Volume 3 – Arco 2: Desejos
Capítulo 2.5: Mesmo que seja patético
Mais cedo, na noite de oito de dezembro, sob a luz gelada que atravessava o tecido fino das cortinas do quarto, ela permaneceu parada, observando o cômodo. Um lado mantinha organização impecável, com livros e utensílios de estudo; o outro refletia o oposto.
Ou ao menos era assim até meio ano antes.
Agora, o espaço estava mais vazio em comparação àquela época. Havia algumas roupas, longe de qualquer desordem, e um kit de maquiagem repousava sobre a mesa, em ordem. A mudança vinha do desconforto que sentia.
— Ei, a aniversariante não pode ficar o dia todo fugindo disso — comentou uma garota de cabelos rosas, usando boina, exibindo metade do corpo pela porta.
— Eu sei, poxa... — Ela fez beiço. — Só não terminei, se acalma, sua chata.
— Ai, ai… Eu, hein, viu? — E Chie foi embora, encenando indignação.
Rie pegou a escova na cabeceira e começou a pentear os cabelos brancos, que já ultrapassavam a altura do peito. Se comparasse com um ano antes, sua imagem era outra — na verdade, a própria vida mudara. Exceto pelo comprimento do penteado, o corpo permanecia o mesmo, mas transmitia uma impressão de maturidade, embora fosse igual ao de antes.
“O quão diferente é a Rie de dezoito anos para a de dezenove?”
A princípio, ela sequer esperava estar viva para presenciar esse momento; uma mudança permitiu que isso acontecesse. Ainda assim, tudo tinha um preço. Se não fosse tão inútil, Jun não teria iniciado o ataque contra os Ones, não precisaria abdicar do próprio poder para permanecer ao seu lado e as crianças estariam sem uma ameaça de morte sob suas cabeças.
Conheceu um garoto, apaixonou-se, começou a namorá-lo, foram morar juntos e agora estavam noivos. Tudo acontecera em pouco tempo; era chocante. Viveu cada instante com intensidade, experimentou situações novas e, embora esperasse um fim iminente, jamais cogitara o destino que recebera.
Uma garota com a vida encaminhada, forçada a retornar para a casa dos pais — era esse o sentimento que a atravessava. Alguém que fracassara. Ainda assim, precisava comemorar aquela data especial sem a presença dele.
Não queria o encarar do estado em que estava. Ela tirou a vida de alguém, permitiu que outra caísse em um sono em que tinha chances de não acordar e quase viu aquele que ama morrer bem na sua frete. O pacote que recebeu durante a manhã, ainda repousava sob a cama, inalterado. Sentia-se patética demais para estar ao lado dele no instante.
Por ora, apenas decidiu se concentrar na celebração com o restante da família.
— O bolo já está sobre a mesa, só esperando por você. Mas peço que não se importe com o tamanho, pois foi o que deu. — A voz masculina, em tom descontraído e acolhedor, dirigiu-se a ela.
— Não tem com o que se preocupar, vovô…
Na verdade, ele não era seu avô de sangue; Rie fora adotada por aquela família depois que a biológica tentara assassiná-la. Ainda assim, sentia que aquela sempre fora sua família. O ferreiro Nobu, habituado ao avental manchado, mantinha o cabelo grisalho penteado para trás e a barba bem-feita; naquela noite, usava roupa social, destoando do habitual.
Ela observou os dois à sua espera, abaixou a cabeça por um instante, encolheu os ombros, mordeu os lábios e a ergueu com um sorriso tímido. Sentou-se à mesa, ouviu o parabéns e soprou as velas faiscantes do bolo.
Chie, com um sorriso maroto, lançou uma chuva de confetes que caiu sobre a garota de cabelos alvos. Rie se assustou, fez uma careta, enquanto os papéis giravam ao seu redor e se dissipavam como partículas. Ao final, caiu na risada.
