Caçador Herdeiro Brasileira

Autor(a): WesleyArruda

Revisão: Ângela Marta Emídio


Livro 1

Capítulo 34: Conhecendo Venandi: o museu e suas histórias

Bom, o fato de ser filho do fundador da organização Ko-Ketsu era uma honra ao mesmo tempo em que era um desconforto. Isso porque não podíamos passar por canto algum sem sermos notados. Pode até parecer  legal, pelo fato de sermos respeitados etc, no entanto, tudo com exagero fica chato. Eu realmente não estava curtindo muito o meu momento de fama em Firen, devido ao fato de Tony Kido ser o fundador e líder da organização de caçadores de vampiros.

Aquilo me fez refletir sobre outra coisa.

Se meu pai, que era o fundador da organização, era assim tão famoso e admirado, como deveria ser com o Caçador Lendário? E como deveria ser com o filho do Caçador Lendário? Imaginei que isso resultaria em fama ao nível Hollywood. Então isso quer dizer que eles (Caçador Lendário e filho) seriam famosos entre caçadores e vampiros, certo? Portanto, minha grande dúvida era: como o Cláudio conseguira se infiltrar no meio dos vampiros sendo que era o filho do Caçador Lendário?

Eu estava confuso. Nunca imaginei que o "valentão" seria simplesmente filho do 'rei do mundo", como meu pai mencionara. Presumi que ele devia ter passado por momentos desconfortáveis com tanto, hã, assédio. Porque eu considerava aquilo um assédio, já que meu pai era praticamente obrigado a sorrir para todas aquelas pessoas que o respeitavam.

Deveria ser horrível.

Tony explicou, tirando-me daquele devaneio:

— Esta coroa é dada ao Caçador Lendário quando ele assume o poder. Hernandez ainda não tinha seu poder total, mas já era apto a assumir o seu cargo. Comandou o mundo por alguns anos, até… ser morto. Ninguém sabe quem o matou, muito menos como. Eu apenas o encontrei desacordado, sem ferimento algum. Foi a pior dor que eu senti em toda a minha vida. Um dos meus melhores amigos... morto.

Meu pai cerrou os punhos, trincando os dentes enquanto tremia. Parecia se sentir culpado.

— E isso foi a quanto tempo? — perguntei.

— Mais ou menos dezesseis anos. Ele havia acabado de se casar, e sua esposa estava grávida. Hernandez pediu para eu cuidar dela e de seu filho que estava por vir, mas eu não pude.

Nem precisei pedir para Tony explicar o porquê de não ter conseguido.

— O Palácio da Terra não era dos mais fortes, ainda mais com a morte de Hernandez. Nem uma semana se passou desde a sua morte quando vários clãs do mal o invadiram, destruindo a todos. Não sobrou ninguém, apenas cadáveres.

A informação mexeu muito comigo. Imaginei um clã enorme sendo aniquilado a ponto de não sobrar um membro sequer. Uma família inteira destruída por clãs que deveriam estar caçando vampiros.

— Porém — continuou meu pai —, o único corpo que não fora encontrado era exatamente o da esposa de Hernandez. Ela estava desaparecida, e não sabíamos por onde procurar. Foi aí que concluí que ela estava na Terra. Levantei uma hipótese de que ela fugira de Venandi até dar a luz, para então deixar o filho em algum orfanato do Brasil, já que é para lá que os portais mais próximos do Palácio da Terra levam. Claro que isso seria difícil de acontecer, mas era a única coisa que tínhamos em mente. 

— Daí você deixou alguns membros da organização observando as crianças de todos os orfanatos do país — adivinhei, lembrando da vez em que meu pai revelara quem era Cláudio.

— Isso. Levou anos e anos, até que enfim o achamos. Era, de fato, o Cláudio, como nos foi apresentado. Logo percebi que o sobrenome dele era o mesmo que o do pai, então descobri que sua mãe, além de tê-lo deixado no orfanato, disse seu sobrenome a algum funcionário de lá.

— E vocês nunca acharam essa mulher? — indaguei.

— Achamos, sim. Na mesma época. Mas ela mudara muito. Tinha enlouquecido. Nós a colocamos numa clínica psiquiátrica, mas... — sua voz tornou a falhar.

A essa altura, o corredor estava vazio. Os únicos que permaneciam no museu era Tony e eu. Meu pai contava a história do Cláudio, visivelmente emocionado, e quando recuperou o ar, continuou:

— Acharam ela e a mataram com todos os funcionários da clínica. Não foram os vampiros, isso eu tenho certeza.

