A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 1: Entrada (1)

No escritório abafado, o homem de cara fechada bateu a caneta contra a mesa enquanto encarava o ventilador de teto, buscando uma distração em meio ao tédio sem fim.

— Essa cidade ficou tão calma de repente, parece até que a minha existência não faz sentido — disse, acompanhado de um suspiro.

— Que papo de perdedor — murmurou a mulher, folheando o jornal.

O homem não respondeu, atraído pelo ranger da porta do cômodo que colidiu com uma pilha de papéis, apenas causando uma enorme bagunça que enfureceu a garota.

— Quantas vezes eu preciso repetir? — Amassou a folha. — Não saia entrando sem bater!

— Meow. — O gato parecia dizer “É isso aí!”.

— Foi mal! Não era minha intenção! — falou o rapaz invasor, um soldado. — Eu vim correndo até aqui por ordem do juiz, ele pediu para os dois comparecerem na catedral imediatamente.

O semblante da dupla foi agraciado com animação, transformada em ações apressadas. Aquela prisão bagunçada é substituída pela fachada da cidade, cujos limites decorados pelos restos de uma muralha antiga abrem espaço para um horizonte lentamente preenchido por povoados.

Passando pelo centro da cidade, algumas pessoas admiravam um grande escudo de bronze, um símbolo antigo para um honrável guerreiro de séculos atrás, enquanto a palavra “Kimkobulam”, de uma outra língua, era repetida em voz baixa por alguns.

No final da larga rua recém-asfaltada, o escritório do homem conhecido como “Filho do Trovão”, recebeu a dupla de detetives de portas abertas, um caminho perfeito para o olhar afiado daquele homem colidir com os dois. Seu apelido vinha de estranhas coincidências envolvendo aquele homem, que por onde quer que fosse, era acompanhado de uma nuvem carregada de trovões.

A dupla hesitou, engoliu seco e prosseguiu. Quando entraram, as portas foram fechadas por soldados, isolando o cômodo do resto do mundo. Os olhares não desviaram do Trovão por um segundo sequer, aguardando até que o silêncio fosse quebrado por sua forte voz.

— Por quantos anos vocês receberam o “treinamento especial”?

— Cinco anos, senhor! — disse Jessie.

— Resuma todos esses anos em, no mínimo, três frases.

— O mundo é misterioso, senhor! Não sei o que me aguarda, mas pelo que ouço, tenho certeza de que é incrível.

— Ceeerto. — Em um papel, fez uma rápida anotação. — Fiquei sabendo que já não recebem trabalho há alguns dias… Bem, eu não esperava menos de pessoas que resolvem casos complexos em apenas uma semana. — Seu tom de voz tornou-se calmo e convidativo.

— Obrigado pelo elogio… senhor! — O detetive prestou continência, sequer sabendo se era necessário.

— De qualquer forma, é necessário que tomem extremo cuidado. — O olhar do Trovão vagou lentamente pela sala. — Independente de quem pergunte, apenas digam que é um caso de invasão de propriedade, eu não quero que uma certa família fique sabendo do que vamos tentar fazer.

James engoliu seco, enquanto Jessie assumiu postura séria.

— O objetivo dessa vez é um tanto complexo, mas antes de dizer, vocês precisam de um pouco de contexto… E aliás, desejo boa sorte para vocês, pois vão precisar.

Ele se levantou, buscando por uma fita de gravação e, em seguida, pela única televisão no cômodo que rodaria um equipamento tão antigo. Com uma contagem regressiva, a tela em preto e branco iniciou um filme, levando seus protagonistas para sua mais nova aventura.

 

14/06/1867 - 8:00 AM

O Sudeste do Continente Solum era famoso por seu clima subtropical, mas existia uma floresta na região que fugia desse padrão. Seu clima mais frio e úmido fazia os visitantes pensarem estar em uma outra dimensão, a neblina que inexplicavelmente não desvanecia em nenhum momento parecia esconder algo mítico além de onde os olhos humanos eram capazes de enxergar.