Aproveitando o momento em família, depois de comerem e conversarem por horas, seu avô projetou na parede um álbum de fotos. Ela fora adotada pelos Ueno no fim da infância; por isso, havia menos registros seus, mas ainda suficientes para constrangê-la com as lembranças. Em outra imagem, sentiu saudade ao se ver ao lado de Chie e da falecida mãe, Naomi.
Aquilo a fez perceber que, embora sua história tivesse sido formada por fragmentos costurados, conseguira viver momentos assim. A princípio, acreditara que lhe teriam tirado o direito de experimentar tudo depois de ser descoberta como uma falha. Mesmo fora do modelo tradicional — ou do que esperava —, ainda tivera essas vivências. Isso lhe aquecia o peito.
Entretanto, algo essencial faltava naquela ocasião. Um vazio persistia
— E então? O que você está pretendendo fazer no próximo ano? — Chie perguntou, sem hesitar.
— Já está acabando, né? Bem, ainda não pensei…
A verdade era que imaginara estar morta a essa altura; por isso, não cogitara o que viria depois. Uma vez que deixasse de existir, nada do que viesse importaria, apenas o que ficara para trás. Foi esse o pensamento que alimentou por muito tempo.
Mas agora esse adiante existia, e ela podia agarrá-lo sem que lhe fosse arrancado. Ainda assim, não conseguia se sentir viva.
“Irei cantar para que todos saibam que uma vez estive aqui…”
A questão era que, no presente, ela não seguiria pelo mesmo caminho. A motivação inicial deixara de fazer sentido; ainda assim, o desejo permanecia.
Durante aquele ano, mesmo vista como quem debochava do legado de sua inspiração, à espera de um beco sem saída onde não alcançaria o que almejava, sentiu-se mais determinada do que nunca. Transformou em força a inspiração que recebeu de Jun, preenchendo o que lhe faltava.
O garoto, apesar de conflitos distintos dos dela e de falhar em várias tentativas, persistia. Por isso, sabia que também podia continuar.
Já não se tratava de buscar aprovação ou reconhecimento por meio das canções, ou da própria existência. Tratava-se de revelar quem era, expressar o que desejava e, ao fim, sentir-se satisfeita, certa de que nada fora em vão. Não buscava mais um desfecho, mas algo contínuo e duradouro.
Sua motivação precisava ser ressignificada; ainda assim, mantinha um objetivo em comum que, embora incapaz de alcançar naquele momento, indicava a direção a seguir para construí-lo:
— Por enquanto, eu vou focar em garantir que mais crianças não sejam impedidas de viver para que, então, consiga transmitir ainda mais vida a este mundo que já perdeu quase por completo a sua. — Rie olhou outra vez para a imagem na parede, de um momento que não voltaria, mas cujo calor permanecia guardado em seu coração. — É por isso que quero continuar a cantar.
Ao terminar, decidiu ir ao quarto e enfrentar o que evitara até então. Pegou o presente deixado sobre a cama e o abriu, tomada por expectativa, imersa nos sentimentos que a mantinham ancorada ao presente e a impulsionavam adiante.
De dentro, retirou uma tiara azul-escura, quase negra, de textura suave, que cintilava como um universo estrelado. Era algo que combinava com o gosto de Jun, e o gesto lhe abriu um sorriso.
Junto, havia uma mensagem:
“Desde que me deu aquele cachecol, também queria poder te dar algo à altura. Bem, além de ter um visual que se destaque, exatamente do jeito que você gosta, também há um bônus de encantamento nisso que irá te proteger. Então, espero que goste e feliz aniversário! Vão vir muitos mais além deste.”
Ela não deixou que ele ficasse presente no momento, mas foi como se, agora, Jun estive diante de seu lado.
◊ ◊ ◊
Numa manhã de início de verão, o clima surgiu gélido, carregado pela umidade dos rios e lagos que cortavam a cidade formada por ilhas ligadas por pontes. O céu, tomado por nuvens onde os raios se refletiam ao nascer do sol, tingindo-as de cores difusas, ainda lhe causava estranheza, como se algo estivesse fora do lugar.
