A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 11: O mais profano (1)

Enquanto um evento já aguardado por ambos os detetives começava seu tão esperado desenrolar, outra situação totalmente diferente ocorria do lado de fora da mansão. 

Pouco mais de cinco quilômetros do local, beirando a entrada da floresta, uma equipe vasta de policiais e suas viaturas, além de membros de tropas especiais de contenção vigiavam a neblina à frente. 

A mera presença de tais agentes era o suficiente para intimidar os pobres policiais militares, de patentes tão distantes que mais se assemelhavam com simples cidadãos.

— Esses caras… É realmente necessário envolvê-los no caso? — perguntou um agente para o parceiro, encarando as tropas especiais trajadas de preto.

— Eu não sei detalhes, mas de acordo com o quartel, temos que nos manter a mais de cinco quilômetros de distância da mansão até as segundas ordens — respondeu, seguido de um suspiro do colega. 

— "Caso 11: Alamut”, sequer me lembro de quanto tempo isso é investigado. Já estamos aqui faz dias, e pra piorar, o tempo parece passar devagar quando se está parado. — O comentário atraiu a atenção de um homem das tropas especiais, esse que se aproximou dos dois agentes.

— Não é de se surpreender que estejam mantendo segredo. Pra falar a verdade, nem mesmo nós sabemos do que se trata exatamente — disse ele, em tom tão calmo que surpreendeu os policiais.

— Uma missão que nem mesmo as tropas especiais sabem o que é? Cara, tô começando a ficar com medo. — O agente olhou para o interior da floresta, momentaneamente se perdendo na densa neblina.

— Só recebemos a ordem de aguardar aqui e avançar caso qualquer tipo de sinal de vida seja avistado na direção da mansão. Acredito que suas ordens sejam as mesmas.

— Sim, a diferença é que não estamos tão bem equipados. — Ele apontou para o fuzil que o outro segurava. — Só acho estranho o fato de vocês estarem apenas com armas de longa distância. Pretendem atirar em passarinhos por acaso?

— Isso já é informação sigilosa — falou ele, tendo a atenção atraída até um homem logo atrás, esse que fez tanto ele quanto os policiais ficarem de boca aberta.

— Exatamente! Informação sigilosa! Agora volte para seu posto! Não estamos em uma situação simples como uma briga por território!

— Sim, senhor! — O soldado obedeceu, quase deixando a expressão ansiosa transparecer pelo capacete.

Um olhar afiado foi levado até os dois policiais pelo homem em questão. Suas sobrancelhas eram tão grandes que tomavam quase metade de sua testa, assim como a barba longa que não era minimamente bem cuidada. Sua vestimenta era resumida em um jaleco branco, intacto apesar do ambiente sujo. De nariz empinado, ele virou o rosto para aquela dupla, afastando-se em passos largos.

Em gaguejos, um deles disse: — Aquele era o líder do Ministério de Tecnologia… e o nosso pre-presidente!?

— Si-Sim, definitivamente era ele! — sussurrou o outro. — Potestades ThunderGold. Se alguém como um membro dessa família está aqui, coisa boa é que não é!

O olhar de ambos retornou ao horizonte coberto de neblina, de tal maneira que os holofotes retornassem aos indivíduos que estavam passando pelo inferno na terra.

Diante do pronunciamento de seu marido, Jessie se viu encurralada naquele imenso salão. O silêncio se intensificou e a breve chegada do juiz de pedra já era mais do que realidade.

— Vamos, Jessie! Seja rápida e inicie suas explicações! — James balançou o braço rente ao seu corpo, como se abrisse uma cortina.

— Tá se achando dono da razão? Pode muito bem não ser o tipo de traição que você está pensando! — retrucou ela.

— Então você admite que realmente fez algo!

— Também não é assim que funciona! Quem garante que não está relacionado com você?

— Claro que não! — A fúria de James intensificou-se. — Por acaso está tentando ganhar tempo para que aquela estátua possa aparecer e te dar uma chance de fugir?

— Não tem porquê eu fazer isso! Sem contar que-

— Nem precisa dizer! — bravejou, batendo o pé como se esmagasse um inseto. — Eu não vou mais ficar de cabeça baixa como sempre foi! Eu exijo minhas explicações!

— Ha! E acha que vou acreditar? Um marmanjo que tem medo de louva-deus tentando me intimidar? Não me faça rir! — disse, prepotente, tentando superar o peso em suas costas.

No entanto, a discussão se encerrou quando uma nova presença invadiu o salão. Mesmo cientes do que os aguardava, aquela estátua parecia ainda persistir em extrair cada vez mais a pouco esperança que restou no coração dos detetives.

Com uma pouca plumagem planando ao seu redor, a imagem exibiu seu enorme par de asas de cabeça erguida.

— É ela! A “Fase adulta” está completa! — falou Jessie, recuando.

Antes que James pudesse se expressar, a escultura saltou do auge das escadas, aterrissando com um leve dobrar de seus joelhos. Mesmo com o impacto, o chão não rachou, muito menos cedeu, servindo ainda como um palco perfeito para uma luta injusta.

