Uma Cidade Pacata – Objetivos e Sacrifícios
Capítulo 193: Megalomania
— Mas você pegou um peixe dos grandes mesmo viu, Walker…! — Portando um meio sorriso, o agente responsável por lidar com os trâmites anunciou.
— Hehe — respondeu com um riso fraco e forçado. — É uma responsabilidade e tanto…
— Quem diria, quem diria… — repetiu, mais para si mesmo, antes de dar o sinal final. — Pronto, eu liberei seu acesso. Todos os arquivos acerca do garoto já estão à sua disposição… Mas, olha, eu tenho que dizer que não são muitos!
Comparado ao esperado das robustas evidências e coletas encontradas por uma investigação vinda de uma agência tão séria, os quase duzentos registros de câmeras, documentos e demais arquivos pareciam pouco.
— Vai encontrar mais coisas relativas às observações recentes. Seja lá quem foi esse garoto na vida antes de chegar aqui, vai ser para sempre um mistério… Mas o presidente parece confiar muito nele, talvez até demais.
Apenas os dois ocupavam a sala um tanto quanto escura do Departamento de Inteligência, de rostos iluminados somente pela luz advinda da interface dos servidores da CIA.
A cor azul representa uma conotação de limpeza e segurança — de caráter e estabilidade —, e seu uso extremo nas aplicações e ferramentas buscava evocar esse senso, agora posto à prova.
— … Mas quem sou eu para determinar o que ele pode fazer ou não? Já votamos por isso e a grande maioria acha mais prudente estudar mais, antes de tentarmos qualquer coisa… e aí ele decidiu nos fornecer mais um tempo, para achar respostas… — suspirou. — É… parece que a bronca disso caiu nas suas mãos, Walker.
Riu um pouco de um jeito amargo; o sujeito na frente de Gordon não era do tipo a desejar o mal de alguém, logo, concluiu ser só mais uma manifestação do seu jeito de brincar.
— É, e agora eu preciso fornecer resultados… Obrigado por tudo, Sullivan.
— Ah, de nada! — respondeu o agente de inteligência, despreocupado. — Vai em frente nessa empreitada.
Apesar de já estar no ramo há quase quinze anos, Kaleb Sullivan não perdeu o jeito descontraído de ser.
— Ah, e pode ficar relaxado quanto aos reforços — coçou o rosto claro e sem pêlos, pouco marcado pela idade. — Elieser dispôs uma equipe de atiradores de elite para estar com você a todo momento nos interrogatórios e testes, para garantir que o moleque não vai escapar.
Ninguém o daria sua idade real de 42 anos e, apesar de uma presença tão marcante, pouco se ouvia falar do dono de olhos castanhos e cabelos escuros, tão alvo e carismático quanto um vampiro.
Os dois não conversavam muito e a Gordon carecia conhecimento quanto à vida do colega, mas o relato geral era sempre o mesmo, vindo da maioria dos funcionários: Kaleb era “um cara legal”.
“Talvez esse seja o segredo de se viver uma vida boa…” imaginou, um pouco amargo em coração. “Viver a sua própria vida e não falar dela para ninguém!”
Apenas o “cara legal da Inteligência”... Casado? Não se sabe. Onde vive? Nem ideia. O que faz da vida? Só ele próprio tem noção, mas em meio a tantos mistérios, uma verdade vinha à tona: a de sua capacidade.
— Já acelerei com as pendências, agora é só ir lá e fazer o seu trabalho — fechou o sistema. — A chave de acesso deve chegar no seu e-mail criptografado em uns… dois minutos…?
Veloz e eficiente, tal qual um disparo de rifle.
— Obrigado, Sullivan. Não sei como agradecer por lidar logo com aquela dor de cabeça.
— Nada! — balançou a mão, brincalhão. — Agora vai e tenta arrancar algumas respostas! Mas vou te dizer: o guri é peculiar e de um jeito bem diferente do que você imaginaria… Mas não vou te contar! Vai ter de ver com os próprios olhos!
Mais comentários crípticos e afirmações enigmáticas representavam tudo o que ele não queria para essa missão. Não é que as respostas surgissem em ritmo inadequado; só não vinham em ritmo nenhum.
— Claro… Novamente, sou muito grato — tomou ar em preparação mental.
— Os seus subordinados vão estar prontos quando quiser, mas sugiro dar uma boa lida na documentação. Os relatórios prévios não dizem lá tanta coisa, mas pode ter algum detalhe legal.
— Certo. Sendo assim, eu estou indo…
— Boa sorte! — O jovial agente acenou e sorriu de canto.
Gordon deixou a sala repleto de conflito e tão logo o fez, o aparelho smartphone no bolso do terno vibrou; as permissões de acesso haviam sido atualizadas com sucesso e ele detinha do vago conhecimento acerca do enigmático [Quebra-Mentes].
“Código A-003 — [Quebra-Mentes]...” leu em voz mental, evitando chamar atenção de demais colaboradores. “O sujeito teoricamente apresenta a capacidade de alterar a cognição de humanos ao seu alcance imediato. Nenhum dos testes ou observações confirmou a hipótese. Simulação de combate pendente.”
