Volume 1

Capítulo 20: O Primeiro Ataque Suícida

Diego estava deitado no chão, arranjando forças para conseguir se levantar. Sua visão estava turva. O máximo que via era um branco muito, muito forte. Os sons abafados e distantes arrastavam sua consciência para as profundezas da escuridão, como um redemoinho. O redemoinho queria lhe afastar da luz.

Onde estava? Teria de pensar um pouco mais para chegar a conclusão. Primeiro o básico: Estava em um ringue, pronto para lutar contra Maria Rocha, quando de repente um trovão, daí, um clarão. Isso teria sido obra do poder de eletricidade da menina?

Ele estendeu o braço e conseguiu se segurar na corda do ringue. Olhou para Maria; Cabelos negros e longos, amarrados em um rabo de cavalo; Usava um top curto, luvas e um short da mesma cor; Seus tornozelos estavam enfaixados; Descalça; Seus olhos expressavam surpresa. Mas por que o espanto dela?

— ELE CONSEGUIU SE LEVANTAR! — disse Gutierrez. — INACREDITÁÁVEL!!!

E aquele era Gutierrez. Sim, ele se lembava o que estava fazendo. E se lembrou do motivo da surpresa. Aquele golpe que Maria usou poderia muito bem nocautear qualquer um. Mas dois anos de treinamento com Elizel e aqueles choques só lhe causariam dor e agonia. 

“Ao menos esses treinamentos serviram para alguma coisa”, pensou, enquanto tentava se manter de pé. 

Embora fosse resistente, não era como se a eletricidade fosse anulada por seu corpo. A eletricidade produzida por Maria também não era nada parecida com as do treino de Elizel. Em comparação, poderia até dizer que seu tio estava pegando leve.

Assim que conseguiu fazer suas pernas lhe obedecerem, o rapaz deu um passo a frente. Ele balançou a cabeça e deu um grito, mais para poder acordar do que para intimidar.

— Você já era…! — disse, com dificuldade. 

Respirou fundo e avançou.

— E ELE VAI TENTAR O MESMO GOLPE QUE FEZ COM JOÃO!

Mariam, mesmo cansada por gastar sua energia, conseguiu fazer rápido movimento para desviar e conter o ataque do garoto.

—  E ELA SEGUROU! ELA SEGUROU O BRAÇO DO MURDOCK!

Seu braço estava preso. Maria torceu seu membro com tanta intensidade que o rapaz realmente acreditou que fosse quebrar. Os gritos de Gutierrez e da multidão de alunos começou a ficar mais abafado conforme Diego sentia mais dor. Sentia cada estalo estranho que seu braço dava.

Com um empurrão desesperado, ele conseguiu se soltar. Andou alguns passos para trás enquanto balançava o membro. Ardia muito. Como não tinha sido quebrado, o rapaz não sabia. Talvez teria sido sorte. Então ouviu-se o raio.

Envolta do punho fechado de sua oponente, raios ribombavam pelo ar. Ele recuou. Ainda não tinha se recuperado do ataque anterior. Suspeitava que se fosse acertado mais uma vez por aquele golpe não teria forças para voltar.

— A MARIA VAI FRITAR O OPONENTE DELA! MESMO ESTANDO TÃO CANSADA, ELA CONTINUA PODEROSA! VEJAM COMO ELA SE ESFORÇA! UMA VERDADEIRA GERADORA! PODEROSÍSSIMA!

Diego não sabia se aqueles eram comentários para piorar o seu astral, ou melhorar o de Maria. Sim, ela tinha uma aparência muito cansada. Dava para ver que sua pele estava brilhando de suor e respirava pesadamente. Do jeito que as coisas estavam indo, ela não esperava ter de usar o ataque especial mais de uma vez.

Maria disparou em sua direção. Ele tentou se desviar com um salto para um lado, longe do punho eletrificado da moça. Um erro. A menina freou o seu avançou subitamente, girou o corpo em direção ao rapaz, e ainda no ar, deu um golpe que o atingiu nas costelas.

O mundo ficou claro mais uma vez e depois voltou a ser um borrão. Ele sentiu que seus pés ainda tentavam lhe manter de pé, embora estivesse balançando. Seu corpo inteiro começou a formigar.

“Não foi como o último. Esse foi fraco. Ela também está fraca”, tentou se convencer. E embora fosse verdade que aquele ataque não tinha sido tão forte quanto o primeiro, era fácil admitir que aquele segundo golpe quase lhe tirou do jogo.

Ele deu um tapa em seu rosto, o que só lhe deixou mais tonto, deu um grito e um pisão no ringue. Sentiu tudo voltar ao normal mais uma vez. Maria, que antes eram dois borrões, agora tinha se tornado em apenas uma imagem nítida. Ela parecia cansada. 

“Ótimo… Vou poder respirar…” pensou, porém, tarde demais. Mesmo cansada, a moça investiu mais uma vez. Dessa vez ela não havia carregado nenhum de seus golpes. Estava com apenas os punhos. 

Ela se aproximou e desferiu dois socos rápidos no rosto do rapaz. Ele deu dois passos para trás. Quando tentou reagir, recebeu mais um soco, dessa vez potente e certeiro, direto em seu olho. Isso o fez cambalear, certamente cairia.

Sentiu duas mãos agarrarem a sua cabeça e a menina puxou seu rosto para baixo, em direção a uma joelhada que projetou a sua cabeça para trás. 

Ela fez um movimento gracioso, girando no ar, e acertou um chute no meio do peito do rapaz. Ele foi jogado em direção às cordas, onde tentou desesperadamente procurar por ar. Tudo estava borrado, confuso. O zumbido em seu ouvido continuava.

— E ELE NÃO DESISTE, MEUS AMIGOS! MURDOCK CONSEGUIU AGUENTAR TODOS ESSES GOLPES DE MARIA E AINDA CONTINUA DE PÉ! SE FOSSE EU JÁ TERIA PEDIDO ARREGO! — riu. — MAS ELE CONTINUA DISPOSTO A LUTAR! E ELA JÁ PARECE CANSADA…

Enquanto os comentários continuavam, Diego reparava bem em Maria. De fato, agora ela estava pior do que nunca. Nem tinha sido ela que recebera tantos ataques e estava quase no mesmo estado do rapaz da cicatriz. Pelo visto o conselho de Tiago realmente valia alguma coisa.

O conselho de Tiago. Focar em sobreviver o máximo de tempo possível. Pelo visto ele já tinha consciência que a fraqueza da menina era ter pouca energia. O quão perspicaz teria de ser um aluno do primeiro ano para notar algo assim em apenas uma luta? O loiro era mais valioso do que mostrava.

“Não é para perder para uma menina!”, ouviu gritar um aluno da plateia. “Se concentra na luta, Diego!”, dizia outro. “Dá ao menos um soco na cara dela, mano!”.

Era fácil falar. Não eram eles que estavam apanhando feito cachorro para uma menina. Ela se aproximou, mancando de tão cansada. Suas costas estavam encurvadas, a respiração pesada.

— Você não cai?! — disse ela.

Diego nem tentou responder — não conseguiria, mesmo se quisesse — estava conservando todo o ar que podia para si.

Enquanto tentava bolar um plano, um em que pudesse efetivamente vencê-la, viu Maria carregar mais um de seus golpes elétricos. O barulho do raio era como ouvir diversos pássaros gritando. O brilho estava mais intenso, como uma estrela. 

“Eu vou morrer”, pensou. “Se isso me acertar já era.”

— CARAMBOLAS! SERÁ SE O MURDOCK VAI SAIR FORA DESSA?

Como ele iria sair da linha de ataque estando tão ferido, ele não sabia. Mas a ideia era ruim e por isso se debatia, desesperado, para sair das cordas. Inútil. Seu corpo tinha dado folga. O máximo que podia fazer era se manter em pé.

— Isso acaba aqui! — disse Maria, determinada. Ela inclinou o corpo, pegando impulso para avançar. 

— Pode vir! — gritou, finalmente. 

Com um grito, Maria avançou. A plateia ficou em silêncio. Na verdade tudo ficou em silêncio, e um borrão. A plateia se multiplicou em duas, quatro, oito… Até que as imagens não passavam de informações cheias de cor. 

Então, estranhamente, o seu estômago começou a embrulhar — a sensação do sonho. Do seu tio. O veneno. Ele queria cair no chão e desistir, porém algo o fez abrir os olhos. Estava agarrado às cordas, Maria bem a sua frente, alguns passos de distância, tão suada que parecia ter acabado de sair do chuveiro. Ele não caiu.

— QUE LUTA É ESSA, MEUS AMIGOS!

O rapaz obrigou suas pernas a lhe obedecerem e enfim ele deu um passo à frente.  Ainda estava tonto, sentindo que poderia cair a qualquer momento, porém suas últimas forças seriam o que decidiria o desfecho da luta.

Maria suspirou e ficou de guarda. Também estava cansada pelo rapaz não ter caído. Então, para provocar, de tirar o rapaz dos trilhos, de conseguir alguma vantagem, ela disse em alto e bom som: 

— Consigo derrotar você… Cachorro.

— E MARIA VAI PARA CIMA! 

Ela avançava com aquele ruído nas mãos. Um soco elétrico menor, inferior, fraco, sem todo aquele brilho e barulho. Mas ainda era uma ameça. Assim que ela se aproximou o suficiente para lhe desferir aquele golpe, a coceirinha na nuca do rapaz lhe deu uma ordem. Ele obedeceu, se jogando para trás.

Diego se lançou de costas contra a corda. Maria errou o soco. E para a sorte do rapaz, as cordas estavam lhe empurrando de volta para a luta. Naquele segundo, o momento em que viu o rosto assustado de Maria.

Quando as cordas lhe lançaram com tudo em direção a oponente, Diego carregou toda sua frustração em um soco e afundou ele no rosto da menina. 

A cabeça de Maria foi lançada contra o chão, como um foguete. O corpo dela ainda foi arrastado por alguns metros, mas a essa altura ela já estava completamente apagada. 

Os aplausos, urros e berros só vieram quando Gutierrez anunciou:

— E O VENCEDOR É DIEGO MURDOCK! — Ele deu uma leve tossida, como se estivesse disfarçando os risos e prosseguiu: — GENTE, ALGUÉM VÊ SE ELA NÃO QUEBROU O PESCOÇO.



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