Crown Crow Brasileira

Autor(a): Taka Asakura


Volume 1

Capítulo 1:Stanstone

As manhãs em Stanston sempre começam com o som distante das marteladas nas forjas, o tilintar do metal reverbera pelas ruas de terra batida. Esta era a forma que a pequena vila saudava a nova manhã.

O garoto magro e sorridente costuma acordar cedo, antes que o vilarejo ganhe vida. Ele gosta da quietude da manhã, da forma como o sol nasce por entra a floresta.

Esta manhã, em especial, era mais especial para ele. Respirando fundo o ar fresco e úmido, ele pegou seu balde cheio de água do poço e saiu correndo em direção à sua casa.

No caminho, quase esbarrando em alguns moradores, ele continuou correndo e pediu desculpas já de longe.

Os dois moradores simples pararam, se equilibraram após a pequena colisão e gritaram para o rapaz:

— Bom dia! Parabéns, Kael! — Levantando as mãos em um gesto de cumprimento, acenaram para o garoto que já se distanciava. Pareciam felizes, acostumados com a energia e a pressa do rapaz.

Treze anos se passaram desde que Soren, o mercador o adotou e o resgatou das garras da Casa Raven. O nome Alen Raven havia sido enterrado junto com seu passado. Agora, ele era conhecido como Kael Broenni, a criança que apareceu de repente na vila e foi legitimado pelo mercador e aventureiro da cidade.

Sua chegada causou grande agitação no pequeno vilarejo; os habitantes locais curiosos e desconfiados, o observaram com atenção e cuidado durante bons anos. No entanto, com o passar do tempo, Kael foi aceito pela comunidade e virou uma criança querida entre os habitantes.

A modesta vila, com pouco mais que uma praça central e algumas casas de madeira, era um ponto de referência para ferreiros. Seus moradores, embora simples, sustentavam suas vidas com a extração e venda de metais. A vila era cercada pela vasta floresta que se estendia ao sul.

Apesar da grande distância, o local ainda pertencia ao condado da família Raven, porém, era raro ver alguém relacionado à nobreza pela região. O motivo disto era a localização difícil de Stanstone, tão complicada que até utilizar o local como passagem não era uma boa opção.

Para garantir a segurança e renda da família, Soren efetuava viagens constantes para as cidades próximas; seu objetivo principal era vender as especiarias da vila, mas também, coletar informações de movimentações na redondeza.

Por uma parte, ele criou rapidamente um profundo sentimento de amor e paternidade pela criança e se preocupava com seu crescimento. Mesmo querendo protegê-lo, ele era dividido entre o desejo de protegê-lo e o de permitir que o garoto tivesse a oportunidade de viver uma vida normal, além daquela remota vila.

Esse sentimento se intensificou quando viu o garoto se apegar a um bestiário empoeirado na estante do quarto. Com apenas 6 anos, ele carregava o livro para todos os lados e, sempre que tinha um tempinho, o folheava. Inicialmente, Soren pensou que os pequenos desenhos entre as páginas fossem o que mais atraía o garoto, mas, após alguns meses lendo para ele o conteúdo, percebeu que o menino já havia aprendido a identificar os caracteres e seu amor pela literatura se aprofundou.

Por isso, sempre que podia, trazia alguns livros para Kael, para que ele pudesse conhecer mais sobre o mundo ao seu redor. Esses presentes acalmavam o coração de Soren, que temia estar privando o garoto de uma vida mais completa.

Desta vez não seria diferente, em direção a sua casa, estava ansioso e percorria seu caminho com certa agilidade, ele deseja chegar rapidamente em sua propriedade para poder passar o dia com seu filho, já que se datava de seu aniversário de treze anos.

Ele entrou na cidade com uma voraz velocidade e ao chegar ao final da rua poeirenta, a pequena carroça rangeu ao parar. Soren saltou da sela, amarrou firmemente os cavalos a um poste e caminhou em direção à porta de madeira maciça de sua casa

Kael que estava jogando água sobre o forno, o calor ondulando no ar à sua volta, quando um som seco de batidas na porta o fez parar imediatamente. O vapor subia em espirais no ambiente abafado da cozinha. O cheiro de comida quente e carvão acesso enchia o ar, tornando o ambiente caloroso e receptivo. Ele pegou a velha toalha de linho, e correu em direção à porta.

