Volume 1
Capítulo 1 - A Queda
O ar em Oregon cheirava a pinho podre e metal oxidado. Do alto de uma torre de transmissão inclinada, Henry Henrikson observava o mundo através da fresta de sua máscara de madeira. O azul de sua jaqueta utilitária era a única cor que não pertencia ao cinza das ruínas. Entre seus olhos, a cruz de gravetos secos vigiava o horizonte, imperturbável.
Abaixo, na estrada de asfalto rachado, o mundo havia parado no tempo.
Vinte membros da Cruz de Pólvora cercavam um pequeno grupo de sobreviventes. Não havia som de tiros, apenas o tilintar metálico de correntes e o arrastar de facões no chão. No centro do círculo, um Cruzado sem camisa, coberto de cicatrizes e tinta vermelha, segurava um objeto envolto em veludo sujo.
Ele o ergueu para o céu nublado. Era um estojo de latão vazio. Uma cápsula de bala 9mm, gasta e sem brilho, mas para eles, era um fragmento de divindade.
— Contemplem a relíquia! — o homem gritou, a voz tremendo pela euforia química do PCP. — Onde houve trovão, hoje há silêncio para os impuros! Ajoelhem-se ou sintam o aço que purifica o que a pólvora abandonou!
Henry apertou as alças de seu soco-inglês. Sentiu o frio do metal contra os dedos. Não sentia raiva, apenas um cansaço profundo. Solomon estava no rádio, sua voz paterna e serena ecoando no ouvido de Henry.
— Eles adoram o vácuo, Henry. Eles cultuam o que destruiu o mundo. Não deixe que o sangue deles afete sua fé, mas não permita que apaguem nem mais uma luz.
— Entendido, Solomon — Henry sussurrou, a voz abafada pela máscara.
Ele sinalizou para a sombra à tua direita. Kane estava agachado na borda do telhado de um antigo posto de gasolina, com os olhos fixos na posição dos guardas. Kane não precisava de ordens. Ele era o vento antes da tempestade.
Henry pulou primeiro.
Não foi um salto de ataque, mas de infiltração. Ele deslizou por um cabo de aço esticado, cruzando o vazio entre a torre e a marquise do posto sem emitir um som. Suas botas atingiram o concreto com a leveza de um predador. Do outro lado, Kane executou uma manobra fluida de parkour, descendo por um cano externo e posicionando-se acima do líder do culto.
O líder da Cruz de Pólvora chutou um dos civis, rindo enquanto preparava seu facão de mato para o batismo.
— O metal exige tributo! — ele gritou.
Naquele instante, um som agudo e mecânico rasgou o sermão. Kane saltou, ativando as manoplas de serra. O zunido do disco giratório foi o único aviso. Kane atingiu o chão entre o líder e a vítima, o disco da serra passando a milímetros do rosto do fanático, forçando-o a recuar em um tropeço desajeitado.
Henry não deu tempo para reação. Ele emergiu das sombras laterais como um vulto azul.
Um Cruzado avançou, rugindo com os olhos dilatados pela droga, brandindo uma faca de combate. Henry desviou com elegância bruta. O primeiro soco atingiu a têmpora do atacante com o peso do soco-inglês de aço. Antes que o homem pudesse cair, Henry girou o pulso e cravou a faca serrilhada na base do pescoço do inimigo.
O Cruzado nem tentou estancar o sangramento; sob o efeito do PCP, apenas tentou morder o braço de Henry antes que seus nervos finalmente desligassem.
— Hereges! — o líder do culto rugiu, recuperando o equilíbrio e apontando o facão para Henry. — Malditos sejam aqueles que negam a santidade do chumbo! Matem-nos! Que o sangue deles lubrifique o caminho para o paraíso!
Os fanáticos avançaram em massa, sem medo da morte, seus facões brilhando sob a luz opaca de Oregon. Henry respirou fundo atrás da máscara de madeira, sentindo o cheiro de suor e produtos químicos vindos de seus oponentes.
Ele não precisava de munição. Ele era a arma.
A luta escalou em um instante. O que antes era um sermão fanático transformou-se em um turbilhão de aço e carne.
