A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 6: Vestígios de um pecador (2)

Jessie foi expulsa da visão da mesma maneira que na primeira vez. Ofegante, ela conseguiu se manter de pé, logo procurando por James, este que permanecia exatamente no mesmo local.

— Foi bem rápido — comentou ele. — Acho que não passou de um único segundo a sua ida e volta dessa visão, se é que ela realmente aconteceu.

— Mesmo nessa situação, você ainda duvida de mim? — disse ela, fazendo o parceiro desviar o olhar ao simplesmente encará-lo.

Com pressa, ela buscou por um bloco de notas e sua caneta, rapidamente anotando tudo que lembrava. James, por sua vez, encarou o final do corredor ainda se totalmente inóspito.

— Essas duas visões, as duas mostraram a quebra do mandamento talhado no altar, e nas duas ocasiões ocorreu por causa do garoto mais quieto — iniciou Jessie, alto o suficiente para o companheiro escutar.

A cabeça da mulher latejava levemente, uma dor incômoda, mas ignorável. Sua mente estava focada em dissecar aquelas visões, e apesar daquele segundo coração que instalou-se em seu cérebro, as frases do garoto quieto eram capazes de sobrepor aqueles batimentos.

— Nas duas visões, houve a quebra do respectivo mandamento que está talhado no altar — continuou, andando em círculos. — Eu não sei os nomes, mas sei que são irmãos. A mãe deles também… Bom, não faço ideia de quem ela é, mas acho que nem importa.

James, encarando a situação da mulher, preocupado com a sanidade da mesma, rezou em silêncio para que sua única companhia não ficasse maluca, enquanto essa continuou sua fala.

— A aparência do lugar remete à uma casa de campo, mas também pode ser em um século anterior. E claro, dessa vez eu consegui ver uma sombra dos olhos e da boca de todos os três, então, significa que se eu continuar com esse esquema, em breve terei a imagem completa!

— Bem legal, essa macumba que você fez aí — disse James, arrogante. — Que tal usar isso para arranjar explicações para aquele altar ali? — Seu olhar perdido vagou por todas as estruturas de mármore, pois não se lembrava mais de qual era aquele que procurava.

— Agora não é hora! — bravejou ela.

— E quando vai ser, Jessie? Como quer que eu fique calado depois de ver uma coisa dessas?

James entonou cada vez mais furioso, mas o levantar contínuo de sua voz e a consequente queda daquelas frases em uma briga inútil, foi cessada pelos passos de pedra, alertando o detetive distraído.

Logo em suas costas, a estátua dava um último passo para assim sair do corredor.

Os corações dos únicos seres ainda vivos naquele local bateram fortemente em sincronia, juntamente aos olhos que se arregalaram e ao rosto incapaz de sequer exibir cor vívida diante daquela brutal presença de morte.

Aquele que tornou-se o “sensor de perigo” de James, atacou novamente seu abdômen, colocando-o de joelhos.

Jessie gaguejou, perdendo diversas oportunidades de chamar pelo nome do parceiro enquanto estendia seu braço na direção do mesmo.

O caminhar da escultura tornou-se lento na perspectiva de sua presa, a qual apenas aguardava pelo golpe de misericórdia.

Por instantes que pareciam infinitos, ele sentiu que apenas ele e aquela imagem de pedra existiam. Ninguém viria salvá-lo, não havia ninguém disposto para tal. 

“É o meu fim!” Foi o que ele predisse.

A estátua, no entanto, com planos mais importantes em sua mente, adiou o julgamento e passou reto por James.

Momentaneamente, os olhares da dupla apenas seguiram a estátua, que ao alcançar o final das escadas, posicionou-se em seu local de costume, tendo brevemente, a luz da lua atravessando o vitral e atingindo-lhe as costas, rapidamente trocada pelo alvorecer dourado, veloz como nunca.

— Eu… jurei mesmo que ia morrer. — Ele apertou seu peito, tentando impedir seu coração de saltar pela boca.

— Você tá bem? — gritou Jessie, ainda no salão principal.

— O que você acha? — Ele a encarou de canto.

— Você... — Ela conteve a raiva. — Já que está tão bem, que tal aproveitar que a estátua não está se movendo e ver o que existe na ala esquerda do segundo andar?

— Sua- Tá maluca? — Levantou-se, fingindo dificuldade. — Desde que entramos aqui, eu tenho sido o foco dessa coisa!

— E eu com isso? Se quiser ficar sentado como um inútil, tudo bem! Mas não venha reclamar quando estiver sendo perseguido de novo!

James resmungou, ganhando um semblante enraivecido, seguido de uma súbita mudança de postura, como se todas as dores de seu corpo tivessem desaparecido.

— Ótimo, vou explorar então! Mesmo com o tempo acelerado, eu consigo em um dia, fazer mais coisas do que você fez em quase cinco!

— ÓTIMO!

