A Senpai Coelhinha Japonesa

Tradução: Sakuta 404

Revisão: Levi


Volume 14

O sonho de uma amante da imitação

Fico feliz por ter te encontrado.

Mas eu não enxergo as coisas assim.

Minha alma gêmea já não está mais por aí.

Mas todas as canções de amor que ouvimos dizem exatamente a mesma coisa.

Nós vamos nos encontrar de novo.

Não tenha medo de se perder.

Levante-se, escancare aquela porta, dê um passo lá fora.

Mas o futuro não é garantido.

Amanhã, eu estarei sozinha de novo…

E mais uma vez.

Sem ninguém para dividir as coisas.

Esse vazio oco no meu peito.

Se eu tiver que me sentir assim…

Eu queria nunca ter te encontrado.

 

— Touko Kirishima, “Vire o Mundo de Cabeça Para Baixo”

 

1

 

Um dia, Sakuta Azusagawa correu atrás de uma coelhinha selvagem e acabou vagando por um mundo muito estranho.

 

1º de abril.

 

Eles embarcaram em um trem expresso da Linha Minatomirai na Estação de Yokohama, e não demorou muito para chegarem à próxima parada, a Estação Bashamichi.

 

Esperaram as portas se abrirem e seguiram o fluxo de passageiros descendo. Mais pessoas saíram pelas outras portas, e a plataforma subterrânea, marcada por suas paredes de tijolos, ficou lotada em um mísero instante.

 

Era um público jovem, variando do ensino fundamental até o meio dos vinte e poucos anos. A maioria já tinha idade o bastante para estar, no mínimo, no ensino médio. Quase o mesmo número de garotos e garotas.

 

“Todo mundo tá indo pro festival de música,” disse a companheira de Sakuta.

 

Ele virou o rosto para olhar Ikumi Akagi.

 

“……”

 

“O que foi?” ela perguntou, percebendo o olhar silencioso.

 

“Só pensando em por que eu tô num encontro com você, Akagi.”

 

Eles tinham se encontrado na Estação de Yokohama, na ponta da plataforma da Minatomirai. Bem na frente.

 

“Eu te convidei, e você não disse não,” Ikumi respondeu sem nem piscar — ela sequer havia olhado para ele.

 

“Eu não disse não porque foi você que pediu,” ele disse, voltando a olhar para frente.

 

“Mesmo você tendo uma namorada maravilhosa.”

 

De novo, o tom dela permaneceu neutro. As palavras provavelmente eram uma piada, mas ela estava tão séria que era difícil ter certeza.

 

“Eu sei que você tá curiosa sobre aquele sonho, Akagi.”

 

Esse era o motivo pelo qual ele tinha aceitado o convite dela.

 

“Assim como todo mundo aqui,” Ikumi disse. Sakuta percebeu que, por trás dos óculos, os olhos dela observavam os jovens se acumulando nas escadas rolantes.

 

Quase todos estavam indo para o mesmo lugar.

 

A uns dez minutos a pé da Estação Bashamichi ficava o Red Brick Warehouse, à beira-mar — um ponto turístico famoso de Yokohama, famoso por ser um clássico destino de encontros.

 

Hoje, esse lugar seria um festival de música.

 

“Isso explica essa multidão toda.”

 

A teoria de Sakuta e Ikumi logo se confirmou graças ao grupo de garotas do ensino médio à frente deles.

 

“Mal posso esperar por esse festival!”

 

“Aquilo do #sonhando? Será que vai ter revelação ao vivo?”

 

“Com certeza! Eu até sonhei com isso!”

 

“Mai Sakurajima é a Touko Kirishima? Isso é loucura! Já tô surtando.”

 

Todo mundo estava esperando o anúncio da Mai.

 

Queriam ver se seus sonhos iam se concretizar, torcendo para que o futuro acontecesse exatamente como o #sonhando dizia.

 

Conversas parecidas rolam atrás deles, ao lado deles, por toda a plataforma.

 

O mesmo sonho estranho que o próprio Sakuta tinha visto.

 

No sonho, Mai subia ao palco e cantava uma música da Touko Kirishima — com força, sem hesitar. Depois dizia, sem rodeios: “Eu sou Touko Kirishima.” E o público enlouquecia.

 

No sonho de Sakuta, ele saía no meio do show para ligar para Ikumi. No celular…

 

Enquanto isso, Ikumi tinha sonhado que recebia uma ligação do Sakuta.

 

Por isso ela estava “curiosa”.

 

“Bem coisa sua, Akagi, querer confirmar com os próprios olhos.”

 

“Se as coisas acontecerem como no sonho e eu não estiver com você, quem vai se complicar é você, Azusagawa. Você nem tem celular.”

 

O tom dela continuava perfeitamente neutro.

 

“Já que isso não vai acontecer, não tem com o que se preocupar.”

 

O sonho não era real.

 

Sakuta sabia disso.

 

Ele sabia que Mai não era Touko Kirishima.

 

Ela mesma tinha dito que subiria no palco do festival para negar isso claramente, de forma que não restasse dúvida.

 

Como a escada rolante estava lotada de gente comentando a teoria de que Mai Sakurajima é igual a Touko Kirishima, Sakuta preferiu subir as escadas vazias em direção à saída.

 

Ikumi seguiu sem reclamar.

 

Um andar acima, nos portões de saída, eles foram recebidos por um teto abobadado. Uma câmara subterrânea iluminada em laranja pelos tijolos ao redor.

 

Um design elegante, ao mesmo tempo moderno e retrô.

 

O tema dos tijolos continuava pelo saguão além dos portões, e os olhos de Sakuta seguiram as colunas de tijolo subindo pelo átrio. Era estiloso, combinando perfeitamente com o nome da estação, que significava “estrada de carruagens”.

 

Seguindo as placas para as saídas de superfície, eles ouviram o som de um piano ecoando do átrio acima. Um pequeno grupo se formava um andar acima; Sakuta não conseguia ver muito dali, mas provavelmente olhavam para um piano de rua — de lá vinha a música.

 

Sakuta reconheceu a melodia.

 

Provavelmente todos ali reconheceram.

 

Era uma música da Touko Kirishima, a mesma que Mai tinha cantado no sonho de todos.

 

A pessoa tocando aquele piano provavelmente também tinha tido o mesmo sonho que Sakuta.

 

Enquanto ele pensava nisso, o casal universitário à frente começou a falar sobre Mai Sakurajima.

 

“Ela era incrível mesmo quando criança.”

 

“Aquele drama matinal? Minha mãe era viciada. Sempre com aquela mochila vermelha — tão fofa.”

 

“Sim, eu lembro! Bate até nostalgia.”

 

Sakuta e Ikumi ouviram cada palavra. Ikumi lançou um olhar para ele, provavelmente imaginando como era escutar pessoas falando da própria namorada.

 

O casal, claro, não tinha a menor ideia de que o namorado dela estava bem ali, ouvindo tudo.

