Caçador Herdeiro Brasileira

Autor(a): WesleyArruda

Revisão: Ângela Marta Emídio


Livro 1

Capítulo 6: O motoqueiro misterioso

Sexta-feira.

Tentando não pensar no quanto a minha vida tinha se tornado uma loucura, levantei cedo — cedo até demais, antes mesmo que o despertador apitasse — e me ajeitei para mais um dia de aula.

Na cozinha, como sempre, minha mãe terminava de passar o café. Sentei-me à mesa e perguntei:

— Meu pai ainda está dormindo?

— Roncando feito um leão. Deve estar mesmo muito cansado.

Ele sempre foi assim, mas agora eu sabia o motivo do sono tão pesado.

— Bom — falei, rindo —, dá pra entender, já que saímos atrás de um vampiro nessa madrugada.

O olhar que minha mãe me lançou fez-me arrepender duramente de ter aberto a boca, portanto a fechei. Ela me serviu com deliciosos pãezinhos quentes que acabara de comprar no mercadinho perto de casa. Esse era o lado bom de ser um dos primeiros clientes do dia, coisa que dona Sara sempre foi habituada, mesmo lá em Belém.

Ela costumava acordar cedo. Uma vez perguntei o porquê. A resposta foi:

“Dio, é tão lindo ver o dia amanhecer, o sol nascendo… Sempre que posso, vejo-o aparecer no fim do horizonte. É uma cena que transforma qualquer tipo de paisagem em uma bela paisagem. Isso é a prova de que o mundo pode sim ser lindo!” 

De certa forma eu tinha que concordar, só não tinha coragem o suficiente para acordar tão cedo apenas para ter uma confirmação.

E, como falei, tentei não pensar nas loucuras da última noite, o que não funcionou, já que uma das pessoas que eu estava me acostumando a encontrar todos os dias na praça da escola era o Pedro.

Embora tentasse disfarçar, Natsuno percebeu que eu estava estranho.

— Não tive uma noite muito boa — falei.

— Isso é falta de comida — sugeriu Jhou, o grandalhão, e a sineta soou. — Sempre que eu não como o suficiente, não consigo dormir direito. A comida é necessária na nossa vida.

Eu só me perguntei o que significava “suficiente” para ele. E notei Pedro me olhando de forma estranha, como se... tivesse percebido que eu não estava me sentindo tão bem perto dele.

No corredor, já no primeiro andar, tentamos passar longe da senhorita Abigail, que estava no meio da multidão de alunos fiscalizando tudo, mas ela caminhou na nossa direção com sua expressão fechada de sempre.

— Por que estão andando tão devagar?! Depressa, para a sala!

Obedecemos, assustados com sua cara feia. Perguntei a mim mesmo se ela também era um vampiro. Os olhos vermelhos, pelo menos, não haviam surgido ainda, mas, considerando que ela era assustadora daquele jeito, decidi ficar atento. 

— Por que será que ela só pega nos nossos pés? — resmungou Natsuno. Um erro terrível.

— O que você disse?! — A inspetora gritou de longe.

— Hã? Nada não, senhorita Abigail. — Natsuno deu uma risadinha meio sem jeito. Aceleramos os passos pelo corredor, achando melhor não olhar para trás, e fomos cercados por um bando de garotos agitados assim que entramos na sala 2; o time inteiro do futebol.

— Já que hoje é o dia das inscrições para o campeonato intersalas, vamos montar o nosso time agora — explicou Marcelo. A noite fora tão maluca que eu nem estava me lembrando das inscrições. — Essa aula não haverá professor.

— E qual seria? — perguntei por impulso.

— De História.

Senti uma pontada no coração. Poderia ser coincidência, mas uma coincidência bem maluca, o professor/vampiro faltar justamente após o meu pai matar o diretor assassino.

Pedro ficou me observando de esgueira. Eu podia perceber pelo canto do olho e, quando fiz menção de encará-lo, ele desviou o olhar.

— Bom — disse Natsuno em tom de comemoração —, então bora aproveitar!

Nós nos acomodamos no fundo das fileiras do meio, onde a turma do Marcelo costumava ficar durante as aulas. Ele pegou um lápis e um caderno na sua mochila, voltou ao grupo e começou:

— O goleiro com certeza será o Lucas. — Escreveu o nome do tal Lucas, um garoto alto e magrelo, com cabelos castanhos e bagunçados, no espaço para goleiro dentro de um campinho de futebol mal desenhado numa folha. — Jhou e Mike serão os nossos zagueiros e o lateral esquerdo será o Thiago. — Marcelo olhou para Thiago, um garoto negro de feição sarcástica, que assentiu. — E o direito será o Anderson. — O mais baixinho da turma deu um sorriso orgulhoso de si e também concordou.