Quando a pesada porta de madeira se abriu, revelando a figura de Soren, um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Seu manto estava coberto de poeira, e os sinais de uma longa jornada eram evidentes em seu rosto marcado pelo tempo. Soren acabara de retornar de Raven, onde negociara especiarias e mercadorias para a vila. Seus olhos, sempre astutos, agora brilhavam com uma felicidade genuína. Com um salto, abriu os braços e exclamou:

— Feliz aniversário, garoto!

Kael correu em sua direção e o abraçou com força. A cena era contagiante, um retrato autêntico de afeto. A alegria irradiava deles, aquecendo o ambiente com a intensidade de um abraço.

Kael — Pai! Como foi a viagem? Sente-se aqui, acabei de esquentar a água. Podemos comer alguma coisa e descansar um pouco.

Kael, enxugando as mãos enquanto apontava para a mesa de madeira simples no centro da sala. Seus movimentos eram naturais, mas seus olhos não deixavam escapar que estava ansioso para pedir algo para o seu pai.

Soren, olhando a situação, sentiu que algo o incomodava, a mesma sensação que sempre se manifestava quando o garoto estava tramando algo em sua mente.

Com o olhar franzido, ele se sentou na cadeira de madeira, mas seus olhos astutos logo captaram a inquietação nos gestos de Kael. Ele sabia que o menino estava remoendo alguma coisa. Com um suspiro, Soren esticou a mão e puxou suavemente o capuz de linho que o garoto usava para esconder os fios prateados.

— O que foi, garoto? — disse ele, um leve sorriso de canto de boca.

Kael respirou fundo, como se estivesse reunindo coragem. Seus olhos brilharam com uma determinação que Simão nunca tinha visto antes.

— Quero que você me apresente à guilda de aventureiros, pai. — disse de uma vez só, a voz firme, mas carregada de expectativa. — Eu... estou pronto para viver minhas próprias aventuras. Sei que existe um mundo além das fronteiras desta vila, e quero vê-lo com meus próprios olhos. Aprender a lutar, viajar, conhecer as criaturas que estão lá fora... é isso o que eu quero.

Soren recostou-se na cadeira, seu sorriso desaparecendo aos poucos enquanto as palavras de Kael ecoavam na sala. Ele o observou em silêncio por alguns instantes, avaliando o garoto à sua frente.

Soren — A guilda de aventureiros, hein? — murmurou, um leve suspiro escapando. — Você acha que está pronto para isso? Sabe que o caminho que está pedindo não tem volta. Eles não vivem aventuras como nos contos, Kael... Eles vivem de sangue, suor e contratos sujos. Tem certeza de que é isso que quer para você?

Enquanto aguardava a resposta do garoto, a porta da cozinha se abriu e Paulo Broenni, com um sorriso amistoso no rosto, entrou carregando um prato fumegante. Ele colocou a refeição na frente de Soren com um gesto cuidadoso, o cheiro de carne assada e temperos encheu o ambiente.

— Enquanto você esteve fora, ele não parou de falar sobre isso — disse Paulo, rindo e dando uma leve tapinha nas costas de Kael. — O garoto não fala em outra coisa. Parece que decidiu de vez.

Soren levantou uma sobrancelha, agora ainda mais curioso, e olhou de soslaio para Kael, que suspirou profundamente.

Soren soltou um suspiro pesado, enquanto suas mãos esfregavam o rosto cansado. Ele trocou um olhar rápido com Paulo, que deu de ombros, como quem já esperava por esse momento. Kael já não era mais uma criança, mas isso não tornava seu pedido menos difícil.

No entanto, o pensamento de Soren começava o afastar da situação. Talvez, de alguma forma, Kael se distanciar da segurança de Stanston e trilhar o caminho de aventureiro não fosse tão ruim. Era arriscado, claro, mas aquele tipo de vida poderia levar o garoto para longe...Cercar o garoto e tentar fazê-lo ficar preso naquela cidade apenas o faria odiar suas origens, sem nem mesmo entendê-las.

