Volume 1

Capítulo 8: Vermelho-violeta

Elizel estava a algumas prateleiras de distância até chegar onde Diego e Rafaela haviam se escondido. O rapaz da cicatriz imaginava o quão ruim seria o seu castigo. Ele olhou para trás e viu sua amiga, a ruiva, ainda ocupada em mexer a tábua da estante para lá e para cá.

 — Vamos logo sair daqui, ele tá vindo!

— Espera só um segundo. Tenho só de tirar essa tábua daqui…

Então o rapaz voltou a olhar para frente. Seu tio já estava prestes a chegar. Se passasse mais uma estante, estariam os dois descobertos. Para sua surpresa, enquanto se aproximava, uma voz desconhecida chamou pelo nome de seu tio.

— Ah! Graças a Deus, senhor Elizel. Ainda bem que lhe encontrei de novo. 

Diego não sabia quem poderia dar graças ao ver seu tio, mas para sua sorte isso impediu Elizel de continuar, dando atenção ao dono da voz, um tanto insatisfeito com sua interrupção.

O rapaz conseguiu observar apenas o terno e a gravata borboleta, então logo notou que se tratava do Prof. Nemo, o homem que vira andar pelo Corredor Ziguezagueante ainda mais cedo.

— Peço desculpas por ter saído assim de repente, mas o senhor sabe como é ser professor. E sim, era justo isso que eu queria comentar. Eu estou com um sério problema para achar meus documentos e minha aula já vai começar, então será se o senhor poderia...

Antes que Diego pudesse saber de mais alguma informação, Rafaela o puxou pela camisa até a abertura que ela fez no pé da estante. 

— Está pronto, vamos. Você vai primeiro.

Embora quisesse, com todas as forças, sair da presença do tio, não estava seguro em entrar ali, pois não via nada além de um breu absoluto. Era como a caverna do monstro que sonhava.

— Agora não, Bruce! — disse Elizel, sibilando as palavras com aquele tom de nojo habitual. 

Enquanto ouvia os passos pesados do tio, seu medo foi embora no mesmo instante e ele engatinhou para dentro da abertura. Rafaela entrou logo atrás de si e a fechou, fazendo esvair a pouca luz que iluminava o caminho. 

Era uma espécie de duto que não parava de ir para frente. Antes que pudesse perguntar para onde aquilo daria, o rapaz escorregou o braço e quase caiu no que achou ser um enorme buraco para baixo. 

— Mas o que é…

Rafaela o empurrou e ele caiu livremente enquanto gritava. 

Escorregou em alta velocidade de barriga para baixo em um duto inclinado. Porém, era tão rápido que não chegou a sentir nenhuma parte do corpo tocar as paredes do duto e imaginou que logo seria jogado para fora do prédio, ou pior, quando chegasse no chão se esborracharia.

Foi jogado para a esquerda e para a direita diversas vezes e sentiu o café matinal subir pela garganta quando desceu formando uma espiral. Para sua satisfação, a velocidade da queda foi diminuindo conforme as curvas iam ficando menos íngremes e menos angulares, até perder todo o impulso e parar de vez.

Assim que notou estar livre de qualquer queda, o rapaz tentou se levantar de uma vez, porém bateu com a cabeça no teto do duto. Ainda não via nada, exceto um pequeno feixe de luz mais a frente.

— Que bosta! Esse inferno não tem fim?

Foi aí que ouviu um barulho atrás de si e quando virou, viu um vulto vermelho se chocando consigo e o arrastando para frente, em direção ao fino feixe de luz.

— E aí, achou divertido? — riu Rafaela.

— Uau! Quase morri de tanta diversão. Quer parar de se jogar em cima de mim?

Ela saiu de cima do rapaz e tomou a frente, prensando Diego contra a parede do duto. Quando chegou do outro lado, começou a mexer em algo, porém era escuro de mais para ver.  

— Aquela conversa foi bem interessante, não foi? Sobre a associação estar precisando de material e tudo.