Certo, a defesa já estava montada. Quase metade do time estava em seu lugar. Eu estaria na outra parte?

— Pedro será o volante. Na ala direita estará o Luan — este era irmão gêmeo do Lucas, cuja diferença estava nos cabelos penteados —, e na ala esquerda o Otávio. — Esse era um garoto alto de pele tão clara ao ponto de ele parecer um albino, assim como o meu amigo Henrique, que morava em Belém. Ao contrário do Henrique, no entanto, Otávio aparentava ser um típico zombador de nerds. — E, como todos sabem, eu serei o meia-armador, o camisa 10 do time, o cara que arma as jogadas e faz os gols, aquele que...

— Tá, tá — interrompeu-o Natsuno, impaciente, falando por todos os outros garotos. — Prossiga.

— Hã, certo. E o atacante será você, Natsuno.

Natsuno não se mostrou surpreso, já que era o atacante principal do time desde o ano anterior.

— E quem será o outro atacante? — perguntou alguém cujo o nome não estava entre os titulares do time.

Todos se entreolharam.

— É verdade. Não temos mais nenhum atacante, nem no time principal nem no time reserva.

— O Shin quase não vem. Não podemos contar com ele.

— E agora?

A dúvida era nítida no meio do grupo. Eu até poderia jogar como atacante, mas queria mesmo era fazer parte do meio de campo. Os outros reservas também pareciam indispostos a ocupar a posição, e a resposta veio de quem eu menos esperava.

— Eu sou esse quem vocês estão procurando.

Todos os olhares voltaram-se para quem falara. Riku estava parado num canto com o seu rosto sereno e tranquilo. Eu, acredito que assim como os outros garotos, sequer havia reparado que ele estava ali. Acabei notando que a Sophia não tinha chegado ainda, o que me provocou calafrios no estômago.

— Você? — Marcelo estranhou, erguendo uma sobrancelha.

— Algum problema? — Riku não demonstrava nenhuma emoção de entusiasmo, como sempre, mas todos o olhavam com certo respeito e curiosidade.

— Na verdade, não. Então está certo. — Marcelo voltou-se para o grupo. — Esse será o time. Veremos os números das camisetas depois das inscrições e treinaremos nas aulas de Educação Física. — Coisa que ainda, por algum motivo, não havíamos tido.

Todos anuíram com a cabeça.

Eu me senti frustrado, pois sequer mencionaram o meu nome. Tinha ciência de que ainda era cedo, mas eu queria estar lá, junto do Jhou, do Natsuno, do Pedro e até do Riku. Queria ajudá-los dando o meu melhor, mas percebi que teria que me esforçar muito para que isso acontecesse.

Todos retornaram aos seus respectivos lugares.

— Nosso time desse ano tá forte pra caramba — comentou Natsuno, convicto e animado. Seu olhar demonstrava extrema confiança.

— É verdade — Jhou também estava empolgado. — Pela primeira vez a gente tem defesa, meio de campo e ataque completos. Foi uma boa o Mike e o Thiago terem aparecido no nosso time. Estamos fortes! — Ele dobrou seu braço direito e expôs seu bíceps musculoso.

Natsuno olhou para mim, percebendo meu desapontamento.

— Fica tranquilo, cara. Sua hora vai chegar.

Forcei um sorriso de gratidão.

Voltei a olhar em volta da sala e nenhum sinal da Sophia. Eu realmente estava preocupado. Sabia que não era incomum alguém faltar à escola, mas depois do que havia acontecido na última madrugada, eu não duvidava de mais nada, ainda mais sabendo que havia vampiros pela escola, inclusive o Pedro.

De repente, o meu coração apertou. Senti que alguma coisa estava acontecendo, só não sabia onde.

— Preocupado com a Sophia? — Natsuno me fitou, me fazendo corar.

— E-eu?

— Relaxa, maninho, ela só… faltou. Isso é normal.

Foi aí que me lembrei que o professor de História também havia faltado, e provavelmente os três valentões, que eu não via há dias.

