Caçador Herdeiro Brasileira

Autor(a): WesleyArruda

Revisão: Ângela Marta Emídio


Livro 1

Capítulo 26: Um encontro um tanto desagradável

Enquanto voltava da escola, eu tentava imaginar qual seria o quarto passo do meu treinamento com o tio Michael. 

No primeiro, fui obrigado a ficar de pé na parte rasa de um rio. Aparentemente era fácil. Só na teoria mesmo. Além de ter sido difícil, quase morri afogado. Quase — graças a uma alma de anjo no meio da água eu consegui forças para me salvar.

O segundo passo era conseguir sair da floresta intacto. Opa, esqueci de mencionar que eu estava sendo perseguido por um cachorro gigante! Consegui completar o segundo passo e até ganhei uma recompensa: o cachorro gigante. Que na verdade era pequenino. Estava gigante porque ele não era um cachorro comum, e sim um cachorro que podia crescer, assumindo uma forma robusta que o meu tio chamava de “Modo Ataque”.

Em seguida tive que sair debaixo do Billy na sua forma grande. Ele era pesado feito uma montanha, então você já viu, né? Conforme meu tio,  a única maneira de eu me safar era ativando o meu modo de alerta (ou algo do tipo). Então eu acabei conseguindo. Depois tive uma luta com o meu tio, que se transformou em um tigre lutador, literalmente, o que se tornou o terceiro passo. Rápido e forte, ele estava mesmo irreconhecível e “invencível”, mas com uma ajudinha básica do Billy, acabei conseguindo vencê-lo — façanha esta que eu duvidava que tornaria a conseguir .

Isso tudo aconteceu em uma semana. Claro que houve mais coisas. Tinha também o meu lance com a Sophia. Na segunda-feira tentei me explicar com ela sobre minha ausência no nosso encontro e a única coisa que recebi foi desprezo. Decidi então me declarar, e fiz isso na terça. Até a pedi em namoro, e sem dar a resposta, Sophia começou a me evitar.

Como se não bastasse, não compareceu à aula nos últimos três dias, o que começava a preocupar. Eu me perguntava se seria possível alguém parar de ir à escola por causa de um pedido de namoro.

Definitivamente, eu estava desanimado com esse assunto. Não estava sendo fácil.

Quando cheguei em casa, Billy estava parado diante do portão da garagem, como se estivesse me esperando há muito tempo. Eu tentei passar, mas ele rosnou.

— O que foi, amigão? — perguntei, olhando confuso para ele.

Billy latiu, depois correu em direção ao parque. A princípio eu hesitei, mas presumi que havia algo a mais ali e decidi segui-lo. Apesar de pequeno, o cãozinho era rápido, chegando a ser cômico os movimentos de suas patas vermelhas. E então me surpreendi.

Sentada no mesmo banco de sempre, Zoe chorava discretamente. Billy olhou para mim, fazendo-me perceber o que ele queria. Vendo a garota triste daquele jeito, eu me senti péssimo, inúmeras coisas passaram pela minha cabeça. Algo me dizia que tinha a ver com a não-reciprocidade dos nossos sentimentos. Eu me aproximei e ela me notou. Os olhos esverdeados da garota se arregalaram imediatamente, mas ela nada disse, apenas desviou o olhar, embora fosse tarde. Ela sabia que eu já havia visto suas lágrimas. Perguntei:

— Você... está bem?

Eu sei que foi uma pergunta estúpida, mas poxa, eu não sabia o que dizer.

— Eu pensei que você estava no jogo — foi a sua resposta, carregando uma voz trêmula.

— O jogo aconteceu na última aula — expliquei. — Posso me sentar?

Ela fez que sim, ainda sem me olhar, e eu me sentei, tirando a mochila das costas e a colocando ao meu lado, onde Billy se deitou. Devido ao horário, o parque ainda estava vazio, tanto na região dos brinquedos quanto na quadra de futebol. E antes que o silêncio predominasse — como sempre acontecia —, eu disse:

— Zoe, eu não gosto de ver você assim. Tente se alegrar, acho que você é muito mais, hã, linda... sorrindo.

— É difícil — disse ela. — Com tudo o que já aconteceu na minha vida, é complicado continuar “empurrando as coisas com a barriga”. Ainda mais... quando você pensa que encontrou alguém e esse alguém... — Ela não concluiu, suas palavras se perdendo ao vento.

Mais do que nunca eu tive certeza de que a culpa era minha, apesar de não ter feito nada. Como não sabia o que dizer, decidi ficar calado. Por alguns minutos que foram atormentadores. Ela já não chorava mais — talvez por vergonha devido à minha presença, ou porque já havia chorado muito —, a única coisa que eu queria fazer era abraçá-la. A coragem, contudo, não aparecia de forma alguma.

