A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Thalles Roberto


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 6: As Engrenagens Avançam – Confronto entre Marcados ①

“Esse é, com certeza, o pior dos cenários”, Norman se esforçava para não demonstrar o desespero em encontrar com Layla na sala de aula, mas nem a encarar com um semblante natural conseguia.

— Olá, pessoas. Prazer em conhecê-los!

Num primeiro momento, nenhum dos universitários naquele canto conseguiu responder os cumprimentos da garota. O único a reagir com clareza tinha sido o rapaz de cabelo cacheado, sua boca levemente aberta indicava a surpresa ao encontrá-la.

Por outro lado...

— O-olá! Meu nome é Willian, tenho vinte e dois anos, atualmente procurando uma namo...!

— Cala essa boca!

Interrompendo a euforia de Willian, em pé desde a chegada da estranha na classe, a menina ao lado lhe socou a nuca. A Marcada de Vega direcionou a atenção até ela, seu cabelo caía até a altura dos ombros e possuía alguns cachos emaranhados próximos do pescoço.

Espantados com a ação dela, Norman e o outro garoto à frente arregalaram os olhos. Layla achou a cena engraçada, a vontade de rir no mesmo instante subiu a garganta, mas mordeu o próprio lábio no intuito de prender a reação estimulante.

Após brecar a apresentação efusiva do companheiro, a colega de classe limpou a garganta com um pigarro e respondeu:

— Muito prazer! Me chamo Helen e esses aqui são Norman e Hudson. – Apontou aos dois inertes ao lado. – Você parece ser nova aqui. Qual o seu nome?

— Me chamo Layla... Vega! – Ergueu o indicador após complementar.

“Essa não”, o marcado levou a mão boa até as vistas sombreadas, não queria acreditar no que havia acabado de escutar.

— Vega? Isso é espanhol? – Helen posicionou o indicador sob o queixo e ergueu os olhos, pensativa.

— Não acha que é a estrela da Harpa? – Hudson murmurou com dubiedade.

— A Helen é bruta demais pra saber disso... – Willian resmungou, ainda com dores na área atingida.

Enquanto os três universitários discutiam sobre a origem do sobrenome peculiar da alva, Norman procurou fitá-la escondido pela palma que cobria metade do rosto. O alvoroço prosseguiu durante alguns segundos até que uma discussão ainda maior teve início.

Perante a confusão envergonhada do garoto, a Marcada de Vega abriu um sorriso desafiador em sua direção. Em seguida, voltou a encarar os três únicos amigos do jovem recém-recuperado, trocando assuntos aleatórios com o intuito de se enturmar.

Durante a conversação, um deles notou a omissão de Norman.

— Ei, por que cê tá tão acanhado assim? – Willian perguntou, o cutucando com o cotovelo. – Sei que não gosta de puxar assuntos com estranhos, mas...

O rapaz fechou os olhos, bateu a mão direita no braço da carteira e levantou-se com rispidez. O rangido dos pés de metal chamaram a atenção dos outros dois colegas de classe, cessando de vez a conversa descontraída entre eles.

A novata, diferente deles, reagiu satisfeita ao acompanhar tal atitude.

— Vamos conversar lá fora.

O tom de voz soturno fez os três universitários ao redor erguerem as sobrancelhas espantados, cada um a própria maneira. Sem aguardar a resposta da garota, o moreno caminhou a passos pesados até a porta do recinto, a abriu trazendo a atenção de boa parte dos alunos e saiu ao corredor.

Layla permaneceu na mesma posição durante alguns segundos. Conforme olhava para o vazio, escutou a voz embargada de Helen proferir um questionamento:

— V-vocês já... se conhecem?...

— Acho que dá para dizer que somos amigos de infância. – Virou o rosto até eles e juntou as palmas. – Ele é meio complicado quando o assunto é expressar sentimentos da forma devida, mas não digam que eu contei, tá?

Recebendo a resposta silenciosa de Willian e Helen, que somente assentiram lentamente com a cabeça, deu meia volta no intuito de se juntar ao amigo de infância no lado de fora.

Nenhum dos três foi capaz de exprimir uma palavra sequer. “Como esse antissocial pode ter um amigo de infância?”, era a dúvida que permeava a mente deles ao observarem o avanço da jovem de cabelo branco até o lado de fora, onde o tal antissocial esperava.

 Com o horário das primeiras aulas bem próximo, os caminhos internos da universidade esvaziaram. O fluxo quase nulo de pessoas favoreceu o encontro a sós entre os dois marcados na passagem fechada.

