A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Thalles Roberto


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 10: Guia do Destino – Confronto entre Marcados ⑤

Quando a polícia chegou no local, o massacre já tinha terminado. Diante das incontáveis vítimas inocentes, as autoridades anunciaram que proveriam assistência emergencial ao caso. Ao menos era esse o esperado.

O paradeiro dos soldados que fugiram era incerto. Além da dor dos familiares que perderam filhos e irmãos na tragédia, restaria o temor de toda uma população sobre qualquer recorrência futura em maior escala.

— O marcado que comandou isso... certamente alcançou seu maior objetivo – Layla comentava conforme fazia curativos nos ferimentos de Norman. – Temos que tomar muito cuidado. Diria que essa pessoa é nosso maior adversário no momento.

Escondido num pequeno beco, o garoto escutava a explicação oferecida pela companheira sem dizer nada. Seu toque suave esbanjava precisão ao fechar os cortes espalhados por braços e torso, o garoto chegava a ficar arrepiado. As dores não seriam desfeitas de uma hora para outra, mas poderia lidar com isso sem empecilhos.

Sua preocupação maior estava direcionada ao contexto geral da nova situação. Serem atacados por Marcados já era um motivo para se inquietar, mas a partir do instante no qual inocentes eram envolvidos... não podia aceitar isso de forma alguma.

— Aliás, onde você arranjou esse kit? – Olhou para a bolsa de primeiros-socorros posicionada ao lado.

— Na sala da enfermaria, antes de você buscar sua amiga. – Layla fez um laço na bandagem que cobria o corte na testa dele e encerrou os trabalhos. – Sinto muito pelo que aconteceu com seus amigos.

Norman agradeceu a parceira pelos cuidados, então abaixou a cabeça com um olhar pensativo. As vidas de Willian e Hudson não seriam repostas e tampouco o estado mental de Helen, única sobrevivente entre os três, retornaria ao normal após presenciar tantos acontecimentos traumatizantes.

E pensar que durante boa parte do conflito esteve desacordado dentro de um elevador. Tudo graças a sua ansiedade e prepotência, responsáveis por levá-lo a ser enganado por uma inimiga, quase terminando morto no processo.

— Se eu tivesse te escutado... se eu não fosse tão impaciente... talvez as coisas pudessem ter sido diferentes. – Cerrou o punho direito com força. – Mas, não podemos alterar o passado, não é?

“Isso mesmo... precisamos seguir em frente”, mordeu o lábio inferior como se desejasse renegar o próprio pensamento.

A garota o fitou por meio de olhos semicerrados. Incapaz de responder a declaração proferida por ele, virou o torso e observou a saída da viela até a pequena rua principal. O fluxo de pessoas era quase nulo, melhor momento para que pudessem seguir em frente.

— Nós não podemos voltar para casa – disse sem olhar para o jovem sentado. – Se o marcado mandou toda aquela tropa para a universidade sabendo que estávamos lá, provavelmente possui informações sobre onde moramos. Dito isso, é melhor... o que está fazendo?

Layla interrompeu o raciocínio ao sentir o braço esquerdo ser agarrado pela mão de Norman. A exemplo dela, o rapaz cortou um pedaço de atadura e enrolou sobre os cortes que possuía naquela parte do membro, próximo ao punho.

“Eu não preciso disso”, ela pensou em falar, mas preferiu aceitar o gesto de preocupação do aliado. Não era tão preciso quanto ela, mas foi capaz de cobrir o ferimento sem muitos problemas.

Após isso, estendeu a mão livre no intuito de fazê-la mostrar o restante dos machucados ganhos no confronto recente. Embora relutante por um momento, cedeu ao pedido dele e assim prosseguiu.

— Obrigada – murmurou, a voz soou um pouco encabulada.

Norman fechou os olhos e soltou um suspiro antes de perguntar, conforme tratava as demais lacerações dela:

— E então, o que devemos fazer agora?

— Não precisaremos nos mover muito. Podemos permanecer escondidos por ora. – Ela levou os olhos escuros até o céu estrelado. – Algo irá acontecer em breve...