Confortável em uma das finas poltronas da área de convivência do sétimo andar, pressionou o play em um anexo em vídeo, cujo conteúdo de pronto surpreendeu.
— … Mas… Santo Deus… — deixou suspirar, tapando a boca ao perceber.
A filmagem, tirada de uma câmera de segurança, tinha horrível qualidade — cheia de ruídos e interferências —, mas isso não serviu de empecilho à compreensão da maluquice gravada.
No curto filme, de meros dezessete segundos, o garoto pareceu ter uma discussão breve com três estudantes, em meio a uma densa nuvem de “farelos brancos”.
“São as mariposas… As que o Pryce encontrou aos montes nos cadáveres…” refletiu perante a lembrança.
A ausência de áudio arrancava uma preciosa fração da experiência, porém, a partir do décimo segundo, houve algo.
“É agora…!”
Ele tocou o rosto do único rapaz no trio, que desmaiou. Com cuidado, repousou o corpo dele no chão e falou com as duas garotas que se defendiam dos insetos, antes de correr para longe do campo filmado.
Sob o registro, foi adicionado um pequeno adendo, solicitado pelo próprio presidente há pouco mais de uma semana:
“09/06/25 — Não abordar o sujeito com periculosidade ou atitude que venha a ameaçar sua integridade, salvo permitido por ordem direta. Todos os interrogatórios deverão ser seguidos de forma civil e não-ofensiva.”
Agora, tudo fez sentido; Melissa foi arrancada do interrogatório logo no primeiro dia e essa foi a razão.
“... E agora eu entendo porque ela disse que estavam mimando esse garoto… É porque é verdade.”
Grazianni e o presidente dos EUA não demonstraram até então qualquer afeto maior pelos outros dois e, no momento, somente a A-001 está sob estudos quanto às suas capacidades.
“Eu me pergunto o que fizeram com aquele primeiro garoto… Mark…? Se não me engano, esse era o nome dele…” bufou. “Ah, não que me importe… Aquele ali deu dificuldades demais.”
Se Melissa conseguia ser horrível de lidar quando saudável, ter de ouvi-la reclamar com constância do braço quebrado e das lesões o gerou várias dores de cabeça nos últimos dias.
“Mas isso não vem ao caso… De volta aos meus estudos.”
Pelos próximos dez minutos, dedicou-se a debruçar-se nas informações do portfólio. Ali, constam alguns detalhes básicos como nome e outros pormenores, coisas das quais já sabia.
— Notas ruins em matemática, hein? Bem displicente e desrespeitoso com professores e colegas, também… Um gazeteiro nato… Hmm… “Transtorno de Desvio de Conduta”? Cabível no caso dele — falou sozinho, em reflexão quanto aos achados.
Mas as partes mais importantes só viriam depois. Por algum motivo, o registro fotográfico só foi colocado algumas páginas à frente e admirá-lo trouxe de volta uma sensação antiga.
— Esse rosto…
A foto em questão foi retirada do histórico escolar, onde ele não aparentava estar ao mínimo satisfeito.
“A cara azeda, esse aspecto entediado de quem foi arrastado e obrigado a estar ali… Um pouco apático, apagado, evitativo quanto à câmera…”
As íris roxas se destacavam em meio à pele escura e os encaracolados fios negros. Na foto, evitou olhar para frente, dando-lhe um aspecto disperso e incomodado.
“... Quase como se disse ‘eu não preciso estar aqui’...” Gordon completou os pensamentos. “Heh… Esse parece que vai ser difícil, também.”
Um pensamento rápido cortou-lhe a mente: duas ou três tatuagens pequenas, um brinco e talvez uma corrente no pescoço o fariam um verdadeiro gangster, no sentido mais estereotipado do termo.
“Melhor parar de pensar bobagens.”
Mas sobrava algo a mais: uma coisa relacionada à estrutura facial; um senso de estranheza, ou melhor, de familiaridade.
— Hmm… — prosseguiu nos arquivos, em busca de algo diferente.
E depressa encontrou. Logo de cara, um arquivo específico, chamado meramente de “Providenciar o quanto antes” saltou adiante entre os números e letras da criptografia.
— Huh…? Esse endereço de e-mail… O e-mail pessoal do presidente?!
E ao contrário dos demais, este não tinha as múltiplas de criptografia e segurança avançadas, aberto tão logo foi tocado. A grande surpresa em si, contudo, veio quando o arquivo carregou por completo.
O texto apareceu na tela do dispositivo, nada semelhante ao antecipado pelo experiente agente de campo.
— … Mas o que significa isso…?!
[...]
— Mas isso é mesmo ótimo de ouvir, Senhorita Robinson! Sempre soube que você era a indicação mais correta para lidar com tamanho trabalho!
Chamar a animação do presidente quanto aos novos avanços de mera “felicidade” equivaleria a comparar o voo de um avião à jato com o bater das asas de um pássaro.
Ao tomar conhecimento dos resultados apresentados por Elieser, mesmo o atarefado Chefe de Estado cancelou três compromissos para aprender a informação direto da fonte.