        

***

Na segunda aula, um barulho de motor soou pela sala. Um estrondo forte como o ronco de uma moto potente vinha de algum ponto distante de onde estávamos. A sala inteira pareceu assustada. A professora parou de escrever no quadro negro enquanto os alunos trocavam olhares e balbucios aturdidos. O ruído ia aumentando a cada segundo, até que nos levantamos e corremos em conjunto para o corredor.

Foi aí que aconteceu a coisa mais estranha que eu já havia visto até então — estranho para acontecer dentro de uma escola, é claro. Um motoqueiro apareceu do nada de um dos corredores adjacentes em alta velocidade!

Ele jogou a moto em nossa direção e “pisou” fundo — e tive a impressão de que ele estava vindo diretamente até mim. Quanto mais chegava perto, mais eu sentia um calor percorrer pelas minhas veias. 

VRRRRRUUUUUUUM!!!!!

O motoqueiro ultrapassou as salas 4 e 3 em alta velocidade.

Os outros alunos voltaram para a sala correndo, gritando feito loucos, mas eu permaneci ali. A moto se aproximava de forma furiosa, enquanto eu não conseguia mexer nenhuma parte do meu corpo!

Um suor gelado banhou o meu corpo quente como se eu estivesse debaixo de um chuveiro e as minhas pernas se tornaram trêmulas. Ainda assim eu me sentia uma estátua presa ao chão. “O que está havendo comigo?”

— Sai daí, Diogo! — gritavam os alunos da minha sala.

Eu desejei poder sair mesmo, o que parecia impossível. Sofria da mesma paralisação que tomara conta do meu corpo quando encarei os olhos dos valentões. Um monte de gente berrava para que eu saísse do caminho.

No momento em que a moto chegou a poucos centímetros de mim, alguém se jogou contra o meu corpo e me tirou a tempo do caminho da morte; e, ainda no ar, enquanto o vento da moto arranhava o meu rosto, consegui ver de relance os olhos do motoqueiro por detrás do capacete — e eles tinham o tom vivo de um carmesim demoníaco.

“Vampiro” concluí imediatamente.

Natsuno e eu caímos de qualquer jeito no corredor em frente à nossa sala, mas não tirei os olhos do motoqueiro, que continuou o seu trajeto em direção à janela, sacudindo a escola inteira com o ronco do motor de sua moto; o tanque de gasolina tinha a mesma cor vermelha de seus olhos.

Um instinto tomou conta do meu corpo e eu corri, deixando um Natsuno irritado para trás.

Disparei atrás da moto através do corredor, alcançando-a de maneira surpreendente, ignorando os gritos histéricos dos alunos e dos professores da outra sala. A moto passou em frente à sala 1 e, quando chegou perto da enorme janela do fim do corredor, o motoqueiro a empinou e, em seguida, executou uma super manobra que fez com que o veículo saltasse para o lado de fora do prédio pela janela, quebrando o vidro e fazendo um forte barulho de cacos se estraçalhando no chão.

PRIXX!

Eu também pulei.

— AAAAHHH!!!

Como estava no primeiro andar, observei arrependido o chão da rua se aproximando abaixo dos meus pés em grande velocidade. O que me restou foi me preparar para aterrissar e, por sorte, caí em cima de um ônibus público que passou por baixo de mim na hora certa, na avenida lateral do colégio. Consegui me equilibrar na ponta dos pés ao dobrar os joelhos, como meu tio me ensinara. O ônibus seguia pela avenida na mesma direção do motoqueiro, que cruzara bem em frente a ele.

O céu estava tomado por um azul límpido e sem vestígios de nuvens, resultando num ótimo clima para uma manhã de sexta-feira. Uma manhã de pura adrenalina, na qual eu seguia um motoqueiro/vampiro loucamente.

Disparei por cima do ônibus para chegar mais perto da moto, mas a mesma estava em maior velocidade, se distanciando aos poucos. O motoqueiro olhou para trás e me viu; então dobrou a avenida à esquerda.

Sem perder tempo, pulei do ônibus para um caminhão-baú que entrava na mesma rua que a moto. Devido ao trânsito intenso, logo o caminhão parou. Avistei o semáforo alternando de amarelo para vermelho na primeira esquina.

— Droga! — resmunguei comigo mesmo. O motoqueiro estava fugindo.

Pulei do caminhão para cima de um carro — o motorista, aparentemente irritado, gritou "Ei!" — e continuei pulando sobre alguns outros feito um sapo na lagoa, sendo sempre xingado pelos seus proprietários.

