A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 10: Silhueta (2)

Seus olhares não desgrudaram da parede, a concentração dos dois focou-se em processar o que seus olhos viram, buscando decifrar aquela existência transcendental.

— Aquilo eram penas brancas, penas de pássaro! Do tamanho de uma palma! — balbuciou Jessie.

— Eu estava me perguntando se não era uma ilusão, mas agora que você falou, eu tenho certeza de que não é. — James levou uma das mãos até o rosto. — Aquela silhueta que saiu e entrou no meu corpo tantas vezes… O que foi aquilo?

O corpo de Jessie saltou. Com firmeza, disse:

— Parando para pensar, aquela tal de “evolução do anjo” faz bastante sentido agora! — Ela pegou o caderno na mão do parceiro. — Veja só… Primeiro tem a “iluminação”, e as únicas coisas brilhantes aqui até agora são o lampião e os altares! Em segundo, temos esse tal de “conserto”.

James complementou: — Agora me lembrei! Quando fui atacado uma vez, os altares foram destruídos pelos golpes da estátua, mas quando olhei de novo, estavam novinhos em folha!”

A mulher engoliu seco, e então procedeu.

— Terceiro, ‘Dia e noite’, que no caso é a aceleração do passar do tempo. O quarto acontecimento foi essa ‘Silhueta’ de agora a pouco, e por fim, o tal do ‘crescimento’ que com toda certeza está se referindo às penas.

— Com tudo isso, só falta uma coisa… — disse James, e ambos leram juntos o último item.

— Fase adulta.

Em um movimento lento, Jessie fechou o livro, esperando que mais alguma ideia milagrosa surgisse em sua cabeça, mas suspirando frustrada.

— Isso nos serviu apenas como aviso de que as coisas ainda podem piorar! — Ela arremessou o livro contra a parede. — Que se dane essa merda de “fase adulta” ou “evolução”! Eu vou voltar para o salão e continuar com o esquema das visões do passado que eu ganho mais.

Com os punhos cerrados e o corpo torto, ela deu meia volta e caminhou a passos pesados.

“Jessie, você não sabe nem metade das coisas…”, pensou James, observando a companheira. “Mesmo que eu conte sobre as ‘cinco ordens’ que descobri, ainda duvido que irá desistir de fugir, mas é melhor não arriscar. Se eu sobrecarregar ela ainda mais, posso acabar destruindo o último pilar de otimismo que mantém ela de pé.”

— Espere, Jessie! Eu também descobri algumas coisas, inclusive uma possível explicação sobre essas suas visões!

Ela parou de imediato e o espiou com um olhar de canto. Os lábios pouco separados incrementaram na expressão curiosa e de pouca esperança.

— Eu não cheguei a ler, mas o título daquele livro me lembrou de uma investigação antiga que fizemos juntos! Diga-me, a palavra “Bênção” não te lembra de nada?

— Bênção? Hm… Está falando daquele médico que curava todo tipo de doenças?

— Sim! Eu sabia que você ia lembrar! Estou falando dele mesmo, foi o nosso terceiro caso depois que nos casamos!

Com a última palavra daquela frase, a mente da mulher se distanciou. Mais uma vez, ela se lembrou do momento que lhe aguardava em um futuro próximo. Seu peito apertou, como se tivesse um espasmo muscular em seu coração. Uma dor intensa, porém que não existia de fato.

Quando voltou para a realidade, interrompeu James rapidamente.

— Descobriu algo sobre o médico?

— O que? Nã-não, não foi sobre o médico, estou falando sobre essa tal “Bênção”.

— Entendi, continue falando então! — falou, apressada.

— Bem — Ele estranhou, mas prosseguiu — Acredite ou não, naquele biblioteca existem diversos livros datados do Século V para baixo, então podem existir diversas coisas escritas por ali que nós sequer somos capazes de imaginar, como por exemplo... — Ele olhou para trás, na direção em que a estátua desapareceu. — uma linhagem de pessoas com capacidades sobre-humanas. 

— Você diz, tipo, uma vidente que realmente faz o que fala?

— Basicamente sim. Aquela estátua por exemplo, ou melhor, aquilo que uma vez foi uma pessoa, faz parte dessa linhagem, e tudo que vimos até agora são as suas capacidades. E isso também inclui você, por causa das visões do passado. — James se aproximou da esposa.

— Tá dizendo que agora eu sou uma vidente?

— Não sei dizer ao certo, mas o que importa agora é: Se não focarmos em sair desse lugar, chegará um ponto onde não seremos capazes nem de respirar antes de sermos atingidos por um golpe daquela coisa. 

— Sim, isso já é mais que um fato — falou, ansiosa. — Se é assim, vamos juntos para o salão e tentar cumprir alguns mandamentos. A “Fase adulta” da estátua deve ser a última habilidade dela para tentar nos matar.

James concordou, e mesmo sem saber o motivo para existir aquele distanciamento entre ele e a esposa, seguiu-a até o salão, onde as luzes douradas dos altares já tomavam conta de uma boa parte do tapete vermelho.

— Faltam apenas quatro altares. Busque maneiras de completar algum dos mandamentos, enquanto isso, eu vou verificar mais uma visão do passado — falou Jessie, não esperando que o marido transformasse o semblante insatisfeito em palavras.

