Caçador Herdeiro Brasileira

Autor(a): WesleyArruda

Revisão: Ângela Marta Emídio


Livro 1

Capítulo 12: Rubens Almeida, o nosso novo treinador

Até que enfim teremos o nosso primeiro treino hoje — falei a mim mesmo assim que acordei, sentindo uma ansiedade imensa.

Mais de uma semana após as inscrições, finalmente conheceríamos nosso professor de Educação Física, aquele que treinaria o time de futebol e seria o técnico da nossa equipe no torneio intersalas do colégio Martins. O que significava que, após uma série de aulas vagas nas quintas e sexta-feiras, enfim treinaríamos no campo que ficava no fundo dos terrenos da escola.

A propósito, minha última semana havia sido tranquila. Riku não queria mais matar Pedro e não houve nenhuma presença de vampiro nem na escola nem na floresta atrás da minha casa. Embora eu ainda não conhecesse, Natsuno alegou que o novo diretor era um humano comum e que os vampiros provavelmente não apareceriam tão cedo, o que indicava que era nós quem deveríamos ir atrás deles.

Sophia? Esse já era um assunto mais complicado. Não havíamos mais tocado no assunto do encontro, mas, como já havíamos entrado em março, decidi que precisava tomar alguma atitude, ou o passeio ao shopping cairia no mar do esquecimento.

Levantei e fiz a minha rotina. Já na mesa:

— Mãe, talvez eu chegue um pouco mais tarde hoje.

— Por quê?

— Estou no time de futebol da minha sala, e hoje nós vamos treinar para o campeonato.

— Hum, entendi. — Ela me serviu e se sentou. — E a Zoe, Dio?

Zoe.

Desde nossa última conversa que eu não a via. Inúmeras vezes visitei o parque do meu bairro no intuito de encontrá-la, mas a Zoe nunca estava lá. Cheguei até a sonhar com ela algumas vezes de tanta saudade que estava sentindo!

— É… hã, a Zoe? O q-quê que tem a Zoe?

Ocorreu-me que eu nunca havia falado da Zoe para a minha mãe antes.

— Você dorme falando o nome dessa menina. Por acaso, é aquela garota que estava conversando com você no outro dia no parque?

Sara olhava para mim com sarcasmo, o que me deixava constrangido.

— É ela mesmo — respondi. — Mas se você está pensando alguma coisa a mais, eu logo aviso: nós somos apenas amigos.

— Não falei nada…

Ela sempre se fazia de inocente.

Comecei a tomar meu café.

— Seu pai e eu começamos sendo amigos — comentou.

— Mãe!

— Ah, desculpa, eu só estava avisando.

— Não precisa, eu já tenho quinze anos.  — Já começava a ficar zangado.

— Diogo — disse Sara, agora com um tom mais sério —, eu encontrei essa Zoe e a mãe no outro dia, na padaria. Ela me pareceu uma ótima menina, então não tem problema vocês namorarem. Pelo contrário, acho que ela é ideal pra você, pois ela é inteligente, tem juízo e… vamos combinar?… ela é muito bonita.

— É, muito bonita — tive que concordar, pensando no lindo sorriso que a garota abria toda vez que estávamos juntos. Então percebi que estava nas nuvens e voltei à realidade, onde minha mãe me olhava com malícia.

— Eu sabia! — disse ela, sorrindo.

— Sabia o quê?

— Que vocês se gostam.

Eu arqueei uma sobrancelha. A Zoe era sim uma garota muito atraente, mas eu gostava mesmo da Sophia. Claro que eu não diria isso.

— Mãe, é bobagem sua. Ela é apenas uma grande amiga.

Com uma balançada de ombros, minha mãe apenas aceitou, o que significava que ela não tinha realmente aceitado. E o restante do café não dissemos mais nada.

 

***

Como já estava habituado, encontrei Natsuno, Pedro e Jhou na entrada do colégio Martins. Juntos da multidão de alunos uniformizados, entramos na escola – e tive que ser empurrado pelo Natsuno para poder cumprimentar a Sophia, que estava sentada no lugar de sempre, perto da porta.

— Oi.

— Oi, Diogo.

Sophia era linda, mas ao mesmo tempo em que eu me sentia feliz perto dela, eu pensava na Zoe. Não sabia por qual motivo exatamente, talvez por ter sonhado com ela, ou por estar sentindo tanta saudade. Afinal, a Zoe era a única pessoa por quem eu tinha uma importante — apesar de pequena — intimidade. Ela havia entendido perfeitamente o que eu estava sentindo.

— Diogo, algum problema? — Sophia me fitava com olhos penetrantes.

