Contos do Fim do Mundo Brasileira

Autor(a): L'Aventurier


I

Capítulo II: A patologia da vida

Os dias nos consomem, e a realidade nos mata; não podemos fugir dela. Nela as coisas não se distinguem, pelo contrário, elas são quase a mesma coisa. O mal se funde com o bem, assim como o amor transforma-se em ódio e a felicidade gera miséria.

Não conseguimos nos diferenciar, e aqueles que encontram-se totalmente voltados para um lado, acabam por ser sem consciência alguma. Um herói, assim, não é nada mais que um tolo sem consciência de si.

Por isso não poderia limpar uma simples gaveta. Era o que o mantinha humano ainda, já que lá residia todo o pecado da juventude. Um maço de cigarros e outras substâncias piores. Fotos e outras recordações. Tudo que lembrava de uma juventude lançada ao puro prazer, sem preocupações com a saúde e outros bons valores. 

E por isso nada mais fazia sentido, era um cotidiano que destruía os sonhos, assim como qualquer cotidiano faz, mesmo que tivesse recebido uma promoção pelo ótimo projeto recém finalizado.

Sendo assim, nesse dia, não tinha ido trabalhar. Havia dado uma desculpa e tinha ficado em casa.

Passou o dia deitado em sua cama, olhando para o espelho que encontrava-se no teto.

Pois tinha um namoro que progredia bem, e ainda assim, não lembrava o nome da namorada. Pois tinha um emprego que lhe era fútil. 

“Ei, vou passar ai mais tarde pra ficar com você”

Ela enviou uma mensagem, na maior das inocências, uma vontade genuína de cuidar de Seph. 

Ela sentia-se feliz com ele, já que o via como uma pessoa ideal. Não ia atrás das posses dele, e nem procurava apenas exibir um namorado bonito. Era uma preocupação genuína, mas que nunca seria retribuída. 

“Não precisa, eu não quero que você fique doente. Eu estou melhorando”

Eles debateram, mas ela aceitou. Não foi visitá-lo. 

Sua doença era iluminar-se. A consciência da própria existência causou tudo isso. Antes, uma semente, mas agora, um broto; e que não poderia mais ser arrancado, suas raízes haviam deixado vestígios por toda sua mente. 

Então decidiu tirar o dia de folga, para se recompor. 

Uma vida medíocre tanto quanto qualquer outra, quando ele deveria ser alguém especial; elementos que voltou a refletir.

Pois se a existência é comum, e nos revela como somos medíocres, qual era o sentido de tudo aquilo? O sofrimento da acadêmia, as horas de estudo, o esforço do trabalho; de que havia valido tudo isso? 

Nada. 

Mas, custava acreditar nisso. 

E conforme começava a aceitar tal ideia, caia no abismo. Ter autoconhecimento é doloroso; sair da Caverna é entrar num poço sem fundo, que apenas resulta em morte por afogamento.

Depois de muito tempo deitado, resolveu fazer algo para distrair a mente. Começou assistindo um filme na sala, mas não o terminou, estava cansado de ver filmes do Lars Von Trier, de modo que começou a procurar por algo na internet para assistir. 

Assistindo a vídeos na internet, se interessou por uma personagem virtual. Era o começo de sua primeira paixão na vida; uma paixão, de fato. 

Eram vídeos totalmente comuns. Uma pessoa jogando enquanto entretia ao público, mas ao invés de mostrar sua cara, usava uma personagem virtual em seu lugar. E era claro que tratava-se de uma atuação o seu modo de agir, ninguém na vida real agiria daquele modo. 

E por isso se apaixonou. Era alguém que não existia em suas atitudes, e nem em sua aparência. Era perfeito para ele. 

Pois era um sonhador, um consumidor das fantasias da vida moderna. Comprava tudo que lhe era imposto, como um bom carro, um apartamento com janelas grandes e outras coisas do tipo. Não menos que iria mergulhar de cabeça nessa personagem, era a única opção válida para uma paixão.

Uma pessoa tão real quanto sua namorada era uma impossibilidade, não havia chance daquilo dar certo; Seph consumia ilusões, e ela era verdadeira demais. 

Assim passou o dia inteiro assistindo esses vídeos.



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