“Não pecar contra a castidade”, este era o mandamento da vez. Jessie, como nunca antes, queria que a visão fosse demorada, mas como não há tal opção, apenas lhe resta observar o passado daqueles dois garotos, que mais uma vez foi invadido após o forte clarão se apaziguar.

Desta vez, aquela casa de madeira nostálgica estava presente mais uma vez. No entanto, aquele clarão parecia não ter desaparecido por completo, pois todo o arredor da casa era coberto por uma espessa camada branca de neve, tanto que a luz refletida fez os olhos daquele jovem arderem.

— Por que não vem logo morar conosco, irmãozinho? — perguntou, esfregando os olhos.

— E que motivo eu tenho para fazer isso? Já não andamos juntos como antigamente, e duvido que você ainda me veja como irmão — reclamou o mais novo em uma expressão cansada.

— Eu entendo suas razões para não me acompanhar. Você está vivendo livre, e imagino que já tenha ficado com diversas mulheres, e por isso está incomodado com seu irmão mais velho ter se casado.

— O que? Realmente acha que é uma coisa besta dessas? — O mais novo encarou o irmão, furioso. — Você realmente não mudou nada.

— Então, diga-me logo qual o motivo!

— Tsc! — Virou-se de costas. — Você não entenderia.

— Por favor, irmão! Dê apenas uma chance a mim e aos outros!

Um olhar demorado foi de encontro ao mais velho: — Outros?

— Sim. Lembra que eu havia comentado? Eu encontrei eles, irmãozinho... — Um sorriso simples, mas acolhedor formou-se em seu rosto.

— Juntos, incluindo eu e você, nós somos um total de sete.

O mais novo de repente se mostrou agitado. Boquiaberto e de olhos arregalados, ele fitou o irmão sorrir tranquilamente, como se tal acontecimento não afetasse em nada as suas vidas.

— Irmão… — Agora não mais apenas no mais velho, o outro também ganhou um sorriso, que atravessava seu rosto e lhe entregava um aspecto demoníaco. — Será um prazer acompanhá-lo até sua mansão.

A visão encerrou-se, o branco que já dominava o ambiente intensificou para tomá-lo por completo, repetindo o processo de devolver Jessie para a escuridão do salão principal. Ao tomar consciência, ela levantou a cabeça em grande animação.

— Finalmente! Algo interessante realmente apareceu! Então quer dizer que aqueles dois vieram para cá e encontraram um total de cinco pessoas! As coisas estão finalmente se encaixando!

Seus curtos saltos chamaram a atenção de James, que a aguardava logo ao seu lado.

— Meus parabéns, pelo jeito você encontrou algo bem empolgante — comentou, apontando para um altar próximo. — Eu também consegui algo, mas o que descobri com isso é um pouco preocupante.

Jessie seguiu a direção apontada, acabando por encontrar o mandamento “Guardar seus domingos para o louvor” brilhando em dourado. A mulher não expressou felicidade, pois rapidamente entendeu o problema que existia por trás daquilo.

— Já estamos no domingo, Jessie. Eu me lembro muito bem de entrarmos aqui em uma quarta-feira, então significa que já se passaram quatro dias desde então.

A garota gaguejou. Já não se impressionando facilmente com as bizarrices que apareciam, tentou raciocinar.

— Mas se fosse assim, já estaríamos debilitados por ficarmos sem comida e bebida por tanto tempo.

— Eu sei, mas aí que tá o mais estranho. Desde que aquela coisa da Silhueta aconteceu, eu não senti nem um pouco de fome, sede, vontade de ir ao banheiro, nem mesmo uma dor no abdômen que estava acabando comigo. Tudo desapareceu, como se eu estivesse curado. — Ele abaixou a cabeça.

— Acho que não há nem como discutir, essa com certeza é outra das habilidades da estátua — falou ela, olhando ao redor em busca da mesma.

— Sim, e isso apenas nos dá outro motivo para terminar esse assunto de uma vez por todas. — James ajeita a postura, encarando fundo nos olhos de Jessie, quase procurando por sua alma. — Estou falando daquele altar. Já está mais do que na hora de eu ter as explicações por, aparentemente, ser a única pessoa honesta por aqui.

Ela engoliu seco, ciente de que não havia mais escapatória ou maneiras de atrasar a chegada daquele evento. Suas duas escolhas colocavam-na em uma luta, e em ambas, alguém sairia ferido. Tomando coragem, James se enunciou:

— Pode começar a dizer. Qual o motivo para o altar ‘Não trairás’ estar apagado?

A pergunta ecoou para todos os lados, um impacto silencioso mas extremamente poderoso. Além de Jessie, que sequer reação teve, tal frase também alcançou a estátua no segundo andar, mas essa sim teve uma reação.

As penas em suas costas, de repente cresceram numa velocidade absurda. Do limbo de pedra que ganhava as suas primeiras rachaduras, incontáveis penachos se acumularam nas costas, até formarem as duas grandes asas que ansiavam pela liberdade. Aquele par esbranquiçado era grande o suficiente para cobrir por inteiro a imagem de pedra como se fosse um cobertor.

A estátua já não era um filhote, mas sim um adulto que faria qualquer coisa para alcançar seu objetivo, até mesmo cumprir as mais absurdas ordens que alguém poderia imaginar.



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