A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 8: As Cinco Ordens (2)

James leu e releu aquelas frases incontáveis vezes, para no fim, simplesmente abandonar o caderno na mesa, passando a encará-lo com um olhar enigmático.

“Essas ordens… elas com certeza estão conectadas com a estátua, mas de que modo isso pode acontecer?”

A forma como cada frase foi montada parecia totalmente desconexa aos seus olhos. Mesmo que agora, ferido por uma estátua animada, sua mente tenha aceitado parcialmente a existência de coisas que não consegue compreender, um último resquício de realidade em seu coração acredita que tudo pode ser um de seus pesadelos.

Com um suspiro sincronizado, James volta a vasculhar as prateleiras, ao mesmo tempo que Jessie parte para o próximo altar.

“Não roubarás”, era ele. O mandamento que havia começado tudo naquela mansão, o primeiro a ser quebrado e consequentemente cumprido.

Em seu coração, Jessie lamentou o quão inocentes ela e seu parceiro foram quando entraram naquele local. O que não passava de uma busca por um suposto assassino, tornou-se em uma confusão sem precedentes, onde descobrir a verdade, que é o trabalho principal de um detetive, foi colocado de lado, dando espaço para a sobrevivência.

Como se preparasse sua mente para a próxima “visão do passado”, a mulher balançou a cabeça em círculos, para então alongar os braços e por fim, iniciar outra sessão de cinema naquele século distante.

Assim que o filme se iniciou, um ambiente nostálgico tomou conta do campo visual de Jessie. Um cômodo de madeira era o que lhe cercava, mas as poucas janelas que haviam por ali, permitiram ela descobrir que não se tratava da mesma casa. A floresta foi substituída por mais residências, e as crianças, agora assumiram corpos pouco mais maduros.

— Irmão! Você viu a minha “estrela”, aquela que a mãe usava para caçar! Era para ser cinco estrelas, mas hoje eu dei por falta de uma! Você tem alguma ideia de onde pode estar? — disse o mais velho, após abrir a porta, exasperado.

O mais novo, até então deitado em uma cama dura, sequer desviou o olhar do livro em suas mãos para responder.

— Com “estrela” você quer dizer Shurikens, certo? Não, eu não vi.

— Sério? Droga! Onde foi que eu coloquei aquilo? Será que algum animal de rua pegou quando eu não estava vendo? — Coçou a cabeça, voltando o caminho. — Se encontrar, me avise imediatamente!

A porta bateu, e os passos apressados de seu irmão logo pararam de ecoar. Em seguida, o jovem até então acolhido naquela pequena cama, deixou de lado o seu livro e buscou algo debaixo do colchão.

— Irmão idiota — disse, analisando a estrela afiada de quatro pontas. — Não é justo que você monopolize todas as lembranças que temos da mãe. Tudo que eu tenho é…

Seu olhar vago caminhou lentamente até a escrivaninha ao seu lado, essa que guardava duas longas adagas desgastadas.

— Mesmo que não haja nada me impedindo de avançar, eu continuo não vendo nada além das costas dos outros — lamentou, voltando a atenção para a Shuriken em perfeito estado.

“Tudo que eu tenho é essa merda de dom. Não importa quantas vezes eu repita esse processo, nada parece mudar, por mais que eu me esforce, eu nunca consigo seguir em frente.

Usando uma das pontas da estrela, fez um corte mínimo na ponta de seu dedo indicador, e quando a primeira gota de sangue escorreu, imediatamente levou-a até sua boca, enojado.

“Será que o meu destino é esse? Observar as suas costas para sempre?

Ele lambeu o beiço, terminando o tipo de análise que apenas ele era capaz de executar.

“Me aguarde, irmão!”

Junto do cerrar de punhos do jovem, veio o fim daquela visão, e por consequência, o retorno da mente de Jessie para o presente.

Ao se ver diante do altar mais uma vez, seu corpo sentiu um impacto até então inédito. Ela cambaleou para trás, mas equilibrou-se antes que despencasse ao chão. Afagando sua cabeça, ela disse:

— Outro que não revelou nenhum segredo. Será que esse trabalho todo tá realmente sendo de alguma ajuda?

Sua dúvida permaneceu no ar, até que uma faísca de eletricidade saltou na área perto de seus olhos, ocasionando em um choque que sequer foi notado. Entretanto, o evento seguido deste, atraiu todas as atenções facilmente.

De alguma maneira, o corpo de Jessie ficou super sensível, sendo ela capaz de sentir o sangue fluindo através de suas veias. Seu coração, que bateu fortemente de um momento para o outro, causava uma onda de arrepios que alcançava seus pés, para então rebater e se desfazer pouco antes de alcançar sua cabeça, imitando o colidir das ondas do mar contra uma parede rochosa.

Os olhos arregalados da garota foram atraídos não pelo suor frio que escorria por seu rosto, mas pelo reverberar das rochas que, ao cair da noite, mais uma vez colocaram-se em movimento.

O lampião se acendeu por conta própria, como de costume, e da mesma maneira, a estátua pôs-se a andar na direção da ala esquerda, tão calma quanto uma tartaruga.

Enquanto tentava controlar a respiração ofegante, Jessie observou aquele caminhar leve e descontraído, mas também notando algo que com certeza não fazia parte daquela escultura quando a analisou pela primeira vez.