 Depois de fechar a porta, Layla suspirou ao experimentar o livramento dos olhares intensos cravados sobre sua presença. No instante seguinte, dirigiu um sorriso suave até o parceiro estarrecido. Os olhares de ambos se cruzaram, tratava-se da primeira vez que ele a encarava com tamanha severidade desde o dia que se conheceram.  

— Eu falei pra você ficar em casa até minhas aulas terminarem. Por que veio até aqui como se fosse a coisa mais normal do mundo? – O Marcado de Altair estreitou as sobrancelhas após dar início a discussão.

— É verdade. Eu pretendia o aguardar lá, porém a situação mudou. – Ela também alterou a expressão ao desfazer o sorriso. – Há dois marcados nesta universidade.

Toda a revolta de Norman se esvaiu num instante frente a informação divulgada pela aliada. Resumiu-se a mirá-la boquiaberto, o bastante para transmitir seu assombro perante a inesperada justificativa. Desejava a questionar quanto a certeza de tal afirmação, mas...

“Foi o mesmo na última vez”, evocou as palavras proferidas pela própria no hospital. De alguma forma, parecia ter controle sobre as situações que foram sucedidas até a vitória contra o Marcado de Polaris.

Dito isso, tinha certeza de que o melhor caminho seria confiar nela.

Após a sucessão de surpresas, quase todas negativas, a frustração tomou conta dos confusos sentimentos. Embora carregasse um conhecimento prévio sobre os perigos não tão distantes, desejava alguns dias de paz, pelo menos até complementar a recuperação.

A apreensão incontrolável o levou a questionar:

— Devemos procurá-los?

— Não se preocupe. Eles também sabem sobre nós... – Virou o rosto até o caminho restante do corredor. – E, provavelmente, se apresentarão em breve.

 

★★★

 

Após ser comunicado por Layla sobre os novos Marcados localizados naquela universidade, Norman retornou à sala de aula e explicou aos dúbios amigos sobre a conversa que tiveram a sós. A pedido dela, fortaleceu a falsa história da amizade construída durante a infância. Parecia ser a única maneira de evitar contratempos futuros.

Em todo caso, o jovem não conseguiria mais prestar atenção em qualquer coisa. Seus olhos não paravam de observar todos os alunos dentro da classe, a voz do professor entrava por um ouvido e saía pelo outro. Toda a aflição reunida parecia irradiar do semblante soturno.

— Talvez eles tenham discutido? – Willian sussurrou ao pé do ouvido de Helen, que assentiu com a cabeça.

“Um ataque pode acontecer a qualquer momento... o que diabos eu tô fazendo?”, Norman cerrou o punho direito acima do apoio da carteira, uma gota de suor escorria pela lateral da face rígida. “Eles irão se apresentar em breve, ela disse. Então...”

A expectativa para a aparição dos adversários era tão alta que não absorvia nada além dos próprios batimentos cardíacos. Os momentos de aflição vividos no hospital há alguns dias não podiam deixá-lo em paz nem por um minuto.

Despertando a preocupação dos colegas, assim permaneceu durante os dois tempos de aula. Após a despedida do orientador, levantou-se da carteira sem permitir a qualquer um questionar, saiu da sala e procurou pela parceira. Não estava mais ali.

Quando puxou o celular do bolso do casaco, lembrou que não possuía o número dela, tampouco o e-mail. Isso poderia se tornar um imbróglio cedo ou tarde, visto a união entre ambos naquela batalha. Comunicação a distância com certeza seria importante, mas ignorou isso em prol de focar no presente.

Ao avançar até o campus, o motivo de sua maior inquietação se tornou realidade. O formigamento dominou a testa enfaixada, um fraco brilho branco escapou das pequenas aberturas do tecido, porém logo foi tampado por sua palma esticada.

“Só pode ser mentira”, varreu os arredores de maneira angustiada. Havia bastantes pessoas naquela área aberta, portanto foi incapaz de definir alguma ação, fosse ousada ou cautelosa. Deixou a mão sobre a marca enfaixada até o brilho cessar.

O cintilar repentino do símbolo significava a proximidade real com algum marcado. Podia ser a própria Layla, lembrou dessa hipótese, mas logo a derrubou com a ausência da reação no encontro da sala de aula. Também não experimentou a manifestação luminosa no hospital, mas...

“Não é hora pra pensar nisso”, balançou a cabeça para os lados na tentativa de se livrar dos detalhes irrelevantes. O fulgor se manteve durante alguns segundos. Ao apagar, ele pôde relaxar o membro esticado.

