Caçador Herdeiro Brasileira

Autor(a): WesleyArruda

Revisão: Ângela Marta Emídio


Livro 1

Capítulo 41: Rivalidade dentro de campo: Diogo Kido vs Yago Cordeiro!

É isso o que eu chamo de um belo chute! — berrou o locutor diante do belo e forte chute do Yago no travessão. — Yago, mesmo sem escolhas, quase marca o primeiro gol para o seu time!!

Eu olhei em volta e todos estavam surpresos. Os jogadores do time, o treinador Rubens Almeida, o público nas arquibancadas. Sophia parecia estar preocupada, eu percebi de longe.

Thiago, nosso lateral esquerdo, cobrou o arremesso lateral. Pedro recebeu e tocou a bola para o Carlos no círculo central.

E então começou o nosso ataque.

A bola passou por muitos pés até chegar a mim. Eu estava perto da meia-lua adversária, portanto dei um passe para Natsuno, que passava correndo ao meu lado. Ele recebeu driblando um dos zagueiros e chutou, mas a defesa perfeita do goleiro não deixou a bola entrar — foi um chute até que forte, mas em um pulo acrobático o goleiro defendeu a bola e a encaixou para si.

Natsuno murmurou alguma coisa, mas eu tentei motivá-lo:

— Boa, Natsuno.

O goleiro rapidamente jogou a bola para os pés de um jogador que estava no meio de campo. Era o Yago.

— Voltem todos para a defesa! — gritei ao time sem perder tempo.

Embora corrêssemos em velocidade para o nosso campo de defesa, Yago era ainda mais rápido: assim que recebeu a bola, partiu para o ataque feito um raio, deixando, primeiro, o grandalhão Jhou para trás, e depois passando por Nícolas. Ele estava chegando na grande área, livre de marcação. O goleiro Lucas estava só um pouco adiantado, mas ainda assim Yago chutou por cobertura, marcando um lindo golaço.

— GOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLL!!!! — explodiu o narrador da partida. — Que golaço! Yago Cordeiro é o nome dele, o maestro do 2º H!!!

O 2º H comemorou e os meus companheiros baixaram a cabeça. Antes que o desânimo tomasse conta, eu gritei:

— Não fiquem assim! Vamos vencer esta partida ainda!

Abri um sorriso confiante para motivá-los. Se deu certo ou não, eu não fazia ideia, mas todos ergueram suas cabeças e assentiram.

Dei o pontapé inicial, e dali em diante o jogo correu equilibrado, no qual ambos os times atacavam e tentavam marcar gols de todas as maneiras. Era evidente, todavia, que o time adversário era superior, sempre chegando mais perto de marcar do que nós.

Até que, mais uma vez, Yago recebeu a bola perto da área. Ele limpou dois zagueiros de uma só vez e bateu de fora da grande área; outro lindo gol, acertou o ângulo.

Muitos gritos vieram da torcida e o adversário comemorou muito, deixando meus companheiros ainda mais cabisbaixos.

— GOOOOOLLL!!!! Yago Cordeiro marca mais uma vez para o seu time!!

— Não venceremos nunca — ouvi o baixinho Anderson, o lateral direito, comentando.

— Esse time é muito forte — concordou Carlos.

Rubens tinha um olhar indecifrável voltado para mim. Parecia nem ligar para a partida, pois sequer abriu a boca.

Eu não sabia o que fazer! Estava desnorteado.

— Fica tranquilo, maninho, esse jogo é nosso — disse Natsuno atrás de mim, colocando a mão sobre o meu ombro direito. Forcei um sorriso e assenti.

Yago passou por mim, dizendo:

— Marcarei dez gols no seu time.

Coloquei a bola no círculo central e a partida recomeçou. Foram muito rápidos os lances, no qual o meu time atacou e levou um contra-ataque inacreditável que quase terminou em outro gol. O primeiro tempo foi praticamente assim, com o 2º H muito melhor. Até que Yago fez mais um: em uma cobrança de falta, mandaram a bola certinha em sua cabeça, sem chances para o goleiro Lucas.

Foi a gota d’água. Alguns dos meus amigos acabaram até se sentando no campo. Eu estava me sentindo mal, me culpando. Vê-los daquele jeito acabava comigo, um desânimo enorme que se espalhava em meu peito.

Olhei para Sophia e parecia que ela sentia o que eu estava sentindo. 

Fiquei pior.

