A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 9: Silhueta (1)

O grito estridente de James ecoou por longos segundos, mas sendo incapaz de alcançar alguém.

A escultura não se moveu um centímetro, e mesmo os gritos ensurdecedores não a incomodavam. Ela passou alguns segundos estática na porta, observando inexpressiva, como sempre, o detetive largar a arma para levar as mãos até sua cabeça, enquanto o corpo se contorcia de um lado para o outro.

Na sua perspectiva, aquele homem de terno e gravata, antes sério e de aparência inabalável, agora já não passava de um bebê chorão, que não era capaz de compreender a consequência de seus atos precoces.

Como em um suspiro, a escultura abaixou levemente sua cabeça, para então começar a caminhar na direção do homem.

James não prestava mais atenção ao seu redor, pois sua cabeça latejava forte demais para se preocupar com qualquer outra coisa. Ele se colocou de joelhos, ainda esperneando, com os olhos agora vermelhos e lacrimejantes, sua boca não conseguia exprimir qualquer palavra coesa, muito menos controlar a saliva, esta que já saltava em direção ao chão cada vez que balançava o corpo como um louco.

A estátua se aproximou devagar, tendo total certeza de que dessa vez não havia escapatória para aquele criminoso que ousou se opor a ela.

James nem pensava no que o aguardava se ficasse parado daquela forma, e a sua resposta chegou mais rápido do que esperava, na forma de um tapa em seu rosto que levou seu corpo enfraquecido ao chão.

Não foi um tapa forte como aqueles socos que quebraram os altares anteriormente, mas mesmo assim doeu muito mais do que o esperado. Tal coisa fez com que o homem confuso liberasse uma passagem entre seus dedos, para que seus olhos se deparassem com aquela grande silhueta.

— EI! James! Fala comigo! — disse Jessie, agarrando-o pelos ombros e sacudindo freneticamente.

— Je-Jessie!?

O corpo do detetive parou de se debater, para assim conseguir usar toda a concentração e fazer a visão ultrapassar aquele embaçamento causado pelas lágrimas, assim atingindo o objetivo.

As mãos da mulher foram até o rosto do parceiro, cada uma em um respectivo lado, parando de vez sua inquietação. James, ainda desacreditado, buscou descobrir se aquele calor das mãos que lhe tocavam era real.

— Me responde! Está ferido?

Ele nada falou. Com a pouca força que dispunha naquele momento, abriu os braços, com dificuldade em mantê-los erguidos, em seguida envolvendo a garota e assim sanando sua dúvida.

— Ainda bem… — suspirou, entre soluços.

Jessie demorou, mas correspondeu ao ato. 

“Eu pensei que tinha estragado tudo de uma vez. Talvez tenha sido meu medo da estátua, essa coisa do tempo estar acelerado, o confinamento nesse lugar, sei lá...

“Talvez pela primeira vez desde que chegamos, eu realmente espero que isso não seja um sonho!”

Os braços de James apertaram mais o corpo da parceira, obrigando-a a afastar-se daquele abraço.

— O que aconteceu pra você ficar assim do nada? Isso não é normal, não com você.

— Nada, não vale a pena ficar preocupado com um delírio meu. — Levantou-se, limpando de seu rosto as lágrimas que ainda escorriam, mas não conseguindo evitar de tocar o rosto de Jessie mais uma vez, para então repetir: — Ainda bem.

“Esse lugar já está me afetando de maneiras que eu posso acabar cometendo erros irreversíveis! Tenho que tentar focar na nossa fuga e deixar o resto para depois!”, pensou ele, fechando o punho, um pouco mais determinado.

Sua grande motivação, no entanto, foi quebrada quando a verdadeira estátua encontrou-se diante de si, sendo separada dos dois apenas pela frágil mesa. Eles saltaram em um susto, mas comparado ao início da confusão, aquela imagem já não causava mais tanto medo.

— Como nós vamos sair dessa? — Ele deu um passo para trás, mas Jessie fez o oposto.

— Acho que não precisamos nos preocupar, eu estava seguindo ela desde que começou a se mover no salão principal — comentou, desviando o olhar da escultura para fitar os olhos castanhos do parceiro. — Na verdade, acho que devemos observá-la bem de perto, mais especificamente as costas dela.

— Hm? O que tem as costas? Estão rachadas ou algo assim?

— Não, nem perto disso.

Com toda a sua calma, a imagem esticou o braço até o diário de D. Rossi que James largou na mesa. Seus movimentos foram friamente encarados pela dupla. Com sua mão livre, ela fechou o diário, para então devolvê-lo ao exato local da mesa no qual esse se encontrava antes de ser lido.

Em silêncio, eles deram a volta na mesa apressadamente quando a criatura caminhou na direção deles. Em seguida, ela analisou as prateleiras, usando o lampião para enxergar o título dos livros empoeirados.

Como uma rotina, ela seguiu até uma das prateleiras na quina da parede, agarrando sem qualquer hesitação um livro pequeno e de poucas páginas. Sua capa verde musgo estava mais limpa que as demais ao seu redor, e uma escrita em dourado avisava seu conteúdo.

Anotações anuais: Evolução do Anjo

Um título curioso, que talvez remetesse a algo relacionado aos cultos religiosos.