O marcado não deixou de fazer seu trabalho, mas sentiu uma leve pontada na espinha ao escutar as palavras finais. A exemplo dos ocorridos principais do confronto entre escolhidos os quais vivenciou, ela parecia ter absoluta certeza quanto as próprias afirmações.

Desejava a questionar sobre tamanha exatidão nas previsões ambíguas, mas antes que pudesse fazer isso...

“O quê?”, da marca na testa, mesmo que novamente enfaixada, o brilho alvo reluziu com fraqueza sobre a roupa escura de Layla. De forma idêntica, a jovem experimentou a manifestação do próprio símbolo no peito esquerdo, esse ofuscado por completo sob a camisa social.

Por sorte, Norman já tinha terminado os curativos na companheira. Ficou atônito ao experimentar a manifestação da Constelação da Águia na área demarcada e acabou por reagir com precipitação ao se levantar ignorando as dores pelo corpo. Um inimigo poderia estar próximo. Talvez a dupla encontrada na universidade tivesse retornado.

No entanto, diferente da reação abrupta tomada por ele, Layla manteve a serenidade no semblante.

Segundos após as marcas cessarem o fulgor súbito, escutaram passos apressados se aproximarem pelo escuro caminho estreito da viela. O jovem se preparou para o combate enquanto a parceira tentou acalmá-lo através de uma batida fraca sobre seu ombro.

Antecipando quaisquer perguntas por parte dele, a resposta chegou logo na sequência.

Surgindo do breu, os passos da pequena garota diminuíram. Cansada de tanto correr, seus olhos verdes pareciam pesados e a respiração ofegante estremecia junta ao corpo. O cabelo ondulado que caía até a altura dos ombros possuía mesma tonalidade da adolescente ao lado.

“Uma criança?”, se perguntou perplexo defronte o encontro inesperado.

A encarou em silêncio durante um tempo, mas a garotinha avançou e lhe envolveu num abraço repentino. Ele ergueu as sobrancelhas, a fulminante ação da menina o fez reagir boquiaberto. Só então pôde perceber o medo acentuado que a dominava por inteiro.

— S-socorro... – ela murmurou por meio da voz rouca.

Norman não encontrou nenhum indício sobre ela também ser uma marcada, entretanto as faixas que cobriam todo seu braço direito até o cotovelo levantaram suspeitas. Procurou não pensar nisso durante o momento que a afagava em seus membros superiores.

Olhou para Layla, essa não executou um gesto sequer. Para a menina ter requisitado socorro daquela forma, deveria ter passado por algo desagradável. Portanto, respirou fundo e venceu a desconfiança interna no intuito de acariciar seus fios ondulados.

— Não precisa ficar com medo... pode nos contar o que aconteceu? – sussurrou ao pé do ouvido dela tentando manter um tom de voz protetor.

— E-eu... ele está... – A garotinha encontrava dificuldades para falar graças aos soluços. – Está... vindo...

O jovem não compreendeu muito bem o significado da resposta deturpada, então buscou confirmar com a companheira ao lado. Além de não dizer nada a respeito, Layla sequer prestava atenção nos dois – suas vistas estreitas miravam o caminho escuro do beco.

Norman não teve outra escolha que não fosse seguir aquela linha de visão. Novos passos, dessa vez mais pesados, puderam ser escutados. Apesar de lentos, pareciam se aproximar rapidamente. Os dois marcados pregaram cautela até a aparição do homem esguio através da escuridão.

— Oh, aí está você, Bianca – ele falou ao projetar um sorriso fraco.

Buscou se aproximar à menina estremecida, contudo ela afundou o rosto contorcido de medo no peito do garoto agachado. Tal atitude respondeu alguns dos questionamentos reunidos por ele, o fazendo elevar a atenção frente ao indivíduo que usava um tapa-olho escuro sobre a vista esquerda.

— Você é algo dessa menina? – Apertou o abraço sobre a garota.

— Sim, sou o irmão mais velho dela. Me perdoe pelo incômodo, ela acabou se perdendo enquanto andava por aqui. – O indivíduo levou uma mão ao joelho flexionado e estendeu a outra na direção deles. – Venha, Bianca. Vamos voltar.