Henry não lutava como um soldado; lutava como um predador urbano. Enquanto os Cruzados avançavam com a coordenação caótica daqueles intoxicados pelo PCP, Henry usava o cenário a seu favor. Saltou sobre o capô de um carro abandonado, usando o impulso para desferir uma joelhada no peito de um atacante, sentindo as costelas cederem sob o peso do impacto.
— Kane, flanco esquerdo! — Henry comandou, a voz saiu rouca por trás da madeira.
Kane era um borrão de movimento. Não ficava parado tempo suficiente para ser atingido. Corria pelas paredes de tijolos dos prédios adjacentes, saltando sobre as cabeças dos Cruzados e descendo com suas serras circulares portáteis. O som das serras era o único "tiro" ouvido naquele mundo: um zunido de alta rotação que terminava em um estalo úmido quando encontrava a resistência dos ossos inimigos.
— Eles não param, Henry! — gritou Kane, chutando o rosto de um fanático que tentava agarrar sua perna mesmo após perder três dedos para a serra. — Essa porcaria que eles injetam... eles estão rindo dos ferimentos!
Era verdade. Um Cruzado, com a camisa vermelha já encharcada em um tom mais escuro, avançou contra Henry, ignorando completamente a faca serrilhada cravada em seu ombro. Ele buscava o abraço da morte, tentando envolver Henry para que outros pudessem esfaqueá-lo.
Henry girou o corpo, desferindo um gancho com o soco-inglês. O metal atingiu o queixo do homem, jogando sua cabeça para trás com uma força que teria nocauteado qualquer humano normal, mas o Cruzado apenas cambaleou, exibindo um sorriso sangrento.
— Piro! Agora! — Henry ordenou pelo rádio.
No fim da rua, um rugido de combustão abafou os gritos de guerra. Steve surgiu de trás de uma barricada de pneus. Ele não usava lâminas. Presas aos seus antebraços, as Manoplas de Maçarico Industrial expelem jatos de fogo azul e laranja que cortavam o ar como lanças de luz.
O fogo era o maior medo naquele mundo de escassez. O calor intenso fez os Cruzados recuarem, o instinto de autopreservação finalmente lutando contra o delírio da droga.
— Purificação, hein? — Piro gritou, a voz distorcida pela máscara. — Vamos ver como vocês lidam com o sol nas mãos de um Herege!
O jato de fogo não era para matar todos, mas para criar uma barreira. Henry aproveitou a distração para agarrar o braço de uma criança que estava entre os refugiados e sinalizou para que os civis corressem em direção à floresta.
— Saiam daqui! Agora! — Henry ordenou aos sobreviventes.
Enquanto os civis fugiram, o líder da Cruz de Pólvora, ainda segurando seu estojo sagrado em uma mão e o facão na outra, rosnava de ódio. Seus olhos estavam vermelhos, as veias de seu pescoço saltadas.
— Você... o homem de azul... — o líder cuspiu, apontando o facão para Henry. — Vincent Malakor verá sua cabeça em um altar! Você é o vazio que a pólvora veio preencher!
— Vincent terá que esperar — Henry respondeu, sua voz fria e mortal. — O metal que você adora não passa de lixo. A única coisa sagrada aqui é a vida que você tentou tirar.
Henry fez um sinal tático com a mão. Kane e Piro recuaram imediatamente, escalando a lateral de um ônibus capotado com uma agilidade que os pesados e drogados Cruzados jamais conseguiriam replicar. Henry foi o último. Ele correu em direção a uma parede vertical, cravando as mãos em rachaduras no concreto e impulsionando seu corpo para cima com uma explosão de força nas pernas.
Lá de cima, ele olhou para baixo uma última vez. Os Cruzados estavam parados no meio da rua, envolvidos pelas chamas que Piro havia deixado para trás, gritando maldições para o céu. Pareciam demônios em um inferno que eles mesmos criaram.
"Missão cumprida, Solomon", Henry disse internamente, enquanto iniciava a longa jornada pelos telhados em direção ao centro de Oregon. "Mas eles estão ficando mais ousados. A Cruz está crescendo."
A voz de Solomon retornou, carregada de uma preocupação que ele raramente demonstrava.
— Venha para casa, Henry. Ouvi sobre o roubo de recursos no norte. O mundo está ficando pequeno para onze homens.