 

Sakuta achou aquilo engraçado e precisou segurar a vontade de rir.

 

Mas, um instante depois, algo vermelho chamou sua atenção no canto do olho.

 

Um andar acima, visível pelo átrio.

 

No corredor onde o piano de rua deveria estar.

 

Uma garotinha com uma mochila vermelha atravessava a multidão. Ela se movia rápido, sem diminuir o passo.

 

“……?”

 

O passo dele vacilou, distraído por aquela cena esquisita.

“Conhecida sua?” Ikumi perguntou.

“A… Mai da mochila vermelha…”

 

Vista de costas, com o cabelo comprido balançando — exatamente como o casal tinha descrito. Era exatamente assim que Mai parecia quando fazia aquele drama matinal.

 

“A mochila vermelha…?”

 

Ikumi seguiu o olhar dele, mas isso não esclareceu nada para ela. Pouco depois, a garota da mochila desapareceu no meio da multidão.

 

“Da época da escola. Você viu, né?” ele perguntou, confirmando.

“Desculpa, não vi.” Ikumi balançou a cabeça. “Tem certeza que não foi coisa da sua cabeça?”

“Não pareceu. Vou ter certeza.”

 

Um medo profundo, sem explicação, empurrou Sakuta para a frente. Ele avançou, passando pelo casal universitário.

 

“Espera, Azusagawa!” Ikumi chamou, mas ele a deixou para trás, subindo as escadas correndo até o andar de cima.

 

Nenhum sinal da garota da mochila.

 

“Mai Sakurajima já era linda quando era atriz mirim. Esses dias, achei um comercial antigo dela online…”

“O do carro?”

“Esse mesmo!”

 

Perto do topo da escada rolante, algumas universitárias estavam reunidas ao redor de um celular.

 

Todo mundo estava falando da Mai hoje.

 

Ela era a única pessoa que ocupava a cabeça de todos.

 

“E aquele estirão que ela deu de repente!”

 

Ele nem estava tentando ouvir, mas seus ouvidos captavam tudo assim mesmo.

 

Então, ele viu outra mochila vermelha perto da saída 6 — a mais próxima do Red Brick Warehouse. A garota virou o corredor e sumiu.

 

“……?”

 

Sakuta deu um passo na direção dela, mas hesitou. Algo estava estranho.

 

Ela era bem mais alta do que a menina de antes. Quase da altura que tinha agora. Até o jeito que caminhava parecia mais maduro.

 

Ela tinha crescido.

 

Pelo menos, aos olhos de Sakuta.

 

“O que…?”

 

A confusão dele só aumentava.

 

“Achou ela?” Ikumi perguntou, alcançando-o.

 

Mas ele não conseguiu responder.

 

De certo modo, tinha achado.

 

Mas não era a mesma garota da mochila que ele tinha seguido primeiro.

 

Ele tinha encontrado uma versão visivelmente mais velha.

 

Sakuta não fazia ideia do que estava acontecendo.

 

E não sabia como explicar isso para Ikumi.

 

Mas ver a garota de novo o convenceu de que ela estava realmente ali — não era ilusão, nem imaginação.

 

Isso deixava apenas uma opção.

 

“Era mesmo uma versão passada da Mai. Fica de olho, Akagi.”

 

Dizendo isso, Sakuta saiu correndo, na esperança de encontrar a garota da mochila. Ele se espremeu pela multidão, seguindo até a saída que ela tinha usado. Depois, subiu as escadas para o mundo exterior.

 

Na superfície, foi recebido pelo céu azul-claro da primavera.

 

Passava um pouco das três.

 

Mesmo em plena luz do dia, a corrente de pedestres formava um fluxo contínuo, caminhando calmamente pela rua de tijolos que levava ao mar. Até o Red Brick Warehouse.

 

Sakuta apertou os olhos procurando na multidão, mas não viu nenhuma mochila vermelha.

 

Enquanto olhava para os dois lados, as pessoas passavam por ele sem parar. Ele ouviu os passos de Ikumi correndo atrás.

 

Passaram por um restaurante antigo de carne cozida, depois por um hotel do outro lado da rua, e por uma ponte. Ele acabou parado num sinal vermelho no cruzamento adiante — bem em frente ao Yokohama World Porters, outro ponto popular de encontros.

 

“Uh, Azusagawa,” Ikumi disse, analisando os arredores.

 

“O que foi?” ele perguntou, varrendo tudo com o olhar.

 

“Se a Sakurajima estivesse aqui, todo mundo perceberia.”

 

Ela olhou diretamente nos olhos dele.

 

E ele sustentou o olhar.

 

“Verdade. Você tá certa…”

 

Ela tinha razão.

 

Todo mundo estava falando sobre Mai Sakurajima.

 

Se Mai estivesse andando por ali, bem debaixo do nariz de todo mundo, com certeza iriam notar na mesma hora. Mesmo que não fosse a Mai atual, mas a versão criança — ela já era conhecida desde aquela época. Muita gente conhecia a Mai de agora. E praticamente todo mundo conhecia a Mai atriz mirim.

 

Não tinha como passar despercebida.

 

“Mai Sakurajima é muito fofa.”

Alguns universitários atrás dele, esperando o sinal, conversavam.

“Comprei o photobook dela no fundamental.”

“Aquele que esgotou tão rápido que sumiu das lojas?”

“Vi o filme também. O da condição cardíaca.”

“Primeira vez que chorei no cinema. Até peguei uma carteira de doador.”

“Eu também!”

 

Eles caíram na risada.

 

O sinal ainda estava vermelho. Carros passando rápido. Do outro lado da rua, outro grupo de jovens esperava — e uma garota passou atrás deles.

 

Idade de ensino fundamental II.

 

Descalça, num vestido branco.

 

Sakuta reconheceria ela em qualquer lugar.

 

Era a Mai antes de ele conhecê-la. Parecia ter saído direto do filme do qual aqueles universitários tinham acabado de falar.

 

A Mai do vestido branco estava indo em direção ao Red Brick Warehouse. Cada passo a aproximava mais.

 

“Outra…?”

 

O cérebro dele não estava acompanhando o que os olhos viam. Saiu quase como um resmungo.

 

“Ela tá aí?”

“Do outro lado da rua.”

 

Ele apontou para a garota de vestido branco, mas Ikumi apenas apertou os olhos, sem conseguir ver nada.

 

O sinal ficou verde.

 

A multidão começou a andar.

 

“Desculpa, Akagi, vou na frente.”

“Ei, espera—”

 

A multidão do outro lado começou a avançar também. Quando os dois fluxos se encontraram, tudo o que ele conseguia ver eram as pessoas ao redor.

 

Sakuta se esgueirou entre elas e conseguiu atravessar — mas, nesse ponto, a Mai de vestido branco já tinha sumido.

 

“O que está acontecendo…?”

 

O pensamento escapou em voz alta.

 

“Sério?”

 

Como se dizer uma vez não bastasse, murmurou de novo — e acelerou o passo em direção ao armazém.