Mais uma vez a resposta da garotinha foi a de permanecer agarrada no rapaz. Apesar dos pesares, ele já carregava uma desconfiança gritante quanto ao homem desconhecido. Mesmo dizendo ser irmão dela, manteve a defensiva baseado em alguns detalhes superficiais.

Nada neles era parecido. O cabelo dele era liso e tinha coloração castanho-médio, a única similaridade era o fato de as pontas tocarem os ombros. A cor de sua pele era morena e o olho direito, o único a mostra, possuía tonalidade acinzentada.

Apesar disso tudo, a maior prova a ser considerada era...

— Pela reação dela... parece que não está muito segura em fazer o que pede.

Quando o olhar afiado do rapaz se ergueu em sua direção, o homem franziu as sobrancelhas com cuidado. Soltou um forte suspiro e abriu os braços enquanto balançava a cabeça para os lados.

— Imagino... ela é bem dramática assim mesmo. Mas realmente precisamos voltar. Ouviu, Bianca? – De repente, o tom de voz se tornou ainda mais grave que o normal. – Isso é... uma ordem.

Norman paralisou ao sentir uma aura maligna irradiar daquela pessoa, assim como a garotinha que começava a reunir lágrimas no canto dos olhos. Quando moveu o braço esquerdo até a direção do tapa-olho, ela repentinamente se soltou do garoto espantado e retornou a seu lado através de passos apressados.

O homem forçou um sorriso quando o pedido foi concretizado, então relaxou o membro estendido na direção da proteção ocular.

— Viu só? É só insistir um pouquinho...

Tudo pareceu voltar ao normal.

De alguma forma, o marcado percebeu o próprio oxigênio desaparecer durante o momento veloz. Diante o desfecho, enfim pôde respirar de novo. A própria Layla, calada até então, exprimiu um semblante estarrecido em direção àquele indivíduo.

Já Bianca, mesmo contra sua vontade, ficou junta do tal irmão mais velho. Com a cabeça abaixada de forma a tampar as vistas marejadas com a franja do cabelo ondulado, agarrou a calça escura trajada por ele.

— Obrigado por cuidarem dela. Devemos voltar para casa antes que seja tarde... vamos, Bianca. – Ele empurrou o ombro da menina.

Os dois retornaram pelo mesmo caminho do beco escuro no qual atravessaram em sequência. Segundos após desaparecerem da visão dos dois jovens, a pressão colossal evaporou por completo.

Norman poderia cair no chão tamanha a aflição que havia penetrado seu corpo, porém conseguiu se erguer ao lado da soturna companheira. Ele nem precisava a questionar; já tinha compreendido a verdadeira situação na qual acabava de experienciar.

Mesmo assim, almejava qualquer confirmação...

— Layla, isso foi...

Perante o silêncio inicial da garota, a encarou através das vistas arregaladas. Ela refugou por um instante, mas resolveu se pronunciar em seguida...

— Fomos sortudos agora. – As palavras dela tiraram um semblante dúbio do jovem. – O espaço inteiro o favorecia. Caso você tentasse o afligir, poderia ter sido morto por aquele homem sem ter oportunidade de revidar.

A confirmação absoluta sobre o estranho indivíduo do tapa-olho ser um marcado foi uma ducha de água fria para o rapaz que engoliu em seco. Apesar da sensação extrema, não tinha noção exata do perigo vivenciado até escutar as palavras da aliada.

Dessa forma, com o primeiro caso sendo esclarecido...

— E aquela menina? A Bianca também... – Norman observou o movimento fraco de cabeça da companheira e não completou o restante da pergunta.

— Isso pode ser muito ruim...

Foram as únicas palavras que Layla conseguiu murmurar para encerrar a discussão. Pelo menos por enquanto...

 

★★★

 

— Bem-vindo de volta, senhor Levi! – Dois homens trajados de preto prestaram continência ao homem de tapa-olho enquanto guardavam os portões da enorme mansão.

Junto dele, a garotinha amedrontada seguiu o caminho da entrada ao local fortificado por diversos soldados idênticos aos que causaram o ataque na universidade. Sem dizer uma palavra, Levi entrou em seus aposentos.