Henry não respondeu. Ele simplesmente saltou pelo abismo entre dois prédios, sua jaqueta azul flutuando como uma bandeira solitária contra o céu de chumbo.
A jornada de volta ao centro de Oregon foi feita sob o manto do crepúsculo. Henry movia-se com uma economia de movimentos que apenas anos de sobrevivência poderiam ensinar. Quando finalmente avistaram a silhueta do edifício fortificado, uma antiga estrutura governamental de concreto e aço que os Hereges chamavam de lar, a exaustão começou a cobrar seu preço.
Os Hereges consistem em onze membros: Henry (azul), Kol (cinza), Kane (verde-claro), Piro (vermelho), Leo (marrom), Vane (roxo), Beck (laranja), Mika (rosa), Elena (branco), Tara (verde-escuro) e Solomon (que usava a máscara e a jaqueta douradas antes de ferir a perna e se aposentar).
Eles entraram por uma das rotas elevadas, uma passarela de metal escondida que levava diretamente ao terceiro andar. Após passarem pela rigorosa segurança de Beck, que verificava cada selo e trava das armas mecânicas, Henry finalmente pôde remover a máscara de madeira.
O rosto de Henry era uma cartografia de cicatrizes e determinação. Ele sentou-se em um banco de metal frio, sentindo o peso do soco-inglês ainda preso às suas mãos. Enquanto o som distante de Mika treinando com sua naginata ecoava pelo corredor, Henry fechou os olhos.
Sua mente, como sempre fazia no silêncio, viajou para o passado.
Dez anos.
Parecia uma eternidade desde que a Queda começou. Henry ainda conseguia sentir o calor úmido do Brasil e o pânico nos olhos de seus pais enquanto o mundo colapsou. Eles haviam gasto cada centavo, cada favor e cada gota de esperança para colocá-lo em um navio de carga destinado aos Estados Unidos, acreditando que o hemisfério norte teria reservas, que a civilização ali resistiria.
Eles estavam errados. O progresso humano não passava de um castelo de cartas que a falta de combustível soprou para longe. Seus pais morreram acreditando que o enviaram para a salvação; na verdade, enviaram-no para o epicentro do fim.
Órfão em uma terra estranha, Henry aprendeu a linguagem do aço antes mesmo de dominar o inglês. Foi Solomon quem o encontrou em um beco em Portland, sendo caçado por saqueadores. Solomon não lhe deu apenas comida; deu-lhe um propósito e uma máscara.
"Gasolina. Minerais. Pólvora", Henry pensou, abrindo os olhos e encarando suas mãos calejadas.
Tudo estava extinto ou limitado. O ferro era precioso, o chumbo era místico. Quem detivesse as últimas armas de fogo do planeta não era apenas um líder; era um deus vivo, portador de uma magia mortal que ninguém mais conseguia replicar.
— Espero nunca encontrar um — sussurrou Henry para a escuridão da sala. — Um homem com uma bala é um monstro que não se importa com a justiça.
Ele se levantou, caminhando até a janela reforçada de onde podia ver as luzes pálidas de incêndios distantes na cidade em ruínas.
— Mas eu não vou parar — prometeu a si mesmo, seu sotaque brasileiro ainda marcando levemente o fim das palavras. — Enquanto houver uma criança passando fome enquanto as facções estocam grãos, eu estarei lá. Não deixarei aqueles maníacos da Cruz, ou os Ferroviários, ou qualquer um desses tiranos de merda machucar mais ninguém. Se eles querem ser deuses, que aprendam que até deuses podem sangrar pela lâmina de um Herege.
Henry sentiu uma mão pesada e quente em seu ombro. Não precisou se virar para saber quem era. O cheiro de óleo de máquina e o som rítmico da bengala tática batendo no chão anunciavam a presença do mentor.
— Pensando no passado de novo? — a voz de Solomon era profunda, como o trovão antes da chuva.
Henry olhou para o mestre, o homem que transformou um garoto assustado na mão direita da revolução silenciosa.
— Pensando no que vem a seguir, Solomon. A Cruz de Pólvora está ficando mais forte. Eles estão usando o medo para preencher o vazio que a falta de munição deixou.
Solomon caminhou para o lado de Henry, observando a mesma paisagem desolada.