 

Ele não sabia por quê.

Não sabia o que estava acontecendo.

Mas ele sabia que tinha algo de errado acontecendo.

E isso o deixava inquieto.

 

Ele tinha visto a Mai uma vez — precisava encontrá-la de novo.

A garota da mochila ou a adolescente de vestido branco — ele não queria que nenhuma delas trombasse com a Mai real.

Se elas também eram a Mai, então não poderiam existir ao mesmo tempo.

 

Ele já estava quase no Red Brick Warehouse.

 

Mai se apresentaria naquele festival. Isso significava que ela já estava lá.

 

Olhando a multidão, Sakuta avançou.

 

Nenhuma garota com mochila vermelha.

Nenhuma garota de vestido branco.

 

Não tinha visto mais nada até chegar ao Red Brick Warehouse.

 

Os dois prédios de tijolos se erguiam dos dois lados dele.

 

O espaço entre eles normalmente era aberto ao público, mas hoje estava cercado — e já lotado de gente para o festival.

 

Lá no fundo, uma banda de rock tocava. O público parecia estar se divertindo como nunca, todos se empurrando e vibrando. Sakuta sentia a energia até pela sola dos pés.

 

Era definitivamente o festival de música.

 

Sakuta entrou na fila perto da tenda branca de recepção, indo em direção à entrada.

 

Dois caras na casa dos vinte chegaram atrás dele.

 

“A garota que conheci naquele encontro estudou no ensino médio com a Mai Sakurajima.”

“Sério? Como ela era?”

“Gosta de coelhos.”

“Mesmo?”

“A capinha do celular e o grampo de cabelo eram de coelho.”

“Ideal. Ela gosta de coelhos e eu gosto de garotas-coelho.”

 

(N/T = notas do tradutor) 

(N/T: Sakuta: eu também Kkkkkk amo KKKKK)

 

“Só nos seus sonhos,” o amigo disse, rindo.

“Você não queria ver a Mai Sakurajima de garota-coelho?”

 

(N/T: Sakuta: todos queremos!)

(N/R: Levi: Eu lembrei da fala do Thanos "E depois disso? Eu descansaria finalmente, veria o sol nascer e um universo agradecido")

 

“Você é obcecado. É a Mai Sakurajima! Ela nunca usaria isso!”

 

Os dois caíram na risada. A recepcionista chamou: “Próximo”.

 

Quando Sakuta se aproximou do balcão, viu duas orelhas cortando a multidão — orelhas de coelho surgindo acima das cabeças. Inconfundíveis: eram orelhas pretas de um traje de bunny girl.

 

Elas subiam e desciam, para lá e para cá.

 

Por uma fresta entre as pessoas, Sakuta conseguiu enxergar um rosto conhecido e um macacão preto de coelhinha.

 

Exatamente como ele lembrava.

 

O dia em que tinha encontrado a Mai pela primeira vez.

 

O coração dele deu um salto.

 

“Posso ver seu ingresso?”

“Ah—claro.”

 

A funcionária o apressou, e ele procurou o bilhete.

Ela lhe entregou uma pulseira — prova de entrada.

 

“Mostre isso ao segurança se sair e quiser voltar.”

“Beleza.”

 

Ele já estava entrando.

 

Olhou para a esquerda e para a direita, mas só enxergava a multidão.

 

Era impossível enxergar mais do que alguns metros.

 

Ele se esticou, procurando as orelhas.

 

Ela tinha ido na direção do armazém menor. Ele seguiu por lá, esperando ver as orelhas de novo — e finalmente as encontrou, uns vinte metros à frente.

 

“Ali!”

 

Ele tentou diminuir a distância, mas naquela multidão velocidade não existia. Ao desviar de alguém vindo pela direita, quase trombou com a pessoa da esquerda.

 

Mas as orelhas de coelho pareciam não ter esse problema — continuavam avançando, cada vez mais longe.

 

Ninguém parecia perceber.

 

Mesmo com praticamente todo mundo ali para ver a Mai Sakurajima.

 

E a Mai andando por aí vestida de bunny girl…

 

Ninguém percebeu quando a garota-coelho desapareceu na sombra do prédio de tijolos.

 

Claramente, só Sakuta conseguia vê-la.

 

Ele finalmente saiu da aglomeração perto da entrada e correu em volta do prédio atrás dela.

 

Era o estacionamento da equipe. Por causa do festival, vários ônibus de turnê estavam alinhados. Uma área restrita, só para os artistas.

 

Naturalmente, havia uma cerca retrátil montada para manter a multidão afastada, e a cerca também o mantinha afastado. Havia cinco ou seis seguranças de olho.

 

A garota-coelho passou direto por eles.

 

Ninguém tentou pará-la.

 

Ela seguia com propósito, como se soubesse exatamente para onde estava indo.

 

Sakuta tentou seguir atrás, mas um segurança corpulento o barrou.

 

“Área exclusiva para a equipe, entrada não permitida.”

 

A cerca tinha apenas a altura da coxa. Ele até poderia saltar por cima. Mas, se fizesse isso, os seguranças o derrubariam. Não parecia uma boa ideia.

 

 “Eu… conheço pessoas aqui” — ele disse, mas não tinha nada para completar a frase. O olhar que recebeu foi claramente de desconfiança, e seus olhos vagaram nervosos. Mas esse olhar perdido acabou encontrando um rosto conhecido. 

“Ah, Hanawa!”

 

A gerente da Mai estava ao telefone a uns dez metros dali — Ryouko Hanawa.

 

Ela se sobressaltou ao ouvir seu nome, virou-se para ele e pareceu surpresa ao vê-lo ali.

 

Terminando a ligação, veio até ele.

 

 “O que foi agora?”

 

 “Só preciso falar com a Mai rapidinho.”

 

 “Sobre o quê?”

 

 “É importante!”

 

A garota-coelho ainda caminhava pela área da equipe. Aquele belo dorso claro. O rabinho redondo acima dos quadris. Pernas longas e finas. Os saltos batendo no chão.

 

 “Então use isso.”

 

Talvez impressionada pela urgência na voz dele, Ryouko tirou um crachá de equipe do bolso. Ele colocou o cordão no pescoço e saltou a cerca.

 

 “Onde ela tá?”

 

 “Lá atrás, no ônibus dois.”

 

Ela olhou na direção dos dez ônibus de turnê.

 

Era tudo que ele precisava. Gritando um “Obrigado!” por cima do ombro, Sakuta disparou pela área da equipe.

 

Ele voltou a seguir a garota-coelho.

 

Ela desapareceu na curva entre dois ônibus.

 

No mesmo que a Mai estava.

 

Um instante depois, Sakuta mergulhou na passagem entre os veículos.

 

 “Mai!”

 

Ele já chamara o nome da namorada inúmeras vezes antes, mas gritou novamente enquanto corria até a porta.

 

 “MAI!”

 

Mais uma vez ao subir no ônibus.

 

Ela respondeu rápido.

 

“Sakuta?”

