A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 5: Vestígios de um pecador (1)

Ao tocar o altar, o mar de luz tornou-se em trevas, e aquelas vozes novamente invadiram a mente de Jessie.

Não se preocupe, mãe! Eu e meu irmão nunca mais faremos essas coisas novamente, é uma promessa!

Eu sei disso, afinal, meus filhos são crianças abençoadas.

Aquela escuridão indomável dissipou-se o suficiente para que imagens surgissem naquele vazio. Um cômodo que era feito inteiramente de uma madeira escura tornou-se parte daquela visão, acomodando um total de três silhuetas humanas.

A primeira que falou tratava-se da pessoa que se aconchegava na única cama do local, sua voz tornou óbvio tratar-se de uma mulher, mas seu tom era firme demais para alguém doente, sua postura lembrava muito os soldados especiais do exército.

A outra voz tomou a forma de uma criança, essa sentada na beirada da cama com uma outra logo ao seu lado, sendo a segunda muito mais silenciosa, além de manter uma constante postura inferior.

— Peça desculpas ao seu irmão.

— Mas foi ele quem começou! — pronunciou a segunda criança, tímido.

— Não importa quem começou. Quebrar as coisas dos outros é algo que não se faz — A voz da moça se manteve calma, até levemente brincalhona.

— Eu também não me importo, irmãozinho! — falou o outro, animado. — Mesmo que as minhas coisas quebrem, eu ainda posso consertá-las! — Ele ergueu os braços, com um grande sorriso no rosto.

— Mentiroso. — O quieto manteve a cabeça baixa, e a sua voz trêmula fez o irmão continuar.

 — É verdade! O irmãozinho é a melhor coisa que eu tenho! Por isso, é melhor você tomar cuidado como a mãe sempre diz, por que senão... — O quieto finalmente encarou o mais velho. 

— Eu não vou poder consertar você!

Aquela curta frase foi simples, mas trovejou dentro da mente do mais jovem, atingindo-o com uma descarga elétrica tão forte quanto qualquer raio. Ele encarou o irmão, estático, até que a mãe, ainda serena, falou:

— Viu só? Você não tem um ótimo irmão? Agora, seja o bom garoto que você sempre foi e peça desculpas a ele.

Novamente, ele abaixou a cabeça, e seu olhar voltou ao chão. Lágrimas desceram por seu rosto contorcido, e da maneira que pôde, impediu que suas unhas rasgassem a pele de suas pernas.

Segurando seu choro, ele saltou da cama, correndo para onde ninguém conseguiria vê-lo.

— A culpa não é minha! Idiota!

Ele bateu a porta com força, deixando o irmão especialmente incrédulo.

— Não se preocupe, mãe! O irmãozinho não precisa pedir desculpas! — disse ele, ao que parecia buscar acalmar a mulher.

— Do que está falando, seu bobinho? — Uma risada leve fez o pequeno garoto suspirar aliviado. 

— Vocês dois são meus pequenos anjos. — Ela afagou a cabeça da criança. — Eu os amo da mesma forma.

Ao fim da frase, a visão tornou-se escura novamente, e como se viajasse em uma velocidade absurda, a mente de Jessie retornou ao seu corpo, gerando um impacto tão forte que lhe fez cair de costas no chão.

— Jessie! — gritou James.

— Tô de boa! — Ela levantou a mão, antes que o homem pensasse em descer as escadas. — Não foi tão útil quanto eu pensei que seria.

Ela encarou o mandamento, lembrando também de cada segundo que se passou naquela “visão do passado”.

— Essas memórias — continuou ela — estão de alguma forma ligadas com os altares. Havia uma criança que se recusou a pedir desculpas, e então, a visão encerrou.

— Reconheceu alguma delas?

— Não, na verdade, todas as três pessoas não eram nada além de sombras.

— Sério? Bem, eu já não esperava muita coisa, de qualquer forma — suspirou, olhando ao seu redor para assim, deparar-se com aquele que até então estava desaparecido.

A estátua surgiu na varanda interna. Tudo indicava que ela estava andando em círculos, mas seu surgimento demorado alimentou ainda mais a curiosidade de Jessie.

“Andando naquela velocidade, é impossível ela não ter feito algumas paradas em algum cômodo.”

— Jessie! Sai daí pra gente correr! — disse James, já quase desaparecendo no corredor.

— Acho que não precisa! Veja ela, sequer está olhando para nós, só tá andando toda sonsa por aí. 

