A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 4: Investigação (2)

O tempo ao redor dos detetives, sem aviso ou explicação, começou a correr mais rápido do que o normal, tornando impossível determinar o dia e horário exato em que eles se encontravam.

Quando o céu foi dominado pela lua, a estátua moveu-se por conta própria sem qualquer interferência da dupla. Lentamente, ela caminhou na direção dos dois, encurralando-os contra a porta.

“Ela está realmente se movendo sozinha! Os movimentos são tão naturais que eu poderia jurar ser apenas uma pessoa disfarçada!”, pensou Jessie, sequer cogitando aquela possibilidade.

James fechou os olhos com força e envolveu sua cabeça com os braços, em contrapartida, Jessie apenas fitou a estátua, em choque. Seu corpo paralisou completamente, recebendo o ataque de um forte arrepio por toda sua superfície quando a escultura se inclinou, ficando na altura da garota, e parecendo de alguma forma lhe analisar.

A respiração de Jessie destacou-se por alguns momentos, ela ofegou pesadamente quando o rosto de pedra ficou a centímetros do seu. Por segundos a fio, uma espécie de troca de olhares se passou entre os dois indivíduos, até que finalmente a imagem ajeitou sua postura, seguindo na direção do lance de escadas à esquerda e, consequentemente, o segundo andar.

Totalmente focada naquele ídolo inabalável, o corpo da mulher só foi capaz de relaxar ao perder seu inimigo de vista no corredor. Junto de James, que tomou coragem para abrir os olhos quando não escutou mais os passos daquela criatura, eles despencaram ao chão.

— O que foi isso? — Jessie manteve seus olhos fixados no corredor.

— Eu não faço a mínima ideia — disse James, com a voz trêmula e encarando o chão.

— Mas olha só, ela foi pela esquerda! Essa é a hora perfeita para explorarmos o lado oposto do segundo andar! — Jessie se forçou a levantar, puxando o companheiro pelo braço.

— Tá maluca? — Ele a puxou de volta. — Mesmo depois de tudo isso, ainda quer explorar essa merda de lugar?

— Então me dê uma opção melhor! Algo que valha mais a pena fazer do que ficar parado por sabe-se lá quanto tempo! — Ela o fitou, raivosa.

James travou, capaz apenas de gaguejar. A mulher, por fim, deu as mãos com o colega, na tentativa de acalmá-lo o máximo possível.

— Vamos explorar e ver se encontramos algo para ajudar na nossa fuga, ou talvez até mais respostas sobre o que está acontecendo aqui dentro — disse ela, ao entrelaçar seus dedos aos do parceiro.

James ainda hesitou, mas sendo forçado, relaxou o braço e colocou-se ao lado da sua protetora, acompanhando-a na direção dos degraus.

Enquanto caminhavam pelo tapete, Jessie trombou em um dos altares que brilhavam em dourado, e para sua surpresa, sentiu algo estranho percorrer seu braço quando a mão tocou o mármore.

Uma espécie de arrepio, que viajou da área onde o toque ocorreu até alcançar sua cabeça, obrigando-a a fechar seus olhos e soltar a mão do parceiro, tentando parar aquela dor que lhe acertou.

Quando sua visão foi tomada pelas sombras, uma voz desconhecida ecoou seguida de uma outra, essa facilmente reconhecida como a de uma mulher.

Não se preocupe, mãe. Eu e meu irmão nunca mais faremos essas coisas novamente, é uma promessa!

Eu sei disso, afinal, meus filhos são crianças abençoadas.

Em seguida, uma voz invasora chamou Jessie, sendo ela James, que cutucou o ombro da parceira, gradualmente mais desesperado.

A garota abriu os olhos em um susto, deparou-se com seu companheiro em um semblante preocupado e com a mão do mesmo pressionando fortemente seu ombro.

— Está se sentindo bem? Você cambaleou como se tivesse desmaiado.

— Você ouviu vozes? — perguntou ela, massageando a testa.

— Vozes? Não. — Olhou ao redor.

— Bem, tanto faz então. Vamos continuar!

— Não quer descansar um pouco? Você está suando bastante! — disse ele, mas o olhar de Jessie nada mais mostrava além de pressa.

— Realmente tem algo te incomodando, não é? — James fincou o pé, encarando a mulher por alguns segundos, para então lentamente olhar para um altar.

Contudo, sua ação foi impedida pela garota, que ainda mais apressada puxou-lhe pelo braço, quase levando o homem ao chão.

O caminho até as escadas seguiu silencioso, com ambos de cabeça baixa e uma dúvida que começava a lhes corroer.

Chegando naquela elevação, Jessie ficou na ponta dos pés, vendo parcialmente o corredor vazio pelo qual a estátua havia desaparecido. 

Agora, sentindo um mínimo de segurança, ela puxou James novamente. Cada degrau rangeu com os passos da dupla, conforme subiam, a atenção passou por cada canto da estrutura, buscando uma rota de fuga ou local por onde poderiam sofrer um ataque surpresa do inimigo.