 

Ela colocou a cabeça para fora, por trás de um dos assentos no fundo, com uma expressão de surpresa e confusão.

 

“Aconteceu alguma coisa?”, ele perguntou, correndo pelo corredor e checando cada assento em busca da garota-coelho.

 

Não encontrou nada.

 

Só estavam Mai e Sakuta ali.

 

 “Tipo o quê?” - Mai perguntou, levantando-se.

 

Ela estava com o figurino completo, mas ele não estava em condições de apreciar isso.

 

 “Eu vi a Mai versão coelhinha.”

 

Só para ter certeza, ele se virou, revistando o interior do ônibus mais uma vez. Olhou no banco do motorista para confirmar que ninguém estava lá. Checou a penteadeira. Até abriu a geladeira.

 

Tinha examinado todos os assentos (e embaixo deles também), mas não havia ninguém.

 

Apenas ele e Mai naquele ônibus.

 

 “Juro que ela entrou aqui.”

 

 “Eu não vi nada. Ryouko saiu para atender o telefone, e aí você entrou.”

 

 “No caminho da estação até aqui, também vi a Mai da mochila vermelha e a Mai do vestido branco — sabe, do filme da condição cardíaca. Não é algo fácil de confundir.”

 

Ele achava difícil dizer que era imaginação sua.

 

Mas o fato era que só os dois estavam ali.

 

 “Mai, você tem certeza de que nada está errado?”

 

 “Absoluta.”

 

 “Certeza mesmo?”

 

 “Você tá bem, Sakuta?”

 

Ela se moveu devagar em direção ao banco do motorista, com uma expressão preocupada.

 “Nadinha bem. Mentira, eu só tô meio….. meio…”

 “Eu tô bem.”

 

“Mesmo?”

 

Quando ela perguntou de novo, só para confirmar, ele repensou.

 

Ele conseguia ver seu próprio rosto refletido nos olhos da Mai, e parecia realmente abalado. Agora entendia por que ela estava preocupada. Talvez ele realmente estivesse a deixando preocupada.

 

“...” 

 

“Hm, Mai…”

“O quê?”

“Você pode dizer não se quiser, mas… eu posso ganhar um abraço? Pufavô…”

“Bem, tudo bem. Vá em frente!”

 

Mai levantou os braços, meio provocando.

 

Sakuta aceitou o convite, deu um passo à frente e passou os braços pelos ombros e pelas costas finas dela.

 

“Minha figurinista vai me matar se você amassar alguma coisa.”

 

Ele se conteve para não apertá-la fortemente.

 

Mas ainda estavam perto o bastante para que ele sentisse o coração dela. O calor dela. A respiração dela em seu ouvido. Ela se apoiou nele só o suficiente para que ele sentisse o peso do corpo dela.

 

“Você gosta mais de mim aqui e agora do que da minha versão da mochilinha, né?”

“Com certeza.”

“Gosta mais dessa eu do que da eu de vestido branco de antigamente.”

“Naturalmente.”

“Gosta mais de me abraçar assim do que daquela garota-coelho.”

“Essa é difícil.”

“Se você ainda consegue fazer piada, então está bem.”

 

Mai empurrou o peito dele, sinalizando o fim do abraço.

 

Mas Sakuta não soltou.

 

Ele ainda não estava pronta

“A melhor Mai é você me abraçando usando uma roupa de coelhinha.”

“Se isso fizer você parar de ter alucinações, talvez eu considere.”

“Estranho. Era pra eu ser o preocupado com você.”

 

Como é que ela virou o jogo?

 

“Bom, então acho que vou só apreciar esse vestido lindo.”

 

Decidindo que já tinha segurado por tempo suficiente, Sakuta finalmente a soltou.

 

“Faça isso”, ela disse, mostrando um sorriso travesso. O figurino de palco dela estava realmente bonito.

 

Um anúncio soou nos alto-falantes lá fora.

 

“Atenção, público do festival. Sakuta Azusagawa, de Fujisawa, sua amiga está esperando por você. Por favor, dirija-se à entrada principal. Eu repit—”

 

“Estão chamando você.”

“Isso é tão a cara do Akagi!…”

 

2

 

Ele encontrou Ikumi na recepção, e os dois foram até as barracas de comida enquanto o céu escurecia. Os armazéns estavam banhados por luzes alaranjadas. O palco do festival de música ficava de frente para a água e, do outro lado, eles tinham uma boa vista das luzes dos navios de cruzeiro ancorados no Píer de Osanbashi.

 

Já estava quase na hora do show da Mai, e a multidão só crescia.

 

Meia hora antes do horário marcado, estava tão lotado que eles mal conseguiam ver alguns passos adiante.

 

“Tem ainda mais gente do que no sonho.”

Ele não conseguia estimar números exatos, mas parecia ter três vezes mais pessoas do que no sonho.

 

O espaço diante do palco principal não comportava tanta gente, e o público começava a transbordar para a área destinada ao segundo palco (no lado oposto da praça).

 

“Todo mundo viu aqueles posts da #sonhando. Não que eu possa falar muita coisa.”

 

Era verdade — no sonho de Sakuta, Ikumi não estava ali.

 

As postagens com #sonhando eram amplamente vistas como previsões do futuro, e só isso já bastava para fazer pessoas como Ikumi mudarem seus planos.

 

No céu noturno, as estrelas da primavera brilhavam — exatamente como no sonho dele. Régulo, em Leão. Espiga, em Virgem. Arturo, em Boötes.

 

Sakuta localizou cada uma delas enquanto as luzes do palco principal permaneciam apagadas.

 

Quando voltaram, a banda de rock começou a tocar.

 

Um rugido — quase um grito — tomou a multidão.

 

Os quatro homens enlouquecendo o público eram a mesma banda do sonho de Sakuta. Um guitarrista/vocalista. Um baixista. Um tecladista. E um baterista.

 

“...A música de abertura.”

 

“De quê?”

 

“De um programa de TV que acabou de sair do ar.”

 

Ikumi sabia mais que ele.

 

Eles estavam ombro a ombro, mas precisavam gritar para se ouvir.

 

Mai era vocalista convidada e ainda não tinha subido ao palco.

Mas a multidão já pulava no ritmo da música. Como ondas correndo pelo local inteiro, fazendo todos se moverem como um só.

 

A empolgação do público tinha chegado ao auge — mas a primeira música durou menos de quatro minutos.

 

Quando acabou, o local pareceu silencioso demais. Como se os últimos minutos nunca tivessem acontecido.

 

No silêncio, a expectativa só aumentava.

Todos estavam esperando pela Mai.

 

O vocalista percebeu isso e deu de ombros.

Ele puxou o pedestal do microfone para mais perto.

 

“Era pra ser uma surpresa”, ele resmungou.

 

A plateia caiu na risada.

 

“Mas quer saber? Vamos só aproveitar!”

 

Ele moveu o pedestal para o lado do palco… e o baterista começou a próxima música.