— Não me diga que ela!!

Eles tomaram posição defensiva, ganhando uma dose de adrenalina que aprimorou seus sentidos ao ápice. A imagem investiu com um salto, e planando, desferiu uma joelhada na direção do rosto de James, que desviou por pouco.

— Ela-ela virou um... pássaro!? — Seu corpo gelou, jurando ter visto a própria morte sorrindo em sua direção.

Ele encarou Jessie, cuja atenção dos olhos arregalados não saíam da estátua. Ao tentar se pronunciar novamente, aquele tambor que imitava os batimentos de um coração acertou-lhe mais uma vez. Como esperava, uma silhueta escapou de seu corpo.

Esforçando-se para equilibrar sua paciência e ansiedade, ele aguardou longos segundos para que a Silhueta se encerrasse. Porém, ambos foram surpreendidos pela escultura, que revelou um novo truque em sua manga. Quando o último batimento ecoou, o mundo ao redor se distorceu como se uma onda de calor atingisse a mansão. Alterado, James apenas necessitou de um piscar de olhos para executar uma viagem instantânea, tendo como última parada a grande biblioteca.

— Ma- O que foi que... Hã?

Jessie, apesar de também ter sido afetada pelo fenômeno, permaneceu no salão. Felizmente, a estátua não lhe fazia companhia.

— Que merda! O que tá acontecendo aqui? — Ela caminhou para trás, colidindo com um dos altares e ativando por acidente uma das visões.

Sua mente foi invadida em uma velocidade estonteante. O cenário não foi formado, restando apenas uma vastidão esbranquiçada, além das duas sombras dos jovens irmãos, que sem demora se pronunciaram.

— Por todo esse tempo eu pensei que você era uma boa pessoa, mas talvez o fato de ser meu irmão tenha feito a minha mente enganar a si mesma…

— Você veio com um objetivo, portanto, é meu dever como irmão mais velho lhe ajudar! — disse, autoritário. — Faremos como você quer! Vamos terminar isso, AQUI E AGORA!

A última frase expulsou a detetive forçadamente. Quando voltou ao presente, estava mais ofegante do que nunca.

— Sem… Sem chance… — Ela se pôs de quatro, esforçando-se para não vomitar diante daquele mundo distorcido. — Por que as visões voltaram ao que eram no início? Não era para ficarem cada vez mais claras?

Incrédula, ela se forçou a descobrir de qual altar se tratava. “Não mentirás” era o tal, mas também um mandamento que ainda não havia sido iluminado.

“Então no fim das contas… O altar não precisa estar ativo para as “visões do passado” acontecerem…!” Não mais capaz de se segurar, ela vomitou.

Apenas líquido saiu de sua boca, nem mesmo tinha gosto de vômito, apenas confirmando o vazio que havia em seu estômago. Com todo o corpo dominado por tremulações, cuspiu para o lado, usando um fraco impulso para tropeçar na direção do altar do outro lado do tapete vermelho.

O mandamento “Guardar seus domingos para o louvor” havia sido cumprido a pouco tempo, mas todo o seu peso de ser um novo passo em direção a liberdade já havia sido esquecido.

Quando as pupilas de Jessie se dilataram, a vastidão branca ganhou um único som, provindo de um soco desferido contra o rosto do mais velho.

— Mesmo naquele dia! Você não apareceu nem naquele dia! No único momento em que eu não me importava de ter a sua companhia! — O mais novo apontou, encarado de cima.

O balançar de seus braços espancou nada além do ar, sendo interrompido por um baque em seu peito e seguido pela voz tranquila do irmão mais velho. 

— Eu tentei te fazer companhia, mas sempre que fazia, você simplesmente me expulsava. É por isso que as coisas acabaram assim...

Desta vez, foi aquele mesmo batimento cardíaco que mandou a detetive para a sua realidade, mas aquela tontura não a impediu de continuar. Determinada demais para desmaiar em um momento tão crítico, cambaleou até o próximo altar.

“Não matarás”, uma frase que a lembrou da maldita barata. Antes que a sensação da gosma espalhada por sua mão pudesse lhe atacar, uma outra lhe acertou. O horizonte branco e intocado da visão, foi repentinamente tingido de vermelho.

As silhuetas dos irmãos já não eram mais reconhecíveis, e até as vozes tornaram-se iguais. Enquanto o sangue escorria pelo punho do vitorioso, o mesmo proferiu suas últimas palavras ao perdedor.

— Não se preocupe, irmão… — Ergueu o punho na altura de seu rosto. — Eu irei preservar seu corpo, à minha maneira.

Ao som de uma risada satisfeita, a visão se encerrou e Jessie retomou a consciência, não mais capaz de suportar o próprio peso, logo encontrando o chão gélido.

— Po-por que… as visões estão… tão rápidas?

Com uma nova dúvida sem resposta, seu corpo cedeu ao cansaço e a mulher desmaiou no meio do salão principal, vulnerável a qualquer predador à espreita. Podia até não saber, mas a sorte outra vez sorriu para si, pois o alvo atual da estátua não era ela.



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