— Não…

— Que horas é o seu treino?

— Treino? Que treino?

— De futebol — respondeu ela, me olhando com certa ironia.

— Ah! O treino será durante as aulas de Educação Física mesmo — respondi. — E o seu?

— O meu começará às 12h30 todas as quintas e sextas.

— Legal, apesar de esquisito.

— O que é esquisito?

— O nosso professor de Educação Física será nosso treinador oficial — falei pensativo. — Vocês, que não fazem parte do time de futebol, terão aulas vagas nesta matéria o ano todo? Ou descerão para o campo com a gente?

Sophia riu.

— Que nada. Quando acontece esse tipo de coisa, professores substitutos assumem a matéria. Mesma coisa para as outras matérias, pois alguns outros professores serão técnicos de outras equipes, como a nossa professora de Inglês, que decidiu treinar nosso time de handebol. Ficou claro?

— É, acho que sim — falei coçando a cabeça, um pouco confuso. — E sobre nosso encontro…

— Pode ser sábado da semana que vem?

Meu coração acelerou. Tão perto!

— Ah, pode ser — respondi tentando soar meio indiferente, mas a verdade era que minha empolgação chegara ao clímax. — Qual o melhor horário pra você?

— Cinco da tarde. Pra mim é de boa, e pra você?

— Ótimo, horário perfeito. Te pego em frente à escola, então, ok?

— Ok.

Sophia sorriu e entramos na sala, onde fui recebido por um Natsuno piadista.

 

***

No intervalo, decidi perguntar ao Natsuno:

— Natsuno, você se lembra de quando você me falou daquele tal de Shin ?

— Lembro — respondeu ele, mordendo um sanduíche. — Por quê?

— Porque você falou que ele é um “traíra”… — Eu o encarei. — Por quê? Ele não caça vampiros?

— Caça. O problema é que ele faz parte de um clã do mal.

— Clã do mal?

Natsuno me fitou com uma sobrancelha levantada.

— Você não acha que existem apenas clãs do bem, né maninho?

— Bom, sim... — admiti desconfortável. — Quer dizer...

— Seu pai não te contou sobre os frascos cristalinos?

— Frascos cristalinos… Ah! São aqueles usados para armazenar os restos de um vampiro que virou areia?

— Esses mesmo.

Jhou nos olhava como se fôssemos loucos. Talvez porque não fosse normal haver vampiros que virassem areia. Ou melhor, não era normal haver vampiros.

— Dio — retomou Natsuno, mordendo seu sanduíche e falando de boca cheia —, sempre que um vampiro é exterminado, ele tem de ser posto num frasco cristalino, pois após o fim de um ciclo de cinco anos, eles são recolhidos e contados.

— Recolhidos — repeti, guardando aquilo na mente.

— E contados — inseriu Natsuno. — Então, a tribo que tiver o maior número de frascos nesse período é a campeã.

— Ou seja — disse Pedro num tom de quem entendeu —, é como se cada vampiro exterminado fosse um ponto.

— Exatamente.

— Mas não entendi a parte da tribo — falei.

— Foi um método usado pelos clãs na Guerra Mundial dos Clãs que aconteceu a mais de mil anos. Eles fizeram várias alianças entre si para se fortalecerem e se prepararem para a “pequena” carnificina que se iniciaria. Foi daí que surgiram as tribos.

— Então quer dizer que já houve guerras?

— Claro! — Natsuno engoliu o pedaço do pão. — Por exemplo: o clã Bancroft era o clã arquirrival do clã Aickman, devido a algumas disputas por território. Mas sabe o que aconteceu? A princesa de Bancroft e o Herói Herdeiro do clã Aickman se apaixonaram. Eles mantiveram um romance às escondidas e acabaram tendo um filho. Mas um ninja do clã Vinográdov,  apaixonado pela princesa, matou o herói do clã Aickman por puro ódio, provocando a fúria da princesa e do clã Aickman. Então, eles se juntaram para guerrear contra o clã Vinográdov, que sempre foi um clã muito forte. Dessa união acabou nascendo o clã Banckman, existente até hoje. Alguns membros moram na Inglaterra.

— Caramba! — Jhou mostrou-se impressionado. Eu também estava, porém muito confuso.

Herói Herdeiro, princesa, rivalidades…

— Natsuno,  existem quantas tribos? — perguntei, coçando a cabeça; Natsuno mostrou-se impaciente.

— É, Dio, eu tô vendo que terei que te explicar um monte de coisa.

— Então vamos lá — brinquei, sorrindo e curioso. — Pode começar.

