A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 7: As Cinco Ordens (1)

James desapareceu no corredor, entrando pela primeira vez na ala esquerda do segundo andar da mansão. O corredor inicialmente idêntico ao que se encontrava do lado oposto, têm suas paredes à direita decoradas unicamente por incontáveis janelas, as quais demonstravam através das sombras de galhos, que o tempo do lado de fora permanecia mais acelerado do que nunca.

Quando encarou a sombra caminhar velozmente pelo assoalho, um aperto acertou o coração do investigador, como um espasmo muscular.

“A quanto tempo estamos aqui, afinal?” pensou, com o olhar travado no chão. “Estranho… Não sinto nada de diferente. É bem provável que a polícia esteja vindo nos procurar, mas será que vão conseguir entrar?” Seu olhar temeroso voltou ao início do corredor por um minuto.

Sem qualquer ideia de como prosseguir, suspirou. Seu andar vacilou de uma direção para a outra.

“Acho que eu deveria pedir desculpas, não é hora de ficar brigando, mas…” Em sua cabeça, imaginou a reação de Jessie após seu pedido, desistindo de imediato. “Não tô com saco pra aturar aquelas babaquices de novo.”

Decidido, virou-se novamente, parando de frente para a janela após o giro, o que lhe rendeu uma ideia. Seu olhar passou pela superfície do vidro, que apesar de não apresentar danos, abrigava uma imensidão de sujeira. Quando vislumbrou com dificuldade o lado de fora, a mesma monotonia de quando chegaram na floresta foi o que viu. Era como se aquela área fosse imbuída em uma energia mais forte que impedisse o proliferamento de vida pelas redondezas.

“Acho que vale a pena tentar de novo...”, pensou ele, empunhando a primeira coisa afiada que encontrou em seus bolsos, a chave do fusca.

Esperançoso, ele apontou o item para o vidro, afastou o braço, e com um impulso forte, golpeou a janela acompanhado de um resmungo determinado. Porém, em um movimento astuto demais para o detetive prever, a janela refletiu a chave, quase levando-o ao chão.

“Como essa merda pode ser tão resistente?”

Em uma análise breve, notou que o único dano no vidro havia assumido a forma de um simples arranhão.

“Melhor que nada”, pensou ele.

Sua satisfação, no entanto, foi destruída quando seu primeiro avanço bem-sucedido contra a mansão, desapareceu em um piscar de olhos.

— Tá de sacanagem, né? — rosnou com o rosto avermelhado, mas controlando-se antes de um ataque de raiva, e assim prosseguindo.

Ao contrário da ala direita, os sete quartos nesse corredor foram substituídos por uma única porta dupla, centralizada na metade do caminho.

Como se fosse uma criança caminhando pela rua onde morava, ele se colocou em frente a porta, abrindo-a em um empurrão.

O interior imbuído em completo breu foi logo desfeito. A fraca luz das janelas era o suficiente para James andar por ali sem tropeçar em nada.

Como todos os outros cômodos, poeira e cheiro de mofo invadiram cada parte do corpo de James. Seu nariz foi dominado pela coceira, essa que por segundos que passaram lentamente, resultou em um espirro que apenas levantou mais pó.

Ele olhou para um lado e para o outro, quase não enxergando o final da fila de prateleiras que se estendiam por todo o lugar.

O chão era coberto por um tapete marrom, tornando impossível saber o quão sujo poderia estar. Os móveis de madeira, assim como as prateleiras, não demonstraram quaisquer sinais de deterioração. No centro de tudo aquilo, uma mesa oval que dispunha de sete cadeiras parecia convidar James para se juntar naquela reunião de fantasmas.

“Tenho que ser forte! Aquele filme não me assustou! Não mesmo!" Deu tapas no rosto, hesitando antes de proceder.

“Alamut não havia citado essa biblioteca. Esses livros são de que época?” Aproximou-se, pegando um aleatório e buscando por uma data.

— 427? 412? — sussurrou, duvidando de sua sanidade por um breve momento. — 431… 445… — Gradualmente, James foi sendo preenchido por animação.

“Livros tão antigos assim… são praticamente uma descoberta histórica!

“Todo mundo acredita que não existiam formas de se registrar fatos históricos antes do ano 500! Se eu levar isso para um especialista e ele confirmar que é real, eu posso...

“Ah!” Ele recebeu o choque de realidade.

Largando os livros e chorando internamente, o detetive passou seu olhar vago pelas incontáveis capas.