— Aham… Acho que sim. — Na verdade não tinha muito espaço em sua cabeça para aquela conversa, pois estava muito ocupado pensando no terrível castigo que sofreria caso tivesse sido pego. — Mas e meu tio?

— Bom, seu tio vai ser mandado para a associação Flor-de-lis pelo que entendi. E isso fica na frança. Então é bem possível que você não o veja por um bom tempo.

— Não é disso que estou falando! Para mim quanto mais longe ele estiver melhor. Quero saber se ele te viu, porque se tiver visto a gente, vai quebrar mais do que minhas pernas quando me ver de novo. 

— Deu tudo certo, sossega.

Ouviu-se o clique de um botão e ali no duto, mais a frente, vários pisca-piscas de natal se acenderam em diversas cores, iluminando os dois.

Diego notou também que do lugar que veio escorregando, havia vários dutos para escolher. Alguns que iam para cima ou continuavam reto para frente. 

Do lado onde Rafaela estava, continuando a frente, havia um único caminho que ia para baixo. Logo abaixo dela, entre os dois, estava um pequeno buraco no duto por onde entrava o feixe de luz.

— Ahm… Onde estamos?

— É verdade! Seja bem-vindo ao meu santuário secreto. Estamos no banheiro masculino do segundo andar. 

— No banheiro masculino?!

— Sim. Achei esse duto quando procurava um lugar para matar aula. Então achei esse lugar. Todos esses dutos vão para um andar no prédio. Com exceção do primeiro andar onde fica o refeitório e o quinto, o andar dos diretores. Eles têm os próprios dutos. O que é uma pena, eu queria assaltar a cozinha de vez em quando. 

— Você nunca assistiu às aulas? 

— Digamos que eu já estou um pouco avançada para minha turma. Então acho melhor ficar aqui e estudar por minha própria conta do que perder tempo nas aulas.

— Você diz isso, mas nem conseguiu me explicar o que é esse seu poder direito.

Ela deu uma risada. 

O rapaz estava um pouco desconfortável com aquele lugar tão apertado e escuro; a fonte de iluminação não era uma das melhores, fora que era muito irritante o fato delas ficarem ligando e desligando o tempo todo.

— Bom, gostei do lugar e tudo, mas eu realmente gostaria de sair daqui.

— É verdade. Quase esqueci que você tem de ir para a aula. Para sua sorte, já estamos na saída.

Ela puxou a parte de baixo do duto onde saia aquele feixe e uma comporta se abriu. Diego pôde ver ali de cima que estava no teto da cabine de um banheiro.

— É só se apoiar na porta enquanto descer. Ah! E pode ficar tranquilo, estamos no banheiro masculino, então vai ficar tudo bem caso te vejam sair daqui. — Ela mostrou o dedinho mindinho para ele. — Apenas prometa que não vai contar para ninguém sobre isso, OK?

— Tá, eu prometo.

Ele retribui o gesto de cara fechada e depois pôs os pés para fora do duto. Estava ansioso para sair da presença daquela menina maluca quanto antes. Com cuidado apoiou-se na porta da cabine e depois pousou em cima da privada.

Rafaela acenou para o rapaz e depois fechou a passagem. Alguém que não soubesse daquele lugar jamais desconfiaria que logo ali em cima, nos dutos, havia uma ruiva um tanto lunática.

Diego saiu da cabine e observou no grande espelho o quão detestável estava sua aparência. Lavou seu rosto na pia e penteou melhor os cabelos. Saiu do banheiro e pensou que talvez fosse melhor ter ficado no duto.

O segundo andar tinha um grande corredor que dava de uma ponta, onde ficavam os banheiros, a outra, onde ficavam os elevadores. Era muito parecido com as do corredor da biblioteca, com a diferença das estantes de livro que davam lugar a janelas enormes. Dali poderia ver a estrada que chegou para entrar no prédio.

Do lado oposto, haviam varias portas. Todas de diferentes tamanhos, cores e formas. Havia uma porta muito pequena, onde ele deveria entrar se rastejando. Havia outra que para entrar a pessoa teria de subir uma escada nem um pouco confiável. 