— O medo é uma arma poderosa, mas o silêncio é mais. Venha. Os outros estão esperando. Temos informações de que uma das Catorze Nações está enviando um emissário para negociar com Malakor.
A sala de reuniões no coração do edifício era iluminada por lâmpadas de óleo e pelo brilho fraco de monitores antigos que Beck mantinha vivos com baterias recicladas. Os onze membros estavam lá. Tara limpava o sangue seco de seu escudo de porta de cofre, enquanto Mika afiava a ponta de sua naginata em um silêncio meditativo.
Solomon aproximou-se de um mapa-múndi gasto, preso à parede com fita adesiva e marcado com círculos vermelhos.
— O mundo que conhecíamos morreu, mas os cadáveres das grandes potências ainda se recusam a baixar a guarda — Solomon começou, apontando para as catorze nações que mantinham algum simulacro de governo. — EUA, Canadá, Brasil, Argentina e Uruguai formam o bloco das Américas. No resto do globo, Japão, África do Sul, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Rússia Europeia e Ucrânia. E, claro, a Bósnia.
— Por que a Bósnia ainda é poupada de incursões? — perguntou Leo, o mais jovem, enquanto ajustava suas garras de escalada.
— Algodão, Leo — respondeu Vane, o bósnio do grupo, cruzando os braços. — Nós somos o pulmão têxtil do que restou. Todos precisam de tecidos, uniformes e bandagens. Atacar a Bósnia é garantir que seu exército morra de frio ou infecção. É o único país que as treze nações restantes concordaram em deixar em paz. Por enquanto.
Solomon bateu sua bengala no chão, trazendo o foco de volta.
— Um avião de carga vindo da Bósnia, carregado com suprimentos médicos e tecidos de alta qualidade, caiu nos arredores de Portland. Ele não caiu por falha mecânica. Foi derrubado. Se os suprimentos estiverem intactos, eles podem sustentar as comunidades famintas de Oregon por meses.
— O problema — interrompeu Elena, emergindo das sombras de um canto da sala — é o território. O local da queda é uma zona morta, protegida pela geografia e pelas patrulhas restantes de facções locais. Para chegar lá rápido e trazer a carga de volta, não podemos ir pelos telhados. É pesada demais.
— Precisamos de trilhos — Henry concluído, entendendo o plano de Solomon.
— Exatamente — disse Solomon. — Precisamos negociar com os Viajantes. Arthur Volkovich controla a rede ferroviária subterrânea. Se conseguirmos um de seus trens de manutenção, podemos chegar a Portland, carregar o que pudermos e sair antes que a Cruz de Pólvora ou outros percebam.
— O maquinista não faz caridade — lembrou Kol, sua voz rouca reminiscente das trincheiras na Ucrânia. — Ele vai querer algo em troca. E ele sabe o valor de um trem no estado atual do mundo.
Henry olhou para Solomon. Ele sabia que esta missão era o que o grupo precisava para mudar o jogo na região, mas o risco de descer nos túneis de Volkovich era imenso.
— Eu liderarei a negociação — disse Henry, pegando sua máscara de madeira azul da mesa. — Kane e Elena vêm comigo. Precisaremos de velocidade e olhos nas sombras. Se o maquinista tentar nos vender, precisaremos de uma rota de fuga que ele não conhece.
Solomon assentiu solenemente.
— Tenha cuidado. O mundo está mudando, Henry. Todos estão começando a olhar para Oregon com fome novamente. Se um deles colocar as mãos na tecnologia ou nos recursos daquele avião antes de nós... a era da pólvora pode não ter acabado de vez. Ela pode estar apenas esperando por uma faísca.
Henry colocou a máscara. O rosto humano desapareceu, dando lugar à cruz de gravetos e ao olhar frio do Herege. A missão estava definida: descer na escuridão da graxa e do alfabeto cirílico para garantir a luz para aqueles que não tinham nada.
As Veias do Mundo
A descida para as entranhas do Oregon era como entrar na garganta de uma besta de metal.
