A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Thalles Roberto


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 11: Choque – Confronto entre Marcados ⑥

Correndo pelo vazio, a pequena garota tentava alcançar a silhueta que caminhava distante. Arfando durante o único trajeto possível, sua voz executava um chamado específico.

Mamãe!...

A palavra afetuosa se repetia em ecos consequentes, os passos apressados reverberavam pelo espaço. A distância entre as duas começava a diminuir, porém os chamados incessantes não pareciam a alcançar. De qualquer forma, a menina prosseguiu.

No entanto, quando aparentava estar próxima o suficiente para a tocar... um mar de chamas a envolveu repentinamente. O sorriso contente no rosto dela foi substituído por um semblante de terror obscuro ao contemplar o momento.

Mamãe?...

Os olhos estremecidos não conseguiam nem piscar, O corpo paralisado não recebia nenhuma ordem passada pelo cérebro amedrontado. Sem que pudesse esperar, um braço surgiu do pilar de fogo e levou a mão repleta de queimaduras até tocar a lateral de seu rosto.

A sensação calorosa e ao mesmo tempo dolorosa fez o coração da menina disparar prestes a saltar pela boca. A mistura de pesados sentimentos subiu por todo o corpo, sua pele parecia ser queimada ao toque da silhueta no meio das chamas...

 

Com um grito assustado, ela despertou do sonho perturbador, fios de lágrimas escorriam dos olhos castanhos. Se levantou da cama improvisada por um colchão velho no chão, ainda incomodada pelas lesões ósseas no lado esquerdo do corpo.

— Estava tendo um pesadelo, Isabella? – O garoto ao lado, sentado numa cadeira empoeirada, perguntou. – Ainda se lembra daquilo...

Isabella não disse nada a seu irmão, apenas desceu o rosto até os joelhos trêmulos e secou as lágrimas com o dorso das mãos.

Diante à ausência de respostas da garota, Isaac exalou um profundo suspiro antes de se erguer e caminhar até ela.

Ofereceu seus óculos e murmurou:

— Como estão seus ferimentos?...

Ainda em silêncio, Isabella fitou o rapaz com sua visão embaçada pela miopia. Apanhou a armação avermelhada e a arrumou sobre as orelhas. Quando voltou a abrir os olhos, pôde enxergar com perfeição o semblante inquieto exprimido pelo gêmeo.

Só então respondeu sua pergunta:

— Um pouco... ainda sinto dores, mas seu tratamento aliviou bastante, irmão. – Levou a mão até a área trincada na costela. – O que faremos agora? Nosso plano na universidade foi por água abaixo. Também não conseguimos evitar uma tragédia maior...

— Pois é. Essa é a grande Seleção Estelar. Sabíamos que não seria fácil até o fim. – Isaac apoiou o punho na cintura e desviou o olhar. – Teremos uma nova chance, mas a prioridade agora é encontrar o marcado que comandou esse ataque e retirá-lo do jogo.

— Um novo marcado... nem conseguimos descobrir o Áster daquela garota. Aliás, é realmente seguro confiar nela?

— O incidente na universidade envolveu, acima de tudo, pessoas que não tinham nada a ver com a seleção. Ela percebeu que nosso plano em a separar do companheiro visava evitar esse atrito. Em suma, conhecia como ninguém a gravidade da situação.

— Mesmo assim...

— Além do mais, ela sabia. – A continuação de Isaac interrompeu sua irmã. – Desde meu primeiro ataque... não, desde a execução do plano inicial. Ela já sabia sobre tudo.

Isabella engoliu as palavras que pretendia enunciar a fim de rebatê-lo. Imaginar a capacidade de predição da adversária a fez agarrar o lençol sobre as pernas para conter uma súbita aflição.

Com a outra mão, segurou a blusa clara na altura do peito. Isaac a encarou quieto por um instante, parecia ser capaz de experimentar o desconforto da irmã mesmo sem a necessidade de diálogos.

— Você não precisa continuar nisso... sabe disso, né?

Ao questionamento desconfortável do jovem, ela balançou a cabeça para os lados e respondeu:

— Não. Eu prometi que iria te ajudar a alcançar o trono do Rei Celestial. Por nossa mãe, seguiremos em frente até o fim, juntos.

Isaac estreitou as sobrancelhas ao sentir certa comoção soar das palavras gentis proferidas pela menina. Sem objeções, apenas aceitou a dedicação demonstrada por ela. Àquela altura, já estava envolvida o suficiente naquela batalha para não ter outra escolha que não fosse o ajudar.