 

A mesma que Mai cantava no filme, interpretando sua personagem.

 

“Eu vou continuar cantando essa música! Bem aqui!”

 

Gritando a frase do filme, Mai correu para o palco.

 

Quando chegou ao centro, começou a soltar a voz, firme e forte.

 

A energia da multidão atingiu-a como uma onda de choque.

 

Mai fincou os pés no palco, cantando com intensidade suficiente para encarar a força de uma plateia de trinta mil pessoas.

 

A temperatura parecia subir ainda mais, um redemoinho pulsante de emoção.

 

Forças invisíveis vibravam pelo público, como se fossem tragá-los por inteiro.

 

E Mai estava no centro daquela energia avassaladora.

 

Sua voz se elevou, e ela apontou para a multidão. Eles foram à loucura.

 

O público pulsava como se o chão estivesse tremendo, como se tentassem invocar um monstro ancestral do fundo do oceano.

 

Essa música também durou menos de quatro minutos, mas quando terminou, parecia que meia hora tinha passado. O ar do local estava elétrico, tomado por uma mistura de empolgação e satisfação que varria todos ali.

 

O baterista deu a batida final no prato.

O silêncio que veio depois trouxe um murmúrio coletivo. Uma tensão suave no ar.

 

Houve uma breve pausa, então o vocalista disse: “Um grande agradecimento à nossa vocalista convidada, Mai Sakurajima.”

 

“Obrigada!” disse Mai, sorrindo e acenando para o público. Ela fez uma reverência profunda.

 

Os aplausos foram ensurdecedores.

 

Mai estava ali só para essa música.

 

Tudo que ela precisava fazer era se endireitar, dizer mais algumas palavras e sair do palco enquanto acenava.

 

Esse era o plano que Sakuta tinha ouvido.

Mas antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, um grito surgiu da plateia.

 

“Encore!”

 

No começo, era apenas uma voz.

Mas logo…

“Encore!”

…centenas se juntaram.

 

“Encore!”

Ninguém tinha mandado.

 

“Encore! Encore!”

 

Mas trinta mil pessoas estavam batendo palmas juntas.

 

“Encore! Kirishima!”

 

E o canto começou a mudar.

 

“Encore! Touko!”

 

Os gritos ganharam vida própria.

 

“Encore! Encore!”

 

Sem qualquer sinal de parar.

 

“Touko Kirishima!”

 

A cena estranha parecia não ter fim.

 

“Azusagawa”, Ikumi disse, lançando-lhe um olhar preocupado.

“Essa é a chance perfeita para refutar as acusações.”

 

Se todos queriam que Mai falasse sobre aquilo, ela tinha uma oportunidade de ouro.

Ela precisava enxergar isso como uma chance.

 

Sakuta tinha certeza disso.

 

Mas as coisas viraram rapidamente.

 

Antes que Mai erguesse a cabeça, o baterista começou a marcar o tempo no prato.

Logo o bumbo e a caixa se juntaram.

Depois, o baixista começou a tocar.

 

A música foi fazendo os gritos de “encore” desaparecerem.

Expectativa. Crescente tensão.

 

Quando o teclado se somou, a expectativa virou certeza.

 

Trinta mil pessoas deixaram escapar um “oooh” e um “aaah” ao mesmo tempo.

 

Elas conheciam aquela melodia.

Elas conheciam aquela música…

…e sabiam de quem era.

 

Até mesmo Sakuta fez isso.

 

"Isso é da Touko Kirishima…", murmurou Ikumi, com os olhos grudados no palco.

 

Então eles viram a cabeça de Mai se erguer.

Um sorriso surgiu em seus lábios.

Ela respirou fundo e levou o microfone até a boca.

Sua voz se espalhou pelo público.

"Estou feliz por ter conhecido você."

 

Exatamente como ele tinha sonhado.

A música do sonho.

"Não é assim que eu vejo as coisas."

"Minha alma gêmea não está mais por aí."

A plateia ficou atônita, focada apenas em Mai.

Era por isso que tinham vindo ali, mas ainda assim foi impactante.

 

"Mas as canções de amor que ouvimos todas concordam."

"Vamos nos encontrar de novo."

Sakuta ficou paralisado no lugar.

 

A voz dela subiu.

Voando.

Uma voz forte e bonita, que combinava com a performance da banda nota por nota.

 

"Não tenha medo de se perder."

"Levante-se, escancare aquela porta e saia."

O que ele estava vendo?

O que estavam mostrando para ele?

 

A mente de Sakuta se encheu de perguntas.

Ele conhecia a garota que segurava o microfone.

 

Todo mundo no Japão conhecia.

Ela era Mai Sakurajima, ex-atriz mirim, ainda atuando em filmes e programas de TV.

 

Ela era definitivamente a Mai.

"Mas o futuro não é garantido."

"Amanhã estarei sozinha de novo."

"Sem ninguém para dividir as coisas."

"Esse vazio no meu coração."

 

Mai cantava exatamente do mesmo jeito que no sonho.

Como se aquela fosse a sua música.

Como se ela fosse Touko Kirishima.

 

A plateia estava muda. Não acompanhava o ritmo, não batia palmas. Todos apenas ficaram ali, imóveis.

"Se eu tiver que me sentir assim…"

"Eu queria nunca ter te conhecido."

 

Quando o choque da multidão começou a diminuir, Mai terminou a música de Touko Kirishima. Era uma canção surpreendentemente curta, que não durava nem dois minutos.

 

A performance da banda se dissolveu.

O local costeiro ficou tão silencioso quanto qualquer dia comum. Um silêncio caiu sobre a multidão. E ainda assim, na escuridão, trinta mil pessoas estavam de pé.

 

Elas prendiam a respiração, esperando Mai falar.

A impaciência era palpável. A qualquer segundo agora.

No palco, Mai devia sentir essa expectativa. E por isso, ofereceu um sorriso tímido.

Ela respirou.

Sakuta reconheceu cada movimento.

Era exatamente como no sonho.

 

Mai levou o microfone à boca novamente.

"Eu gostaria de aproveitar este momento para compartilhar algo com todos vocês."

 

A multidão permaneceu imóvel. Observava cada movimento dela.

 

"Imagino que alguns de vocês já tenham percebido."

Mai fez outra pausa, analisando o público.

 

Cada mente ali estava fervendo de ansiedade. Mai fechou os olhos, absorvendo tudo. 

 

Quando os abriu novamente…

…ela enfim disse:

 

 "Eu Sou Touko Kirishima."

 

Um segundo inteiro de silêncio se passou.

Depois outro.

E então, toda aquela expectativa acumulada simplesmente explodiu. Como se alguém tivesse retirado o que a segurava, o tempo voltou a correr de uma vez só. Um rugido preencheu o ar, estourando como um trovão. O clima mudou por completo.

Nada além de aplausos ecoavam pelo local.

 

"Azusagawa, o que isso significa?"

 

Só Sakuta e Ikumi ainda estavam atordoados.

 

"Como é que eu vou saber?"