— A grande equipe de pesquisa que colocou como meus colegas ajudou bastante, senhor. Sem eles, tenho certeza quanto a ainda estarmos tentando!
— Ah, por favor, não precisa ficar bancando modéstia na minha frente, Srta. Robinson! O que vejo aqui é o trabalho de um gênio… O seu trabalho!
O brilho no olhar idoso, corrigido em parte por inúmeras plásticas, se prendia aos papeis que falavam a respeito de meros ratos, enquanto uma perspectiva de futuro se tecia depressa em sua visionária e doente mente.
“Imagino que é assim que ele se sinta sempre que lembra ter um botão vermelho embaixo da cadeira” pensou Hannah, zombando dele. “Que homem digno de pena…”
A única real conclusão a ser tirada da pesquisa se fez óbvia. Para ela, presenciar o fervente ego humano, alimentado pela palha chamada “poder”, chegava a ser ambos hilário e deprimente.
— Srta. Robinson, esses resultados abrem um precedente assombroso…
“É sempre assim. É tudo o que pensam a respeito e tudo o que eles são.”
— Eu ouvi a explicação do Grazianni também. Então, se obtivemos o meio de “destravar” os segredos por trás do processo de epigenética…
“Invenções lindas, fruto de mentes brilhantes… Tudo para causar dor.”
— … Poderemos superar nossos próprios limites… defender nossos interesses, acima de tudo e todos…
“Destruir uns aos outros… Discutir até o fim, só para provar um ponto… Se digladiarem em nome de mero orgulho, de reconhecimento; de ser temido, ao invés de amado…”
— … E seremos a nação mais poderosa desse mundo… Não… poderemos expandir nossa influência para além do mundo! Seremos os super-homens… A evolução da espécie!
“Heh. E aqui chegamos de novo, no ponto final. Me desculpem… Vocês me enojam e eu sinto muito por isso.”
— Não concorda comigo, Srta. Robinson?! Não é mesmo maravilhoso o nosso sonho americano?!
“Jane Robinson” abriu em resposta o sorriso mais largo e bonito até então, capaz de encher a sala com o puro peso da avassaladora simpatia. Sem hesitar, a bela moça assentiu, verdadeira em aparência.
— Sim, senhor! Podemos esmagar o resto do mundo sob nossos pés e fazê-los implorar para que os deixemos sobreviver! Faremos nos servir, em um mundo onde o direito humano de respirar só pertence à grande América!
A euforia contaminou-o em um piscar de olhos, revelando a real profundidade daquela megalomania.
— Espero muitos avanços de você, Jane! — cobriu o rosto, em tentativa de fazer o sorriso louco cessar. — E quanto à minha mina de ouro? Espero que esteja sendo bem cuidado.
— Não se preocupe quanto a isso, senhor. O sujeito está confiado em boas mãos e logo estará cooperativo.
— Perfeito! — bateu palmas. — Quanto antes o tivermos do nosso lado, melhor! Mime-o à vontade, mande umas duas ou três modelos para animá-lo um pouco, de vez em quando…! Mostre-o quanto podemos oferecer e as vantagens de estar do nosso lado!
— Certo, senhor presidente!
— Ele vai agir pelo nosso lado… Pode ser um super-homem ou algo do tipo, mas ainda é um garoto adolescente, passível de ser dobrado por algumas indulgências… Claro, vamos precisar de um método que o impeça de se rebelar, mas dá para pensar nisso depois. Está dispensada, Srta. Robinson.
O homem de terno azul deixou a sala, acompanhado de seus quatro guardas-costas. Em passos decididos, tomou o elevador até o térreo, onde sairia por um caminho secreto ao público, deixando-a, enfim, sozinha.
— Que piada.
Teve vontade de rir, não porque teve graça, mas sim por conta da infantilidade no pensamento daquele velho autoritário.
— Se ele ao menos soubesse metade do que eu sei… — pausou um pouco, recobrando a atenção e o foco. — Hora de ir fazer o que é relevante.
Eram 13h31 e o dia estava longe de acabar. Sem perder mais tempo, tomou as credenciais atualizadas do crachá e se dirigiu até um específico corredor do andar subterrâneo.
— Sou Jane Robinson, permitida para adentrar na câmara. Motivo de entrada: coleta de amostras — citou de modo robótico, mecanizado pelo falso profissionalismo.
Os dois guardas armados assentiram em conjunto, antes de digitarem três códigos de abertura para a grande porta de metal branco, revelando um interior recluso e pouco iluminado.
Depois dela, ambos se prontificaram para entrar, apontando os rifles sem dizer uma palavra.
— Não vai ser necessário, mas se quiserem me seguir… façam como quiserem.
Por comando de ambos, pressionando botões em seus capacetes, a porta fechou e assumiram seus postos, prontos para atirar.
— Que pena toda vez precisar ser desse jeito… A recepção daqui podia ser um pouco mais amigável, não acha?
Não houve resposta — sem problemas —; ela veio fazer o que precisava fazer: luvas de látex, duas ampolas vazias e uma seringa com agulha.
— Você já sabe como funciona. Só vai doer bem pouquinho, [Ilusionista].
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