Embora ciente sobre ela se oferecer daquela forma por pura e espontânea vontade, o marcado experimentava certos incômodos em arrastá-la até tal evento arriscado. Mesmo sendo uma escolhida em conjunto com ele, poderia renegar à batalha e seguir a vida normalmente.

Entretanto, decidiu ficar ao seu lado sem se importar com as circunstâncias. Em prol de respeitar essa decisão, Isaac escolheu não tocar mais naquele assunto. Também em memória de sua mãe, força motriz responsável por fazê-lo buscar o grande trono, contornou as próprias ressalvas e temores.

“Afinal, você é a razão de estarmos aqui... não é, mãe?”, encarou o símbolo da Constelação de Órion no dorso da mão canhota. O destaque ficava para a marcação inferior direita, a estrela responsável por sua marca.

 

★★★

 

Durante o amanhecer, uma van escura estacionou em frente a uma casa de médio porte. Imediatamente após a parada, as portas traseiras foram abertas com força librando os soldados trajados de preto, com capacetes que impediam a identificação, saírem em disparada até a entrada.

Armados com metralhadoras, os cinco homens responsáveis pelas ações assentiram uns para os outros. Um deles levou a mão até a maçaneta dotado de cautela, a girou à esquerda e conferiu que a entrada estava aberta. Sem a necessidade de arrombar, entrou na morada apontando sua arma enquanto era acompanhado pelos demais.

— Como imaginei, eles iriam agir novamente.

De cima de um galho numa das árvores próximas ao local, Isaac observava a nova invasão. Estava de pé ao lado de Isabella, essa sentada com as duas mãos tocando as hastes laterais dos óculos.

“Essa é uma posição privilegiada. Que bom que conseguimos encontrar logo”, o adolescente varreu a área ao redor confirmando a localização obstruída por outros arvoredos e duas residências logo à frente. Nenhum homem adiante conseguiria identificá-los ali.

No entanto, existia uma exceção ínfima capaz de preocupar a garota ansiosa.

— E se o tal marcado estiver com eles? Se a marca dele brilhar, então saberá que há inimigos nas proximidades...

— Ele não irá aparecer. Pelo menos, não agora. – Isaac fechou os olhos por alguns segundos seguindo a explicação. – Num evento de tamanha magnitude como o da universidade ele sequer deu as caras. Com certeza não iria se arriscar ao invadir uma casa.

— Mas, essa não é a casa daquele marcado... Norman, certo? – Relembrou o nome do jovem que chutou para a morte após uma repentina recapitulação.

— Pois é. E pensar que estávamos tão próximos... ele deve ter se tornado um marcado há pouco tempo, mas...

Os comandados do marcado misterioso rapidamente tomaram todos os cômodos da casa silenciosa. Tanto no primeiro andar quanto no segundo nenhum dos dois inimigos foram encontrados. Tampouco pistas sobre o possível paradeiro deles residiam na região.

— Seria bem surpreendente se não fosse óbvio. – Isaac estreitou as sobrancelhas.

— Não estão em casa...

— Eles não seriam tão ingênuos a ponto de esperarem um ataque inimigo assim. De qualquer forma, não acredito que o outro marcado seria tão inseguro para buscar uma resposta fácil de ser traçada. Ele com certeza enviou essas pessoas até aqui com outro objetivo.

— E esse objetivo é... – Isabella encarou o irmão pensativo.

— Atrai-los de alguma forma. Ou então, nos atrair...

Perante a resposta baixa de Isaac, a garota não ficou nem um pouco surpresa acerca do plano inimigo.

“Ele quer o mesmo que nós... um encontro total”, o jovem ponderou com serenidade conforme os soldados adversários reviravam a casa sem acharem nada. “Isso quer dizer que aqueles dois também devem estar cientes disso”, mais uma vez passou os olhos castanhos pelos arredores onde o fluxo de pessoas era quase inexistente àquela hora da manhã.

De fato, se tornaria um encontro total, mas dessa vez a vantagem seria decidida conforme as abordagens escolhidas pelos próprios combatentes. Não mais haveria o fator surpresa da universidade, o que configurava um novo confronto calibrado por todas as vertentes.

— Será o caminho mais simples. Caso consigamos vencer esse embate, ficaremos mais próximos de nosso objetivo. – Isaac estendeu a mão até a garota. – Vamos entrar no joguinho desse marcado.

— Como sempre... meu irmão consegue pensar em tudo.

Isabella respondeu por meio de um fraco sorriso e aceitou seu convite.

Enquanto os dois se preparavam para o início do novo conflito, os soldados armados desistiram de procurar a dupla especial pela casa. Entre resmungos e exasperações, a retirada imediata foi ordenada pelo provável comandante da ação invasiva.