— Mas por que a matariam? — semicerrei os olhos, furioso por dentro. Pessoas matando pessoas era algo que eu odiava. O mundo era injusto, e isso tinha que mudar. Mudar muito.

— Receio que tinham medo de ela ter um filho muito poderoso. Mais um, aliás. Sabiam do Cláudio, mas não onde ele estava. Tinham medo de que ele virasse o herdeiro de seu pai.

— Mas pai, ela não tinha o poder da terra, tinha? Pois, pelo visto, Hernandez era do clã Rodriguez. Não teria sentido quererem matá-la por causa disso.

— Acontece que ela, mesmo antes de se casar com Hernandez, já fazia parte do clã Rodríguez. Eles eram primos.

— Que sacanagem! — falei. — Matarem pessoas inocentes apenas para evitar a paz no mundo.

— Assim que encontramos o Cláudio — continuou meu pai —, o treinamos duro para que ele pudesse se proteger. Eu o treinei, por isso nos aproximamos muito. Jurei a mim mesmo que o manteria vivo, como havia prometido ao Hernandez também. Depois decidi colocá-lo para treinar com os Caçadores de Elite, para ele conseguir se ocultar dos vampiros.

— Assim os inimigos não saberiam que ele era um caçador — concluí.

— Sim. Quando o vi, fiquei impressionado com suas habilidades de luta. Ele montou seu próprio trio, mas seus dois parceiros foram mortos por vampiros. Ele se sentiu muito culpado na época, quis desistir de tudo, alegando que sempre perdia as pessoas que amava. A única saída que encontrei foi convidá-lo a participar de missões solo, mas daí ele não poderia caçar devido às regras do Conselho. Foi assim que ele começou a investigar o cientista desaparecido.

— É, você falou. O Rodrigo. Uma responsabilidade e tanto.

— Cláudio era mais habilidoso que muitos agentes experientes que tenho hoje. Eu podia confiar nele de olhos vendados. Foi uma pena ele ter morrido daquela forma…

Se eu fiquei péssimo ouvindo aquela história, nem queria imaginar os sentimentos do meu pai. Ele presenciou tudo, do começo ao fim. Desde a morte de seu melhor amigo, Hernandez, até a morte de sua esposa e seu filho. Era algo difícil de se lembrar.

Decidi mudar de assunto.

— Qual é o próximo objeto?

Fomos ao sexto. Não sei se eu estava enxergando bem, mas aquilo era... uma pedra?

— De que lugar é essa pedra? — perguntei, já imaginando que ele diria que era de alguma montanha mágica ou algo do tipo.

— Da Lua de Venandi.

Ri sem saber o motivo. Talvez porque me surpreendia a cada descoberta. Venandi era um mundo recheado de curiosidades.

Olhei para a pedra com mais curiosidade. 

— Filho, há muitas coisas que você vai descobrir ainda — disse meu pai, sorrindo.

— Acho que percebi.

Tony me mostrou mais alguns objetos, até que finalmente chegamos ao fim do corredor. Quando saímos no pátio principal repleto de caçadores uniformizados, notei que o corredor tinha o formato de um C. Em seguida, meu pai me levou à porta que eu vira os agentes saindo apressados momentos atrás.

— Essa é a saída de emergência — disse Tony.

Estávamos em uma sala muito pequena, com apenas um buraco na parede. Meu pai entrou nele e desapareceu.

Fiz o mesmo.

Era uma espécie de tobogã, longo e curvado. Era até divertido escorregar ali, mas eu tinha medo de onde sairia. Depois de alguns segundos deslizando em repleta escuridão, enfim caí em cima de um colchão, que logo notei ser do mesmo material que era feito o colchão cinza de treinamento que o tio Michael me trouxera dias atrás; me sentei.

Tony Kido já estava em pé, imponente visto de costas, uma imagem reconfortante. Ele me olhou com um sorriso e disse:

— Agora eu vou lhe mostrar o meu lugar favorito dessa cidade inteira.

 

***

Avançamos sentido sul de Firen pelas ruas estreitas até chegarmos em uma zona onde não havia tantas casas como no resto da cidade. Uma típica zona rural, formada por hortas, árvores frutíferas e trabalhadores de campo. Eu via pastos verdejantes e, apesar de não gostar de lugares muito calmos, senti vontade de morar ali. As belas árvores tomavam conta da região, com folhas que balançavam com o vento, assim como os gramados que cercavam as poucas casas que havia ali. Não havia mais ruas de paralelepípedo, apenas de terra batida, e eram largas. Vi um lago amplo onde pessoas se banhavam, se divertindo com grandes sorrisos. Fiquei feliz só de ver aquilo.