A moto tinha dificuldades para avançar por conta do congestionamento. O vampiro era obrigado a criar caminhos tortuosos por entre os veículos, o que me dava um pouco de vantagem. Eu continuava me aproximando, até que o farol ficou verde novamente.

Os carros retomaram seus trajetos. O motoqueiro dobrou à direita e disparou. Pulei exatamente na garupa de uma moto que seguia o mesmo fluxo que o inimigo, e falei ao piloto, apressado:

— Segue ele!

— Hã?

Sem protestar (e acho que ele pensava que eu estava armado), o coitado obedeceu ao “pedido”. Acelerou, ultrapassando vários carros pelo caminho, e começamos a alcançar o vampiro bem aos poucos.

— Só mais um pouco... — falei.

Alguns minutos se passaram e já estávamos bem próximos dele, com meus olhos lacrimejando graças ao vento que batia em meu rosto. O semáforo ficou vermelho, mas o motoqueiro misterioso dobrou a avenida à esquerda e acelerou. O rapaz que pilotava a "minha" moto até tentou segui-lo, mas, na hora exata em que entraríamos na rua, um carro bloqueou a nossa passagem, fazendo-o frear de maneira brusca e a quase atingir a lataria da porta da frente.

O motoqueiro respirou fundo, assim como eu. Quase um acidente. Mas eu não poderia deixar o vampiro fugir.

Olhei para o anel que ganhara do Tony na última madrugada e o beijei. “Chame-o de Takohyusei” foram as palavras do meu pai quando me presenteou.

— Por favor, se você tem algo a me oferecer, que seja agora!

De início nada aconteceu. Mas depois me surpreendi.

O anel estava deixando sua forma. Aos poucos ele se esticava, de um jeito bem sobrenatural, tornando-se uma… espada?

Uma espada simples e pequena. Trinta centímetros de comprimento no máximo, para ser específico. A lâmina de metal era dourada e de fio duplo e o cabo era vermelho, com entalhes alaranjados que lembravam o fogo.

— Obrigado, pai — agradeci ao anel (agora espada), como se ele fosse o meu pai. O piloto a minha frente me olhou através do retrovisor com um olhar assustado.

Olhei para o motoqueiro misterioso que se afastava e decidi tomar uma atitude inusitada: apertei a espada dourada e, com toda a minha força, lancei-a contra o indivíduo, mesmo nunca tendo lançado uma espada antes; portanto, fiquei perplexo ao me deparar com a precisão do arremesso. A espada voou na direção do motoqueiro com extrema eficiência!

PUFF!, acertei o pneu traseiro de sua moto, que começou a murchar. Foi o suficiente para se esvaziar rapidamente. O veículo foi perdendo velocidade, embora continuasse o trajeto. Percebendo isso, o motoqueiro misterioso pulou da motocicleta e disparou pela avenida, quase sendo atropelado por alguns carros que buzinaram furiosamente.

Não perdi tempo e saltei da moto. Corri em direção a ele deixando o homem que me ajudara para trás confuso e assustado.

O vampiro tirou o capacete e mergulhou no primeiro beco que encontrou; agora para onde ele iria, eu não fazia ideia, só sabia que não podia deixá-lo fugir.

Recolhi minha espada que ainda estava encravada no pneu traseiro da moto no meio da rua e o segui; senti algo forte quase que de imediato, algo que despertou​, dentro de mim, um ânimo totalmente novo junto de uma energia que me deu mais força para continuar. Seria a espada?

O beco era um lugar deserto em que latas e caçambas de lixo o “enfeitavam” dos dois lados. Um cheiro de comida estragada e rato morto invadiu minhas narinas de forma iminente. Belém não fedia tanto.

Eu corri, corri, e nada de me aproximar do motoqueiro. Ele dobrou mais dois becos até encontrar-se sem saída — um enorme muro de tijolos de um prédio encerrava o caminho.

O sujeito parou.

Aproximei-me com cautela e ele se virou para mim, possibilitando-me analisá-lo bem: um homem pálido com incontáveis músculos bem definidos, cabelos ruivos e sobrancelhas pretas. Percebi também que a orelha do rapaz era estranhamente pontuda e havia uma cicatriz no seu nariz, bem na ponta. Seu olhar vermelho era maldoso e, quando ele abriu a boca, expôs os mesmos dentes afiados do diretor. Mas ele não me atacou.

— Aonde pensa que vai? — falei, com a minha espada em punho, pronto para o ataque; minhas pernas, no entanto, tremiam sem controle.

