Extras

Conto 3: O conceito de família

A solidão no topo de Olympia era assustadora.

As festas de final de ano sempre traziam consigo a magia da família, de comemorar e mostrar seu amor às pessoas ao seu redor. Grandes pinheiros — diziam as lendas que tudo começou pelo brasão laureado da Longinus lembrar um —, decorados com estrelas e esferas coloridas eram dispostos em todas as lojas e praças das cidades, e os presentes trocados entre todos reforçavam a união por um futuro melhor.

Afinal, há quase cinco mil anos, foi para isso que a maior e mais brilhante das estrelas apareceu no céu. Para lembrar aos homens da esperança de um amanhã que deveriam proteger em nome de seus descendentes.

 Naquele ano, nem mesmo a árvore para o Dia da Estrela fora montada. Nem os pisca-piscas, nem as bolas multicoloridas. Nada enfeitava o gigantesco apartamento, afundado nas sombras por desejo próprio da loira. Em meio à escuridão da noite, Taeka suspirou e, com sua visão perfeita independente das circunstâncias, observou o quadro sobre a cabeceira de seu quarto.

Após tantos anos em profunda alegria, a residência dos Nokogiri era agora um espelho de sua infância; uma lembrança dolorosa de que a felicidade a ela concedida fora passageira, pois não dependia apenas dela. Quer dizer, aquela casa não mais pertencia ao casal de Guardiões, mas apenas a ela. 

Era o andar de Taeka Haruki, a 211º Líder Suprema da Longinus. Não de Koyuki Nokogiri, sua antecessora e a responsável por tirá-la do orfanato em Kostarie quando nada mais fazia sentido.

Não teve tempo, disposição ou vontade para desempacotar todos os seus pertences desde a mudança. Apenas a caixa de música e o singelo quadro do que, até pouco tempo atrás, era a família mais feliz e imperfeita do mundo para ela. A combinação harmoniosa daqueles três amplos sorrisos e as íris azuis, escarlates e laranjas já lhe trouxe conforto antes, mas hoje apenas preenchia seu coração da angústia infeliz da realidade.

Se a dor dela era grande, sabia que Toshiro não comeria por dias, talvez semanas, ao rememorar a manhã da morte. O corpo pequeno de sua esposa, abraçado fracamente ao seu enorme braço, o atormentaria por anos a fio. Esse era o tipo de pessoa que Toshiro Nokogiri era, um homem cujo cuidado sem tamanho por aqueles ao seu redor fazia-o lamentar cada despedida como se a fosse a própria.

Lhe doía lembrar como Toshiro sequer saiu do laboratório desde o funeral. De como, durante o estado de profundo luto do homem, este foi obrigado a seguir com o discurso de graduação dos formandos da Academia de Palas e a cerimônia de coroação da nova Líder Suprema. De todas as diversas vezes em que os sentimentos dela e de seu pai, companheiro de quase um século de Koyuki, foram ignorados pelos reis, nobres e Guardiões.

Ela queria ter um tempo para si. Para chorar junto ao túmulo tudo que sua mãe merecia pelas coisas que fez. E isto lhe foi negado, em repetidas instâncias, sob a justificativa de precisarem fazer toda a transição ocorrer o mais rápido possível, para que não houvesse um vácuo de poder.

A lição que a mulher fez questão de lhe ensinar, desde criança, enfim fez sentido. A partir do momento em que tornou-se Guardiã de Neith, a humana Taeka Haruki não mais existiria — seria sempre Mestra Haruki, a mais prodigiosa das Guardiãs em séculos e a próxima no comando uma vez que sua antecessora deixasse o mundo. Como a nova representante da Longinus, seu choro não importaria às massas, apenas suas ordens.

Todos esperavam suas palavras, mesmo quando não sabia o que dizer. Sua opinião era absoluta, seus comentários eram gravados e transmitidos para todos os cantos. Céus, até as reclamações eram capazes de tornar a vida de quem as recebeu um inferno, pois a ação teria “desagradado a Líder Suprema”. Cada pequena ação em público tinha que ser pensada e repensada com tanta dedicação que sua extroversão deu uma guinada em cento e oitenta graus para o outro lado.

O título tornou-a uma deusa. E, para Taeka, aquilo era assustadoramente desconfortável.

A exaustão uma hora alcançaria-na, ela sabia. Logo, aproveitou que, pelo menos uma vez, todos estavam ocupado demais com suas próprias famílias para isolar-se em seu apartamento na Torre que Atravessa os Céus. Para lhe fazer companhia, a voz melodiosa de Koyuki ressoava por meio da caixinha de música construída à mão por Toshiro, quando Taeka não conseguia dormir sem ouvi-la.

Era pior do que o silêncio, mas preferível a ter que interagir com outras pessoas.

A campainha tocou. Seu cérebro estava tão sobrecarregado que nem percebeu o quão estranho era alguém ter sido capaz de driblar sua detecção perfeita, os guardas da torre (a quem deu a ordem de não deixar ninguém subir) e as credenciais de mana. De cabelos desarrumados, olheiras super aparentes e restos de cigarro nas roupas, esforçou-se para levantar da cama em direção à porta.