Anjos, de acordo com a mitologia, nada mais eram do que humanos puros o bastante para se tornarem guardiões de outros ainda vivos. Relatos dizem que já houveram casos de pessoas de carne e osso tornando-se em anjos diante outros, e esses eram chamados de “Ascendentes” ou “Abençoados”.

A estátua, por outro lado, não demonstrava absolutamente nada de angelical ou puro. Seu rosto de pedra não conseguia expressar nada, suas ações corporais muito menos, pois por mais simples que pudessem ser, qualquer movimento de seu punho gerava medo em qualquer pessoa.

Esse fator incoerente entre as duas coisas, chamou a atenção da dupla de detetives. A escultura folheou rapidamente as poucas páginas, logo devolvendo o livro para a prateleira e partindo para uma do outro lado da sala, mais uma vez sendo contornada pela dupla. A mesa oval já havia se tornado uma espécie de ponto seguro para eles.

— Evolução do Anjo… — leu James, não perdendo tempo e procurando pelo conteúdo.

Para a surpresa de ambos, a maioria das folhas estava completamente vazia. Um total de vinte e nove páginas, com apenas seis detendo frases enigmáticas.

As informações eram o tipo de breves anotações que apenas o autor seria capaz de compreender por inteiro, mesmo assim, James proferiu-as em voz alta, esperando que isso pudesse de alguma forma ajudá-lo a decifrar aquelas espécies de códigos.

— Iluminação... Conserto... Dia e noite... Silhueta... Crescimento... Fase adulta.

As palavras inundaram James, mas não com conhecimento.

Com seu cenho torcido, ele disse, entristecido: — A cada segundo que se passa, minhas esperanças apenas desaparecem.

— Mas isso não significa que vamos desistir! — falou Jessie, encarando a estátua que caminhou na direção da porta. — Venha! Eu tenho que descobrir o que é aquela coisa nas costas dela!

Ela agarrou o braço do colega, puxando para perto da mesa mais uma vez. Quando a escultura sumiu no corredor, eles caminharam a passos largos até a batente da porta, tendo os semblantes transformados em surpresa ao avistarem a imagem já no fim daquele longo caminho.

— Como ela chegou lá tão rápido? — Jessie se colocou no corredor, dando sinal com a mão para o parceiro lhe seguir. — Vamos logo!

A detetive deu um passo à frente, seguida pelo hesitante companheiro. James foi assolado por um mal pressentimento, mas não sabia se devia confiar em seus instintos que já lhe enganavam desde que entrou na mansão.

Um ao lado do outro, andaram com delicadeza. Pelas diversas janelas, a luz noturna desenhava pelo assoalho diversos galhos secos, os quais imitavam dedos que apontavam na direção contrária dos passos da dupla.

Aquela sensação alcançou Jessie, cujo rosto era gradualmente dominado pela palidez conforme caminhava na direção daquela curva no corredor que de longe mais se assemelhava com um beco sem saída. Essa tensão que assolou os dois não durou muito tempo, pois foi transformada em puro desespero.

Um som alto e familiar ecoou dentro de suas cabeças. Era um batimento cardíaco, potente e extremamente devagar. Junto dele, uma onda de choque desconhecida os atingiu.

— E essa agora!? — gaguejou James.

Quando o mundo pôde ser visto mais uma vez, ele estava decorado com um novo item. A estátua retornou, mas apesar de seu rosto não ser visível, a sua pouca distância permitiu que eles visualizassem com perfeição aquela protuberância em suas costas.

O batimento solitário os atingiu novamente, mais forte, e repetidas vezes. A onda de choque atravessava o corredor, como uma veia sanguínea levando uma carga de sangue para outras partes do corpo da mansão.

Agora, ambos puderam observar um novo fenômeno ocorrer. Como se suas visões estivessem se distorcendo, uma segunda imagem de seus corpos projetou-se para fora do original.

— O que é isso? Uma silhueta!? — perguntou James, movimentando o braço como se tentasse se livrar de um inseto.

Confusos, piscaram incontáveis vezes na vã tentativa de arrumarem suas vistas. Contudo, ao bater do tambor incessante, a silhueta voltou para o corpo em um piscar de olhos. Os detetives nada sentiram no momento, e aquela ação de saída e retorno de suas cópias repetiu-se diversas vezes, em um espaço de tempo que poderia ser apenas alguns segundos.

O último batimento, muito mais potente que seus antecessores, não apenas gerou a onda de choque, como uma fila de diversas imagens de Jessie e James ao longo do corredor. Uma multidão que passou despercebida por eles, e que ao voltarem ao seus donos originais, acumularam uma carga invisível em seus corpos.

Com aquela imitação de fluxo sanguíneo finalizado, a estátua retornou para sua caminhada noturna, aquela que já chegava ao fim, pois os raios de sol já erguiam-se no horizonte e atravessavam a janela, dando um breve destaque para suas costas antes que desaparecesse mansão adentro.

Nenhum dos detetives sentiu-se diferente após aquelas diversas silhuetas saírem e voltarem aos seus corpos. Porém, a grande mudança sequer estava acontecendo neles, e sim na escultura, que deixou isso mais do que claro.

— Eram brancas… — disse James, encarando a parede. — Talvez eu esteja realmente louco.

— Não, acho que nós dois estamos — acrescentou a garota. — Eu realmente não delirei quando vi aquilo crescendo nas costas dela…

— Eram penas brancas!



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