Ainda assim, Soren não podia ignorar o perigo. A vida de um mercenário e aventureiro era cheia de incertezas, e ele sabia que Kael, ainda não estava preparado para o que o aguardava lá fora. No entanto, o mercador também reconhecia a força de vontade no olhar do garoto. O sangue de Raven corria em suas veias, e essa determinação era parte dele.

— Talvez... talvez isso não seja de todo mal — balbuciou para sí, embora o medo ainda pesasse em seu peito. Quanto mais longe ele for e forte ficar, mais difícil será para os Raven encontrá-lo.

Soren olhou para o garoto à sua frente, que esperava ansioso pela resposta. Havia um dilema: deixar que ele enfrentasse os perigos do mundo ou tentar segurá-lo em uma vida de relativa segurança, mas sempre à sombra de seu passado. A escolha de Kael poderia custar caro, mas talvez fosse a única chance de se libertar, de uma vez por todas, da sombra dos Raven.

— Está bem! — disse ele, finalmente, a relutância em sua voz se dissipando. — Você me acompanhará na próxima viagem. Preciso te apresentar a um amigo. Ele poderá nos ajudar com a guilda, e na viagem, te ensinarei como lutar e sobreviver na estrada.

A alegria irrompeu no Kael como um raio de sol após uma tempestade. Seus olhos brilhavam intensamente, e um sorriso largo se espalhou em seus lábios.

— Obrigado, pai! — exclamou, mal conseguindo conter a empolgação.

Paulo, que estava à mesa observando a cena, sorriu com um aceno de aprovação. Ele sabia que essa era uma oportunidade única para o garoto, e sua expressão alegre refletia o alívio que todos sentiam.

Kael não conseguia esconder a animação que transbordava de seu ser. A sensação de liberdade e novas possibilidades era eletrizante

Soren, percebendo a hora avançada, dirigiu-se a Kael, sua voz carregada de paternidade.

— Agora, vá se preparar para deitar-se. É um grande dia amanhã, e você precisa descansar.

Kael assentiu, mas a inquietação pulava dentro dele. A ideia de aventuras e o desconhecido o mantinham em estado de alerta, e ele sabia que a noite seria longa. Mesmo enquanto se movia para o quarto, o entusiasmo borbulhava em seu peito, tornando difícil a tarefa de se acalmar para conseguir dormir com tranquilidade.

Enquanto isso, Soren e Paulo continuaram conversando na cozinha, trocando ideias sobre a viagem que estava por vir e sobre o que poderia aguardar o jovem nas estradas.

No seu quarto, Kael acendeu uma pequena vela, a chama tremulando suavemente enquanto a luz suave dançava nas paredes de madeira. Ele se sentou na beira da cama, perdido em pensamentos sobre a aventura que o aguardava. O coração pulsava forte em seu peito, uma mistura de ansiedade e expectativa pelo que estava por vir.

Enquanto tentava se acalmar e deixar o dia para trás, um pequeno barulho na janela chamou sua atenção. Ele se virou, os sentidos aguçados, e viu uma silhueta escura recortada contra a luz da lua. Um corvo pousara delicadamente na janela, seu olhar brilhante e penetrante fixo em Kael.

O pássaro parecia quase sobrenatural, suas penas negras reluzindo à luz da vela. Kael sentiu um frio na espinha ao encarar aquele olhar que parecia carregado de mistério e sabedoria. O corvo ciscou, como se quisesse chamar a atenção do garoto, e por um breve momento, Kael se perguntou se o animal era um sinal, um mensageiro para talvez sua primeira aventura.

Com um gesto hesitante, ele se aproximou da janela, o coração acelerado. O corvo continuou a observá-lo, e Kael pôde sentir que havia algo mais profundo por trás daqueles olhos. Com um misto de curiosidade e apreensão, ele se perguntou se a presença do pássaro estava ligada à sua origem ou à nova jornada que estava prestes a iniciar.