Engraçado como coisas de pequena importância tornam-se tão interessantes em momentos de tensão. Algumas formigas no chão foram alvos dos meus olhos. A forma como trabalhavam juntas, umas ajudando as outras a carregarem pequenos pedaços de folhas — que, para elas, eram enormes pedaços —, demonstrava o quão importante era o trabalho em equipe.

Eu decidi levantar a questão:

— Por que é tão difícil controlar os nossos sentimentos?

Zoe pensou um pouco e respondeu:

— Talvez porque seria muito chata a vida se pudéssemos.

— Chata — repeti, sem saber ao certo de que forma aquilo poderia ser positivo. — Graças a isso nós sofremos muito.

— Sofremos?

Ela me olhou pela primeira vez, deixando-me sem jeito, pois não imaginava que a Zoe perceberia o sentido duplo das minhas palavras; seus olhos estavam avermelhados de choro.

— Em geral — tentei corrigir, sem a mínima vontade de admitir que também estava sofrendo. Eu sofria pela distância que a Sophia colocara entre mim e ela nos últimos dias; eu sofria pelo fato de a Zoe ser uma pessoa maravilhosa e estar sofrendo por causa de um idiota como eu.

— Isso faz parte da vida — disse ela com os olhos perdidos na quadra vazia. — Nem tudo é alegria. E o que é tristeza, logo passa. — A frase soou como se Zoe quisesse dizer a si mesma, e que já tentara outras milhares de vezes antes. Eu decidi que não esconderia nada dela — nada referente aos meus sentimentos, claro. Não seria justo.

— Olha, Zoe, é meio estranho, sabe, mas eu... não sei como dizer isso, mas acho que sinto alguma coisa por você.

Imediatamente, ela cravou seus olhos esmeralda em mim. 

— E a Sophia?

— Também — eu disse sem jeito. Começava a me arrepender. Deveria ter esperado mais algum tempo, pelo menos até ter certeza sobre o que sentia .

— Gostando de duas garotas… — Ela cuspiu as últimas palavras. — Isso não é normal.

Não respondi. Nada na minha vida estava sendo normal ultimamente. Por mais estranho que parecesse, a vida pessoal começava a ser mais preocupante que a “profissional”.

Zoe suspirou e disse:

— Diogo, você tem uma vida inteira pela frente, tem muito o que viver ainda.

— É, eu sei. Digo o mesmo a você.

— O que eu quero dizer é que nós somos novos, ainda. Esse tipo de sentimento pode até ser passageiro.

— Passageiro — repeti.

— É sério, pode até durar algum tempo, mas pode passar... Eu não quero que você se preocupe comigo.

— Como não?! — eu disse muito rápido. Tão rápido que acabou soando meio arrogante. Zoe mostrou-se levemente surpresa com o tom, logo tentei dizer, controlando a voz e soando mais suave: — Zoe, você estava chorando, e eu não admito isso. Não gosto de ver você assim!

Seu olhar de surpresa mudou para algo que parecia admiração. Mesmo avermelhados de choro, seus olhos verdes eram lindos, deslumbrantes. Estavam inquietos e brilhantes. Um charme que somente a Zoe possuía, causando-me uma tentação que eu nunca sentira antes. Isso fez com que eu permanecesse olhando-a, notando cada traço de seu rosto, admirando sua beleza natural que era tão marcante quanto sua personalidade. Nem mesmo percebi que nos aproximávamos. Quando me dei conta, já estávamos nos beijando.

Eu não pensava em nada enquanto sentia os seus lábios, apenas aproveitava o momento. Meu coração acelerava conforme eu sentia o aroma natural de sua pele, o cheiro de morango pairando sobre o meu nariz, a sua respiração nas minhas narinas. Uma respiração ofegante. Seus batimentos cardíacos pareciam sincronizados com os meus. Eu senti um arrepio diferente — arrepio este que era familiar e significava que havia alguém por perto, muito perto, então eu abri os olhos por instinto.

E não acreditei.

Feito um poste e com uma expressão pasma, Sophia mantinha-se a dois metros do banco onde estávamos, com os olhos fixos na nossa direção. Zoe percebeu que algo chamara minha atenção e parou de me beijar. Percebendo que eu estava olhando para alguém, recuou e se virou — e seus olhos encontraram a garota que eu não queria acreditar que estava ali.

Minha voz pareceu se perder a caminho da boca. Afinal, eu não sabia o que dizer. Só pude observar enquanto Sophia dava meia volta e saía correndo.

— Sophia! — chamei, ficando de pé num impulso. Quase corri atrás dela, mas como eu me explicaria?

Olhei para a Zoe, ainda sentada no banco. Ela observava Sophia correndo. Quando voltou seus olhos para mim, percebi que estavam cheios de lágrimas, que não demoraram a deslizar pelo seu rosto.

Ela se levantou.

— Zoe… — tentei falar, abalado. Ela também saiu correndo, em direção oposta à outra, sem olhar para trás.

Não tive coragem de chamá-la.

Não tive coragem de abrir a boca.

Eu só consegui me sentir um estúpido.