O juiz apitou e o locutor vociferou:

— Final no primeiro tempo!!!! Três a zero é o placar! Que massacre!!! Será que o 1º B conseguirá inverter o placar?! Ou o massacre será ainda maior?!!!!

Dirigimo-nos ao banco, a maioria dos meus companheiros demonstrando extrema exaustão. Alguns beberam água parecendo mortos de sede no deserto. Olhamos para o treinador esperando alguma coisa dele. Mas ele continuou calado, o que me deixou furioso:

— Você não vai dizer nada? — exclamei. — O time está acabado e você não vai fazer nada?!

Os olhos dos meus companheiros voltaram-se para mim, provavelmente por nunca terem me visto irritado daquela forma. O treinador, no entanto, não mudou sua expressão; apenas deu meia-volta e se sentou no banco de reservas.

— Já perdemos — disse Samuel.

— É impossível revertermos o placar. — Jhou deu um sorriso tristonho.

Até Natsuno estava desanimado.

— A gente ainda pode vencer — falei, contendo a raiva. — Essa partida é a mais decisiva até aqui, não podemos perder assim. Precisamos dar o nosso melhor para que possamos jogar pelo menos à altura!

— Eles têm o craque do ano passado no time — disse Anderson desanimado —, não dá pra vencer assim!

— Então vamos marcá-lo! — falei, então me dei conta do que acabara de falar. Aquele era o segredo: não deixar Yago Cordeiro tocar na bola.

Meus olhos se cruzaram com os do treinador e ele sorriu. Parecia que ele já sabia que deveríamos fazer isso, como se estivesse me testando.

— Vamos fazer uma marcação muito forte em cima dele — falei aos meus companheiros, agora com convicção; todos ficaram atenciosos. — Não o deixaremos jogar, custe o que custar. Yago é o principal jogador deles, e os gols só saem pelos seus pés.

Meus companheiros pareciam um pouco mais motivados.

— Trocarei Anderson por Mike — disse o treinador. — Então jogaremos com dois zagueiros e dois volantes.

— Haverá um furo na nossa lateral direita — observou Riku.

— Não, porque você jogará lá — disse Rubens, deixando Riku surpreso. — Riku, você é muito ágil, portanto não será ruim jogar nessa posição. Os dois volantes (Mike e Pedro) marcarão Yago Cordeiro de maneira rígida, mas no caso de não conseguirem... ou ele irá para a lateral esquerda, onde Thiago marca muito bem, ou na direita, que é a sua posição.

Riku, embora tentasse disfarçar, pareceu satisfeito. Rubens continuou:

— Diogo, você organizará o ataque do time. E Natsuno, se a oportunidade aparecer, não a perca por nada, pois poderá ser importante na partida.

— Sim, senhor! — Natsuno bateu continência, fazendo com que todos caíssem na risada. Percebi que isso atraiu a atenção dos jogadores adversários, que recebiam instruções de seu treinador no outro banco de reservas.

— Vamos vencer, pessoal! — gritei motivado.

Todos concordaram, confiantes.

Nos dirigimos novamente ao campo, ao mesmo tempo em que a voz do locutor soava muito alta, saindo por vários alto-falantes espalhados pelo mini estádio.

— O segundo tempo começa, e parece que o 1º B vem mais defensivo. O que será que estão tramando?!

Demos o pontapé inicial e atacamos com calma, o que não deu muito certo. Natsuno perdeu a bola e o adversário contra-atacou. A bola chegou aos pés do Yago, marcado de perto por Mike. Yago pareceu confuso por um segundo, e foi nesse segundo que Pedro roubou a bola.

Pedro correu pelo centro e tocou para mim, mais a frente. Eu driblei um e parei na meia-lua, uma vez que dois zagueiros me bloqueavam.

— Diogo! — ouvi Natsuno atrás de mim.

Toquei de calcanhar para trás, onde Natsuno recebeu a bola (deixando os zagueiros confusos) e a conduziu em diagonal para a linha de fundo. Os dois zagueiros foram marcá-lo, mas Natsuno cruzou a bola para a área. Eu estava livre, e o meu único trabalho foi o de cabecear para o canto.

— GOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLL!!!! — gritou o locutor sem perder tempo. — Diogo para o 1º B!!

A explosão de gritos da torcida me deixou muito empolgado, e todos vieram me abraçar. Olhei na direção da Sophia e ela sorriu contente.

Retribuí o sorriso.

O treinador também pareceu satisfeito, mesmo no seu casual jeito durão.

— Vamos ganhar! — gritei ao meu time.