 

Ele tentou responder, mas nem sabia se ela tinha ouvido. O barulho da multidão engoliu as palavras.

Cercados por pessoas gritando, os dois permaneceram imóveis, incapazes de reagir.

Seus olhos ainda estavam presos ao palco — presos em Mai.

 

Ela tinha dito ser Touko Kirishima. De repente, ela parecia tão distante. Até o fim do show, Sakuta ficou ali plantado, murmurando "Por quê? Pra quê?" em um ciclo que não terminava.

 

3

 

A apresentação de Mai terminou e o palco esvaziou, mas a maior parte do público continuou ali. Ninguém parecia pronto para ir embora; todos queriam aproveitar o resto da energia que ainda pairava no ar.

A tensão era quente, pesada. Criava uma estranha sensação de unidade entre todos.

 

Sakuta atravessou a multidão até a área da equipe. Em algum ponto do caminho perdeu Ikumi, mas ver Mai vinha antes de tudo.

Ele mostrou o passe aos seguranças e entrou.

Seguiu direto para o segundo ônibus, o camarim de Mai.

 

Assim que entrou, soltou: "Mai, o que foi aquilo?"

 

Tentava manter a calma, mas não conseguia se segurar.

 

"É assim que você cumprimenta uma namorada depois do show? Tenta um 'O show foi ótimo; você estava incrível'."

 

Mai estava diante da penteadeira, tirando os brincos. Havia leveza em sua voz, como se se sentisse aliviada por tudo ter dado certo. Assim como o público, ela ainda carregava o calor da apresentação.

 

O completo oposto da urgência que Sakuta trouxe para dentro do ônibus.

 

"Foi um ótimo show. Só que…"

 

"‘Só que…?’" Mai repetiu, ainda olhando para o espelho enquanto tirava o outro brinco.

"Por que você mentiu?"

 

"Que mentira?" ela perguntou, sem alterar o tom nem por um instante.

 

"Sobre você ser a Touko Kirishima."

No espelho, os olhos dos dois se encontraram.

Ela desviou o olhar e começou a tirar o colar e os anéis do figurino. Cada peça ia para sua caixinha na penteadeira. Para finalizar, pegou um anel em forma de coração de outra caixa — o anel que ele tinha dado de presente de aniversário. Só quando colocou o anel no dedo anelar da mão direita é que ela se virou para Sakuta.

 

"Me sinto mal por ter escondido isso de você, Sakuta. Mas foram ordens da agência. Eu também não contei pra Nodoka."

 

"Não é isso que eu estou perguntando."

 

"Eu entendo você estar chocado. Eu já disse bem na sua cara que não sou a Touko Kirishima."

 

"Então você realmente…?"

Ele não conseguiu terminar. Algo o impediu.

 

"Eu sou a Touko Kirishima."

 

(N/T: Sakuta: namoral isso não é possível kkk)

 

Mai disse as palavras que ele mesmo hesitava em pronunciar.

Como se fosse fácil.

Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Como se estivesse apenas afirmando um fato óbvio.

 

Ela olhou Sakuta diretamente nos olhos e disse algo que ele sabia que não era verdade.

 

Quando ele não reagiu, ela repetiu, com suavidade: "Eu sou a Touko Kirishima."

 

No dia anterior, ela negara isso sem pestanejar.

E minutos antes do show não tinha dado qualquer sinal.

 

O coração de Sakuta não mostrou o menor indício de acreditar.

Nenhuma oscilação de dúvida.

Ele estava se afogando em pura confusão.

 

"Nem chance disso ser uma pegadinha de Primeiro de Abril?"

"Se eu estivesse mentindo agora, então eu realmente devo ser uma ótima atriz", ela disse com uma risada leve, sorrindo.

 

"Mai, você é uma ótima atriz."

 

Ele não tinha a menor vontade de retribuir o sorriso.

Mas, pelo menos, não parecia que ela estava tentando enganá-lo.

 

Mai realmente acreditava que era Touko Kirishima.

Havia nela aquela naturalidade que parecia… antinatural.

 

"Terminou de trocar de roupa, Mai?" Ryouko colocou a cabeça para dentro do ônibus e encontrou Mai ainda com o figurino. "É melhor tirar isso logo, ou vamos perder o Shinkansen."

 

(N/T: Sakuta: basicamente, o Shinkansen é a rede de trens de alta velocidade do Japão, também conhecida como "trem-bala", conectndo as principais cidades do país de maneira rápida, segura e pontual.)

 

"Mai, você tem planos?"

 

"Filmagem em Kobe amanhã de manhã. Temos que chegar lá hoje à noite."

 

"Por isso mesmo é hora de você ir andando, Sakuta", Ryouko disse, apontando para a porta.

 

"Falamos mais quando eu voltar da gravação", disse Mai.

 

Ele não tinha muito como ficar. E continuar aquela conversa agora não ia tirá-lo desse redemoinho mental.

 

"Só mais uma coisa, Mai."

 

"O quê?"

 

"Eu te amo."

 

(N/T: eu amo mais kkkkkk)

(N/R – Levi: Poderia ser um beijo de despedida, mas eu me contento com isso.)

 

O sorriso de Mai saiu um pouco tímido. Suas expressões, seus gestos — tudo ali era exatamente a Mai que ele conhecia e amava.

 

"Sakuta."

 

"O quê?"

 

"Eu também te amo."

 

Ela exibiu um sorriso travesso. Aquilo também era a Mai dele.

 

Do lado de fora do ônibus, a escuridão pareceu engolir tudo de uma vez.

Ele podia jurar que estava se dissolvendo na noite, como se seus sapatos e o asfalto estivessem se fundindo.

Cuidando para não perder o fio da realidade, começou a andar — e logo viu alguém esperando por ele do lado de fora da área reservada aos funcionários.

Ikumi.

A cabeça baixa, iluminada pela luz fria da tela do celular.

 

Sakuta passou pelo pequeno cercado e se aproximou.

"Você não precisava esperar."

 

"Estou imersa nessa história."

 

"É, imaginei."

 

"E então?"

 

"É assim que se sente quando a gente é feito de trouxa? A Mai realmente parece acreditar que é a Touko Kirishima."

 

"Tipo a Nene Iwamizawa e os outros Papais Noéis?"

 

"Não sei. Parece diferente. Ainda é definitivamente a Mai, e ela não tem motivo nenhum pra virar a Touko Kirishima como eles tinham."

 

"Verdade."

 

"E todo mundo conseguia ver ela."

Só esse detalhe já tornava tudo fundamentalmente diferente da Nene e da Máfia do Papai Noel.

 

"Os vídeos do show estão se espalhando nas redes sociais. Todo mundo acha que a Sakurajima é realmente a Touko Kirishima."

 

Ikumi olhou de novo para a tela do celular.

 

"A Mai chegou a ficar invisível no ensino médio."

 

"Ouvi algo assim do outro eu. A escola inteira começou a agir como se ela não existisse, e no fim ninguém conseguia percebê-la."