— Ok — disse ele; bebeu todo o seu suco de laranja num gole e começou, falando feito o narrador de um livro: — Há centenas de clãs espalhados por um lugar chamado Venandi. Clãs que são divididos entre ‘menores’, ‘médios’ e ‘maiores’. Os menores são semelhantes às pessoas normais morando em cidades. Esses clãs se misturam facilmente e são considerados anônimos, como acontece com as pessoas da Terra.

Fiquei meio confuso nessa parte: "pessoas da Terra", mas decidi não interromper. Natsuno continuou, voltando à sua voz natural:

— Já os clãs médios vivem em vilarejos tradicionais, mas também moram em cidades. Porém, ficam em lugares que por aqui receberiam o nome de condomínios, por serem pessoas que não são tão pobres assim.

— Tá — falei.

— E os maiores são os que têm fortes fortalezas. Dentre eles se destacam os Cinco Elementais.

— Cinco Elementais?

— Sim. Cada um representa um elemento: a água, a terra, o fogo, o ar e o relâmpago. — Natsuno parecia orgulhoso de si, eu só não entendia o porquê. — Dentre esses Cinco Elementais temos o clã Rodríguez, Macedo, Medeiros, Kogori e, o mais conhecido e respeitado, o clã Kido.

— Então quer dizer que eu faço parte do clã mais conhecido que existe? — perguntei, meio surpreso.

— Você não sabia? Cara, você tá muito desinformado! Aposto que você não sabe nem que elemento o seu clã representa!

— Fogo? — chutei. Pois ocorreu-me que meu corpo se sentia mil vezes melhor no calor e a minha pele era resistente ao fogo, considerando algumas vezes que queimei a mão (entre aspas) no fogão. Isso sem mencionar a cor da minha espada, que tinha o cabo vermelho e a lâmina dourada.

— Isso mesmo. Eu faço parte do clã Kogori, que representa o relâmpago, e o Riku...

— Do clã do vento — palpitei. Concluí isso pela forma que ele se movia, tão leve que parecia que o garoto fazia parte da brisa que se estabelecia entre nós. Sem falar os seus olhos cinzentos e a sua espada prateada.

Natsuno confirmou com a cabeça.  

— Mas você sabe que o clã Medeiros é o maior rival do clã Kido?

Natsuno me encarava com um sorriso desafiador, como se tivesse a intenção de me surpreender — e conseguiu.

— Sério? Por quê?

— Cara, é uma longa história…

Essa eu não sabia — tampouco desconfiava. Perguntei-me se era por causa disso que o Riku me olhava daquele jeito o tempo todo. De uma forma ou de outra, era mais um motivo para aumentar nossa rivalidade, o que estranhamente me agradava.

Decidi fazer uma pergunta ao Pedro. Uma pergunta que incomodava muito a minha mente:

— Pedro, você já... matou alguém?

Natsuno e Jhou imediatamente me olharam, incrédulos com as minhas palavras, mas o garoto loiro apenas riu.

— Não sou um vampiro transformado por mordida — respondeu ele, calmo. — Meu pai sim, e se apaixonou pela minha mãe, uma humana. Como eu sou metade humano também, não necessito de sangue humano.

— Mas você já teve, hã, vontade de... beber alguma vez? — perguntou o grandalhão, hesitante. Notei a expressão do Pedro mudando para tristeza, nos fazendo presumir que a resposta era "sim".

— Como falei, eu não necessito, mas ainda assim, às vezes, sinto vontade de provar.

— Mas você nunca provou, certo? — Natsuno também parecia curioso.

— Nunca — confirmou Pedro, nos aliviando. — Provei apenas sangue de animais, mas das carnes que vendem em açougues.

“Que nojo” pensei. Entretanto, a informação me deixou mais seguro. Pedro nunca matou nem provou do sangue humano. Já estava de bom tamanho.

Finalmente bateu o sinal, e todos voltamos para a sala.

 

***

Na última aula, os garotos do time de futebol desceram em conjunto para o ginásio, que ficava perto da área de atividades da escola, ao nordeste do belo bosque verdejante.

No vestiário, trocamos rapidamente os uniformes e nos dirigimos ao campo de futebol à oeste, onde o treinador de Educação Física nos esperava.

— Bom dia, alunos! — disse ele, cuja voz era firme e autoritária.

— Bom dia! — respondemos em uníssono, todos muito animados.

O professor era um homem alto e forte que possuía não mais que quarenta e cinco anos. Ele vestia uma camisa simples branca e short esportivo preto. Seus cabelos castanho-escuros eram curtos, tinha uma barba grisalha e bem feita. Sua pele era da mesma cor que a do meu pai (morena) e seus olhos por detrás dos óculos simples tinham um tom cor-de-mel — percebi que me analisaram por alguns segundos a mais, causando-me algo na boca do estômago, mas depois o homem tornou a olhar em volta, para todos os jogadores.