Além das estranhas formas e variações, a outra maneira de diferencia-las era através de uma plaquinha no meio de cada porta que indicava um número e uma letra. O problema era que elas não seguiam nenhuma logica.

As portas não seguiam uma sequência de 1 a 10, ou de A a Z. Na verdade, era tudo completamente aleatório. Uma porta poderia ter o número 15 e a próxima o número 300, assim como as letras. A única diferença é que nenhum número se repetia.

Diego demorou alguns segundos para pensar em qual deveria entrar. 

Como era novato, supôs que deveria entrar na sala de menor número. A única que encontrou que tinha o menor número era a sala “0-D”, que para sua felicidade tinha a porta mais comum em cor cinza.

Ele ouvia barulho atrás da porta e pensou estar certo. Caso não estivesse, poderia se informar com as pessoas ali dentro; embora essa ideia lhe causasse um pouco de constrangimento.

Quando tentou abrir a porta, porém, não conseguiu. Foi aí que ouviu um som estranho. Quando olhou para o lado, viu que o elevador acabara de chegar naquele andar. Pensando que fosse seu tio, o rapaz forçou a entrada, mas não conseguiu abrir a maçaneta.

Ele desistiu e correu para o lado contrario, na esperança de voltar ao banheiro e falar com Rafaela. Porém, olhou para trás e viu que a porta do elevador já estava abrindo, e uma figura muito negra e encapuzada ia se revelando, acompanhado do Prof. Nemo, que o distraia com sua tagarelice.

Antes que Elizel pudesse pegar Diego fora da sala, o rapaz da cicatriz entrou na primeira sala que observou a sua frente, uma com a porta roxa. Dessa vez conseguiu, e fez isso sem que seu tio notasse.

Quando fechou a porta atrás de si, notou um silêncio desconfortante e olhares em suas costas. Ele se virou devagar e viu toda a sala.

Era uma sala toda roxa, cheia de prateleiras nas paredes onde jarros e de plantas e flores de todas as cores possíveis repousavam. Viu também muitos alunos o encarando, sentados em suas carteiras. Diego reconheceu Tiago entre eles, o garoto loiro e ingrato, sentado isolado próximo à parede.

— Hum, hum!

O rapaz virou para o pigarro que ouvira. Reparou na segunda professora do dia. Ela era alta, principalmente por conta do salto alto. Vestia uma roupa de secretaria e usava óculos com um detalhe que fazia parecer um gatinho. O rapaz diria que ela era normal se não fosse a cor que usava.

Tudo que ela usava era roxo: seu terno, sua saia, os saltos, o cabelo, os óculos, as unhas, a cor dos olhos. 

— O que veio fazer aqui? — perguntou, o encarando com um profundo olhar de desaprovação que lembrava muito o do seu tio.

— Ahm… Aqui é uma sala de aula, né?

A turma deu uma risada. A professora os repreendeu com um olhar ameaçador por de trás dos óculos. Depois disso, a mulher apontou para um grande quadro negro as suas costas; uma das poucas coisas na sala que não eram roxos.

Quando Diego olhou, viu estar escrito muitas formulas estranhas e desenhos de flores. Mais acima, estava escrito: Preceitos da Homeopatia e Professora Rúnica Ramírez logo abaixo.

— Você está atrasado. E não tolerarei atrasos na minha sala! — Ela se sentou na mesa, puxou uma caneta roxa e um papel. — Me dê seu nome, garoto!

— Diego Murdock.

Então, um silêncio tomou de conta do ambiente. Rúnica deixou de rabiscar o que quer que fosse em seu papel e o encarou com curiosidade por detrás dos óculos. Na verdade, os olhares carregados de curiosidade não vinham só da professora, como também de todos da  sala. Até mesmo Tiago olhou disfarçadamente.

— Isso é improvável — disse um garoto esguio de cabelos crespos sentado bem na frente. — Todos sabem que todos os Murdock morreram. É bem insensível da sua parte se passar por um deles.