Continuamos caminhando até chegarmos nos limites da cidade. Havia morros e colinas, mas uma montanha era o grande destaque. Era a única por perto, constituída de rochas gigantescas e cinzentas. Nela havia uma enorme escada embutida, com um torii¹ de pedra vermelho à frente; e foi em direção a ele que andamos.

— Teremos que subir isso aí? — perguntei ao meu pai, olhando para os degraus adiante.

— Lógico — respondeu ele, desafiador; resmunguei, enquanto subíamos.

A escada era enorme e, quando olhei para baixo, senti calafrios. Talvez para evitar acidentes fatais, havia alguns intervalos a cada dezenas de degraus. Subimos mais, mais e mais, até chegarmos no "final" dela. Estávamos num intervalo maior entre escadas. Havia mais degraus para subir, mas também havia dois caminhos de terra que levavam ao fundo da montanha.

— O da direita leva ao país do Palácio do Vento — disse meu pai. — O da esquerda também. — Ele riu, mas eu não vi graça.

— Qual seguiremos? — indaguei, ironizando.

— Nenhum. Vamos subir mais um pouco.

Subimos vários degraus, até chegarmos ao topo da montanha.

— Veja como é linda a vista daqui de cima.

Olhei para a enorme cidade lá embaixo, boquiaberto Dali de cima podia-se ver qualquer ponto, inclusive seus limites, onde havia árvores e grandes morros. Dali eu pude ver o BFM e a organização Ko-Ketsu. Mas percebi também que eu não conhecera nem metade da cidade, apenas um pedaço da zona leste e sudeste.

Dando meia-volta, vi muros altos de tijolos claros cercando algo que parecia um templo grego, com colunas de mármore. A entrada possuía outro torii, do mesmo formato e cor daquele na base da escada. Admito que tive curiosidade de entrar no templo, havia algo que me chamava para lá. Achei estranha a sensação.

— Esse é o templo que sedia o Conselho e abriga um clã de apoio, além de treinar Sacerdotes Divinos e Caçadores de Elite — disse meu pai, percebendo a minha expressão de análise; algumas dúvidas surgiram na minha cabeça. — Mas não viemos para isso, eu só queria te mostrar essa linda paisagem. A cidade de Firen.

Novamente eu me virei para a paisagem. Eu nunca tinha visto nada igual. O sol ainda estava no céu, brilhando forte, dando a perceber que ainda era umas três da tarde. Havia poucas nuvens e um céu totalmente azul que se destacava muito perante o verde dos morros do fim do horizonte. Tudo misturado à bela cidade, que não tinha poluição nem nada do tipo, apenas a tranquilidade e a animação das pessoas lá embaixo, que pareciam formigas em meio às casas do estilo Japão Feudal, tudo muito lindo.

— O único problema é que, para vê-la, precisamos subir essas escadas todas — brinquei.

— Mas vale a pena.

Depois de apreciarmos mais um pouco a vista, descemos as escadas e caminhamos até o beco de onde saímos, passando pelas pessoas carismáticas e pacíficas. Voltamos à Terra pelo portal e saímos da caverna do subsolo da cachoeira. Quando chegamos em casa, minha mãe perguntou, em uma "bronca simpática":

— Onde estavam?

— Em Firen — respondeu meu pai com um sorriso. — Achei que fosse o momento de Diogo conhecer.

— Curti muito — falei.

— Só podiam ter me avisando, não acham? — advertiu Sara. Ela era assustadora quando estava brava. Então sorriu. — Eu estava morrendo de saudades, meu amor.

— Pai! Mãe! — reclamei quando os dois deram um beijão na minha frente. Eles nem se importaram comigo. Revirei os olhos.

Tio Michael surgiu com Billy e cumprimentou meu pai. Já ia dar cinco da tarde, por isso desisti de ir ao parque naquele dia. Passei o resto do dia com a minha família, me divertindo muito com as histórias que meu pai e meu tio contavam.

Por fim, eu estava satisfeito por ter conhecido um pouco sobre Venandi, embora soubesse que muitas surpresas ainda estavam por vir. Surpresas que me davam um gostinho de quero mais. Mais aventuras, mais descobertas, mais emoções.

Mais adrenalina.

 

 ¹ Portão tradicional japonês, ligado à tradição xintoísta. Assinala a entrada ou proximidade de um santuário. É uma estrutura constituída por dois pilares verticais, unidos no topo por uma trave horizontal (kasagi), geralmente mais larga que a distância entre os postes. Sob a kasagi há outra trave horizontal (nuki), que une os dois pilares. O material utilizado na estrutura, geralmente, é pedra ou madeira, mas com a modernidade, há outros tipos também.



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