sentia.

Queria estar com ela.

Ayase me encarou, depois fechou os olhos.

Fechei os meus também.

E então senti algo suave tocar meus lábios.

Naquele momento, ela não era minha irmã.

Eu estava beijando Saki Ayase.

Estávamos em casa, sem ninguém para ver.

Talvez apenas Deus pudesse julgar. Mas, naquela noite, talvez nem ele estivesse olhando.

Era nosso segredo.

   “É a hora do demônio”, disse Ayase, ao se afastar. “Acho que as luzes do Halloween têm magia.”

 

[Ayko: QUE CAPITULO MEUS AMIGOS, QUE CAPITULO!
A construção de personagens e storytelling de Gimai NUNCA decepciona, muito obrigado por essa obra de arte Mikawa]

 

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