Henry, Kane e Elena moviam-se em silêncio absoluto. Haviam deixado a superfície para trás, trocando o céu cor de chumbo pelas abóbadas de concreto manchadas de fuligem das antigas estações de metrô. A transição era sensorial: o cheiro de pinho e chuva foi substituído pelo odor pesado de graxa velha, ozônio e o suor frio daqueles que vivem onde o sol não alcança.
— O Maquinista reforçou as patrulhas — sussurrou Elena, sua silhueta quase invisível contra as paredes úmidas. — Consigo sentir o cheiro de óleo de tocha vindo do Setor Norte.
— Ele tem seus motivos — respondeu Kane, ajustando as manoplas de serra em seus pulsos, mantendo-as desligadas para não denunciar a posição deles. — Com aquele avião bósnio caído lá fora, os Viajantes sabem que a superfície vai virar um matadouro logo. Eles querem garantir que ninguém entre ou saia por baixo sem pagar o pedágio.
Henry liderava o grupo, com os olhos atentos a cada marcação em alfabeto cirílico nas paredes. Engrenagens pintadas de vermelho indicavam que estavam cruzando o limite do território neutro. Aqui, o parkour era limitado pelo teto baixo e pelos fios de alta tensão pendurados como trepadeiras mortas. Eles caminhavam sobre trilhos oxidados, onde cada passo em falso no metal rangia como um grito.
Eles alcançaram uma bifurcação onde a ventilação era mais forte. Ali, o túnel se alargava em uma antiga plataforma de embarque, agora transformada em uma favela subterrânea. Dezenas de tendas feitas de lona e chapas de zinco amontoavam-se. Estes eram os "passageiros" de Arthur Volkovich — pessoas que pagavam com trabalho e comida apenas pelo direito de dormir longe dos fanáticos da superfície.
Henry sinalizou para que os outros dois ficassem no topo da escadaria desativada. Ele desceria primeiro para sondar a área. Ao flanquear uma pilha de caixotes de carga, ele parou, oculto por uma coluna de sustentação.
Henry fez uma pausa por um momento, com as sombras do túnel ferroviário escondendo sua silhueta enquanto ouvia o murmúrio vindo de um dos acampamentos improvisados dos Viajantes. Uma mãe, com o rosto manchado de graxa, balançava seu filho pequeno sob a luz fraca de uma lanterna a óleo.
— Você precisa dormir, querido... — sussurrou a mulher. — Se não dormir, os Ceifadores vão sentir o seu cheiro.
— Ceifadores, mamãe? — a voz da criança era um fio de medo. — Como a morte?
— Eles são conhecidos como o Povo da Noite, pequeno. Usam máscaras de caveira e casacos pretos com capuz, sempre se escondendo nas sombras. Só aparecem quando o sol se põe. São onze deles... todos com o poder do trovão nas mãos. Assassinos escolhidos pela pólvora para governar a escuridão.
Henry, escondido na penumbra, soltou um suspiro curto e silencioso atrás de sua máscara. Ele já tinha ouvido aquela história em uma dúzia de fogueiras, contada por assassinos bêbados e salteadores de estrada. Para ele, era meramente o folclore de um mundo que havia esquecido como a realidade funcionava.
"Onze homens com munição? No estado atual do planeta? Impossível", pensou ele, balançando a cabeça.
Vendo a magreza da criança, Henry saiu parcialmente das sombras. A mulher assustou-se, mas o azul de sua jaqueta e a cruz rústica em sua máscara a fizeram congelar. Henry estendeu a mão, deixando duas latas de comida e um cantil de água sobre uma caixa de madeira.
— Pegue — disse Henry, sua voz abafada pela madeira da máscara, mas carregando uma gentileza inesperada. — Você precisa disso mais do que eu. Ninguém merece passar fome.
Antes que ela pudesse processar o gesto, ele recuou para a escuridão do túnel.
— Deus te abençoe... — sussurrou ela, a voz embargada pela emoção, apertando as latas contra o peito. — Você é um anjo de Deus, guerreiro azul.
Henry não olhou para trás. Já estava focado nos trilhos à frente, mas a lenda do Povo da Noite parecia ter deixado o ar do túnel um pouco mais frio.
Henry subiu os degraus de metal com a agilidade silenciosa de um gato, reagrupando-se com Kane e Elena, que o observavam do topo da plataforma escura.