— Como todos sabem, eu sou o professor de Educação Física de vocês e, a partir de hoje, serei seu treinador de futebol também. Meu nome é Rubens Almeida e gostaria que vocês se apresentassem e dissessem em que posição gostam de jogar.

Então, todos se apresentaram.

No final, havia, além dos titulares que eu já sabia os nomes, Samuel, Ari, Nícolas, Igor, Lincoln, Carlos, Rodrigo, Felipe, Rafa e Vinícius, além de mim e do Kai.

Percebi que não havia mais nenhum atacante além do Natsuno e do Riku, enquanto nas outras posições estava tudo normal.

Marcelo mostrou ao treinador a folha do time titular — a base do time do ano anterior, quando estavam no nono ano —,  depois começamos o treino.

Embora o dia estivesse ensolarado, não fazia muito calor. O campo tinha o tamanho de um campo comum e o gramado estava muito bem aparado, semelhante a um tapete verde. Natsuno comentou que os alunos do colégio costumavam chamar o campo de “Miniestádio”, cujas arquibancadas de madeira formavam uma espécie de C, deixando apenas o espaço dos bancos de reservas livre. Imaginei a escola inteira ali, assistindo a uma partida nossa. O Miniestádio era cercado por redes talvez para evitar que a bola fosse parar na avenida lateral do colégio.

Primeiro, fizemos aquecimento com atividades físicas básicas, depois corremos em volta do campo e treinamos passes longos e curtos. Enquanto o único goleiro do time (Lucas) era orientado pelo treinador na baliza perto da saída do campo, alguns garotos treinavam chutes de falta e pênaltis. Dentre eles estavam: Marcelo, Riku, Samuel, Pedro e Otávio. Treinamos também "bolas paradas", escanteios, faltas de longa distância e dribles.

Era tão prazeroso jogar futebol... Era um esporte no qual eu conseguia me soltar, me sentir leve — então percebi que apenas o Kai não treinava. Ele parecia com medo de alguma coisa, sentado em um dos bancos de reservas apenas observando o treino. 

Decidi ir chamá-lo:

— Ei, Kai, vamos treinar, cara.

— Não, não. — Kai ajeitou seus óculos meio atrapalhado. — Hoje não estou muito a fim.

— Vamos, mano, você precisa se divertir um pouco.

— É sério, Diogo, prefiro ficar aqui.

Percebendo que não podia fazer nada, apenas me lamentei e voltei ao treino.   

Quando já eram quase meio-dia e meia, algumas meninas do time de handebol da nossa sala apareceram atrás da grade que havia atrás do intervalo entre os bancos de reservas, todas gritando o nome do Marcelo, Natsuno e de alguns outros garotos do grupo dos “populares” da sala.

Mas o que me surpreendeu foi que, enquanto gritavam esses nomes, começaram a gritar o meu também. Isso me deixou com vergonha, pois normalmente eu não era popular entre as garotas. Olhei para elas e percebi que a única que não gritara o tempo todo era a Sophia, que estava um pouco afastada. Ela parecia com… ciúmes? Isso mesmo, pois enquanto as meninas gritavam o meu nome, Sophia meio que as fuzilava com um olhar assustador. A propósito, ela estava linda. Amarrara o cabelo em um rabo-de-cavalo e usava calça legue que marcava suas curvas.

No momento em que nossos olhos se encontraram, acenei para ela. A garota sorriu. Depois as meninas foram para a quadra e o nosso treino teve fim.

— Bom, turma — disse o treinador Almeida quando estávamos reunidos no banco de reservas —, acabamos por hoje. Amanhã nos encontramos aqui na mesma hora. Ótima tarde a todos!

Ele deu uma última olhada para mim, me causando uma sensação estranha. “Será que esse cara é gay?” me perguntei.

Cada um tomou sua ducha no enorme vestiário masculino do ginásio e depois nos despedimos.

Já na praça frontal da escola, quando eu ia me despedir dos meus amigos, decidi perguntar:

— Natsuno, você vai me explicar agora sobre a rivalidade entre o meu clã e o do Riku?

— Pode ser — disse ele. — Você pode ir à minha casa?

Aquela era a minha chance de saber mais sobre a vida que eu começava a levar. Natsuno provavelmente sabia de muita coisa interessante, portanto aceitei.

— Demorou — eu disse, por fim. — Acho que é hora de saber com o que realmente eu estou lidando.



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