O grupo retornou até a van escura e, sem delongas, o motorista engatou a primeira marcha. Quando o veículo ganhou uma distância considerável da residência invadida, o Marcado de Rígel vestiu uma luva na mão onde o símbolo de Órion estava estampado e concentrou a mente.

Isabella subiu em suas costas lhe abraçando o pescoço para manter-se firme. O rapaz segurou as pernas flexionadas dela, a ajeitou de forma a deixá-la tão confortável quanto ele e saltou do galho resistente. As folhas da copa farfalharam durante o processo. O brilho natural de sua marca foi ofuscado pela peça escura sobre o membro dominante.

Utilizando o poder da Levitação, Isaac iniciou a perseguição contra os inimigos através de um distanciamento favorável. O baixíssimo fluxo de pessoas também colaborou para que pudesse avançar sem medo de ser notado – porém, mesmo se fosse, não faria diferença.

“Então... nos levem até esse marcado, seus malditos”, contraiu as sobrancelhas com força, ainda irritado pela chacina do dia anterior.

Não muito distante, a jovem de cabelo branco observou a passagem de ambos, escondida em um dos arbustos pertencentes ao pequeno quintal de uma das casas no quarteirão.

— Estão se movendo.

— Vamos segui-los também? – Norman se levantou cheio de folhas presas ao cabelo cacheado.

Quando começou a retirá-las por meio de leves tapas na cabeça, a companheira ao lado observou o prosseguimento dos alvos separados e estreitou o olhar pelo caminho retilíneo.

— Essa é a grande chance de sairmos vantajosos nesse confronto. Tudo vai depender do primeiro encontro...

— Primeiro?...

À pergunta do marcado, Layla não disse nada.

 

★★★

 

Enquanto isso, na grande mansão, Levi caminhava pelos corredores sem muita pressa. Seu destino era o quarto obscuro onde Bianca estava desde a noite anterior. Ao chegar lá, destrancou a porta e a abriu com cuidado no intuito de não assustar a menina que devia estar dormindo.

Para o contrariar, ela já estava acordada e logo após a luz do corredor adentrar o cômodo, se arrastou para próxima da parede. Antes de qualquer coisa, o homem observou o prato de comida largado no chão encardido.

— Largou o jantar de novo? Se não comer vai acabar ficando doente. – Apanhou a bandeja com os pratos intocados e se aproximou da cama. – Ah, tanto faz. Vamos. Está na hora.

Num primeiro momento a menina hesitou em segui-lo, mas quando recebeu o olhar afiado dele acabou por fazer o que foi ordenado. Ela caminhou na frente, era controlada pelo simples toque acima do ombro estremecido.

Nenhuma palavra foi trocada entre os dois durante todo o caminho até o salão de estar, onde a saída já estava aberta, defendida pela dupla de guardas armados. Eles prestaram a continência de sempre e, na sequência, o homem de tapa-olho puxou um pequeno rádio no bolso traseiro da calça.

— Lobo Um, na escuta – murmurou próximo a caixa.

Senhor Levi. ­– Uma voz com fundo de estática soou pelo alto-falante. – Estamos retornando da casa dos Marcados, não havia ninguém lá. Câmbio.

— E então? Conseguem identificar alguém em específico os perseguindo?

Conseguimos sentir alguém nos observando durante a invasão, mas não vemos nada de especial agora. – A voz do homem no outro lado da linha demonstrou dubiedade ao afirmar.

— Muito bem, mantenham o percurso até aparecerem próximos da mansão. Câmbio e desligo.

Levi encerrou a comunicação com um de seus soldados e entregou o dispositivo aos guardas de prontidão na retaguarda.

Levou a outra mão até o ombro esquerdo da menina de forma a elevar o peso e a pressão sobre ela. Ao arregalar os olhos trêmulos, ela foi dominada por um ar gelado arrepiar a espinha conforme sentia a aproximação dele até o pé de seu ouvido.

— Muito bem, Bianca... – sussurrou com crueldade – chegou a hora.

— N-não... por favor...

Ela tentou implorar enquanto cerrava os pequenos punhos em prol de não ir aos prantos, contudo, o homem de olho acinzentado pouco se importava com os sentimentos demonstrados por ela.

Apertou seus ombros como se desejasse transmitir uma intimidação ainda maior sobre todo o corpo dela. Era tão grotesco que a garotinha sentia o peito doer. Sufocada da cabeça aos pés, não conseguia trazer o ar para dentro como estava habituada.