Antes que Diego pudesse falar qual parte do corpo do rapaz ficaria insensível depois de uns pontapés, outro garoto com rosto quadrado sentado ao lado do anterior disse:

— Calma lá, Dani. Tu não ‘tá ligado se é verdade ou não. Mostra um pouco mais de respeito pelo cara, parceiro.

— Ah, Lauro. É bem improvável que eu esteja errado.

— Mas e se ele tiver falando a verdade? Tu vai ter ofendido o cara de graça. Já pensou isso?

— Senhor Delta e senhor Lagum! Os dois também vão receber uma advertência por… !

Um rapaz de cabelos compridos interrompeu:

— Olha, meu pai me contou que os Murdock morreram em uma infestação de nocivos, então… Não sei vocês, mas aquela cicatriz ali parece coisa de nocivo, do tipo cachorro.

Todos da sala encararam a cicatriz do rapaz, incluindo a professora. Até mesmo Tiago que se manteve escondido por de trás de um livro todo esse tempo, espiou o queixo do seu ex-salvador.

— Com licença. Do tipo cachorro? — falou Dani, quebrando o silêncio. — Onde no mundo existe uma categoria de nocivo que se chama “cachorro”?

— Procura no teu…

— Qual foi, parceiro?! Tu beija tua mãe com essa boca?

Então um barulho muito forte pareceu ecoar por toda a sala.

“Já chega! Silêncio! Fiquem quietos!”

Era um grito estranho com a voz da professora. Diego tapou os ouvidos, mas nada adiantou. Parecia estar dentro de sua cabeça. Pelo visto todos da sala também ouviam, pois tampavam os ouvidos com força enquanto faziam caras feias. O rapaz com a cicatriz imaginou que fosse ficar surdo. Uma hora a gritaria parou.

Quando ele olhou para a professora, zonzo, notou que ela não tinha nem mesmo se levantado de sua cadeira. Continuava a assinar papeis, com um olhar de satisfeita. Depois que o zumbido no ouvido saiu e o rapaz pode ouvir os gemidos de reclamação da turma, Rúnica finalmente se levantou.

— Todos vocês vão me fazer trabalho extra. O prazo é de uma semana. E não reclamem, estou sendo boazinha o suficiente dando um prazo tão longo. — Ela se virou para Diego. — Isso inclui você, senhor Murdock. Fui avisado pelo senhor Monte de que você viria. Só não imaginei que o sobrinho de um Dragão Negro fosse um rapaz tão... Ordinário.

O rapaz sentiu uma enorme vontade de pular no pescoço da professora e lhe encher de socos e pontapés, porém um rapaz de rosto rotundo, sentado mais ao fundo, interrompeu seu plano de vingança.

— P-professora Ramírez...

— O que é?! — Ela se tremia de raiva. — Não mandei ficar quieto, seu…! — Então respirou fundo e voltou a se recompor. — O que pode ser tão importante, senhor Cervantes? Desembucha, não tenho a aula toda!

— É-é o Igor, professora. Ele… Ele não tá bem.

Ali do fundão da sala levantou-se Igor, com o rosto coberto de lágrimas. Ele ainda tinha as mãos por cima das orelhas, que desciam um líquido muito vermelho. Todos ficaram assustados quando observaram o sangue espirrado pela camisa do garoto.

— Pelo visto nós temos outro ordinário na sala. Senhor Cervantes, leve ele até a enfermaria. E diga que o ele se acidentou ao tentar atrapalhar a minha aula. Fui bem clara?

Diego apertou os punhos. Tolerava as injustiças que acontecia em sua própria casa. Mas naquele lugar, ele não engolir. O rapaz se virou para ela e a encarou de baixo para cima. As sobrancelhas franzidas, o maxilar tensionado. Um estranho calor dispersou de seu corpo, como se este fosse uma clareira.

Ignorando os avisos insistentes do seu arrepio atrás da nuca, o rapaz se aproximou da mesa da professora.



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