Enquanto os detetives davam os seus primeiros passos na direção de uma verdadeira tentativa de sobreviver, Jon Alamut, agora mais calmo, ponderava distraído enquanto observava as nuvens através da janela de seu quarto.

— O que se passa dessa vez? — perguntou um mordomo ao adentrar no cômodo.

— Estava apenas refletindo. — Jon sorriu, estendendo a mão para pegar a xícara de café que lhe trouxeram. — Parei para pensar, e me lembrei das histórias do meu pai.

“Ele me contava sobre meus antepassados, mas também não parecia saber quem foi exatamente o primeiro proprietário. O nome deste, iniciado em ‘D’, nunca foi citado de forma comum, sempre sendo referido como ‘ele’ ou ‘o primeiro’.

“Lembro-me de acreditar que ‘D’ havia gerado diversos filhos, sendo um forte motivo para ter construído uma mansão. Mas, também me recordo de meu avô contradizendo essa minha ideia.

“Um fato, é que ‘o primeiro’ tinha uma crença muito forte em seu Deus, mas também grande paixão por bens materiais, algo que acabava indo contra seus ideais.

Jon virou todo o café em um único gole, batendo a xícara em seu criado-mudo, e então disse: — Como bem dizia meu avô: “D era uma pessoa abençoada, mas também severamente amaldiçoada”.

O mordomo suspirou com um sorriso, apenas fingindo ter entendido, então comentou:

— Bem, independente das coisas que tenham acontecido naquele local, precisamos rezar para que Jessie e James retornem sãos e salvos.

— Sim, eu tenho certeza de que neste momento, ambos estão passando por dificuldades tão grandes que nós não somos sequer capazes de imaginar.

O olhar de ambos retornou ao céu, enquanto os olhares da dupla eram direcionados para outra coisa.

— É bem longo, né? — perguntou James.

— Nunca vi um tão comprido — disse Jessie, estupefata. — Qual a necessidade de um tão grande?

— Ora! Estamos em uma mansão, é de se esperar que os corredores sejam longos. — James subiu o último degrau, observando as diversas portas.

Jessie avançou na frente, analisando as portas e descobrindo uma única semelhança entre elas, sendo da letra D seguida de um número, do 1 até o 7.

— Isso virou um hotel agora? — Ela passou por cada porta, analisando de relance o interior. — São todos quartos normais, e com poucas diferenças pelo que vejo.

— Outra vez esse “D”. Você acha que todos os quartos eram do D. Rossi? — James se encostou na parede, pressionando o abdômen.

— Difícil, acho que é mais provável ser um D de “dormitório” — comentou ela, entre suas trocas de quarto. — Acho que encontrei algo aqui no D3!

James usou a parede de apoio, empurrando o próprio corpo na direção do quarto. Se encostando no batente da porta, ele observou Jessie puxar uma caixa preta muito empoeirada debaixo da cama no mesmo estado.

Quando não encontrou nenhum tipo de escrita na caixa que pudesse indicar o conteúdo, ela removeu a tampa lentamente e com o rosto afastado. Quando o fez, viu um interior preenchido por lenços pretos, esses que protegiam dos males externos, uma câmera habitual para os dois, semelhante ao modelo polaroid.

— Impressionante! Esse modelo é bem desenvolvido, considerando que deve ter sido criado há séculos atrás — disse James, mancando na direção da parceira.

— Ela parece ser um dos primeiros modelos, mas não tem fabricante nem assinatura de ninguém. — Jessie mirou a lente na direção da porta.

Ela pressionou o botão, e no instante que o som dos mecanismos se movendo dentro do item se propagou no ambiente, a dupla ganhou sorrisos surpresos, seguidos de uma dor nos olhos causada pelo flash de luz extremamente forte que lhes atingiu.

— Ainda funciona... — Ela esfregou os olhos. — Impressionante.

Pensando ter acabado por ali, a surpresa deles se intensificou quando da saída da câmera, um papel fotográfico foi expelido, mas não como eles estavam acostumados.

— Ei! Eu tô vendo coisas? A foto já saiu revelada! — James apanhou o papel, encarando aquilo como uma criança que havia presenciado um truque de mágica.

— Que tipo de tecnologia é esta? Eu nunca vi sequer alguém tentar criar algo assim! — acrescentou a garota.

Contudo, aquele momento surpreendente para eles foi logo destruído com o som de algo batendo na porta do quarto. Os olhares foram imediatamente ao encontro de tal coisa, novamente encontrando aquela estátua passando pela porta com certa dificuldade devido ao seu tamanho.

As recordações do primeiro encontro de James com a criatura o atingiram em um baque, fazendo a dor em seu abdômen voltar como se fosse um novo instinto. Ao se exaltar e se proteger atrás de Jessie, fez a mesma tirar uma foto acidental da estátua, antes que a imagem conseguisse atravessar a porta de vez.

“Não me diga!! Será que o mandamento ‘Não matarás' foi ativado de novo?”