Ficou ainda mais difícil resistir, portanto...

“Isso, muito bem”, Levi abriu um sorriso quando experimentou o arrepio pelo, semelhante a ser atingido por uma descarga elétrica.

Do braço direito enfaixado dela, um fluxo de calor intenso pareceu irradiar pelo espaço, contagiando não só o marcado como todos os soldados nas proximidades.

De olhos fechados pelo esforço repentino, Bianca foi dominada pelo completo silêncio... até que a própria mente foi agredida por diversas vozes elevadas.

Em choque, a garotinha caiu de joelhos no chão e levou as mãos até a cabeça que parecia prestes a explodir de tanta dor.

Controle...

Entre elas estava a voz de Levi, a qual lhe ordenava a obter o controle daquele poder assustador. A criança não sentia mais nada além da agonia ao absorver diversos ruídos simultaneamente. No entanto, com o passar dos segundos, foi capaz de identificar duas presenças poderosas se aproximando.

— D-Dois... Marcados... – Tentou gritar, mas para ela soou apenas como um sussurro distante. – Estão vindo... eles querem... te encontrar!...

— Então eles vieram de verdade. – Levi levou a mão sob o queixo e, em seguida, deu um tapa na cabeça da menina derrubada. – Muito bem. Me ajudou bastante, como esperado.

Deixando-a agonizando no solo mesmo depois de as vozes angustiantes serem interrompidas, o marcado caminhou alguns passos curtos até o portão.

Os dois guardas responsáveis pela defesa da mansão seguraram os braços de Bianca para a impedirem de fugir. Enquanto isso, o sorridente comandante contraiu as sobrancelhas e levou a mão esquerda até o tapa-olho escuro com leveza.

“Está na hora”, decidiu finalmente agir por conta naquele momento.

 

Isaac e Isabella ainda mantinham contato visual com a van escura onde os soldados do inimigo estavam. Mesmo com os limites de utilização de seu Áster, o garoto não deixava o encalço do veículo que avançava sem muita pressa pelas pequenas estradas da cidade vazia.

“Por incrível que pareça, ainda posso aguentar bastante para uma eventual batalha”, pensou consigo mesmo conforme alternava entre usar o poder e descansá-lo a fim de prosseguir correndo. Ele não sentia nenhum tipo de fadiga, portanto permanecia no percurso sem problemas.

Agarrada às costas do irmão, Isabella demonstrava um pouco de preocupação sobre o estado dele. Queria trocar um pouco os trabalhos, se pudesse usufruir do Transformismo Animal poderia mantê-los na pegada sem problemas.

“Ele não vai deixar mesmo”, escondeu um fraco suspiro ao pensar na resposta que receberia, baseada nos ferimentos que ela ainda sentia após o confronto na universidade. Por isso, tratou de amaldiçoar Norman, o responsável por lhe causar as fraturas no braço e o trinco na costela.

Voltou a encarar a van a alguns metros de distância. Seus olhos se fecharam por apenas uma vez e, quando voltaram a abrir, o veículo escuro desapareceu de onde estava. Isaac também contemplou o ocorrido inexplicável, suas sobrancelhas ser ergueram até o limite.

— Eles... desapareceram!? – Isabella encontrou dificuldades para enunciar o questionamento que permeava a cabeça de ambos.

O momento bizarro os arrancou a concentração durante segundos cruciais; o veículo literalmente havia evaporado num piscar. A nova surpresa veio logo na sequência quando uma granada sem pino surgiu frente ao caminho da dupla.

Incapazes de pensarem logicamente por conta da sequência vertiginosa dos acontecimentos, os irmãos foram engolidos pela detonação do artefato bélico à queima-roupa.

O pesado som se alastrou seguido por uma violenta onda de choque, as chamas abafadas pela fumaça subiram pelo ar, podiam ser vistas por diversas pessoas num raio de proximidade considerável. Dentre essas pessoas, Layla e Norman estavam incluídos.

— Parece que começou – disse a garota enquanto corria.

O jovem que a acompanhava não proferiu uma palavra, apenas contemplou os resquícios da poderosa explosão bem próximo de onde estava.

As memórias mais recentes retornaram a sua cabeça carregada. Desde a tragédia do dia anterior na universidade até o encontro com Bianca, todo e qualquer tipo de pensamento passou pela cabeça dele, ainda em processo de luto pela perda da família.

“Eu...”, pressionou os lábios e cerrou os punhos ao ser tomado por um misto de emoções. Em silêncio, resumiu-se a ergueu o rosto demonstrando um olhar severo contra o cruel destino que lhe era imposto.



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