A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 12: O mais profano (2)

James, um segundo atrás no salão, agora se viu novamente naquela biblioteca. Rapidamente tocou cada parte do corpo, não dando pela falta de nada.

— Mas que porra! — gaguejou, olhando ao redor. — Como uma desgraça dessas foi acontecer logo agora? — Ele socou o chão, enquanto as veias saltavam de seu rosto avermelhado.

Furioso, chutou aleatoriamente os arredores, logo colidiu com a mesa, saltando em um susto. Mas, antes que pudesse gemer de dor, percebeu que nenhuma sensação havia aparecido. Mesmo que o tato ainda existisse, a colisão não causou qualquer outra consequência.

“De novo isso... Eu não sinto nenhuma dor, até a do abdômen sumiu desde o primeiro evento com as silhuetas.” Ele levantou a camisa, vendo o grande hematoma.

Apressado, buscou pela saída do cômodo para ser capaz de retornar ao salão, mas no último instante, uma lembrança lhe impediu de atravessar a porta.

“Essa biblioteca… Ela tem todo tipo de registro, incluindo diários de pessoas que viveram dentro do Século 4...” Hesitante, ele voltou para dentro do cômodo, procurando por um livro específico nas prateleiras mais próximas da mesa.

“Tem que haver alguma coisa aqui que fale sobre esse fenômeno das silhuetas!”

Os diversos livros, em maioria não nomeados, voaram para todos os lados um atrás do outro, apenas aumentando a bagunça que era aquele local.

Trêmulo, James já não raciocinava direito. Seu olhar vacilou constantemente entre as páginas e a porta dupla, apenas aguardando a inevitável aparição daquela imagem alada.

Mesmo em uma situação tão crítica e com sua atenção dividida, a sorte do detetive não o abandonou. Um dos livros que não foi arremessado para longe acabou chamando sua atenção. Quando a capa foi virada, lá estava o título que o homem tanto ansiava.

Silhueta: Livro de anotações 2, por D. Alamut

A paginação ocorreu de imediato. Como já esperava, esse livro também não escapou das diversas páginas em branco. No entanto, diferente dos outros, o pouco conteúdo concentrou-se na primeira página.

“Um único parágrafo…Bom, não tenho do que reclamar, é melhor do que tudo que vi até agora.”

Com aquela pequena luz de esperança junto de si, ele se retirou da biblioteca mais rápido do que derrubou os livros. Buscando um lugar seguro, foi até o final do corredor, colocando-se na curva dos corredores, ganhando uma visão quase panorâmica dos arredores.

Sequer era capaz de ler uma frase sem desviar sua atenção para os corredores, nunca em sua vida pensou que teria medo de virar o rosto. Com as costas protegidas pelas paredes, ele se permitiu abrir o livro e iniciar a leitura. 

Sem controle. Futuro. A silhueta vai ser ativada e a regressão irá se iniciar. Organismo lento. Única maneira de contra-atacar a Supremacia. 

Com uma breve análise, James conectou algumas das frases com o que já havia visto até então.

— Até que faz sentido — comentou, analisando as frases. — Esse tal de “organismo lento”, será que é por causa desse efeito que eu não sinto dor?

Ele tocou sua barriga, no entanto, sua atenção foi levada até o final do corredor principal logo em seguida, tendo como decoração em seu final, a estátua alada que caminhava apressadamente na direção do detetive.

— Merda… — Ele não hesitou em fugir, largando o livro sem se dar conta.

Ele seguiu pelo corredor que atravessava o salão, mas sem tempo de olhar, apenas continuou correndo até alcançar a ala direita. 

Pouco depois de parar, a estátua surgiu mais uma vez, impedindo seu descanso crucial. Seus passos eram largos, e o tamanho contribuiu para a alta velocidade.

“Droga, não dá mais pra ficar nessa de despistá-la! Se ela começar a correr de verdade, aí sim a gente já era!”

Ele interrompeu sua corrida na metade do caminho. Ao se virar, não demorou para a estátua reaparecer. Ela já se assemelhava à um pai enfurecido, indo até a criança desobediente.

Com cuidado, James apontou sua pistola para o inimigo, agora atento ao efeito da habilidade que acabou de descobrir.

“Restam sete disparos. Eu preciso descobrir algum tipo de ponto fraco com isso!”

Mesmo assustado, apertou o gatilho. Dois tiros consecutivos atingiram a escultura, mas foram ricocheteados por sua pele impenetrável. James deu um passo para trás, mas procedeu. A cabeça, o peito e o braço direito. Um tiro para cada um, novamente sem qualquer efeito.

“Nada! Absolutamente nada...!”

Em pânico, procurou um novo alvo, seu olhar foi veloz e preciso, tendo sua última chance de sobrevivência empunhada em sua direção. 

“Ainda me resta uma coisa! Dois tiros para acertar, mas preciso esperar ela se aproximar!”

Ele desceu um pouco a sua mira. Seu coração acompanhou os passos da estátua, acelerando conforme ela se aproximava com a mão livre em um clássico punho.

“Uma chance, dois tiros… Só mais um pouquinho!”

Usando a mão esquerda, segurou o outro braço para parar a tremulação intensa. Com seu cenho franzido, encarou o vazio daquele rosto de pedra, acreditando estar preparado para morrer caso o ataque falhasse.

Quando a caminhada parou e o punho se ergueu, James atirou. Com uma mira quase perfeita, os dois últimos projéteis atingiram e atravessaram o lampião. A alça quebrou e o item foi de encontro ao chão. A sensação vitoriosa dominou o homem por um breve momento, ao contrário da estátua.

“Deu certo?! Ela parou! É a minha chance!!”

Acreditando ter no mínimo atrasado aquela coisa, virou as costas no mesmo instante. De cabeça erguida ele desapareceu corredor à dentro, sem ideia do erro que cometeu em cantar sua vitória.

A “silhueta” entrou em ação mais uma vez. Sabendo que tal fenômeno não afetava seu corpo diretamente, o detetive não interrompeu sua corrida, mas para seu azar, sua intuição estava estritamente enganada naquele momento.

Algo lhe atingiu pelas costas, e o som explosivo ainda fresco em seus ouvidos, foi facilmente reconhecido por ele. Seu ombro esquerdo havia sido baleado. Ele foi ao chão, esperneando mesmo sem sentir qualquer dor. 

A estátua sequer se moveu, todo seu foco estava no lampião destruído aos seus pés.

Com o auxílio daquela habilidade misteriosa, James foi capaz de se levantar e correr ainda mais rápido. A dor não lhe incomodava, não sentia fome, fadiga ou nada do gênero. No entanto, aquele espaço vazio em seu coração foi agora dominado completamente pelo desespero.

Assim que seus passos não ecoaram mais, a imagem de pedra se ajoelhou. Com calma, posicionou a palma da mão acima dos restos de seu lampião. Os destroços se encaixaram novamente como um quebra-cabeça perfeito, o buraco causado pelos projéteis se remodelou, até que por fim, o objeto pudesse ser erguido novamente, e a chama tivesse a oportunidade de nascer mais uma vez.

Seu rosto inexpressivo foi levado na direção em que o alvo desapareceu. Em seu peitoral, uma fissura solitária se formou, ainda não revelando o interior, mas marcando o início do evento final.

Aquele forte batimento repercutiu mais uma vez. Agora, a silhueta da estátua se dividiu, desenvolveu-se ao nível necessário para o cumprimento da primeira ordem.



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