 

"Será que algo parecido está acontecendo agora?", Sakuta disse.

 

Ikumi logo entendeu a ideia.

 

"Todo mundo acreditou que a Touko Kirishima era, na verdade, a Sakurajima… então isso virou realidade?"

 

Sakuta assentiu, desanimado.

 

"Talvez isso explique a Sakurajima da mochila vermelha que você viu."

 

"Explica?"

 

"Você viu a Mai Sakurajima que as pessoas ao seu redor estavam imaginando."

 

Isso realmente fazia sentido.

 

"Talvez eu tenha visto."

 

Mas não era o momento de se aprofundar naquilo.

 

"No ensino médio, você pediu ela em namoro na frente da escola inteira, e isso resolveu o problema?"

 

"Sim, eu reescrevi a percepção dos alunos."

 

"Se tentasse fazer o mesmo agora…"

 

"Eu provavelmente teria que propor casamento com o mundo inteiro assistindo."

 

(N/T: por favor, faça isso, eu te IMPLORO 🥺)

(N/R – Levi: Eu faria esse acordo)

 

O Colégio Minegahara tinha cerca de mil alunos.

 

Mas muito mais gente acreditava que Mai Sakurajima e Touko Kirishima eram a mesma pessoa. Com a notícia explodindo online, esse número provavelmente já estava na casa dos milhões. E talvez isso ainda fosse pouco.

 

"Azusagawa, você não acha que consegue mudar a percepção de todo mundo ao mesmo tempo, acha?"

 

"……"

 

Ele não tinha coragem de dizer que conseguia.

Mas também não queria dizer que não conseguia.

Se era pela Mai, ele tinha que tentar.

 

E o longo silêncio dele já dizia tudo o que Ikumi precisava saber.

 

"Desculpa, isso não tem como responder."

 

"Se for possível, só existe um jeito."

 

"Que seria…?"

 

"Fazer a verdadeira Touko Kirishima aparecer."

 

"Então você vai ter que procurar por ela."

 

Quando Ikumi disse isso, Sakuta sentiu como se algo tivesse caído dentro dele.

 

"……Talvez seja isso que aquilo queria dizer."

 

"O quê?"

 

‘A Mai está em perigo.’

 

Os olhos de Ikumi se arregalaram. Ela claramente pensou na mesma coisa. Um instante depois, deixou escapar um gritinho sem voz.

 

Como se alguém tivesse acabado de tocá-la.

 

"O que foi?"

 

"……"

 

Em vez de responder, ela olhou para a palma da mão esquerda.

 

"Mensagem do outro mundo?", ele perguntou.

 

"Azusagawa, é pra você", Ikumi disse, erguendo a mão.

Ali estava uma caligrafia familiar, escrita com caneta preta.

Duas linhas curtas.

 

‘PARE Touko Kirishima.

Antes que a realidade seja reescrita.’

 

Era a letra do Sakuta.

 

Mas aquilo não fazia sentido nenhum.

 

"O que isso significa?", ele perguntou, levantando os olhos.

 

"Não pergunta pra mim", ela disse, tirando uma caneta preta da bolsa.

 

"Pergunta pra ele."

 

"Veio preparada."

 

"Só carreguei comigo caso isso acontecesse."

 

"Era isso que eu queria dizer."

 

Sakuta pegou a caneta e tirou a tampa.

 

"Pode escrever," Ikumi disse, estendendo a mão sem nada escrito.

 

O que você quer dizer com reescrever a realidade?

 

Sakuta começou a escrever.

 

A resposta surgiu letra por letra, na palma esquerda de Ikumi.

 

‘Eu não consegui observar Touko Kirishima.’

 

Isso levantou ainda mais questões.

 

Antes que Sakuta pudesse fazer qualquer uma delas, novas letras apareceram.

 

‘Minhas percepções podem ser revisadas em breve.’

 

A escrita já estava subindo pelo pulso da Ikumi.

 

‘O resto é com você!’

 

Sem conseguir desviar o olhar, Sakuta viu as palavras avançarem pelo braço dela.

 

‘Campo da internet da adole-’

 

A mensagem se interrompeu no meio da palavra.

 

“Adolescent… o quê?”

 

Sakuta escreveu a pergunta, mas nenhuma resposta veio.

 

Em vez disso…

 

"Desculpa," Ikumi murmurou. "Parece que a conexão caiu."

 

(N/T: wi-fi multiversal tava ruim kkkk)

(N/R – Levi: Faltou dados móveis kk.)

 

Ela abaixou os olhos, desapontada.

 

"Okay," ele disse, afastando a caneta da pele dela e recolocando a tampa. "Certo."

Tudo o que podia fazer era ficar ali parado, apenas acenando.

4

 

O trem avançava por uma área residencial. Luzes quentes passavam pelas janelas — sinais de vida.

 

Sakuta ficava de pé perto da porta, indiferente a tudo aquilo. Seus olhos acompanhavam o cenário, mas sua mente estava em outro lugar.

 

Ele havia se despedido de Ikumi na Estação Yokohama e embarcado na Linha Tokaido. O trem estava cheio o bastante para ocupar todos os assentos. A maioria dos passageiros encarava a tela do celular ou dormia.

 

Nada dentro do trem mudava.

 

Sakuta permanecia parado, enquanto sua cabeça revisava os acontecimentos do dia, uma vez após a outra.

 

Tudo estava normal quando ele acordou.

Nasuno pisando no rosto dele, o café da manhã com o gato, e depois fazendo mais comida quando Kaede finalmente resolveu levantar…

 

Ela estava meio dormindo enquanto comia, mas despertou o suficiente para sair pouco depois do meio-dia — indo encontrar sua velha amiga Kotomi Kano. As duas tinham planejado ir ao show do Sweet Bullet.

 

Sakuta a acompanhou até a porta, depois começou a se arrumar para sair também e saiu de casa às duas da tarde.

 

Pegou um trem de Fujisawa até a Estação Yokohama, depois trocou para a Linha Minatomirai e encontrou Ikumi na plataforma.

 

Até ali, não havia nada fora do comum.

 

As coisas ficaram estranhas só na Estação Bashamichi.

 

Ele tinha avistado a pequena Mai naquele prédio de tijolos. Com sua mochilinha vermelha.

E não só uma vez — da segunda vez, Mai era uma pré-adolescente.

 

Do lado de fora da estação, ele a viu com um vestido branco, o mesmo que Mai usou no filme em que sua personagem tinha um problema no coração.

E no local do festival de música, ele viu Mai vestida de coelhinha.

 

Ele não achava que estava imaginando coisas.

Ele tinha encontrado a Mai no ônibus da turnê antes do show e não sentiu nada de anormal.

Ela estava agindo normalmente.

 

Ele era o único que não estava normal, e ela ficou preocupada com ele.

Quando ela o abraçou, foi igual a todas as outras vezes.

Tão macio e quente quanto qualquer outro dia.

 

Ele concluiu que não precisava se preocupar.