— Isso é apenas o começo — disse o vampiro, calmo, olhando direto nos meus olhos. Senti um formigamento no estômago enquanto observava aqueles olhos penetrantes e amedrontadores.

— Começo de quê? — Tentei soar mais valente do que me sentia. — E quem é você?!

O vampiro continuou me analisando de forma feroz e maligna. Ocorreu-me que ele não estava cansado, como se seu fôlego fosse infinito. Quando pensei que ele iria me atacar, apenas deu um salto surpreendente e já estava no alto de um dos prédios!

Ele ainda me olhou de lá de cima, olhos vermelhos que ainda eram destaques mesmo de longe, então deu as costas e fugiu.

E eu fiquei lá, parado, de boca aberta, impressionado com o pulo.

“Como ele conseguiu fazer isso? O que ele quis dizer com "apenas o começo"? Ele me atraiu para esse beco fedorento apenas para me dizer isso?”

Por fim, eu estava aliviado — e um pouco irritado também.

Suspirei.

Olhei para trás e lembrei que estava em uma grande encrenca: havia saído da escola sem permissão e seguido um estranho de moto. Sem dúvida, o fato seria assunto na sala e meus pais seriam chamados à diretoria — ainda que a escola não tivesse mais um diretor vivo.

A espada tornou a ser anel e eu voltei para a rua, ainda pensando no sujeito. Então percebi que havia outro problema: eu estava perdido. A avenida mantinha-se movimentada de veículos e pessoas, com alguns prédios erguidos por todos os lados numa espécie de centro comercial, o que significava que eu já estava longe da escola.

Dirigi-me a uma cabine telefônica velha na calçada, já que não possuía um celular, e liguei a cobrar para casa, já que não tinha nenhum cartão ou dinheiro.

Chamou por alguns segundos e, depois da musiquinha, minha mãe atendeu:

— Alô?

— Oi, mãe.

— Filho! — O grito foi tão alto que eu quase pulei de susto. — Onde você está? Ligaram da sua escola dizendo que você havia saído de lá e-

— Relaxa, mãe, eu estou bem. Só estou meio... — Olhei em volta e falei: — Perdido.

— Perdido? — Ela estava realmente muito preocupada.

— Diogo? — Agora era o meu pai quem falava ao telefone.

— Oi, pai. Foi mal por ter saído da escola assim desse jeito, mas acontece que eu encontrei um...

— Conversamos depois. — Ele me cortou, como se quisesse me dizer que não deveríamos falar sobre o assunto por telefone. — Em que lugar você está? Tem algum ponto de referência por perto?

Tornei a olhar em volta e vi uma loja chamada BESNI, depois avistei o nome da avenida numa placa de cruzamentos, perto do semáforo.

Informei tudo ao meu pai.

Minutos depois, um prisma preto parava em frente à loja. Era ele.

Atravessei a rua e entrei no carro, sentando-me no banco confortável do passageiro. O cheiro de novo ainda era presente ali, sinal de que meu pai mal o utilizava, pois o carro já tinha alguns anos.

Tony me olhou preocupado e pude notar que ele estava um pouco irritado também, mesmo não querendo demonstrar. Porque segui um vampiro pela cidade, provavelmente.

— Agora me explica tudo, filho.

 

***

Enquanto voltávamos para casa, contei tudo o que havia acontecido, como usei a espada Takohyusei para tentar deter o motoqueiro, além do "aviso" que ele havia dado antes de ir embora, sem mais nem menos.

No final, meu pai comentou:

— Estranho. Um vampiro querendo dar apenas um aviso?

— Sem falar que o professor de História, também um vampiro, faltou à aula hoje.

Seguimos o resto da viagem em silêncio, ambos com a mente distante do carro; eu tentando imaginar o porquê de o inimigo apenas ter fugido e meu pai pensando em algo que eu sequer conseguia imaginar. A expressão de preocupação era clara em seu rosto, mesmo ele tentando disfarçar.

Já estávamos perto de casa quando, de repente...

PLAFT!

Alguém bateu forte contra o vidro da frente do carro e meu pai freou bruscamente, derrapando o prisma com agressividade.

— O que foi isso? — perguntei num susto, espantado.

Juntos e desesperados, descemos do carro e corremos até o corpo da vítima, caído no meio da rua deserta. De longe já era possível perceber que a situação do rapaz não era nada tranquila. Sangue manchava o asfalto. Chegando mais perto e vendo-o melhor, senti o meu sangue gelando no mesmo instante. Aqueles cabelos castanhos, bagunçados, aquela cicatriz funda e enorme riscando seu olho esquerdo. Eu o reconheci na hora...