Nesse local, onde qualquer pessoa inteligente evitava se aventurar, um fusca preto sem alvos para chamar a atenção tentou a sorte. Com dificuldade, ele atravessou o terreno difícil, para após duas longas horas de viagem, encontrar a sua linha de chegada.

Uma mansão surgiu do nada, de aparência semelhante à um bastião. Seu exterior era coberto de teias de aranha, musgo e uma atmosfera fantasmagórica. Mesmo abandonada, a estrutura não apresentou rachaduras ou qualquer outro dano, um fenômeno bastante incomum para um local tão antigo.

A amedrontadora residência da Floresta do Pecador pertencia ao nobre Jon Alamut XIII, o local esteve com a família por vários séculos, mas foi deixada de lado após a morte do primeiro proprietário, cujo nome foi abolido dentro da família.

Estacionando a poucos metros da entrada, o homem desceu do banco do motorista, exibindo seus longos cabelos escuros e dizendo pouco entusiasmado: — Uma mansão no meio do nada, ein! Realmente parece um bom lugar para um assassino. — Ele apagou seu cigarro, jogando-o para longe e empunhando uma pistola.

A mulher saiu em seguida e imitou o homem, arrumando seus longos cabelos ruivos.

— Assassino ou não, é o nosso trabalho averiguar e resolver a situação, se possível. — Apressada, ela caminhou na direção da porta da frente.

— Espere aí, Jessie! — Estendeu a mão. — Você não pode simplesmente entrar assim! E se houver algo ou alguém esperando a gente!?

— Eu meto chumbo, ué!

— Nós não sabemos do que essa coisa é capaz. Vamos verificar os arredores primeiro.

— Boa ideia, James. Você verifica e eu vou fazer a invasão. Não se preocupe, eu vou matar qualquer louva-deus que eu ver! — debochou.

O tom da garota fez uma veia saltar no rosto do homem, cujo bateu o pé com força na tentativa de se impor.

— Todo mundo sabe que eles são símbolos do azar! A sua avó não morreu por causa de um?

— Não, ela tá vivassa — falou, rindo do parceiro. — Na verdade, é bem estranho ela ainda estar tão bem, hoje ela deve ter uns cento e treze anos. Ontem mesmo vi ela dando uma cambalhota.

— Vaso ruim não quebra, né.

Agora, além das estrelas que rodeavam sua cabeça, James também viu sua companheira se posicionar em frente a entrada, onde a aura determinada da detetive colidiu com a de seu inimigo, e nenhum dos dois tentou esconder sua existência. Sem medo, Jessie chutou a porta antes que seu homem tivesse a chance de protestar.

— Merda, Jessie…! Por que você tem sempre que ser assim? — Sendo ignorado, apenas cobriu as costas da parceira.

A partir da porta dupla, um tapete vermelho criou um caminho pelo chão de pedra até o curto lance de escadas que, após uma parada, se dividiu para dois lados, ambos os caminhos, resultando no segundo andar. Decorando o centro da divisória, havia uma grande estátua de pedra com um vitral azulado atrás de si.

— Caramba, esse salão é grande o bastante pra receber umas cem pessoas! — disse James, preocupado demais com terceiros para notar mais detalhes.

— Vamos averiguar os cômodos, cobre as minhas costas! — Jessie avançou até a primeira porta que viu.

Com outro chute, revelou uma cozinha comum, assim como quatro banheiros e uma imensa sala de descanso. A última chamou um pouco mais de sua atenção, onde sete poltronas circulavam uma lareira cujas chamas ainda bradavam com força.

— Ele está ou esteve aqui a pouco tempo. Alamut disse que enviaria reforços se a gente não voltasse até o entardecer, então acho que é melhor sairmos e vigiarmos a mansão até que isso aconteça. — James buscou uma saída, mas foi puxado de volta.

— Não sabemos se ele está aqui dentro ou não, então o melhor a se fazer é ficarmos em algum lugar com poucos pontos cegos.

— Ah! Agora você tá vendo o resultado de chutar a porta, né?

— Para de chorar pelo que passou e só me segue, aff!