Em passos curtos o ídolo se aproximou, cada um acompanhando o bater de coração sincronizado da dupla. O sentimento de derrota os acertou em cheio, pois naquele quarto pequeno, apenas um balançar de braço daquela coisa já seria capaz de acertá-los, talvez até nocautear. 

Seus corpos amoleceram, até que as pernas bambas se dobraram, colocando os humanos de joelhos perante aquela entidade que ultrapassava qualquer lógica que conheciam.

A escultura deu os últimos passos na direção dos perdedores, e quando sua mão livre estava no alcance de seus rostos, esta se estendeu. Seu alvo, foi a caixa preta entre eles.

O olhar vazio dos detetives, até então travado na porta, voltou-se para a estátua e se tornou em confusão. Enquanto aquela coisa de pedra se agachou, foi extremamente fácil vislumbrar um olhar calmo naquela rocha acinzentada quando a caixa foi pega.

Totalmente imóveis, eles observavam cada movimento friamente, até que o item voltasse para seu local original. Finalmente, a imagem levantou-se parecendo satisfeita, e se retirou do quarto como se não houvesse mais ninguém ali.

— Eu pensei que não, mas acho que ela é cega sim — falou James, para então encarar a foto que caiu entre ele e sua parceira. — Hm? Ai merda! Acho que eu quem tô ficando cego.

Ele esfregou os olhos com calma, esticando o braço na direção da fotografia após um longo suspiro, e engolindo seco quando sua ilusão mostrava ser, na verdade, parte da realidade.

— J-Jessie, me diz que você também reconhece essa coisa de algum lugar!

A garota pegou a pequena foto, observando brevemente aquilo que normalmente seria encarado como uma anomalia na fotografia, mas que para ela, tratava-se de algo muito além de um simples erro.

— Uma alma — disse ela, sem acreditar nas próprias palavras. — Uma esfera levemente azulada, com uma névoa visível e que se destaca por um azul mais escuro. É exatamente como haviam nos ensinado durante o nosso curso de formação.

— Mas como assim? Tá me dizendo que os professores eram algum tipo de paranormais?

— E eu lá vou saber? Eu estou tão confusa quanto você!

James coçou a cabeça, resmungou e disse: — Ah! Eu já tô ficando cansado disso! Será que não existe nenhuma chance da porta do salão estar aberta?

— Acredite, eu gostaria disso tanto quanto você. — Ela se levantou. — De qualquer forma, fique longe dos altares! — apontou na cara do homem.

— Ein? Por que?

— Apenas faça isso! Eu não preciso dar motivos! — Virou o rosto, saindo do quarto apressadamente, mas arrependendo-se de não ser mais rígida, tendo James lhe seguindo após uma breve hesitação.

— Espere aí! Não é assim que as coisas funcionam! Desde aquela hora em que você me arrastou para o segundo andar, você tem agido bem estranho! Me diz logo o que tá acontecendo!

— Eu já falei! Eu escutei vozes! Era uma mulher e outra que eu não conseguia reconhecer — reclamou, virando-se bruscamente e bloqueando a passagem. — De qualquer forma, fique observando aqui do segundo andar! Eu vou testar um negócio!

— Tá, um negócio. Mas o que é esse negócio?

— Meu deus — rosnou. — Eu vou tentar ouvir as vozes novamente! Se naquela hora eu consegui apenas pelo fato de ter tocado no altar, talvez aconteça de novo! Como estamos sem opções, eu imagino que não custa nada tentar algo assim.

James mostrou-se em dúvida, seu cérebro começou a girar e a cabeça latejou.

— Faça como quiser, mas eu já aviso, se a estátua aparecer no final do corredor, eu vou imediatamente descer para o salão.

A garota concordou com a cabeça, girando mais uma vez e descendo as escadas o mais rápido que conseguiu. Quando pisou no tapete vermelho, seu olhar passou em uma parte exposta do corredor do segundo andar, uma espécie de varanda interna.

Não havia nenhuma sombra da escultura nas paredes, muito menos um som que pudesse indicar sua localização.

“Ela ainda está na ala esquerda? O que ela está fazendo lá por tanto tempo?”, ponderou, brevemente. “Espera! Não é hora de pensar nisso! Tenho que me apressar!”

Ela deu mais alguns passos, e então alcançou aquele mesmo altar. O mandamento “Respeitar seus familiares” emanava a luz que tornava o mármore branco ao seu redor em ouro.

Jessie olhou para cima, onde ocorreu uma curta troca de olhares com James, ele que se apoiou no corrimão, corcunda.

Ela então encarou o altar vazio, com a superfície que parecia estender uma mão invisível muito convidativa, chamando-lhe para desbravar os mistérios que aquele item normalmente decorativo estava guardando apenas para si.

Lentamente, sua mão entrou em contato com o mármore frio, e a luz dourada se intensificou, mas para Jessie, aquele forte brilho tomou conta não apenas de seus olhos, como também de seu corpo e mente, levando-a para um lugar longínquo e drasticamente alterado pelo passar dos anos.



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