As Faces do Abismo Brasileira

Autor(a): O Corvo


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 5: Devaneios De Um Homem Bêbado

Eu estava sentado em uma caixa de madeira. Em minhas mãos havia um pedaço de papel cujas linhas escritas com uma caligrafia impecável eu havia lido repetidas vezes.

Querido Lucian,

Meu pai e eu fomos convocados pelo Norte. Temos planos de voltar um dia antes do seu aniversário.

Com carinho, Cintia.

O cheiro de água salgada inundava o ar do porto da cidade dos começos. Olhando para o horizonte, tudo parecia se mexer, mesmo parado. Eu sempre amei a sensação de estar próximo do mar. Quando vinha pescar com meu pai eu gostava de admirar a forma com que as ondas vinham e se quebravam entre as rochas, a seguir de outra, e depois outra, em um eterno vai e vem.

O porto era uma das principais formas de comércio da cidade, ele pulsava com vida e agitação, feito às ondas que se debatiam em sua costa. Mulheres, homens e crianças marcados pelo Sol e por dias no mar andavam para todos os lados, anunciando e carregando seus produtos dos mais diferentes tipos. Diversas embarcações também se amontoavam e ancoravam por ali, enquanto outras erguiam suas velas e sumiam no horizonte infinito.

— Comprem, comprem! Os melhores peixes vindos diretamente do Abismo. Pescados pelas mãos do próprio Daskin Wylde, o vento rubro! — A senhora Grace anunciava o peixe robusto em suas mãos, que certamente não fora pescado nem trazido diretamente do Abismo por Daskin. Já que nenhuma criatura, morta ou viva, era capaz de atravessar os Portões sem virar um amontoado de pó no processo.

Por isso, toda a venda era voltada somente àquilo que era pescado, plantado ou caçado nos arredores da cidade.

E nem preciso dizer serem da melhor qualidade imaginável. Aurora me disse certa vez que havia algo de especial em tudo que crescia ao redor do Abismo. Os peixes brilhavam com magia, as frutas e vegetais tinham o dobro do tamanho de qualquer outra da mesma espécie, os animais eram fortes e robustos. O que fazia com que o Porto se tornasse o ponto turístico ideal para qualquer membro da nobreza de um dos quatro cantos do mundo.

Não que chegar até o porto fosse uma tarefa fácil. Antes teriam de atravessar as Garras da Tormenta, grandes estruturas ancestrais de pedra que ficavam bem no meio do caminho. Aquele que quisesse vir até o porto teria antes de passar por elas e pelos poderosos Marcados que as guardavam. Isso, é claro, se você não quiser parar no fundo do oceano, dormindo junto aos peixes.

— E não volte nunca mais! Seu bêbado de merda! — A minha frente, a porta de um estabelecimento se abriu e um homem foi arremessado por ela como se fosse feito de papel. Ele girou e cambaleou até cair aos meus pés. 

— Malditos desgraçados — o homem xingou entre dentes.

— Senhor? Está tudo bem?

— Não se preocupe comigo, jovem. Isso não é nada que um velho como eu não possa lidar por conta própria. — Ele de fato era velho, mas eu diria que o homem era mais maltrapilho do que qualquer outra coisa. Seus cabelos eram longos, sujos e grisalhos. Sua barba mal feita, branca e irregular. 

Ele se pôs de pé e deu tapas na roupa para tirar a sujeira. Mas não foi embora, não antes de pôr seus olhos em mim, que em uma fração de segundos percorreram o caminho até a bolsa de moedas que eu tinha amarrada a cintura.

— Que indelicadeza de minha parte. Quase fui embora sem me apresentar devidamente. Frederic Lenser, leitor de mãos e sábio nas horas vagas. — O homem que eu agora conhecia como Frederic se curvou e tirou um chapéu imaginário da cabeça branca.

— Leitor de mãos? É a primeira vez que vejo um de vocês por aqui.

— Vejo que o jovem já conhece o meu ofício.

— Minha mãe diz que vocês não passam de charlatões aproveitadores.

— Sua mãe é uma mulher sábia, pois muitos de fato usam desse dom para enganar e roubar aqueles desesperados e aflitos, mas não eu. Te garanto que sou real. E por uma moeda de ouro posso lhe mostrar, jovem. — Ele estendeu uma de suas mãos trêmulas até mim.

Movido pela vontade de acabar com o tédio que me consumia e como todo bom garoto de treze anos irresponsável, fiz o que minha mãe já havia me dito para não fazer de forma alguma.

— Bem, vejamos o que temos aqui… — Frederic disse, traçando uma linha reta bem na palma de minha mão.

Subitamente, o homem deu um pulo, seguido de um grito. Seus olhos acinzentados estavam fixos no meu, arregalados de puro horror, sua respiração trêmula e incessante.

— Você! Como isso pode ser possível… Não!

Antes que eu pudesse ouvir o que o homem tinha a dizer, um sino soou. 

— Navios à vista! — Henri, um garoto franzino e queimado de Sol anunciou enquanto corria com o sino em mãos. 

— E veja, dessa vez é dos grandes — gritou outra voz, desta vez desconhecida, mas alta o suficiente para ser ouvida.

Quando voltei a olhar para Frederic, ele já não estava lá.

"Devaneios de um homem bêbado", pensei.

No horizonte, cinco navios pareciam surgir de dentro do Sol. Os primeiros foram quatro navios menores, seguidos por um bem maior. Do tipo que o Barão Glaylock e meus pais usavam para viajar. Não, aquele era maior ainda.

À medida que ele se aproximava pude distinguir melhor seus traços e detalhes. O navio era preto e acinzentado, quatro mastros se estendiam e apontavam para o céu, suas velas balançavam de forma elegante. Em sua proa havia a figura imponente de um dragão esculpido.

E acima do dragão, alguém balançava os braços e gritava algo.

Uma garota, de cabelos castanhos e olhos verdes. 

"Cintia!".

O navio encostou no porto com um baque. A âncora desceu, depois a ponte de madeira, que bateu com violência no solo do porto.

Minha amiga veio em seguida, correndo até mim. 

— Eu sabia que você voltaria!

Ela me abraçou e disse: — Eu prometi que voltaríamos antes do seu aniversário, não foi?

As pessoas se reuniam ao redor do navio, admirados e boquiabertos com a enorme embarcação. Murmúrios de curiosidade já percorriam a multidão.

Passos pesados rangeram sobre a ponte. Seguidos de quatro guardas robustos que ostentavam armaduras prateadas, marcadas com símbolos dourados de dragão em seu peitoral. O mesmo símbolo que meus pais e os Ceifeiros carregavam em sua bandeira, o símbolo que representava a família real.

Atrás dele, um homem alto, de postura impecável e repleto de jóias surgiu. Com uma coroa reluzente na cabeça e um sorriso confiante, o tipo de sorriso que só quem pode dobrar o mundo as suas vontades estampa no rosto.

— Anunciando o Rei dos Quatro Cantos do Mundo e primeiro de seu nome — assim, os guardas anunciaram um nome, do homem que era rei, o homem que tinha o mundo todo na palma da mão —, Kesan Dundragon!

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