Tornou a avançar pelo pátio principal. Se a luz da marca tinha desaparecido, então seria mais complicado encontrar o outro portador. Desde que não fosse visto, a situação poderia se desenrolar de maneira favorável. A atenção dispersa entre homens e mulheres presentes durante o trajeto o fez esbarrar em alguém.

— Uah! M-Me perdoe! Eu não queria...

A amedrontada voz feminina lhe puxou a atenção.

Ergueu as sobrancelhas ao constatar o descuido acarretado pela angústia exacerbada. Fitou a garota que abraçava uma pequena mochila à frente do torso. O cabelo negro volumoso fazia contraste com a pele alva, os óculos médios destacavam os olhos castanho-claro.

Diante à ausência de palavras do rapaz, ela desviou a atenção com timidez e levou a mão até um dos lados separados do cabelo que escorria sobre o ombro, amarrado num laço florido.

Mesmo sem desejar trocar palavras com a jovem, Norman sentiu-se na obrigação de pedir desculpas.

— Não... a culpa foi minha por andar sem prestar atenção.

Passou a mão na cabeça desajeitado, ainda tinha dificuldades em se comunicar com estranhos. Após responder a menina, resolveu prosseguir e esquecer aquele ocorrido.

No entanto seu braço foi segurado por ela antes de conseguir abrir distância.

— Me desculpe! É que eu sou nova aqui, então estou um pouco perdida... queria saber se poderia me ajudar?...

“Por que eu sou tão azarado assim?”, ele virou o corpo até a garota enrubescida, que tentava ao máximo não olhar diretamente para seu rosto.

— O que deseja?

— Então... eu queria ir até o laboratório de ciências. Seria muito incômodo pedir para que me guiasse até lá?

Norman certamente desejava responder que sim, seria muito incômodo interromper sua procura para a guiar. Entretanto a forma na qual ela fez o pedido não o permitiu ter a coragem necessária a fim de responder daquele jeito.

Talvez fosse uma forma de espairecer um pouco a cabeça à milhão.

Com um breve suspiro, o garoto aceitou a solicitação da menina perdida e começou a conduzi-la pelo campus. Contentada em receber a ajuda do universitário veterano, ela projetou um fraco sorriso ao passo que acompanhava seu caminhar apressado.

Em silêncio até cruzar alguns corredores mais fechados, resolveu se apresentar:

— Aliás, me chamo Isabella. Isabella Morgan. – As palavras dela foram ignoradas a princípio. – Qual seu nome, amigo?

— Norman.

A resposta seca a fez abrir levemente a boca.

— Que nome bonito...

Seu murmúrio fascinado trouxe uma encarado do garoto pelo canto dos olhos, o rosto virado por cima do ombro.

Enquanto seguia em frente até o destino determinado pela novata, encarou a tela do celular mais uma vez. Verificou algumas mensagens do grupo que participava com Willian, Helen e Hudson, todos perguntando onde ele tinha ido.

Pensou em responder, mas achou melhor nem as visualizar. Somente conferiu o horário, próximo das seis da tarde, indicando a proximidade da nova matéria no tempo de aula seguinte.

Depois de deixar Isabella no local designado, restaria a decisão sobre como proceder. O alerta natural que indicava a proximidade de um novo marcado foi o ponto decisivo para impedir qualquer prosseguimento padrão por sua parte. Se antes disso foi capaz de perder dois tempos de aula inteiros graças à mente atormentada, retornar à classe sequer era uma opção.

Precisava dar continuidade a sua busca, não perderia a sensação que apertava o peito até encontrar o adversário presente na universidade. Afinal, caso possuísse um poder da magnitude do Marcado de Polaris, o cenário não seria nada agradável.

— D-Desculpe... podemos ir de escadas? – Isabella cortou a linha de pensamento atormentada do garoto. – Não me sinto muito confortável em elevadores...

Norman não disse nada, entretanto aceitou a demanda da garota. Fitar os olhos dela por alguns segundos foi o bastante para constatar a ansiedade estampada no semblante, só por ficar de frente para o transporte fechado.

O rapaz seguiu pelo caminho mais demorado, sem muita pressa subiu os degraus até passar pelos diversos andares superiores. Evitando trocar uma palavra com Isabella, manteve o foco em alcançar o penúltimo piso.

Lá estava o laboratório de ciências que ela tanto desejava encontrar.

— Uah! Muito obrigada! – Executou uma breve mesura em agradecimento. – Agora não vou me esquecer como vir aqui!

— Entendo...