James observou a escultura, escondido atrás de uma das paredes. A imagem caminhou lentamente, sem hesitar ou sequer olhar para outra direção que não fosse em frente, até por fim desaparecer novamente no corredor que resultaria na ala dos sete quartos.

— Se você quiser contornar ela, fique à vontade, mas eu quero continuar aqui e ver se essas “visões” me revelam algo a mais — falou ela, ríspida. 

Seu parceiro resmungou, olhando de uma lado para outro, totalmente indeciso.

— Certo! Então, eu vou ficar aqui para avisar caso perceba algo de estranho com aquela pedra ambulante. — Ele escorou no corrimão mais uma vez, já com o pé no primeiro degrau da escada.

Jessie, por sua vez, levantou e foi em direção ao próximo altar.

“Não cobiçar as coisas alheias”. Aquela frase brilhante que quase circulava por completo o altar, trazia para a mulher algumas memórias de sua infância, no entanto, também lhe alertava sobre a situação que em breve iria atormentá-la naquela mansão, tanto que seu corpo era incapaz de controlar os batimentos acelerados ao encontrar o olhar penetrante de James. 

“Eu penso nisso depois! Agora, eu preciso descobrir mais coisas sobre esses mandamentos, e talvez até sobre Rossi!”

Então, ela praticamente estapeou o altar também vazio, tendo a sua visão mais uma vez consumida pelo imenso brilho seguido das trevas.

Desta vez, não era um cubo de madeira que cercava o ambiente ao seu redor. Apesar de ainda estar escuro, era perceptível pelo cantar de pássaros, e uma singela luz que atravessava emaranhados de galhos altos, que se tratava de algum lugar a céu aberto.

Aquelas duas crianças estavam lá também, mas agora ambas tinham em seus rostos, olhos e boca, mas isentos de qualquer tipo de cor vívida.

O garoto animado colocava ao seu redor diversos objetos que juntou enquanto vagava pelos arredores. Galhos foram amarrados juntos, formando um boneco que imitava uma pessoa, folhas secas eram trançadas umas com as outras, e deixavam no chão o que deveria ser pelo menos o início de uma cesta.

— Mãe! Aqui fora! Vem ver o que eu consegui fazer! — chamou ele, saltitante.

Alguns metros atrás dele, o garoto quieto estava com os joelhos colados em seu torso, e pensativo, ele usava de um graveto para fazer linhas aleatórias na areia acumulada logo abaixo de seus pés descalços.

Quando a mãe surgiu, a atenção do pequeno que matutava sobre nada caiu em seu irmão mais velho, que esbanjava um semblante orgulhoso.

— Ora! Você está cada vez mais criativo, não é? — falou a mulher, acariciando a cabeça do jovem.

A criança deu um grande sorriso, e disse: — Sabe! Na floresta, eu comecei a ouvir algumas vozes, mas eu fugi na mesma hora, assim como você mandou! Eu corri rápido mesmo!

— Muito bem! Obrigado por avisar a mãe. — Ela olhou para frente, e seus olhos colidem com os do irmão mais novo. — E seu irmão, algo aconteceu com ele?

— Não! O irmãozinho também correu junto comigo, mas sabe, ele não é tão rápido quanto eu! Quando ficou um pouco atrás, começou a chorar e eu tive que voltar e puxar ele junto comigo!

— É mesmo? Que corajoso! Você fez muito bem, tenho certeza de que você vai ficar forte como você sempre fala!

O sorriso do pequeno alargou-se, enquanto o jovem quieto escondeu o rosto e encolheu ainda mais. Os risos alegres de sua família ecoaram fortemente, fazendo as batidas de seu coração ficarem cada vez mais fortes.

Todo seu corpo foi aos poucos consumido por emoções que a criança não era capaz de descrever, mas que sempre estiveram presentes em sua vida. O mundo ao seu redor desapareceu, restando apenas aquelas duas pessoas, que nunca escutaram sua voz mesmo que gritasse com todas as forças.

— Por que ele é tão feliz?

— Por que ele consegue ser assim?

— O que ele faz para conseguir isso?

Quando as risadas se encerraram, o pequeno ouviu seu nome ser chamado, e então pôde escutar os passos dos outros dois se afastarem na direção da casa.

Solitário em seu pequeno mundo, limitado naquela clareira cercada de inimigos invisíveis, ele levantou a cabeça, e sem conseguir conter as lágrimas, suplicou em silêncio.

“Eu quero… ser forte igual a ele!”



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