Peguei a bola no fundo da rede e levei para o centro do campo. Enquanto a levava, passei ao lado do Yago e assegurei:

— Essa partida é minha.

Ele apenas sorriu.

O time adversário deu o pontapé inicial. Natsuno e eu apertamos os defensores que não pensaram duas vezes e tentaram passar a bola para o Yago. Ele foi antecipado por Otávio, para quem perdeu a bola. Otávio tocou na direita para Riku. Este avançou com enorme velocidade pela lateral, deixando vários jogadores para trás, até que chegou à linha de fundo nos fazendo pensar que ele ia cruzar a bola para a área. Mas Riku parou e tocou para Pedro, que estava na ponta sudeste da grande área. Pedro bateu dali mesmo, mas o goleiro espalmou para escanteio.

— Quase o 1º B marca o segundo!! — vociferou o locutor. — E agora é escanteio!!

Riku pegou a bola na sua casual tranquilidade e cobrou o escanteio. A bola ia certinha na cabeça do Jhou, mas um zagueiro o antecipou cabeceando para fora da área. Eu estava na meia-lua quando a redondinha veio até mim. Não pensei duas vezes e a chutei antes que caísse no chão.

Foi um chute potente que passou pelo goleiro e atingiu o fundo da rede em cheio.

— GOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!! 

O locutor estava mais emocionado do que nunca, dando um clima de felicidade muito grande ao time e à barulhenta torcida.

Todos pularam em cima de mim, me derrubando no chão. Se continuassem daquele jeito, acabariam quebrando a minha coluna. E embora estivéssemos felizes, ainda estávamos perdendo, então decidi que não poderia perder o foco — mas não custava nada fazer mais uma provocaçãozinha.

— Ei, Yago — gritei enquanto me levantava —, estou quase chegando até você.

Como era um cara de boa, Yago sequer demonstrou alguma raiva ou coisa do tipo. Estava levando na esportiva.

— Isso eu não vou deixar! — ele garantiu.

E novamente o pontapé de recomeço.

Dali em diante a partida se manteve equilibrada, com nossos defensores marcando o camisa 10 como podiam. Nem sempre conseguiam, e era nessas horas que o 2º H quase marcava o quarto gol.

O tempo foi passando e o jogo continuava do mesmo jeito. As duas equipes jogavam de igual para igual, em uma rivalidade incrível. As duas chegavam perto de marcar, mas o jogo continuava com o placar de três a dois. 

— Kai! — ouvi Rubens chamando.

Kai pestanejou e se levantou. Mais espantado que ele, só os outros reservas, que trocavam olhares pasmos entre si. Ele caminhou desajeitado até a beira do campo, onde Rubens estava.

— Sim, treinador?

— Quero você na defesa, e não deixe o Yago marcar!

Kai ainda estava incrédulo. Suas pernas tremiam, enquanto Rubens fazia a substituição. 

Assim que ele entrou, caminhei até ele e falei, tranquilizando-o:

— Não fique apavorado, apenas dê o melhor pelo time.

Essas palavras fizeram o garoto refletir e assentir.

— Pode deixar — disse ele.

O jogo recomeçou. Eram muitos os lances — e Kai não participava de nenhum. Ele parecia com medo da bola, ou pelo menos das opiniões dos outros. Quando recebia, rapidamente se livrava dela e "se escondia". Minha equipe começou a ficar desesperada diante do tempo, pois faltavam apenas alguns minutos para o fim da partida. E foi graças a essa preocupação que Yago corria livre em direção ao nosso gol, após passar pelos dois zagueiros.

— Yago está livre!... — bradou o locutor, diante do momento de tensão. — Essa é a hora do quarto gol?!!

— Eu não vou deixar que marque! — falei a mim mesmo, e corri para a defesa com grande velocidade. O problema era que Yago era ainda mais veloz. Ele chegava perto da área feito um foguete, deixando Lucas indeciso: ele não sabia se saía do gol ou se permanecia. Até que fui surpreendido.

— Não posso deixar o meu time perder!! — Kai gritou com bravura, deslizando em um carrinho tão eficiente que sequer tocou no camisa 10! O lance despertou olhares surpresos e admirados de todos os que eu pude ver, afinal, ninguém tinha confiança no garoto.

— Boa! — gritei ansioso. Naquele momento não poderia sentir alegria maior. Alegria misturada com orgulho.

— Vou defender o time, custe o que custar! — garantiu Kai. Ele parecia, pela primeira vez, motivado.

