Volume 1
Capítulo 3: Jinshi
— Elas estão fazendo isso de novo — murmurou Jinshi consigo mesmo. Era inadequado o modo como as flores do palácio se comportam às vezes. Cabia a Jinshi, uma entre várias responsabilidades que ele tinha, acalmar as coisas.
Enquanto entrava na multidão, Jinshi viu uma pessoa caminhando ao longo do tumulto, parecendo não se importar com ele. Era uma garota pequena com sardas espalhadas pelo nariz e bochechas. Não havia nada de especial nela, exceto pelo fato de que ela não prestou atenção em Jinshi enquanto caminhava, apenas murmurava para si mesma.
E aquilo poderia muito bem ter sido o fim da história.
Nem um mês depois, a notícia de que o jovem príncipe havia morrido se espalhou. A concubina Lihua estava consumida pela tristeza e estava mais magra do que nunca, não se parecia mais com a mulher que antes era considerada a rosa florida da corte. Talvez ela sofresse da mesma doença que seu filho, ou talvez o seu espírito aflito a estivesse consumindo. Independentemente disso, dificilmente ela teria outro filho nas condições em que se encontrava.
A Princesa Lingli, meia-irmã do falecido príncipe, logo se recuperou da sua indisposição e ela e sua mãe tornaram-se a fonte de conforto para o Imperador que estava de luto. Certamente a concubina Gyokuyou logo teria outro filho, dada a frequência em que o Imperador a visitava.
O príncipe e a princesa tinham sofrido da mesma doença misteriosa, mas ela se recuperou enquanto o outro sucumbiu. Poderia ser a diferença de idade entre eles? A diferença era de apenas 3 meses, mas esse intervalo pode ser uma diferença bem significativa para as crianças. E quanto a Lihua? Se a princesa foi capaz de se recuperar, então havia razões para que a concubina também conseguisse se recuperar. A menos que estivesse sofrendo com o choque psicológico devido a morte do seu filho.
Jinshi refletiu sobre esses pensamentos enquanto revisava alguns documentos e colocava seu selo neles. Se havia alguma diferença entre as duas crianças, talvez essa diferença estivesse na concubina Gyokuyou.
— Vou sair um pouco — disse Jinshi enquanto inseriu o seu selo na última página e saiu rapidamente da sala.
A princesa, com as bochechas rosadas e gordinhas como pãezinhos cozidos no vapor, sorria para Jinshi com toda inocência que uma criança poderia ter. Sua mãozinha cerrou em punho ao redor do dedo de Jinshi.
— Não criança, deixe ele ir — repreendeu gentilmente sua mãe, uma beldade ruiva. Ela enrolou a criança em cobertores e colocou-a no berço para dormir. A princesa, aparentemente com muito calor, chutou os cobertores e ficou deitada observando o visitante, balbuciando alegremente.
— Eu presumo que você queira me perguntar algo — disse a concubina, uma mulher sempre muito perspicaz.
Jinshi foi direto ao ponto: — Por que a princesa recuperou a saúde?
A concubina Gyokuyou se permitiu dar um pequeno sorriso antes de tirar um pedaço de tecido de uma bolsa. O tecido parecia ter sido arrancado de algum lugar e estava escrito em caracteres desajeitados. Não só a caligrafia estava irregular como parece que a mensagem aparentava ter sido escrita com manchas de grama, por isso em alguns lugares estavam desbotados e difíceis de ler.
O texto dizia: “Seu pó facial é venenoso, não o deixe tocar no bebê.”
Talvez a baixa qualidade da caligrafia fosse intencional. Jinshi inclinou a cabeça. — Seu pó facial?
— Sim — disse Gyokuyou, entregando à criança no berço a uma ama de leite, e abrindo uma gaveta, pegou algo embrulhado em um pano: um recipiente de cerâmica. Ela abriu a tampa e uma nuvem de pó branco se espalhou.
— Isso?
— Exatamente.
