Volume II
Manhã do Dia 2 da Golden Week e as Diferenças entre Animais e Aberrações
01
— Vocês têm certeza de que isso é seguro? — Sora Tokimoto perguntou para os dois amigos (talvez os únicos que, de fato, tinha) enquanto passavam pela praça do centro da cidade em direção à casa de Harry.
— Bah relaxa, ela é um amor! — o lobo falou em um tom despojado; um relaxamento que mesmo sendo coerente com a sua personalidade, era excessivo se comparado com o seu desleixo cotidiano. Isso borbulhou na mente da garota que pensava:
“É, ele realmente fez sexo com aquela vampira…”, até sentir um peteleco na testa.
— Argh! — gemeu — Qual foi, Hiroshi!?
— Não é bom uma garota de quinze anos pensar coisas sujas assim.
— Vocês acabaram de fazer dezoito…
— Então você realmente estava pensando em indecências, hein?
— Só um imbecil pra não saber juntar dois mais dois e entender o que o Harry tá fazendo com a vampira lá…
— Ei! — o lobo, ofendido, se meteu na conversa — Eu não fiz nada com ela, só dei um pouco de sangue e doeu, viu!?
Hiroshi e Sora se entreolharam por um instante, como se a confirmação de um mistério houvesse se desdobrado diante do grupo.
— Ah, então foi isso que ela quis dizer com essência. — falaram em perfeito conjunto, quase sincronizado.
— VÃO SE FODER!
Agora foi a vez de Harry de levar um peteleco de Hiroshi; ele respondera apenas com um “Ai porra”.
— Culpa sua por ficar falando coisas de baixo calão para uma garota de quinze anos. — Ele sorriu.
— Eu vou te meter é um murro… — resmungou o lobo.
Harry Akashitsuji construiu uma certa amizade e apreço pela dita vampira; seu nome ainda era uma incógnita — ela recusava-se a dizer — sob o pretexto de “não é algo que deva ser mencionado para as pessoas erradas” e quando questionada sobre a certeza de que Harry ou qualquer outro amigo seria uma pessoa errada, ela respondia apenas com um vago “não tenho certeza ainda”. Essa resistência, mesclada à uma personalidade elegante, mas também gentil, acabavam por aflorar ainda mais a curiosidade do lobo. Transformados podiam ser comuns em Uradougaoka, mas estes continuavam sendo vistos como algo bizarro aos olhos humanos (assim como em muitos outros lugares do mundo); por isso Harry entendia o receio de uma criatura ainda menos humana que ele de se abrir, e era exatamente por isso que ele desejava conhecê-la melhor.
02
Ainda pela manhã…
— Não quer abrir a janela? — A mãe de Harry perguntou para a inquilina escondida no quarto de seu filho. A hóspede exclamou surpresa quando lembrou que o efeito do sangue do lobo ainda lhe permitia caminhar sobre a luz do sol (foram três séculos escondida sob a noite).
— Deixa que eu abro! — falou a vampira enquanto avançava em direção às cortinas; o leve chiado causado pelo tecido arrastando na barra metálica acima da janela pôde ser claramente ouvido, dando uma sensação nostálgica na garota. — Aqui, prontinho! — disse com um sorriso meigo.
— Você é tão radiante, Rosa, — a mulher falou com um tom de encantamento — até me impressiona que meu filho tenha feito amizade contigo, haha!
— Ele é muito gentil comigo, senhora Akashitsuji, eu o respeito muito.
— Fico muito feliz de ouvir isso. — Ela sorriu.
Rosa, este era o nome que a vampira inventou para Tomoko Akashitsuji a fim de manter sua identidade real oculta.
“Trezentos anos…”, ela pensou enquanto lembrava-se da gentileza de Harry “...talvez, eles tenham mudado nesse meio-tempo? Faria sentido se sim”; ela observou o rosto gentil da mulher por alguns momentos.
— Senhora Akashitsuji, — a aberração que bebe sangue decidiu fazer uma jogada segura — onde está o resto da sua família?
— Hum? O que quer dizer, Rosa?
— Ah, bem, quando eu vivia com minha família, meus avós também moravam comigo! Mas não vi os seus pais, nem os do seu marido… aí fiquei curiosa.
O silêncio se instaurou por alguns poucos minutos e o vacilar no sorriso de Tomoko foi evidente, o que deixou a eterna jovem de cabelos loiros um tanto angustiada; até que então:
— Os pais do meu marido acabaram morrendo quando Harry ainda era bem pequeno. Já os meus, não aprovaram o meu casamento.
Um sentimento misto borbulhou no interior da garota; alívio e pena.
Por um lado, se sentiu mal pela mãe do lobo (uma humana casar-se com um transformado sempre foi um tabu), mas por outro, sentiu-se feliz por ver que a família Akashitsuji estava perdendo sua influência e poder.
De repente, a campainha da casa pôde ser ouvida pelas duas. Ainda era razoavelmente cedo, 8:45 da manhã, e parecia que a mulher e vampira eram as únicas de pé.
— Ah, deixa que eu atendo! — Rosa falou indo em direção à saída do quarto — Imagino que seja o Harry e alguns amigos dele.
Abrindo a porta, o tempo parecia ter parado por um instante.
— Ah… — suspirou a aberrante, que antes se apresentou como Rosa, após ter tido seu peito perfurado por uma katana sendo empunhada por uma lontra transformada. Naquele momento, ela lembrou de trezentos anos atrás, aos dezessete anos, quando sentiu uma dor lancinante pela primeira vez ao passar pela metamorfose que a tornou o que ela seria até o momento.
“Por quê?”, ela perguntou sem abrir a boca “Eu tinha feito tudo certo, eu me livrei da imortalidade e da necessidade de predação. Então, por quê ainda estão me caçando?”
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios