Volume 1

Capítulo 24: Galadriel, Magos, Druidas e Feiticeiros

Já era Natal, e nevava muito no Craveiro. Todos os prédios, ruas e banquinhos estavam cobertos por uma fina camada de neve. Até mesmo as flores, muito vivas e coloridas, tinham como que se apagado por conta do branco. No meio desse tempo, era óbvio que Diego não iria deixar de se divertir.

Durante o Natal o rapaz ganhou de presente novas advertências e mais deveres do Prof. Riddley, que ainda mantinha sua suspensão todos os sábados, sem falta. 

O inverno mal tinha começado e Diego já havia quebrado vidraças com bolinhas de neve, pulado de grandes alturas em direção a um monte de neve fofo — o que era considerado perigoso por alguns professores, principalmente Borstamann — e quase se afogado no lago, por pensar que o gelo não iria ceder.

O rapaz chegou à beira da hipotermia mais de uma vez.

Apesar das broncas, se sentia aliviado em estar longe de sua casa. Geralmente era mantido preso e jamais podia sair. Além disso, era vigiado 24 horas por dia no inverno, e ele tinha de aguentar as horríveis decorações natalinas de sua tia Lidja. 

A única coisa que realmente sentia falta eram dos empregados, que ao menos lhe faziam boa companhia durante os tempos de neve. Ao menos agora tinha Tiago para lhe fazer companhia.

Enquanto brincava, infernizando a vida do loiro que não era um grande fã de projetar bolas de neve por aí, teve o azar de ver alguns alunos quentes lhe olhando de cara feia, ao longe.

É verdade, ele quase havia esquecido desse detalhe. Todos os quentes agora lhe odiavam, um ódio velado, que ninguém verbalizava, e tudo por conta de Rúnica. 

Durante a aula da Prof. Ramirez, Diego foi colocado contra a parede.

— Eu soube da sua luta, senhor Murdock — disse ela na frente da sala inteira. — Patético, no mínimo. Além de ser descuidado, foi desclassificado.

— Eu não fui desclassificado! O Alastor que foi!

— Teria perdido se o senhor Blitze não tivesse quebrado as regras. Além do mais, sua luta foi patética. Você levou mais golpes do que deveria, e acertou menos socos...

— Ele não precisava, fessora — defendeu Lauro. — Cada soco dele era um nocaute, a senhora tinha que vê.

— Não lembro de ter perguntado, senhor Lagum. — Ela se virou para o quadro e começou a escrever alguma coisa. — Agora, eu quero que todos escrevam os pontos negativos na luta do senhor Murdock e intercalem isso com o conhecimento de homeopatia que adquiriram nas minhas aulas. O mínimo aceitável é dez páginas.

10 páginas? Todos da sala começaram a protestar. Era comum que os professores passassem redações com base nas lutas que ocorreram, porém Rúnica nunca tinha feito isso. Fora que nenhum professor jamais deu aquele limite de páginas.

— Silêncio — sibilou a mulher. — E quero que prestem atenção no torneio do mês que vem. Será do quinto ano, e a pessoa que vocês vão ter de escrever é o senhor Balthazar e sua performance. 

Balthazar. Aquele sobrenome já era conhecido para Diego. Galadriel Balthazar, ou simplesmente Gabriel, como era conhecido, era um garoto loiro e de pele muito pálida. Ele era maligno, pois vivia implicando com Diego por razão nenhuma. Não era como Leo, que fazia isso mais por zoação. Galadriel fazia por maldade.

Inventou histórias a respeito do “Cachorro” após a sua luta, uma forma de queimar sua reputação. O pouco respeito que conseguira adquirir com os frios fora por água abaixo. Quando os dois se encontravam, o pálido dava um jeito de infernizar sua vida de alguma forma. 

O pior disso, era que Diego nunca conseguia revidar, pois parecia que o Balthazar sempre arranjava uma forma de ser o mocinho na história.

“Foi ele que começou”; “Foi sem querer, eu não tive intenção de machucar”; “Vai ver o cachorro precisa de uma coleira, está caindo demais." 

Além disso, uma determinada história não parava de lhe incomodar. Todas as vezes que passava perto dos frios diziam que ele quase perdeu para “mulherzinha”. Isso era uma referência ao que tinha acontecido durante a luta com Maria, onde o rapaz se distraiu por conta daquela menina que brilhava, sentada na arquibancada.

E a verdade era que Maria tinha mesmo lhe dado muito trabalho, e o rapaz só a venceu por conta de sua força. No quesito golpes, era evidente que Maria tinha mesmo feito um bom estrago nele.

Fora o novo apelido de fracote, um rumor da luta de Mini contra Diego, em seu primeiro dia de aula, tinha se espalhado. Pelo visto, aqueles que não estavam presentes, acreditavam que o rapaz tinha levado a pior. Isso também era verdade, porém, para sua sorte, omitiam o detalhe de que a baixinha quase o matou.

Ele ficou famoso por ser fraco demais com as mulheres, e várias alunas do primeiro ano, da turma dos frios, iam até sua direção para tentar caçar uma briga, na esperança de que ele não revidasse. 

Diego não era do tipo que dizia “não” para uma briga. Quando a primeira engraçadinha tentou lhe agredir, ele não mediu esforços para enviar a moça para a enfermaria com um nariz quebrado. 

Sua reputação de “Perdedor Para Mulherzinha” foi amenizada, embora não esquecida. A história de Mini lhe humilhando ainda era muito comentada entre os alunos. E tudo isso tinha cheiro de Galadriel.

O pior de tudo era que Galadriel era intocável pelos professores. Ninguém parecia querer fazer qualquer coisa a respeito de suas atitudes. 

Tiago explicou que isso se devia ao fato da família dele, os Balthazar, serem poderosos demais. E todos tinham um medo velado daquela família.

Aquilo lhe enchia de raiva. Prometeu que qualquer dia desses estaria disposto a arrumar briga com Galadriel, mesmo que isso significasse mais suspensões.

Mas embora odiasse Galadriel, sabia que ele não era do quinto ano. Ele era do primeiro ano da turma dos frios, e ao menos todos tinham de concordar que ele não tinha jeito de lutador. O que o levava a crer que a professora não estava falando dele, e sim de outro Balthazar.

Diego vasculhou a memória e se lembrou de uma conversa que ouviu, graças a Rafaela, na biblioteca. Alguns dias atrás, o diretor Kim explicou aos professores, antes deles começarem a fazer uma grande bagunça, que a família Balthazar enviou seus filhos para uma missão.

Isso explicava duas coisa: Primeiro, o fato de Diego nunca ter visto Galadriel no Craveiro até a sua luta, pois estava longe, em uma espécie de missão, assim como Elizel estava. E segundo, o garoto pálido tinha um irmão mais velho, segundo a professora Rúnica.

O rapaz tentou vasculhar na memória algum outro Balthazar, porém não conseguiu. Só se lembrava de Galadriel. Talvez o mais velho fosse tão esquecível que ele nunca reparou.

— Eu quero que vocês façam mais dez páginas sobre a luta do senhor Balthazar — continuou a professora. — Comparando os pontos positivos da luta, com os pontos negativos da luta do senhor Murdock.

20 páginas ao todo. E tudo isso para ser entregue em menos de um mês. Era um prazo até que razoável, mas ela estava dando essa tarefa para uma turma de quentes, alunos impulsivos que precisam do ar livre, e que detestam sentar a bunda na cadeira, pegar um lápis e fazer dever de casa.

— E não se preocupe, senhor Murdock. Você é o único que não vai precisar fazer o exercício. — Ela riu.

E a partir daí os apelidos bondosos de Diego começaram a desaparecer. Os quentes sabiam que o rapaz não tinha culpa alguma, porém o culpavam mesmo assim. Graças ao vencedor, eles estavam sendo castigados.

A raiva dos quentes só se intensificou quando descobriram que Rúnica passou uma tarefa parecida para os frios, porém com menos páginas. 

Todos os alunos frios do primeiro ano começaram a zombar dos quentes, perguntando se queriam ajuda no dever de casa, pois supostamente tinham tanta coisa para falar da luta do rapaz que não faria falta sair por aí distribuindo alguns pontos.

E conforme as pessoas faziam a tarefa, iam compreendendo que a luta do rapaz estava mesmo cheia de falhas. O pouco respeito que ele ganhou por sua vitória inesquecível foi pelo ralo. Agora todos tinham plena consciência, plena certa e garantia, de que Diego era um péssimo duelista, e que sua vitória foi pura sorte.

Não era uma total mentira. Se não tivesse o Tiago do seu lado ele jamais teria ganho. Mas o loiro não recebeu nenhum crédito por seus feitos. Na verdade, os quentes ainda continuavam a tratar ele com certa rispidez, embora não ousassem chamá-lo de “quatro-olhos” ou “sabichão” na frente do vencedor.

Depois de semanas aguentando comentários maldosos pelas suas costas, Diego decidiu fazer uma pergunta, no refeitório, a Tiago sobre o que Dani e Lauro estavam falando daquela vez no vestiário. 

Tinham dito que ele não era um quente, que a cor dele era roxa e que ele não convencia ninguém.

— Eles só não gostam de mim, Murdock.

— Isso eu percebi. Eu quero saber o motivo disso. Você é um quente também, então por que eles estavam te tratando como se você não fosse?

Tiago suspirou, pegou aquele livro de muitas cores de dentro de sua mochila e colocou na mesa do refeitório. Agora tinha espaço de sobra para eles colocarem o que quisessem na mesa. Quando Diego ganhou o torneio, todos queriam sentar com eles e não tinha espaço para mais nada.

— Aqui, tá vendo isso? — Tiago apontou para uma tabela de cores que formava um círculo. Seu dedo estava em cima da cor roxa, que ficava do lado direito, onde as cores frias eram separadas. — O roxo é uma cor fria.

— Então… Espera aí, você é um frio?

Tiago revirou os olhos e bateu com os pés no chão.

— Não! Eu sou vermelho-violeta. Tá vendo aqui?

Ele tirou o seu colar de dentro da camisa e colocou em cima do círculo de cores, para comparação. 

Diego parou de prestar atenção por alguns segundos, pois se lembrou que sua Hagar Selar ainda não tinha lhe revelado nenhuma cor, mesmo depois dos acontecimentos do torneio. Ele estava começando a ficar desesperado, pois logo, logo viria o ano novo, e ele ainda não tinha Corado.

Sua atenção voltou quando Tiago lhe puxou de volta para o livro. Olhando bem, viu que a cor da pedrinha do loiro não parecia com roxo, embora a cor estivesse bem próxima.

Quando Diego olhou melhor, viu que a cor de Tiago, vermelho-violeta, ficava colada ao roxo, embora estivesse do lado do lado esquerdo, onde as cores quentes ficavam.

— Ah! — exclamou Diego. — As pessoas te confundem com um roxo, então? É isso?!

 — Não, Murdock — começou o rapaz. Estava visível que sua paciência estava sendo testada. — Minha cor fica próxima a uma cor fria. Exatamente do lado, encostada na tabela.

— Tá, isso eu já entendi. E aí?

— E aí que pessoas que têm cores assim podem escolher em qual turma ficar. Ou seja, eu tinha o direito de escolher se ficava com os quentes ou os frios. E bom… Eu escolhi os quentes.

Aquilo era interessante. O rapaz não sabia dessa questão. Será se descobrisse que sua cor era um meio termo entre quente e frio ele deveria escolher o quente? Por um momento ele imaginou indo para os frios, apenas para poder infernizar a vida de cada um deles lá dentro.

— Bom, mas você é quente — alegou Diego.

— Eu sei! Mas, Murdock... Eu não pareço nada com um quente. Você sabe como os quentes são. Impulsivos e tudo mais. Eu não sou assim. Sou quieto, tímido e ainda sou um Mago, o que não é comum entre os quentes. Geralmente os quentes são Feiticeiros.

— Hm… A professora Domingues falou sobre esse negócio de Mago, Feiticeiro e… Outro nome… Qual era?

— Druída.

— Isso! Mas eu não lembro exatamente o que significa cada coisa…

— Claro, você sempre dorme na aula. — Tiago suspirou e começou a falar. — A diferença é simples. Os Feiticeiros são o que chamamos de prodígios, porque eles já nascem com os poderes, não precisam estudar para adquiri-los. A única maneira de um Feiticeiro evoluir o seu segredo é por meio da prática. Não precisam de muito estudo, apenas fazer é o suficiente. A prática leva a perfeição, é meio que o lema deles... E é fácil identificar um Feiticeiro, todos eles têm marcas na pele, como se fossem tatuagens.

Então Diego se lembrou de algumas pessoas que tinha como se fossem runas em sua pele. A maioria dos alunos em sua turma tinham. E ele se lembrou de Mini, que tinha marcas estranhas no pé do pescoço, como se fossem tatuagens. O que significava que ela era uma Feiticeira. 

Do fundo de sua memoria, Diego também tirou uma explicação da Prof. Domingues com relação aos Feiticeiros. Segundo o que se lembrava, as marcas nos corpos dos Feiticeiros poderiam ser ocultadas, porém Feiticeiros têm a tendência de mostrar suas marcas como forma de poder.

Quanto mais marcas tiverem pelo corpo, mais fortes são. Uma atitude que lembrava os quentes, embora nem todos os quentes sejam Feiticeiros. Entretanto, essas marcas não são bem vistas pelos Magos, até onde a Prof. Domingues tinha explicado, o que claramente representava uma rivalidade.