Era um dos valentões da minha escola! Justamente aquele que me barrara no banheiro no primeiro dia de aula e me dera o aviso nada amigável.

— Cláudio! — gritou meu pai se agachando.

Fiquei sem entender nada, surpreso por meu pai conhecê-lo. Eu estava confuso. Não podia imaginar meu pai falando com um vampiro.

Então me ocorreu que Cláudio era o único dos três valentões que não possuía os olhos vermelhos quando quase os enfrentei no refeitório, e isso me deixou ainda mais intrigado.

— O que houve com você? — perguntou Tony, pasmo, analisando o corpo do garoto.

Cláudio estava péssimo. Feridas graves marcavam seu corpo por inteiro, como se tivesse sido espancado por uma gangue armada com facas: tinha hematomas e arranhões pelos braços e pescoço, olho direito inchado, nariz quebrado e boca sangrando. Sua roupa — uma calça jeans e uma camisa regata azul-bebê — estava imunda de barro e de sangue. O que quer que tivesse acontecido com ele, eu não desejaria a ninguém.

— Ro-Rodrigo… — tentou dizer ele, com muita dificuldade.

— Vamos levá-lo ao hospital — sugeri.

— Não! — protestou Cláudio. Seu grito o fez tossir sangue e gemer em seguida.

— Não temos tempo — disse meu pai. — Os vampiros começaram a atacar. — Sua expressão séria chegava a ser preocupante.

Repousei meus olhos em Cláudio e senti pena. Embora ele fosse um cara que não havia me recebido muito bem, seu estado crítico era terrível.

— O que quer dizer com "Rodrigo"? — perguntou Tony com um desespero contido. — O que você conseguiu descobrir?

— Avisar… — A voz de Cláudio falhava enquanto tentava falar. Tony pôs o ouvido próximo à sua boca e ficou atento. E Cláudio completou, tão baixo que eu quase não consegui ouvir: — Rodrigo… Pen-drive…

Então se calou, seu olhar tornando-se vazio. Cláudio ficou imóvel.

Meu pai o olhou com pesar e lágrimas começaram a deslizar dos seus olhos, enquanto ele se ajoelhava perto do corpo do garoto. Não havia mais ninguém na rua além de nós, nenhuma alma sequer.

Tony cerrou os punhos, com muita força, depois suspirou segurando o choro. Pensei que ele explodiria num grito de dor, mas ele apenas tirou a corrente do pescoço e a transformou na lendária Ko-Kyuketsuki: uma espada enorme de lâmina prata e curvada, com linhas ondulares bronze que ligavam a guarda à parte chata. Encostou-a no pescoço do garoto e Cláudio começou a se esfarelar, assim como o diretor assassino. Seus músculos, sua pele, seus órgãos, tudo virou pó. Até as suas roupas. Tudo se transformou numa espécie de areia.

— Você fez um ótimo trabalho até aqui — disse meu pai.

Eu estava comovido demais para fazer perguntas.

Observei meu pai tirar um frasco cristalino de um dos bolsos de sua calça jeans, igualzinho ao da última madrugada, porém de cor diferente: em vez de vermelho, este era amarelo. A areia do corpo de Cláudio foi posta dentro, como se ele nunca estivera ali. Apenas alguns vestígios de sangue manchavam o asfalto.

Milhares de dúvidas surgiram na minha cabeça, mas eu não achei que fosse o momento apropriado para fazer questionamentos. Tony parecia sofrer, de forma calada, por um cara que até a alguns minutos atrás eu pensava ser um vampiro. Que não pareceu ter morrido por causa do atropelamento. Seu estado físico já era crítico demais, e ele claramente havia sido atacado por alguém — ou por alguma coisa.

Provavelmente, vampiros.

“Rodrigo”, “avisar” e “pen-drive” foram suas últimas palavras. Perguntei-me se fazia algum sentido para o meu pai.

Ele caminhou em direção ao carro de cabeça baixa e disse com a voz um pouco trêmula:

— Vamos, filho.

Eu ainda o olhei com pena e me senti péssimo. Não só por vê-lo daquele jeito, mas pelo Cláudio também, embora uma confusão se alastrasse pela minha cabeça.

O que me restou foi entrar no carro também, com receio sobre o que mais viria pela frente. Honorário não estava sendo mesmo um lugar normal para se morar. Muito longe disso.



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