A imensidão diante de si era hipnotizante. Sentia vontade de voar e desbravar aquele infinito, mas isso lhe estava proibido naquele momento.
Agora, pisaria em uma matança para impedir outra. Naquele dia, 05/01/2099, iniciava-se a festa entre as academias da capital Blue, criadas para transformar Zeros em armas da humanidade. Era a ocasião de demonstrar valor e descartar os que não servissem.
Ou ao menos fora assim até então. Com a inclusão dos alunos Ones, o cenário mudaria. O que antes servia como entretenimento para o povo dourado — um jogo de sobrevivência entre aqueles que não consideravam pessoas — passaria a envolvê-los também.
Rie não fazia ideia do que enfrentaria ao entrar no estádio. Ao menos, depois de vários dias, reencontraria Jun.
“Quando chegar lá, perder não é uma opção. Eu não posso perder…”
Se não vencesse o campeonato, as crianças do orfanato que ajudava a cuidar seriam mortas. Por serem Zeros nascidos entre Ones, haviam sido abandonadas e deixadas para definhar naquele lugar. O preconceito persistia; a chance de adoção era mínima. Se não tivesse tido sorte, talvez estivesse na mesma situação quando sua aura despertou e tentaram descartá-la.
Era uma injustiça que não aceitava. A vida que o mundo perdia a cada dia era algo que agora pretendia restaurar.
No entanto, o destino parecia trazer, cada vez mais, o que não desejava:
— Eu finalmente encontrei você… — A voz cortou a brisa da manhã como uma navalha, rompendo cada pensamento que ela tentava sustentar.
Rie não precisou virar o rosto para saber de quem se tratava. Aquela entonação suave, porém ríspida, como se cada palavra fosse pronunciada com a ponta de uma faca, ainda ecoava dentro dela.
Agarrou o próprio pulso direito com os dedos trêmulos da mão esquerda, mantendo o olhar fixo. A tiara azul-escura repousava sobre sua cabeça como um céu noturno contido, cintilando, e despertava o desejo de estar ao lado de quem a presenteara com aquilo.
O encantamento de proteção no acessório inspirara a criação do vestido que usava. Curto e fluido, em gradiente de azul intenso, com a cintura marcada por uma fita escura e mangas longas de renda preta que envolviam os braços em desenhos delicados. As meias rendadas subiam até o topo das coxas, escuras, conectadas a um salto baixo que ressoava a cada passo. Eram roupas feitas para batalha, mas também para que olhassem para si.
Ela sabia o quanto aquilo a enfurecia.
A garota de cabelos brancos se virou. O vento ergueu parte das mechas, e o movimento da saia lembrava uma faísca prestes a incendiar. Kimiko estava à sua frente, vestindo trajes de gala dourados, leves e reveladores, como se precisasse reafirmar a posição que ocupava. Atrás dela, a irmã mais nova não surgia como sombra, mas como cópia, ostentando o mesmo orgulho que a irritava.
A mãe — ou melhor, aquela bruxa — examinou-a de cima a baixo. Os olhos se estreitaram nas mangas de renda. Reprovaram o decote. Detiveram-se nas meias.
— Isso… é o que você escolheu vestir? — Ela lançou as palavras como se falar a contaminasse. — Acha que essa é uma aparência digna de alguém que carrega uma espada? — questionou a mulher que usava um traje de corte alto, expondo o torso e cobrindo apenas o indispensável, dando para ver perfeitamente os seios livres de qualquer outra peça por baixo, sob um tecido metálico quase transparente.
Rie deu um passo à frente. A luz entre as nuvens atravessava o céu intenso e se refletia em seus cabelos claros.
— Quem você acha que é? Uma cadela como você ainda acha que pode falar comigo? — A voz saiu baixa e firme, junto a uma corrente de gelo, espalhando-se pelo chão.