— Os Druidas são os mais fáceis de explicar. Eles nascem com uma espécie de benção da natureza e acabam por ter partes do corpo alteradas por partes de animais desde o nascimento. Eles só conseguem melhorar os poderes estando em contato com a natureza. Geralmente os Druidas são filhos de outros Druidas.

Diego se lembrou de muitas figuras, mas a primeira delas foi Leo, que tinha aquelas orelhas pontudas sobre a cabeça. Depois se lembrou de Bruno, o rapaz grandão com orelhas de urso. 

Ele também se lembrou de outros detalhes dos Druidas: Geralmente as cores deles eram puxadas para o verde, e dificilmente haviam Druidas com segredos diferentes de Transfigurador. 

Pelo pouco que conseguiu assimilar, os Druidas tinham poderes ligados a natureza, e para a natureza. 

— E os Magos são o extremo oposto dos Feiticeiros — continuou Tiago. — Nós não nascemos sabendo dos nossos poderes, precisamos estudar. E quanto mais estudamos, melhor ficamos. Quanto mais estudamos a teoria, mais aperfeiçoado fica nosso segredo. — De repente ele começou a ficar um pouco envergonhado. — M-mas isso não significa que a gente é preguiçoso! Os Magos também praticam, só não precisam fazer isso tanto quanto os Feiticeiros.

Sim, ele tinha se lembrado. Os Magos eram pessoas estudiosas, o que lembrava os frios e seus jeitos introvertidos. Entretanto, ele sabia que haviam Magos em sua turma, embora poucos; o próprio Dani era um deles.

Aquilo não explicava nada. Ser um Mago não era motivo de chacota, ao menos não que ele soubesse. 

— Você tá me enrolando — disse. — O Fabio, o Sanches e o Igor são tão tímidos quanto você. Nem dá para considerar eles como quentes. E mesmo assim você me diz que o problema é que você é Mago. Conta outra.

— É uma mistura de coisas, Murdock! — explodiu. Estava ficando obvio que o garoto só estava arranjando desculpas para não falar alguma coisa. — Eu podia ser frio, eu me comporto como um, sou mago e ainda por cima sou neto do Diretor-Chefe.

— E o que o diretor tem a ver com os outros não gostarem de você?

— Porque eles acham que eu só estou na turma dos quentes porque eu pedi para o meu avô. Eu tenho todas as características de um frio...

— Besteira! Não é por isso. Ninguém pensa nisso. Seria ridículo. Por qual motivo o diretor ia colocar você na turma dos quentes sem que você fosse um?

— Por causa dos meus pais — disse Tiago, envergonhado. — Eles eram quentes e… Eu quis ficar na mesma classe que eles…

Aquilo lhe pegou desprevenido. A conversa começou a tomar um rumo novo. Pela primeira vez Tiago não ficou se defendendo, e sim comentando os pensamentos que lhe incomodavam.

Ele achava que era um peso para todo mundo, e que não deveria recorrer a ninguém, porque acreditava que deveria resolver todos os seus problemas sozinhos. Ele mesmo acreditava que falar para o seu avô sobre as coisas ruins que lhe aconteciam era um sinal de fraqueza de sua parte.

Diego sabia que isso era bobagem, afinal de contas, isso era o que os outros tinham feito ele pensar, e não de fato o que Tiago pensava. Entretanto, o rapaz da cicatriz ficou quieto e continuou ouvindo. Era a primeira vez que ouvia sobre a vida do loiro. Sempre falava sobre si, sua vida, pesadelos. Agora resolveu escutar.

Ele descobriu algumas inseguranças a respeito de Tiago, sobre o motivo dele não ter muitos outros amigos, e a forma que se sentia sobre como os outros lhe tratavam. Isso não foi dito em apenas um dia. Foram necessarios muitas outras conversas para Diego saber mais sobre seu amigo. 

Tiago não era uma pessoa fácil de aturar, mas era um bom amigo. Foi então, durante uma de suas conversas, alguns dias antes da luta que a Prof. Rúnica tinha pedido para que todos fizessem um texto a respeito, que Diego fez uma promessa a Tiago.

— Se alguém mexer com você mais uma vez, eu vou chutar esses caras até quebrar alguma coisa deles.

A reação de Tiago, de choque, foi engraçada. Depois o loiro tentou lhe repreender, mas já era tarde. A promessa estava feita. 

E o dia em que Diego teria de cumprir sua promessa não tardaria em acontecer.



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