Mas o resultado…

 

Ela subiu no palco e fez uma declaração absurda.

 

‘Eu sou Touko Kirishima.’

Só de lembrar já dava um aperto.

Não parecia real.

Como se ele estivesse sonhando agora.

Na verdade, ele torcia para que fosse um sonho.

 

O jeito como Mai agiu depois do show só piorou tudo.

Ela estava sendo ela mesma — tirando o fato de insistir que realmente era Touko Kirishima.

O que ela dizia era estranho, mas como agia não era.

E isso, por si só, deixava tudo ainda mais esquisito.

 

O golpe final tinha sido a mensagem que Ikumi recebeu do outro possível mundo.

 

‘Pare Touko Kirishima.

Antes que a realidade seja reescrita.’

 

O que o outro Sakuta estava tentando dizer? Ele não conseguia entender muita coisa. A conversa tinha caído cedo demais.

Várias coisas que ele disse eram preocupantes.

Dava claramente a sensação de que tudo estava dando muito errado.

E Touko Kirishima estava no centro disso.

 

Mas ele conseguiria fazer alguma coisa? Se o outro Sakuta nem sequer conseguia percebê-la?

No segundo ano do ensino médio, ele tinha visitado aquele outro mundo e saído de lá com uma impressão clara: o Sakuta de lá era melhor em tudo.

 

Ele ainda pensava nisso quando o trem o deixou em Fujisawa.

Continuou pensando enquanto caminhava da estação até em casa.

Repetindo o dia inteiro na cabeça.

 

Mas pensar, pensar e pensar não levava a lugar nenhum. O único lugar onde conseguiu chegar foi a porta do prédio onde morava.

 

"É melhor eu ligar para a Futaba."

 

(N/T: essas conversas dele com a Futaba sempre são nostálgicas :)

 

Ele saiu do elevador e foi até a porta. Depois de procurar a chave no bolso, Sakuta destrancou.

 

"Cheguei, Nasuno", ele chamou, e a gata miou, colocando a cabeça para fora da sala.

 

Um momento depois…

 

"Oh! Sakuta, bem-vindo de volta!"

 

Uma criatura alta, magra, preta e branca.

Kaede, usando pijamas de panda.

Sakuta congelou, com o sapato ainda meio no pé.

"O que você tá fazendo, Kaede?"

"Te dando as boas-vindas!"

Ele podia ver isso. Ela estava animada demais.

Mas aquilo não era nada Kaede. Sua expressão ficou ainda mais séria.

 

"……"

 

Sakuta estudou o rosto dela.

Algo parecia estranho.

 

"Sakuta?"

 

Kaede inclinou o corpo, analisando a cara de preocupação dele.

 

Ele conhecia aquela linguagem corporal.

Conhecia aquela expressão.

 

Era a outra irmã. A que sempre usava pijamas de panda.

 

(N/T: kaede panda o retorno! Nunca fui triste)

(N/R – Levi: Vou ser crucificado de mil maneiras diferentes, mas vou ter que dizer que prefiro a outra.)

 

Sua mente racional gritava que aquilo não era possível.

Mas, quando o pensamento surgiu, ele não conseguiu ignorar.

 

A possibilidade escapou por seus lábios:

 

"É você, Kaede?", ele perguntou, dando uma ênfase especial no nome.

"Esse é meu nome!"

Ela se inclinou ainda mais, tentando entender por que ele perguntou.

 

"É mesmo você?"

"Quem mais eu seria, Sakuta?!"

 

O tom dela era leve e animado. Ela estava um pouco mais alta do que ele lembrava, mas aquele sorriso… ele reconheceria em qualquer lugar. Era, sem dúvida alguma, a Kaede que escrevia o próprio nome em hiragana.

 

Ver aquela expressão fez algo estremecer dentro dele.

Mais uma vez, sentiu como se estivesse sonhando.

Parte disso vinha da surpresa pura, mas não era esse o principal motivo.

Seu cérebro ainda não tinha alcançado o sentimento de felicidade.

Por dentro, tudo estava um caos.

Ele não conseguia processar aquilo direito.

 

Como alguém perdido dentro de uma floresta, incapaz de encontrar a saída…

 

"O banho está pronto", avisou uma voz eletrônica.

 

"Quer ir primeiro?" ela perguntou.

"Ah… não…"

 

Aquilo estava longe de ser uma resposta; era só o reflexo da confusão dele.

 

"Então eu vou primeiro!", declarou Kaede, completamente despreocupada com o estado dele.

 

Ela caminhou até a sala, voltou correndo com uma troca de roupas e entrou no banheiro.

Sakuta ficou parado diante da porta fechada, atônito.

Depois de um tempo, ele ouviu a água correndo.

E então o telefone tocou, chamando por ele da sala. No puro reflexo, ele terminou de tirar os sapatos e entrou no apartamento.

Os pés o levaram automaticamente pelo corredor.

 

As luzes do telefone piscavam. Ele pegou o fone e o levou ao ouvido.

 

"Oi?" perguntou, com a mente em branco.

 

"Oh, Sakuta?" Era uma voz muito familiar.

Ele reconheceu o número no visor.

Era a voz da Kaede original. O número dela.

 

"……"

 

Ele simplesmente parou de pensar.

 

"U-um, Sakuta? Você tá aí?"

 

Ele ouviu a voz dela de novo, e respondeu "Tô" automaticamente.

 

O que era aquilo?

O que estava acontecendo???

 

"Kaede?"

"Por que isso soou como uma pergunta?" ela riu, como se ele tivesse acabado de acordar.

"Você é mesmo a Kaede?"

"Óbvio que sim né. O que houve?"

 

Era inconfundivelmente a voz dela.

 

"Enfim, vou dormir na casa da mamãe e do papai hoje. Esqueci de comentar quando saí, mas achei que você ia querer saber."

 

A atitude e o tom deixavam claro qual Kaede estava falando com ele no telefone.

 

Mas então… o que a outra Kaede estava fazendo ali? Esperando ele chegar em casa?

Uma Kaede no banho, a outra falando com ele ao telefone.

As duas existindo ao mesmo tempo.

Isso simplesmente não deveria ser possível.

 

(N/R – Levi: Duas Kaede, agora ninguém pode reclamar)

 

"Ah! Notícia do Sweet Bullet! Anunciaram no final do show hoje! Elas vão pro Budokan! Eu preciso ir! ……Alôôô, Sakuta?"

"Tô ouvindo."

 

As palavras saíram automaticamente.

 

Ele tinha ouvido cada palavra.

Estava ouvindo.

Mas o cérebro dele não estava processando nada. Tinha travado completamente.

 

"Ei, Kaede…"

"O que foi?"

"Você pode ficar mais um tempo na casa da mamãe e do papai?"

"Ué, eu já ia ficar lá nas férias de primavera. Por quê?"

"Por nada, não."

Ele não fazia a menor ideia do que dizer.

E com certeza não podia contar para ela sobre a outra Kaede.

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