Mesmo acovardado, a possibilidade do perigo residir naquela mansão junto da dupla não permitiu a James sair. Conferindo o tambor da pistola, teve a certeza de oito chances para atingir qualquer que fosse o alvo em sua frente.

O grande salão não possuía tantas decorações chamativas, apenas uma fileira de altares brancos que acompanhavam o tapete, cinco de cada lado, feitos de um mármore em perfeito estado que exibia uma frase diferente em cada peça.

— Isso aqui é… — James reconheceu facilmente, demonstrando leve interesse. — São os dez mandamentos.

— Estranho, eu pensava que a família Alamut não era religiosa. — A garota foi até os outros altares, analisando todos.

— Atualmente sim, mas fiquei sabendo que as primeiras gerações eram Luzistas fanáticos.

— Luzismo… Ainda acho que é um nome bem mequetrefe.

— Bem, acho que nem importa também, já mudaram o nome uma vez, não duvido que aconteça mais uma vez. A religião perdeu força quando o 1° Colapso acabou, apesar de que é praticamente impossível batalhas como as das lendas terem realmente acontecido.

Saindo das peças brancas, os holofotes retornaram para o resto da mansão. Porém, mesmo após diversos chutes contra as portas e sustos por parte de James, nada além de cômodos vazios foram encontrados pela dupla.

— Que bosta! — Jessie socou um dos altares. — Não tem mais ninguém aqui!

— Sinceramente, isso me deixa até aliviado. — Suspirou, guardando sua pistola na cintura. — Mas, ainda existe uma coisa que não chegamos a investigar.

Eles então voltaram sua curiosidade para um dos itens mais chamativos no local. Após um curto lance de escadas, na plataforma que divergia em dois lados para o segundo andar, a grande estátua colocou-se como guardiã dos segredos do local.

A imagem imitava uma silhueta humana, alcançando facilmente os dois metros de altura, desprovida de qualquer órgão do rosto ou parte íntima. Acinzentada, sua textura lembrou os detetives de pedras encontradas nos rios, não tendo sequer rachaduras ou qualquer sinal de degradação.

Com sua mão direita, segurava um livro de capa marrom, enquanto a esquerda guardava um lampião negro, estendido em direção a porta.

— É um belo trabalho — comentou ele, antes de pegar o livro. — Hum… Sem nome na capa.

— Ei, é feio roubar.

— Não se preocupe. — Olhou para a estátua, em sequência se inclinando como em uma reverência. — Eu devolvo em breve.

Jessie resmungou impaciente, seguindo o parceiro até o lado de fora da mansão. Logo que pisaram nas folhas secas espalhadas pelo chão, James abriu o livro suspeito e iniciou a leitura.

Minhas ações são justas por seus próprios motivos, se tentar me parar, eu irei matá-lo.

A dupla se encarou por um momento, James revelou animação, sendo encarado pela parceira que nada mostrou além de um olhar de pouca fé.

— Parece que o “discurso do vilão” vai ser mais rápido do que o esperado.

— Para com essas besteiras! — Ela deu um tapa. — Deve ser o livro do assassino! Tá na moda entre os criminosos deixar alguma mensagem sombria nas suas cenas de crime.

Tomando o livro para si, ela retomou a leitura.

Não estou partindo nessa jornada por causa de nosso pai, muito menos pelos outros. Minha intenção é descobrir o meu verdadeiro eu.

Eu não consigo entender o motivo de todos, até mesmo a nossa mãe, de achar que nosso dever é terminar o trabalho que os que vieram antes de nós falharam em alcançar. 

Você e os nossos supostos irmãos parecem loucos, achando que se trabalharmos juntos podemos atingir qualquer coisa.

Desde sempre você parece não ligar para mim, vendo mais importância em seus livros do que no próprio irmão. Depois que você reuniu os outros conosco, eu comecei a pensar se você me odiava.

Eu não sei o que você pensa sobre mim, e atualmente sou covarde demais para perguntar isso enquanto encaro seus olhos. Mas um dia eu retornarei para casa, com força suficiente para chamar a sua atenção.

Quando eu voltar, irei dizer tudo que penso na sua cara! Me espere até lá!

 

  1. D. Rossi


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