Tocou para o Thiago na esquerda, que entregou a bola para o Pedro quase no círculo central. Pedro correu com a bola e tocou para Otávio; Otávio tabelou com o Riku para ficar quase livre. Quando apareceu um zagueiro à sua frente, ele tocou a bola para mim.

Senti o peito se agitar.

Faltava pouquíssimo tempo para o jogo acabar, e eu sabia que aquele lance poderia ser o último.

— Não vou desperdiçar.

Corri em direção ao gol com ansiedade, prestes a chegar na grande área. Passei por um defensor e depois apareceram dois à minha frente que não me atrapalhariam de forma alguma. Fiz o que arquitetei na mente: dei um chapéu de carretilha nos dois e fiquei de cara com o goleiro.

— Lindo drible!!!! — berrou o locutor. — Agora Diogo fica cara a cara com Giuliano!!

Sem deixar a bola cair, dei um chapéu no goleiro e depois empurrei a bola para o gol, de cabeça. Meu coração acelerou de imediato...

— GOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!

Sem dúvida alguma, aquele foi um dos momentos mais emocionantes que eu já tive em toda a minha vida. Senti muita gente pulando em cima de mim me esmagando sem qualquer preocupação. Lembra da minha coluna, que eu falei que talvez não suportaria mais um pulo daqueles? Então, eu estava enganado. A única coisa que eu conseguia ouvir era o som da torcida, que parecia estar torcendo por nós.

— Boa, Dio!

— Gol de craque!

— Empatamos!!

— DIOGO EMPATA NO ÚLTIMO MINUTO, DANDO A CLASSIFICAÇÃO PARA A SUA EQUIPE!!!!! — O narrador também se mostrava emocionado, e só consegui me levantar quando todos saíram de cima de mim.

A primeira pessoa para quem olhei foi a Sophia. Ela sorria na arquibancada. Depois olhei para Rubens Almeida, que também sorria, mesmo que de forma cautelosa.

Fiz um sinal de positivo para ele, e ele fez o mesmo. Todos os jogadores estavam sorridentes me olhando como se eu fosse o salvador da pátria. Mas apontei para o Kai.

— Você é o cara — falei, deixando-o corado.

— Monstro, Kai! — disse Samuel.

— Zagueiro de seleção! — brincou Thiago.

Kai abriu um sorriso tímido.

O juiz apitou: fim de jogo.

Eu estava tão feliz que nem percebi que Yago também sorria.

Ele chegou até mim e estendeu a mão:

— Parabéns, você é a sua equipe.

Não entendi muito bem a frase, mas apertei sua mão, sorrindo.

— Nos vemos nas finais — afirmei.

Depois disso, comemorei junto do meu time a classificação para as quartas de finais, para a qual iríamos, com toda a certeza, mais empolgados do que nunca.

Por fim, mais uma vez o poder da superação tomou conta da minha equipe, e percebi que podíamos sim ser campeões do campeonato, mesmo diante de jogadores mais velhos e mais experientes.

 

***

Na praça da escola…

— Diogo.

Eu me virei e me deparei com Sophia. Fiquei surpreso por encontrá-la, uma vez que todos os alunos do colégio já haviam ido embora, a não ser os jogadores de ambos os times devido à ducha pós-partida.

Ela estava linda.

— Oi, Sophia — sorri meio sem jeito. — Como você está?

— Eu estou bem. Espero não estar te incomodando, eu só queria… te parabenizar. Você jogou muito bem. Parabéns!

— Obrigado, mas acho que todo mundo jogou. Não sei se devo ficar com os créditos.

Sophia sorriu. Era um sorriso tão lindo, capaz de derreter meu coração. Eu me sentia tão bem perto dela.

Lembrei de inúmeros momentos que passamos juntos, desde meu pedido de namoro até a queda que sofri certa vez na frente da sala inteira. Eu a protegendo do punho do valentão e Sophia me orientando no meu primeiro dia de aula.

No momento em que percebemos que nossos olhos estavam fixos uns nos outros, desviamos o olhar. A Mercedes preta buzinou. Sophia disse:

— Preciso ir. Até semana que vem. Se cuida, tá?

E antes que eu pudesse reagir, ela me deu um abraço e um beijo no rosto, fazendo meu corpo aquecer de tão enrubescido que ficou.

Eu queria pedir mais um abraço e mais um beijo no rosto. Não tive coragem. O que me restou foi ficar observando Sophia entrar no carro e ir embora pela avenida. Pelo menos ela voltara a falar comigo.



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