Talvez tenha algo misturado no pó, conjecturou Jinshi. Ele se lembrou que Gyokuyou já possuía a pele pálida que é tão apreciada pela corte, que não precisava usar pó para ficar mais bonita. A concubina Lihua, em contrapartida, tinha uma aparência tão pálida que usava cada vez mais maquiagem para disfarçar sua condição.
— Minha pequena princesa é bastante comilona — disse Gyokuyou. — Não consigo produzir leite suficiente para ela, então contratei uma ama de leite para ajudar. Às vezes quando uma mãe perde um filho logo após nascer, elas encontram trabalho como amas de leite. — Este pó facial pertencia àquela mulher. Ela gostava, pois achava-o mais branco do que outros pós.
— E onde está essa ama agora?
— Ela adoeceu, então eu a demiti. Com fundos suficientes para o seu sustento é claro. — Falou como uma mulher muito inteligente e talvez gentil demais para o seu próprio bem.
Então digamos que havia algum tipo de veneno neste pó facial. Se a mãe utilizasse, afetaria a criança, seja lá o que estivesse neste pó entrasse em contato com o leite materno, poderia acabar no corpo da criança. Nem o Jinshi, nem a Gyokuyou sabiam o que poderia ser esse veneno. Mas, se essa mensagem realmente for verdadeira, provavelmente foi assim que o pequeno príncipe havia morrido, por causa de um simples pó, algo utilizado por várias pessoas dentro do palácio interno.
— A ignorância é um pecado — disse Gyokuyou. — Eu deveria ter mais cuidado com o que estava entrando na boca da minha filha.
— Sou culpado do mesmo crime — disse Jinshi. No fim das contas, foi ele que permitiu que o filho do Imperador fosse perdido. E pode ter ocorrido outras mortes ainda no ventre.
— Eu contei à concubina Lihua sobre o pó facial, mas tudo que eu digo só aumenta ainda mais a resistência dela — disse Gyokuyou. Lihua ainda tinha olheiras escuras e usava muita maquiagem branca para esconder o aspecto ruim em que sua pele se encontrava, sem nunca acreditar que poderia ser venenoso.
Jinshi olhou para o tecido de algodão simples. Ele achou estranhamente familiar. A qualidade hesitante dos caracteres parecia ser um truque, mas era possível notar que a caligrafia era feminina.
— Quem lhe deu isso e quando?
— Chegou no dia em que eu exigi que o médico examinasse a minha filha. Receio ter apenas causado problemas para você, mas isso apareceu na minha janela depois. Estava amarrado a um galho de arbusto.
Jinshi lembrou-se da confusão daquele dia. Alguém naquela multidão teria percebido algo e deixado uma palavra de advertência? Mas quem?
— Nenhum médico do palácio recorreria a métodos tão indiretos — disse ele.
— Concordo. E o nosso médico nunca pareceu saber como tratar o pequeno príncipe.
Toda aquela agitação. Refletindo bem, Jinshi conseguiu se lembrar de uma criada que parecia distante dos curiosos. Ela estava falando sozinha, o que ela estava dizendo? “— Preciso de algo para escrever”.
Jinshi sentiu que as peças estavam se encaixando. Ele começou a rir.
— Concubina Gyokuyou, se eu encontrasse a autora dessa mensagem, o que você faria com ela?
— Eu lhe agradeceria profundamente, devo a ela a vida da minha filha. — Disse a concubina com os olhos brilhando.
Ah, então ela estava curiosa para descobrir quem era a benfeitora.
— Muito bem. Então talvez você possa me emprestar isso por um tempo.
— Aguardo ansiosamente qualquer descoberta que você consiga fazer. — Gyokuyou olhou alegremente para Jinshi. Ele retribuiu o sorriso dela, então pegou o pó facial e o tecido com a mensagem. Ele vasculhou em sua memória por qualquer pano que fosse parecido com aquele.
— Longe de mim desapontar a concubina favorita de Sua Majestade. — O sorriso de Jinshi tinha a inocência de uma criança brincando de caça ao tesouro.
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