— Não tem padrão de organização, eles estão só… jogados. Mas, todos estão datados dentro do Século 4 — falou, seguido de um suspiro. — Tanto conteúdo inédito escondido aqui. Por que ninguém veio aqui buscar até hoje?... Bem, na verdade, acho que sei o motivo.

Cansado, buscou evitar ficar cada vez mais depressivo através da fuga daquele armazém de histórias. Seu semblante cabisbaixo voltou até a porta da biblioteca, mas não antes de atingir um último livro que estava jogado na mesa.

A aparência nostálgica fez sua memória trabalhar, deixando-o ansioso, mas ainda hesitante.

— É idêntico ao diário de D. Rossi! Mas não pode ser, aquele caderno está no altar, tenho certeza disso. Talvez um segundo livro? — Caminhou até a mesa e virou para a primeira página.

Centralizada no papel amarelado, uma escrita simples, legível e bastante direta.

Estudo: Tipos Sanguíneos, por D. Rossi

O coração de James deu um salto de seu peito, seguido dos batimentos velozes e potentes que quase ecoaram por toda a mansão.

— Outro livro de D. Rossi! Agora sobre estudos? Tipos Sanguíneos? Eles estudavam sobre isso no Século 4? — gaguejou, sacudindo a cabeça antes que perdesse o foco.

Mais ansioso do que nunca, suspirou, iniciando a leitura. Como esperava, anotações falando sobre diferentes tipos de sangue e qual influência tal fator possui no famoso “líquido da vida” dominavam o papel.

O rosto de James se contorceu, e ele releu o título para ter certeza de que não estava vendo algo feito por um maníaco. Sem opções alternativas, prosseguiu pelas páginas numeradas, e dentre todas, uma única chamou-lhe atenção o bastante para parar a paginação e ler.

47 - Obs: Quando sangue é derramado, independente de qual tipo seja (A, B, O ou AB), aqueles com mesmo tipo demonstram serem de alguma forma, atraídos na direção do sangue, ou em outros casos, ficarem paralisados na presença do mesmo quando este acaba de ser derramado diante de seus olhos.

Uma espécie de “instinto empático”, poderia-se dizer, como uma mãe que é atraída pelos grunhidos do filhote perdido, ou um animal que encara seu semelhante já desfalecido.

O detetive sentiu um arrepio, conferindo suas costas brevemente.

A paginação seguiu, agora apreensiva. O medo de ganhar um novo trauma assolava o homem a cada nova palavra, mas para a sua sorte, até que alcançasse a última página do caderno, nada de ruim passou de relance pelas páginas além de anotações inacabáveis.

Ele suspirou aliviado, mesclando também a decepção em não encontrar nada que pudesse ajudá-lo na situação. Mesmo assim, ainda havia esperança, essa depositada na última folha do caderno. 

No topo do papel, quase beijando as margens, o título: “As Cinco Ordens”.

Não notando qualquer relação com pesquisas sobre o sangue, iniciou sua última leitura naquele que deveria ser o outro diário desse misterioso homem chamado D. Rossi,

Finalmente acabou. A minha jornada chegou ao fim, mas não a sua.

Deixo neste caderno, meu legado como um humano que esteve vivo nesta época maligna, além de meus avisos para qualquer um que chegue a encontrá-lo.

Minhas folhas não irão perecer, tenho algo que irá garantir isso, portanto, espero que alcance uma época distante, e igualmente, alguém de calibre alto o bastante para divulgar minhas descobertas com propriedade. Na verdade, não preciso me preocupar tanto com isso, pois aqueles não escolhidos pela graça divina serão facilmente subjugados pelos seus opostos.

Estarei observando essa jornada do mais profundo poço que você puder imaginar.

Nesta página final, dedico minhas “ordens” para ti, para que seja capaz de proteger tudo isso que acumulamos por tantos anos.

James lentamente desceu seu olhar até o final da página, onde estava anotado em forma de coluna um total de cinco frases. Não pareciam ter relação com a mansão, e mesmo assim, a única sensação que atingiu o detetive ao lê-las interrompeu seus batimentos, inconscientemente alertando-o do perigo iminente.

1° Ordem: Um mundo de espelhos, aqui irei criar.
2° Ordem: O meu eu verdadeiro, tu não serás capaz de encontrar.
3° Ordem: Para onde quer que você vá, eu estarei lá.
4° Ordem: Diante a minha presença, irá se prostrar.
5° Ordem: O excisar de meus punhos, nada será capaz de parar.



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