“Ela não está indo para matar! Mas mesmo assim, James ainda está daquele lado, se ele se desesperar e tentar atacar ela, pode acabar se dando muito mal!

Não mais se importando com a briga de pouco tempo, Jessie partiu em direção às escadas, acompanhando a estátua de uma distância segura,  mas perto o suficiente para interromper qualquer ataque que James pudesse desferir contra a imagem.

Enquanto aquela dupla se aproximou silenciosamente, James ainda matutava sobre o livro. Sua atenção permaneceu variando entre diversos títulos que não se conectavam de forma alguma, enquanto seus pensamentos buscaram ao máximo descobrir alguma forma de desvendar os mistérios por trás das Cinco Ordens.

Sua investigação intensiva, que lhe fez suar mais do que uma sessão intensa de treino físico, pareceu lhe recompensar quando um título peculiar aterrissou em seu olhar.

— “Bênçãos: Funcionamento e herança, por Ídris Staine” — sussurrou, enquanto sua mente repetiu diversas vezes aquela primeira palavra. — Bênção… Onde foi que já ouvi algo parecido antes?

Ele tentou se lembrar, o curso de formação foi a primeira possibilidade, não era lá, mas não demorou muito para que encontrasse a memória certa.

Tratava-se de um consultório, não qualquer um, e sim daquele onde trabalhava um médico que diziam ser “especial”. Este homem, cujo sequer o nome havia dito para os detetives, havia tratado diversas doenças em pacientes que já tinham sido dados como “sem solução”.

Naquela ocasião, a dupla de investigadores buscava entrevistá-lo, curiosos para descobrir que tipo de medicamentos o homem utilizava. Mas ele, em sua idade avançada, disse aos dois:

Eu sou descendente de uma família abençoada, apenas isso.

Essa informação atravessou o tempo, atingindo o James do presente como um poderoso soco, tanto que o fez saltar da cadeira.

“Abençoado! As coisas finalmente estão começando a se encaixar!”, pensou, em uma repentina euforia.

“Aquelas histórias que eu ouvia quando era mais jovem! Será que tudo aquilo era real? Meus avós realmente não estavam tentando me assustar?”

“Só pode ser isso! Toda essa situação pode de alguma forma ser relacionada com as lendas...” James teve seu tão esperado momento de revelação, onde aquele alvoroço foi transformado em um medo ainda maior da escultura.

“Isso significa que! aquela estátua, ela é um...”

Sua conclusão teve de esperar, pois um passo conquistou seu ouvido. Não era um sapato, mas o característico e já incomparável som de pedra.

Pelo que pareceram ser diversas vezes, ele virou sua cabeça na direção da porta, logo seguida por seu corpo. Aquela perna robusta, iluminada pela luz alaranjada do fogo, revelou lentamente a silhueta enorme da estátua, que não hesitou em entrar na biblioteca, e consequentemente, bloquear totalmente a única saída de James.

“Merda! Eu me distraí demais!” Trêmulo, ele buscou em sua cintura não pela chave do fusca, mas por outra coisa que havia guardado desde a entrada naquela maldita mansão.

Como se fosse seu ataque final, James apontou para a estátua sua arma de fogo, carregada com um total de oito disparos.

“Se isso não funcionar, eu precisarei dar um jeito de driblar essa coisa, mesmo que eu perca um braço no processo!”

A escultura permaneceu imóvel, quase como se estivesse paralisada ou até com medo da pistola. Com essa possibilidade em mente, os batimentos de seu coração dominaram seus ouvidos. Esperançoso, colocou o dedo no gatilho, mirando o máximo que a tremulação de suas mãos permitiu.

Contudo, aquele som pulsante e determinado a sobreviver que sua audição deu prioridade, não permitiu que outro ainda mais importante fosse percebido.

Na porta, uma segunda silhueta surgiu como um fantasma. Mas o detetive sequer raciocinou.

— JA-

Ele apertou o gatilho. O som explosivo substituiu o de seus batimentos, seguido do chiar estridente em seus ouvidos.

O seu medo, somado com as mãos trêmulas e a baixa visibilidade, fez com que o rumo tomado pelo projétil fosse distante da estátua de pedra que permanecia intacta, diferente da outra ao seu lado.

As gotas escuras deixadas para trás, logo ganharam o tom carmesim quando atingidas pela fraca luz da lua que atravessava a janela rente a porta. Os cabelos ruivos cobriram o rosto da vítima que não foi capaz de dizer suas últimas palavras.

A imagem que seria marcada por toda a eternidade na mente de James, havia tornado o medo da estátua em algo bobo, que não assustaria nem a mais medrosa pessoa.

Estática naquele mundo em câmera lenta, o ídolo de pedra encarava o homem em uma pose culposa, quase apontando para o verdadeiro assassino daquela mansão, que após tanto tempo finalmente se revelou.

A veias vermelhas destacaram-se em seus olhos, aquelas que tentavam de todas as maneiras tornar aquela visão monstruosa em algo irreal, uma tarefa cada vez mais difícil de acordo que seus globos eram inundados por lágrimas. 

James não acordou, muito pelo contrário, acabou por fazer a realidade em um pesadelo imutável.

Naquele silêncio eterno, um único grito soou como uma sirene, tão alto e forte, que poderia ser o último do detetive antes que sua garganta estourasse.

— JESSIEEEEEE!



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