— Um dia, sua bondade vai nos custar nossa posição, Henry — sussurrou Kane, embora não houvesse maldade em sua voz, apenas o pragmatismo de alguém treinado para ver alvos, não pessoas.
— Se perdermos nossa humanidade, Kane, seremos apenas Cruzados de uma cor diferente — respondeu Henry, ajustando a alça de sua faca serrilhada. — Vamos. O Maquinista não gosta de esperar, e o ar aqui embaixo está ficando viciado.
Eles avançaram mais trezentos metros até que o túnel terminava em uma enorme comporta, originalmente projetada para conter inundações, mas agora reforçada com trilhos soldados e placas de aço blindadas. Dois guardas dos Viajantes, usando máscaras de gás de modelo soviético e empunhando marretas pesadas, bloqueiam o caminho.
— Identifiquem-se ou virem sucata — um deles rosnou, sua voz metálica através do filtro da máscara.
— Somos da Ordem dos Hereges — Elena deu um passo à frente, deixando a luz da tocha refletir intencionalmente nas lâminas escondidas em seus pulsos. — Temos um compromisso com o Velho Arthur. Abram antes que o cheiro do óleo de vocês comece a me dar dor de cabeça.
Os guardas se olharam. O respeito (ou medo) pelos onze Hereges era a única moeda que valia tanto quanto comida no Oregon. Com um aceno de cabeça, o mecanismo pesado começou a girar. O som era ensurdecedor: engrenagens gigantescas moendo contra décadas de ferrugem e negligência.
Quando a porta finalmente cedeu, a visão diante deles era o coração industrial do subsolo.
O que antes fora um terminal central de manutenção era agora a Oficina do Trono. Centenas de metros de trilhos se cruzavam e, no centro de tudo, suspensa por correntes grossas, estava uma locomotiva a vapor modificada, suas caldeiras brilhando com a brasa constante do carvão incandescente.
Arthur Volkovich, o Maquinista, estava em uma plataforma de metal, supervisionando o trabalho de seus homens. Era um gigante de ombros largos, com uma barba grisalha que parecia feita de arame farpado. Ao ver Henry, ele bateu sua enorme chave de grifo contra o piso de grade, produzindo um estrondo que silenciou a oficina.
— Henry Henrikson... — disse Volkovich, sua voz escapando como o vapor de uma caldeira. — Você traz o cheiro da superfície para os meus túneis. Um cheiro de pinho e... problemas.
— O mundo lá em cima está mudando, Arthur — Henry caminhou até a base da plataforma, mantendo contato visual através da fenda de sua máscara. — Um pássaro de metal da Bósnia caiu nos limites da cidade. Ele carrega o que o seu povo precisa para sobreviver ao inverno. Tecidos, remédios, talvez até as ferramentas que você tanto deseja.
Arthur inclinou a cabeça, seus olhos pequenos e astutos brilhando sob as sobrancelhas espessas.
— Eu ouvi a queda. Mas aquele território pertence à outros grupos desconhecidos. Por que eu arriscaria meus trilhos e meus homens por uma carga que já está manchada com sangue fanático?
— Porque nós faremos o trabalho sujo — afirmou Henry, desdobrando um mapa gasto sobre uma bancada próxima. — Nós limpamos o local e protegemos o perímetro. Você apenas fornece o transporte. Um trem de carga blindado. A Locomotiva 09. Entramos por baixo, carregamos tudo e saímos.
Volkovich desceu da plataforma, o peso de seus passos fazendo o metal vibrar. Ele parou a centímetros de Henry; o cheiro de tabaco russo e combustível diesel era sufocante.
— E o pagamento, pequeno Herege? Solomon sabe que eu não movo uma engrenagem por caridade.
Henry sustentou o olhar. Ele sabia que a próxima frase determinaria se eles teriam uma chance de salvar as comunidades da superfície ou se morreriam ali mesmo, cercados por homens com marretas.
— Metade da carga médica é sua — disse Henry. — E quaisquer segredos técnicos que encontrarmos na fuselagem do avião. Tecnologia bósnia, Arthur. Coisas que podem manter suas máquinas funcionando por mais dez anos sem um soluço.
O Maquinista ficou em silêncio por um longo tempo, o único som sendo o chiado do vapor da locomotiva ao fundo. Ele então estendeu sua mão gigantesca.