Escutou, antes que pudesse tatear em busca do interruptor, o trinco da chave girar. “Espera, se a pessoa tem a chave…”

— Tae? Sei que está aí.

— C-Como você subiu aqui, Reiyo Suishima?! — gritou de volta a loira, escondida atrás da parede.

As luzes se acenderam. Parada diante do batente, estava a figura robusta e muito atraente da novíssima General dos Vigias da Sabedoria. O uniforme da Longinus foi trocado por uma jaqueta de couro marrom sobre uma camiseta lisa bege e jeans padrões. A julgar pela qualidade e estado das roupas, tudo havia sido comprado e lavado há pouco tempo.

Em contraste à camisola larga de Taeka, que nem vestia algo sobre as pernas, sua namorada estava tão bem arrumada que era até vergonhoso encará-la naquele estado. “Até a maquiagem dela tá feita…”, percebeu a Guardiã de Neith, deixando apenas sua cabeça no campo de visão.

— Eu sou uma General agora, você me deu esse cargo. 

— M-Minha ordem foi para ficar sozinha!

— Eu sei, e por isso mesmo que eu vim — rebateu a ruiva. — Toshiro não veio?

A mana dela oscilou antes de responder.

— Ele me mandou uma carta para não me preocupar com ele. Então, não. — Confessar sua dor era mais difícil do que esperava. — M-Mas tá tudo bem. Eu queria mesmo ficar sozinha hoje, já tava indo dor…

Taeka foi puxada para fora de seu esconderijo diretamente nos braços de Reiyo. Entre a timidez por estar seminua, o atordoamento pela força que foi movida e o esforço feito para manter um sorriso acolhedor no rosto, não soube o que dizer, quiçá como reclamar. “Me larga”, “Tá tudo bem” e outras muitas mentiras ameaçaram sair.

— Você ama o Festival da Estrela mais do que ninguém, Tae. Você não me chama de “Estrelinha” sem motivo. — A jovem apertou o abraço. — Não tem uma árvore, uma luz aqui. Essa não é você, e eu te conheço há tempo suficiente para dizer que não tá tudo bem.

— E-Eu…

— Se você conseguir dizer “Vai embora”, eu vou.

Como o esperado, as palavras de Suishima tiveram efeito, pois a força nos dedos de sua amada era tamanha que uma pessoa normal gemeria de dor. Taeka era alguns centímetros mais alto que ela própria, o que a fez sentir quando a primeira lágrima rolou da bochecha da loira e caiu no seu ombro. E outra, e outra, e outra…

— V-V-V… V-Vai…

— Eu estava mentindo. Eu não vou, Tae. — Os soluços pioraram. — Não hoje, nem amanhã. Eu não vou.

Ali, naqueles braços firmes e quentes, a mais forte das mulheres deixou a melancolia sair, como água e som, de seu corpo. Até que o último traço de tristeza deixasse seu corpo, Reiyo não afrouxou o aperto sobre ela. Quando os olhos já estavam inchados de tanto chorar, a General carregou o corpo exausto da Líder Suprema até os aposentos dela, onde deitaram-se.

Pela primeira vez desde a morte de Koyuki, Taeka conseguiu ter um sonho. Nele, uma donzela baixa, de cabelos castanhos soltos e trajando apenas um simples vestido branco, recepcionava-a num campo de flores das mais variadas cos. A própria mulher também teve sua camisola trocada por uma veste semelhante, mas sem alças.

“Onde estamos?”, era o que gostaria de perguntar. Suas cordas vocais não a obedeciam, restando-lhe apenas seguir a garota estranhamente familiar por entre os caminhos. Ela também nada falava — seus passos eram rápidos e precisos, cheios de vida, e Haruki até então não havia visto seus olhos para tentar identificá-la.

Nem percebeu quando chegaram ao topo de uma colina, com vista muito mais ampla do mar multicolorido diante delas. Sob seus pés, apenas flores douradas estavam plantadas, muito mais brilhantes do que quaisquer outras em todo o campo. Sua guia virou-se para ela.

— Taeka. — Os olhos escarlates tiraram o ar dos pulmões da loira. — Sei o que acha que está acontecendo. Não, não sou a Koyuki.

“Esta é a forma que posso me apresentar a você, peço desculpas por talvez entristecê-la mais do que já está. Se lhe conforta, ela está sim num lugar melhor, como vocês, humanos, gostam de dizer uns aos outros.

“Campos de Sais. Minha plantação pessoal, onde ponho a semente de cada humano que passará por esta terra. É aqui onde estamos, escolhida de Neith. Isto é o que estará sob sua proteção enquanto estiver comandando a Longinus.

“A Estrela do Amanhã, este festival tão querido pelos humanos… Quando acordar, lembre-se que não é em vão. Seu sacrifício, querida, estará para sempre plantado nesta colina.”

As flores reluziram quando “Koyuki” parou de falar. Seu brilho, refletido nos olhos de Taeka, era a mais bela coisa que já teve o prazer de presenciar.

— Todas estas almas… não deixe que a Sombra as consuma — suplicou a entidade, com as mãos junto ao peito. — Ela está entre nós, Taeka. E eu imploro para que não seja tarde demais para afastá-la.

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