Os olhos da irmã se arregalaram. Um silêncio tenso se instalou ao redor; os poucos presentes cessaram as conversas ao perceber o que se desenrolava.
— Pode baixar esse olhar de julgamento… — continuou, sem encará-la, como se dirigir-se a Kimiko fosse arrastar os olhos por cacos de vidro.
A mulher que apenas no sangue era sua mãe avançou um passo, o suficiente para despertar seu instinto. Rie soltou o próprio pulso, revelando uma pulseira clara com joia azul que antes não estava ali. O adorno deslizou até a palma direita e se transformou em uma espada de cristal metálico, cuja lâmina emitia um brilho de espectro amplo. Ela a empunhou como um raio, precisa e cortante como a lembrança das mãos que tentaram cravar uma lâmina nela anos antes.
O som do metal ecoou, rasgando o ar ao atingir o chão diante de Kimiko, traçando um limite.
— Se der mais um passo, serei generosa e cortarei apenas suas pernas.
O frio se espalhou. A brisa ganhou força, agitando os fios de cabelo em rajadas. O solo aos pés de Rie estalou, como se o ambiente respondesse à tensão que pulsava nela. Espinhos de gelo emergiram do chão, finos e ameaçadores, afiados o bastante para impor distância.
Kimiko recuou. A cena beirava o cômico. A mesma mulher que a chamara de imprestável agora encarava a garota que deveria ser sua filha como se estivesse diante de algo devastador. Os olhos tingidos pela aura azul a atravessaram sem hesitação.
Aiko, em contrapartida, no mesmo instante, tentou avançar contra Rie. Contudo, com um simples movimento do pé, uma avalanche, como um tsunami de cristais frígidos, disparou de forma esmagadora contra a jovem.
As pessoas presentes se assustaram, enquanto outras começaram a correr. A magia que Rie usara era tão grande que se propagava até a altura dos prédios próximos. A irmã mais nova ficou presa, contorcendo-se entre as estalagmites em uma tentativa inútil de escapar.
A mulher de cabelos pretos e vestido revelador sacou uma adaga decorada a ouro de uma pequena bolsa que carregava no ombro. Bastaram segundos para que a lâmina de Rie traçasse uma linha, arranhando do fim do estômago ao centro do peito de Kimiko. O sangue tentou correr, mas congelou em um rastro gélido que se propagou ao redor da ponta cravada, queimando em uma fumaça fria.
— O problema de você é ver qualquer feminilidade como fraqueza, mas vive se arrastando por aí feito uma vadia de vitrine. Que cantar, que se arrumar, que se expressar é se diminuir… — Uma parede de gelo começou a se formar enquanto ela falava. — Mas o que me impediu de morrer… foram essas coisas. O que me salvou foi justamente o que você sempre tentou apagar em mim…
A aura dela se intensificou. Uma cor azul no cabelo passou a subir, tingindo as pontas dos fios. O chão ao redor de Kimiko estalou, e a mulher começou a ser tomada pela geada. O ar cortou. Rie sentiu os olhos arderem de tanto foco, mas não piscou. Não podia piscar.
Todos ao redor permaneceram em silêncio. Um soldado, ao longe, recuou. A irmã biológica tentou sussurrar algo, mas as palavras congelaram no bafo diante da parede de gelo. Kimiko, ainda orgulhosa, não disse nada.
— Sabe o que é engraçado? Se Mikio é considerado como príncipe, eu estou noiva do outro e isso é um furo na própria lei de vocês que não podem negar. Por mais que não queiram, a coroa ainda é algo que ele tem o direito. — A voz de Rie cresceu, carregada de deboche que não precisava esconder. — E, como já derrotou o outro em batalha, conforme a tradição, agora é o primeiro na linha de sucessão. Ainda assim, isso não muda que, hierarquicamente, estou acima de você. Então, coloque-se no seu lugar.