— Se você mentir para mim, Henry, eu usarei sua máscara de madeira para alimentar minha caldeira.
Arthur Volkovich não apertou a mão de Henry. Em vez disso, suas mãos colossais avançaram com a velocidade de pistões hidráulicos, agarrando as lapelas da jaqueta azul de Henry. O Maquinista o puxou para perto, forçando o Herege a ficar na ponta dos pés até que seus rostos estivessem a milímetros de distância.
— Preste atenção, garoto — a voz de Arthur era um rosnado baixo, carregada de uma seriedade que Henry raramente via no velho russo. — Eu vou te dar o que você precisa. O trem, o combustível e um caminho livre. Mas você tem que seguir o acordo à risca.
Ele apertou o tecido da jaqueta com tanta força que as costuras gemeram.
— Se você falhar, meu chefe... — Arthur fez uma pausa, deixando as palavras pesarem no ar frio da oficina, — ... deixe-me repetir para que isso entre na sua cabeça: meu chefe não ficará feliz em saber que desperdiçamos a energia deste trem por nada. E você não vai querer atrair os olhos dele para o seu grupo.
Henry sentiu um calafrio que não vinha do vento do túnel. Solomon sempre falara do Maquinista como a autoridade máxima do subsolo, mas aquela menção a um superior, alguém que fazia até o gigante Volkovich suar frio… mudava tudo. Quem poderia estar acima do homem que controlava as artérias do mundo?
Henry manteve seu corpo firme, sem nunca desviar o olhar da fenda de sua máscara.
— Calma, Arthur. Vai dar certo — Henry respondeu, sua voz mantendo uma calma calculada enquanto as mãos do russo o soltavam.
Ele se recompôs, ajustando sua jaqueta.
— E mais um detalhe: aquele território onde o avião caiu? Não pertence aos Cruzados. Malakor e seus maníacos podem ser perigosos, mas não têm o que é preciso para derrubar um avião de carga bósnio. Eles adoram o chumbo, mas não têm armas de fogo reais que alcancem o céu. Foi outra coisa que derrubou aquele pássaro. Uma ameaça que ainda não conhecemos.
O Maquinista franziu a testa, seu rosto endurecendo ainda mais.
— Então é melhor você ser rápido — rosnou Arthur, virando-se para seus homens e sinalizando para o fim do pátio de manobras. — Abram o Setor 4! Preparem a Locomotiva 09!
A Preparação
A Locomotiva 09 não era um trem comum. Era um híbrido de manutenção blindada, coberto por placas de aço rebitadas e grades de proteção sobre as janelas. Elena já estava a bordo, verificando os estoques de suprimentos, enquanto Kane subia no teto para testar a estabilidade da plataforma de observação.
Henry aproximou-se da lateral do vagão, onde Beck o esperava. Beck veio por uma rota secundária, trazendo o equipamento pesado solicitado por Solomon.
— Aqui está — disse Beck, entregando a Henry uma bolsa de lona reforçada. — As serras de Kane foram lubrificadas e as Manoplas de Piro estão na pressão máxima. Mas, Henry... se o que derrubou aquele avião não foi a Cruz de Pólvora, nossas lâminas podem encontrar algo que o aço não corta facilmente.
Henry pegou seu soco-inglês personalizado da bolsa, sentindo o peso familiar do metal. Ele encaixou as peças em seus punhos, ouvindo o clique seco das travas.
— Nós nos adaptamos, Beck. Sempre fizemos isso. — Henry olhou para a escuridão do túnel à frente, onde os faróis do trem começavam a rasgar o vazio.
Ele pensou na mulher e na criança lá atrás, na lenda dos "Ceifadores" e no misterioso "chefe" de Volkovich. O mundo estava se tornando um lugar mais complexo e perigoso do que simples guerras de facções.
— Todos a bordo! — gritou Kane do teto do trem.
O motor da locomotiva rugiu, cuspindo uma fumaça preta e espessa que subia para os exaustores da caverna. Henry saltou para o carro de comando. O metal sob seus pés vibrou enquanto as rodas de aço mordiam os trilhos.
A expedição rumo ao desconhecido havia começado.
Fim do Capítulo
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