O veterano deu a volta e foi em direção aos elevadores daquele andar. Um deles encontrava-se com a porta aberta e, logo à frente, residia um detalhe brilhante caído no chão. Antes de adentra o transporte, foi até o tal objeto e se agachou para pegá-lo.

“Seria algum sinal de sorte?”, ergueu a moeda prateada com os dedos, os olhos verdes chegaram a brilhar por terem se deparado com a peça metálica valiosa. Por um instante, esqueceu os problemas que assolavam a mente...

No entanto diferente do que havia cogitado ao achá-la sem dono perante um dos elevadores, experimentou um calafrio intenso percorrer a espinha. A sensação assustadora o impediu até mesmo de se virar a fim de conferir o transmissor daquele ar congelante.

Tinha certeza sobre um detalhe: não era Layla.

— Ah, eu me esqueci de te fazer um último pedido! – Era a voz de Isabella que, com um sorriso forçado, completou: – Poderia morrer!?

Antes que pudesse reagir, Norman foi acertado com um poderoso chute nas costas. Voou até colidir com a parede do elevador, a força de impacto causou rebuliço no transporte. E esse movimento brusco foi o responsável por fazer o cabo de tração se romper.

O primeiro solavanco o impediu de sequer tentar levantar o corpo.

O segundo foi definitivo.

Enquanto movia a mão destra em direção a saída, a máquina despencou em alta velocidade ainda com as portas abertas. Por um instante, ele pôde fitar o sorriso feroz da novata, mascarado pelos óculos que refletiam a luz e escondiam as vistas.

Por sua vez, essa acompanhou a queda que causou uma corrente de ar fraca ao redor do corpo, fazendo as separações do cabelo sobre os ombros levitarem. Sem direito a últimas palavras, o jovem foi conduzido ao trágico fim após o impacto da colisão com o térreo se propagar pelos andares da universidade.

 

★★★

 

Layla olhava a tela do smartphone conforme esperava a hora avançar. O entardecer já podia ser visto pelo tom alaranjado que tomava conta do firmamento. Em breve, as estrelas estariam à vista, o cenário perfeito para a observação que realizava todas as noites.

Contudo para que pudesse repetir esse hábito naquele dia, precisaria resolver a situação indefinida na instituição.

“Está quase na hora”, pensou em silêncio antes de voltar a caminhar por um dos extensos corredores abertos.

Após alguns segundos de caminhada, enfim o sinal foi lançado. Do seu peito, o brilho branco-azulado acabou ofuscado pela camisa social escura. Manteve o itinerário como se nada tivesse acontecido, verificava os arredores movendo apenas os globos oculares escuros.

Uma fraca brisa bateu em seu rosto, os fios do cabelo branco amarrado em um rabo-de-cavalo menearem pelo espaço. Foi o último momento de paz antes da proliferação de um ruído destrutivo a alguns metros de onde se encontrava. Diferente de muitos alunos e professores, não se preocupou tanto e prosseguiu na mesma direção.

As vistas semicerradas exalavam concentração, os passos curtos soavam cuidadosos entre a comoção causada pelo barulho estrondoso, propagado por boa parte das edificações.

Passados alguns segundos, a alva alcançou o destino. A pequena ala deserta do grande pátio possuía alguns bancos de madeira branca e oferecia vista para o prédio principal, onde fumaça subia do térreo. Observou o local onde a aglomeração crescia aos poucos até identificar uma presença assassina em domínio de sua retaguarda.

De cima para baixo, um ataque tentou a atingir na cabeça. Como se já esperasse a investida surpresa, girou o corpo com agilidade e puxou uma faca da cintura no objetivo de se defender.

As sobrancelhas do indivíduo arregalaram quando teve o ataque direto bloqueado. As duas lâminas tilintaram durante a colisão, ofuscadas pelo brilho intenso que vinha do dorso daquele membro.  

A garota usou a força das pernas para se livrar da disputa entre as armas brancas, obrigando o agressor a executar um giro mortal no ar antes de cair sobre uma das mesas de cimento, cercada por pequenos assentos idênticos.

O rapaz estalou a língua frustrado por ter sido descoberto antes de concluir seu assassinato, o brilho da marca na parte traseira da mão que portava a faca desapareceu na sequência. Encarando a adversária de cima, recebeu um olhar sereno estampado pela expressão confiante.

— Eu estava te esperando... – ela murmurou ao abrir um sorriso tênue na face pálida. – Marcado de Rígel.

Em resposta às palavras reveladoras de Layla, o garoto franziu o cenho ao contorcer os lábios.

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