Fora do alcance dos olhares alheios, segurou com força o braço enfaixado da menina e a arrastou pelos interiores da grande morada. Atravessou corredores semelhantes a labirintos, mas não sentiu dificuldades em acertar o caminho até um dos quartos mais isolados do lugar.

Abriu a porta com um chute poderoso e lançou a criança até sua pequena cama de forma agressiva. Trêmula de medo, Bianca levou as mãos à cabeça e afundou a testa no colchão macio conforme derramava lágrimas copiosas.

— Você realmente é incrível... conseguiu fugir com uma brecha minúscula. Mas achou que eu não ia te encontrar? Mesmo com seu Áster irritante? – Levi apontou o indicador a ela, seu olhar era impiedoso. – Não se esqueça que estou fazendo um favor a você. Não há nenhuma outra pessoa que possa te proteger a não ser eu. Não há nenhuma outra pessoa que possa extrair seu potencial máximo que não seja eu...

— Desculpa... desculpa...

Bianca repetia de forma incessante os atos de clemência, uma resposta que tirou toda a vontade restante do homem em atormentá-la.

— Mas, a sorte deles realmente foi você. Não queria arriscar em causar um alvoroço desnecessário após o que aconteceu hoje naquela universidade. – Levi caminhou pelo quarto escuro até se sentar ao lado da garota sobre o móvel. – Eu perdi bastantes homens, mais do que o esperado. Fiquei tão perto de matar aqueles marcados, mas não foi suficiente...

Após o homem repousar no colchão, Bianca engatinhou desesperada até a parede gelada e encolheu o pequeno corpo a fim de se proteger dele. A atitude dela o obrigou a soltar um forte suspiro, embora sem reclamações intercaladas.

Levou uma das mãos até a cabeça e permaneceu pensativo durante alguns segundos. De fato, sua situação poderia estar melhor após tamanho esforço depositado ao massacre da instituição. No entanto, não enxergava a si mesmo em posição de protestar. Comparado ao que a garotinha conseguiu fazer mais cedo, aquilo não era nada...

— O destino é engraçado. Fomos escolhidos para um evento inacreditável, ganhamos poderes que podem mudar vidas... tudo em prol de alcançarmos o tal topo do Cosmos. – Ergueu a mão direita na direção do teto. – É tudo que eu sempre desejei, desde aquele dia. Enfim posso seguir em frente sem medo de errar até alcançar o Santo Graal. Por isso, preciso retaliar todas as ameaças que surgirem.

Voltou a abaixar o braço, seu olho acinzentado que parecia não possuir luz alguma se virou até a traumatizada garotinha no canto da cama.

— E mesmo assim, você insiste em ser desobediente. Mesmo ao ser protegida por mim, como prometido. Mesmo com as garantias de que possa seguir em frente até o grande prêmio comigo... isso é um pouco doloroso, sabia?

Bianca sequer tinha coragem para encarar o homem que soltava palavras fracas em sua direção.

Sem ter qualquer indício de respostas dela, ele se levantou e caminhou de volta a saída, o único local por onde uma fonte de luz se proliferava cômodo adentro.

— A culpa é toda sua... – Olhou por cima do ombro antes de sair. – Cedo ou tarde isso acabaria acontecendo, mas por sua culpa eles serão mortos sem que você possa fazer absolutamente nada.

Levi fechou a porta com força. A partir daquele instante, Bianca estava solitária no frio cômodo obscuro onde apenas os soluços de seu choro intenso reverberavam pelo completo silêncio.

Fechou os olhos incapaz de impedir as lágrimas de descerem. O coração estava disparado, o frágil corpo tremulava com demasia, a voz embargada não conseguia ser empurrada pela garganta fechada.

— Por... favor... – murmurou ao abraçar os próprios braços num ato de sofrimento gritante. – Alguém... me ajude...

Ninguém podia receber seu pedido. As palavras sufocadas se perderam pelo espaço claustrofóbico sem jamais terem a chance de ultrapassarem a porta trancada logo à frente.

Restava apenas se agarrar a imagem da única pessoa capaz de afagar seu coração arrasado.

— Mamãe...

Chamou por aquela que, mesmo não estando ali, poderia confortá-la em meio a desesperança. 



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