O que me restou foi ficar parado onde estava, sem acreditar no que havia acabado de acontecer, meu coração acelerado como nunca... 

Billy latiu.

Éramos os únicos que estavam no parque naquele momento. 

Ri à toa.

— Que situação, hein amigão? — foi a única coisa que consegui dizer diante da frustração.

— Au! — latiu o cachorrinho.

Eu me sentei e tentei procurar por alguma explicação naquilo tudo. Não conseguia entender por que, depois de me evitar tanto, Sophia decidira aparecer justamente em um momento como aquele, e não fazia ideia de como ela conseguira me encontrar.

Os pensamentos invadiram a minha cabeça e permaneceram por vários minutos. Pessoas atravessavam o parque passando à minha frente, no entanto, a única coisa em que eu conseguia pensar era em como me metera naquela situação. Não sabia nem de quem estava gostando de verdade. Sophia tinha personalidade forte, apesar de ser meio patricinha. A Zoe já era mais meiga e carinhosa. Tanto na personalidade quanto na aparência, havia uma enorme distinção entre as duas — e mesmo assim eu me sentia confuso.

E as duas estavam magoadas comigo.

Decidi que precisava ir para casa. Já eram quase duas da tarde e eu precisava descansar a mente para poder pensar numa forma de me resolver com as duas da melhor maneira possível. Enfrentar vampiros, talvez, fosse milhares de vezes mais fácil que lidar com garotas.

— Como foi o jogo, filho? — perguntou minha mãe, quando passei pela sala. Juntamente com Michael e Bruna, ela estava sentada no sofá assistindo a algum programa que sequer tive o interesse de reparar.

— Empatamos — respondi sem ânimo na voz, subindo a escada quase me arrastando. Se ela percebeu ou não a minha falta de emoção, eu não parei para me certificar. Segui para o meu quarto e me joguei na cama. Com muito esforço, consegui tirar uma soneca.

Sonhei que estava acordado, mas quando acordei eu estava dormindo. Acho que isso reflete a confusão que estava na minha mente.

Acordei quase cinco da tarde. Faminto, desci para comer alguma coisa.

Já na cozinha, coloquei comida no meu prato e sentei-me à mesa para "almoçar". Tio Michael apareceu.

— Não te acordei para treinar hoje porque vi que você estava mal — disse ele, sentando-se ao meu lado, me fitando com olhos que, no dia anterior, haviam tomado uma cor esverdeada e selvagem. — O que há com você?

Eu estava sem ânimo para contar o ocorrido, mas o meu tio me ajudara tanto naquela semana que decidi falar logo, sem pausas. Contei sobre a forma que conheci a Sophia, no primeiro dia de aula, e em como fiquei encantado por ela. Depois eu contei sobre a Zoe. Expliquei que aos poucos começava a sentir algo especial pelas duas, e que quando havia marcado um encontro com a Sophia, a Zoe se declarou para mim. Não pude ir ao encontro e isso não agradou nadinha à Sophia, portanto tentei de todo jeito pedir desculpas. Eu a pedi em namoro e ela começou a me evitar. Encontrei a Zoe no parque e, comovido por vê-la chorando, conversamos um pouco, então rolou o clima...

— A gente acabou se beijando — continuei, observado pelos olhos incrédulos do Michael —, e a Sophia apareceu nesse momento. — Os olhos do meu tio não estavam mais só incrédulos, como também arregalados.

— Nossa — disse ele. Fez-se um silêncio entre nós dois até ele conseguir criar coragem e perguntar: — E aí, o que aconteceu depois?

— Bom, elas correram cada uma para um lado. Acho que ficaram... chateadas.

Ou melhor, eu tinha certeza. Era mais do que óbvio. Até eu ficaria se estivesse no lugar de uma delas. Agi como um grande idiota.

Michael ia dizendo alguma coisa quando o meu instinto de caçador me avisou que estávamos sendo vigiados. Ele também percebeu isso, já que olhamos ao mesmo tempo para a porta da cozinha que levava à sala. Minha mãe estava escondida, encostada na parede, ouvindo a nossa conversa!

— Mãe! — exclamei.

Ela apareceu, sem jeito, com um sorriso de desculpa, ruborizada feito um pimentão. Não mais do que eu, devo dizer.

— Sara e suas manias. — Michael riu de lado, embora não houvesse graça naquilo.

Eu voltei a comer a minha comida, nervoso e um tanto embaraçado. Minha mãe se aproximou e disse:

— Que situação, filho. — Eu preferi não responder. Não era o tipo de assunto que eu me sentia confortável para falar com ela.

Tio Michael se levantou e a chamou para a sala, deixando-me sozinho na cozinha envolto em pensamentos. Eu terminei e subi ao meu quarto, ligando a televisão e assistindo a qualquer desenho animado que passava, pelo menos para distrair a mente. O que certamente não adiantou. O céu escureceu, eu tomei um banho e depois retornei para a cama. O que me restou foi cair no sono.



Comentários