O corvo, com um leve movimento de sua cabeça, pareceu convidá-lo a se aproximar, e Kael sentiu um impulso quase irresistível. O animal ciscou novamente, dando um passo à frente na beira da janela, como se estivesse chamando-o para uma jornada. A inquietação no peito do garoto cresceu, e a curiosidade tomou conta de sua mente.

Ele hesitou por um momento, mas a determinação tomou conta dele. "E se for uma oportunidade única?" pensou. Com a vela na mão, Kael se aproximou da janela, o brilho da chama lançando sombras que dançavam ao seu redor.

Sem pensar duas vezes, ele posicionou a vela sobre a mesa ao lado e, com um salto ágil, pulou pela janela. A brisa noturna acariciou seu rosto enquanto ele aterrissava suavemente no chão coberto de folhas secas. O corvo esperou, suas asas batendo levemente enquanto olhava para trás, como se estivesse certificando-se de que Kael o seguiria.

Com um último olhar para a segurança de seu quarto, Kael seguiu o corvo, que voou baixo, cortando a escuridão da floresta à sua frente. A cada passo, o coração do garoto pulsava com a adrenalina da aventura, e a sensação de estar fugindo do comum o envolvia como um manto. Ele estava prestes a descobrir o que o mundo fora de Stanston tinha a oferecer.

A lua iluminava o caminho, e o corvo, com suas penas negras brilhando sob a luz prateada, parecia ser o guia perfeito para essa jornada desconhecida.

Kael seguiu o corvo, que flutuava na escuridão da floresta, como uma sombra viva. A cada passo que dava, a luz da lua se filtrava pelas copas densas das árvores, criando um jogo de sombras e luzes que dançava ao seu redor. O ar estava carregado com o perfume terroso da umidade, e o sussurro das folhas parecia formar um murmúrio quase inteligível, como se a própria floresta estivesse sussurrando segredos.

A vegetação ao redor era densa e vibrante, com raízes serpenteantes que pareciam querer prendê-lo enquanto avançava. Os sons da noite se tornaram mais intensos, com o eco de passos de criaturas ocultas e o canto distante de corujas, criando um pano de fundo inquietante. A cada movimento do corvo, Kael sentia que estava sendo guiado por algo além de sua compreensão, como se estivesse sendo chamado para um lugar que sempre esteve ao seu alcance, mas nunca havia percebido.

Finalmente, após o que pareceu uma eternidade, eles chegaram a uma clareira, onde uma grande pedra se erguia, imponente e enigmática, coberta de musgo e líquens. O corvo pousou na frente da rocha, olhando para Kael com um brilho misterioso em seus olhos. Era como se o pássaro guardasse um segredo profundo, algo que clamava por ser descoberto.

Então, um som perturbador cortou a quietude da noite: o grito de um bebê recém-nascido ecoou, ressoando na escuridão como um chamado angustiado. Kael olhou para baixo e viu que a névoa, que não estava ali quando chegou, agora se ergueu em volta de seus pés, envolvendo-o como um véu etéreo e frio. A névoa parecia pulsar com uma vida própria, obscurecendo o caminho de volta e aprofundando o mistério que o cercava.

Ele levantou os olhos novamente para o corvo, que o encarava com uma intensidade quase hipnótica. Em um sussurro que atravessou a bruma, o corvo falou, sua voz ressoando com um poder ancestral: “Acorde.”

Kael sentiu um jorro de energia, e, de repente, abriu os olhos, descobrindo-se em sua cama, a luz da manhã filtrando-se pelas frestas da janela. O sonho ainda ecoava em sua mente, mas a sensação de urgência e conexão com a floresta permanecia, deixando uma pergunta inquietante pairando no ar: havia sido apenas um sonho?

Kael, ainda atordoado pelo sonho vívido, virou a cabeça em direção à janela. Um brilho escuro chamou sua atenção. Quando se aproximou, notou algo repousando na pechina: uma pena preta, brilhando como se tivesse sido polida.

Ele pegou a pena entre os dedos, a textura suave contrastando com a aspereza da madeira da mesa. A presença do objeto despertou um misto de confusão e fascínio. “Isso não pode ser apenas uma coincidência,” pensou, lembrando-se da visão do corvo e da sensação profunda que o envolvia.

 

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