Rie se aproximou da barreira de temperatura mínima, apoiando a mão sobre ela. Quando recuou, a estrutura se desfez em neve e se dissolveu como partículas luminosas.
— Então não ouse mais me procurar… ou, da próxima vez, eu te mato. Uma megera fracote feito você não presta nem para me fazer respirar antes de te transformar em pó.
Sem esperar resposta, Rie se virou. O vestido ondulou, como se deixasse para trás as palavras que sempre quis dizer. A tiara cintilou a cada passo, e, conforme o som do salto ecoava ao tocar o solo, a magia em forma de gelo ao redor se dissipava em fumaça fria. Mesmo com o caminho livre, ela sabia: não saiu ilesa.
As mãos tremiam. Os olhos doíam. A raiva pulsava. Pela primeira vez, não abaixou a cabeça.
◊ ◊ ◊
O teto de vidro do interior do edifício vibrou em tons artificiais, tingindo o espaço com azuis metálicos e dourados pulsantes. Luzes dançaram como serpentes acima do estádio colossal, refletindo nas superfícies de aço das arquibancadas.
Um rugido coletivo subiu da multidão, misturando ansiedade, ódio e euforia. Jun respirou fundo. A eletricidade do lugar se enroscou em seus nervos.
Estava sozinho no setor reservado aos participantes. Percorreu o espaço sem pressa, mas havia inquietação em seu peito. Rie deveria estar por perto. Ela estava demorando mais do que o esperado, mas ele não questionou. Também não podia ver além da arena.
No centro do estádio, uma mulher caminhou com passos largos. O microfone em sua mão vibrou quando falou. Sua voz era clara, quase doce demais para o peso das palavras que projetaria:
— Sejam bem-vindos à edição deste ano da Festa das Academias! — O som explodiu, reverberando no metal sob seus pés. — E, desta vez, com uma novidade digna de uma nova era!
Jun estreitou os olhos. A luz dos holofotes refletiu em suas pupilas, o forçando a semicerrar as pálpebras. Acima da narradora, uma cabine de vidro permanecia suspensa. Ele sabia o que havia lá dentro. Sentia, mesmo à distância, o olhar que o atravessava como uma lança. A rainha. Sua avó. Imóvel, inatingível, observando tudo do alto.
— Também é uma honra que cinco dos cavaleiros reais… — continuou a narradora. — A elite da elite, o ápice do Ones, estarão participando do evento!
Um silêncio breve se instalou, tenso, como se algo no ar fizesse a multidão prender a respiração.
Cinco figuras surgiram em meio a uma névoa artificial do palco. Não foram apresentadas, não disseram palavra. Apenas estavam ali, como sombras moldadas em perfeição. Três garotos, duas garotas. A idade, no entanto… Jun se viu descrente ao observar melhor. Eram jovens, provavelmente da mesma idade que ele.
“Como isso é possível?”
Entre tantas variáveis, tantas probabilidades e, ainda assim, todos com a mesma faixa etária. Aquilo o incomodava de um jeito que não conseguia explicar. Um padrão forçado, como se fosse… cultivado. Para ele não era possível que todos fossem prodígios.
Sacudiu a cabeça, mas a confusão persistiu, e a narradora manteve a animação ensaiada:
— Como de costume, o prêmio da festa é… o cumprimento de um desejo! Qualquer um! Absolutamente qualquer um!
A frase pairou no ar como uma isca envenenada. Ao redor, os sorrisos dos Ones nos assentos superiores se acenderam. Talvez para eles fosse verdade, mas para os Zeros havia um limite claro. Não poderiam desejar nunca mais lutar, nem que todos deixassem de enfrentar as bestas, ou que parassem de ser tratados como ferramentas; só seria possível algo de valor equivalente ao que representavam.
Com as apresentações encerradas, no campo abaixo um casal se posicionou. Os nomes não foram anunciados, apenas exibidos no placar, que Jun não se deu ao trabalho de ler. As roupas não chamavam atenção: uniforme escolar reforçado para batalha, preto, diferente do da academia dele, branco, indicando que vinham do outro lado da cidade.