— ÓTIMO! — Ele desceu as escadas, quase tropeçando. — Eu vou te mostrar! Mostrar que posso ser tão útil quanto qualquer outra pessoa seria! E quando eu fizer isso, você vai explicar tudo sobre aquele altar sem pestanejar!

Ele caminhou a passos largos, tanto que nem percebeu quando passou pela estátua e subiu as escadas novamente até desaparecer no corredor da ala esquerda, tendo como sua última vista o olhar severo de Jessie, que parecia tão furiosa quanto ele.

“Que se dane!”, pensou ela, retornando sua atenção aos altares.

Seu olhar inquieto vagou por cada mandamento. O enorme salão vazio, aos poucos ganhava a tonalidade mais dourada, mas também tornava-se cada vez mais silencioso.

Certo ponto, um em específico chamou-lhe a atenção. “Não usar o santo nome em vão” era a nova frase que brilhava em dourado.

Com a mescla de raiva e confusão lhe corroendo, não se importou em descobrir como tal altar havia sido cumprido, logo levando a palma de sua mão até o mármore, em busca de qualquer forma de se livrar daquela situação, por um segundo que fosse.

Assim que aquela transição passou diante de seus olhos, as vozes ecoaram mais uma vez, mas agora, aquelas de entonação infantil, tornaram-se em tons mais graves.

Dessa vez, apenas duas pessoas estavam presentes. O local, no entanto, tratava-se do mesmo da última visão. A clareira da floresta, agora levemente mais iluminada, revelava ao fundo um caminho de terra que desapareceu mata adentro.

No centro de tudo, sem mais a existência daquela casa de madeira, duas silhuetas do que pareciam adolescentes se contestavam.

— Isso tudo é uma merda! — disse, chutando o amontoado de areia na direção do outro.

— Acalme-se, irmão! — Este estendeu as mãos, mas a mesma foi estapeada.

— Não diga isso em uma situação dessas! Nós já perdemos tudo, e mesmo assim você insiste em seguir aquilo que nunca sequer viu!

O olhar daquele que gritava era estreito e feroz, quase como um animal que encarava a presa ágil, a qual por muito tempo já desviava de todos os seus ataques.

A presa em questão observou incrédula aquilo que uma vez havia sido seu irmão, agora assumindo uma forma odiosa para aqueles com seu mesmo ponto de vista.

— A terra, as árvores, o vento, o céu — continuou. — Eu odeio tudo isso!

“Por que logo você tinha que ser dominado? Logo você, que por tanto tempo eu admirei de longe…

“Por que você escolheu ele ao invés do seu próprio irmão?!”

Aqueles gritos imparáveis rasgaram todos os arredores, causando ventanias que derrubaram até mesmo galhos das árvores ao redor.

A expressão daquele que recebia estes apelos, rapidamente transformava-se em desprezo pelo seu mais novo inimigo jurado.

Este, por sua vez, não cessou mesmo diante daquele semblante reprovador. Gastou todas as suas energias em seus esperneios, até quase estourar sua garganta.

Quando os arredores começaram a ganhar a tonalidade branca, e a visão do passado aproximava-se de seu fim. Aquele que gritava, perguntou pela última vez, perante não apenas o céu, mas tudo que havia além dele.

— Por que você roubou ele?

— Por que o meu irmão?

— Por que… ALAMUT?

Jessie foi cegada novamente, até que seus olhos fossem abraçados pela fraca luz e aconchegante que adentrava no salão.

Sua boca levemente aberta, acabou por não conseguir falar absolutamente nada naquele instante. Aqueles sentimentos que presenciou, nada mais eram do que um reflexo de uma versão antiga de seu coração, o qual por muito tempo travou as emoções que agora derrubaram os grandes portões.

Aos poucos, lembrou-se de algumas aulas durante o curso de formação que fez para se tornar a incrível investigadora que é atualmente. Nesta aula, o homem de terno e gravata explicava sobre um fenômeno antigo, mas também pouco compreendido pela sociedade atual. 

“Muitos séculos atrás, algumas pessoas eram capazes de ‘ultrapassar’ o limite humano.” Aquela voz cansada ressoou em sua cabeça. 

“Naquele tempo, ainda não existia o ato de registrar a história em livros, pelo menos até onde tudo indica. Portanto, não nos resta nada além de especulações.

“Do que os seres humanos eram capazes? Existia alguma raça que foi extinta? Havia algo que os ameaçasse ao ponto de evoluírem precocemente?

“Tudo que sabemos é que as pessoas daquela época eram abençoadas com algum tipo de força maior, força essa que acreditamos percorrer no sangue de algumas pessoas até os dias de hoje.”

Ela encarou sua mão direita, e um sentimento de culpa pareceu iniciar uma invasão em seu coração, manifestando-se em poucas palavras, as quais assumiram o papel de lhe instalar a dúvida, e trazer ao rosto as primeiras lágrimas depois de muitos anos.

— Por que eu escolhi aquilo?



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