Ele notou a postura contida dos dois, a forma como mantiveram os olhos no chão até o último instante. Do lado oposto, um casal de Ones se movia com elegância e orgulho. Sorrisos entediados, como se aquilo fosse irrelevante. Um aquecimento.
O sinal de início ecoou, e o terreno da arena se transformou. Uma floresta artificial surgiu, acompanhada de obstáculos — exemplo prático do uso de magia de materialização. Provavelmente havia auxílio tecnológico para tornar aquilo possível, mas ainda impressionava que o cenário mudasse a cada confronto.
“Realmente isso é um espetáculo. Uma festa…”
O casal de Zeros avançou primeiro, como se o medo os impulsionasse. Os movimentos eram treinados e precisos. Havia um brilho de determinação nos olhos da garota, enquanto o garoto recitou uma sequência de gestos e, no instante seguinte, conjurou um jato de ar comprimido que perfurou o escudo do One à frente. Um golpe direto que fez o estádio mergulhar em silêncio.
O impacto lançou o One ao chão. Ele deslizou metros pelo campo metálico, com a marca do ataque brilhando sobre o torso como uma cicatriz acesa. Em seguida, foi atingido pela espada da Zero. Nesse intervalo, a garota do lado dourado se surpreendeu e acabou golpeada pela adaga do oponente, punida pela distração.
Foi um acerto em cada um. Uma vitória clara, inesperada por vir daqueles que sequer eram considerados humanos. Ainda assim, não houve som.
Nenhum anúncio. Nenhum sinal.
A narradora apenas sorriu, e Jun sentiu o estômago afundar.
O One se levantou. O sorriso agora era outro, sombrio, difícil de encarar. Girou a arma nas mãos e caminhou em direção aos Zeros como quem retorna de um passeio, não de um combate. A garota recuou, enquanto o rapaz estendeu o braço para protegê-la, mas já estava exausto, suado. O feitiço que antes parecera impressionante revelava ter drenado sua energia.
Diante deles, a realidade se impôs: não era uma luta. Era um abate. Agora… restava esperar o fim.
Nesse instante, os Ones atacaram. O som que se seguiu foi seco, um estalo. Ossos quebraram. A moça caiu primeiro, os olhos vidrados nas mãos que tentavam conter o sangue que escapava do abdômen. No segundo seguinte, a lâmina do outro atravessou o peito do Zero restante, e o brilho se apagou de seus olhos.
O vermelho escorreu, pingou, derramou-se e se espalhou com o impacto do corpo no solo. A queda ecoou em um som seco, ridículo.
E o estádio explodiu em aplausos.
A multidão de Ones vibrou como uma tempestade satisfeita. Gritaram, pularam, sorriram, celebraram. Os Zeros nas arquibancadas permaneceram em silêncio. Alguns desviaram o olhar; outros cerraram os punhos.
Jun não se moveu. O coração martelou no peito, e o sangue pareceu pesar nas veias. Ele observou os corpos serem retirados com eficiência cirúrgica, como se fizessem parte de uma encenação, como se nunca tivessem estado vivos.
Na cabine elevada, a rainha observava, imóvel, intocável, como uma divindade. A garganta de Jun secou. Ele sentiu o peso que se iniciou.
Aquele que, por ter sua presença na academia e escolher não se esconder outra vez, atraiu a atenção do irmão com o título de príncipe e, assim, provocou a união dos dois tipos de alunos. Aquele que deixou um caos na cidade dos Ones, eliminou a muralha — a última barreira que os separava — e destruiu o falso céu ao final, o maior símbolo daquela realidade sustentada por uma ilusão.
Um fim que ele almejou alcançar e assim fez, independente do custo. O desejo de mudar o mundo. O desejo que resultou no desfecho que acabou de presenciar nessa festa. Já não tinha certeza se algum desejo justificava aquilo.
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