Volume 1

Capítulo 12: Interesses Não Amigaveis

Diego estava novamente na biblioteca junto de Rafaela. A coceirinha atrás de sua nuca lhe dizia para ter cuidado com aquela moça, embora ele já estivesse envolvido com ela até o pescoço. 

— Não vão para o último nível! — disse a bibliotecária assim que os dois entraram. Ela estava nervosa e apreensiva. — Estou avisando, se eu pegar qualquer aluno lá em cima, vão ter uma conversa com o diretor pessoalmente!

Os dois apenas concordaram e, discretamente, subiram até o penúltimo nível do local.

Rafaela o trouxe até um canto mais escondido entre as estantes e puxou uma nova tábua. Essa não tinha uma descida enorme e escura como aquela estranha decida que usaram para escapar de Elizel, mas sim um minúsculo duto na parede que Diego duvidava que um rato pudesse ultrapassar.

— Como você acha esses lugares?!

— É muito fácil. É só ficar batendo na madeira e a que fizer um barulho estranho das outras é a escolhida.

Embora a pergunta tenha sido retórica, achou o conselho válido e resolver anotar mentalmente para caso precisasse no futuro.

— Tá bom. Então só para ver se eu entendi, você quer que eu ouça uma outra conversa por aí?

Olhando incrédulo para a ruiva, apontou para o pequeno buraco a sua frente. Ela respondeu com um simples e óbvio:

— Sim.

— E por que tu acha que eu vou conseguir ouvir uma conversa daqui?

— Lembra daquela porta no quinto andar? Você foi o único que conseguiu ouvir o que estava acontecendo. O que é um feito e tanto, já que provavelmente a porta estava sendo protegida pelas habilidades dos diretores.

— Quer dizer que meu poder é ter uma super audição? — perguntou, animado.

— É uma boa hipótese. Mas acho que sua audição só é melhor do que as das outras pessoas mesmo.

— Primeiro você diz que minha audição é incrível e que consegue passar pelas portas protegidas por magia. — Ele fez um gesto escandaloso que zombava de Rafaela. — E agora diz que não é poder. Pois muito bem, sabe-tudo, como você pode ter certeza que super audição não é meu poder?

Ele cruzou os braços e a encarou de cima para baixo, achando que tinha a encurralado com a pergunta. A ruiva apenas riu e apontou para o colar que Diego carregava consigo.

— Sua Selar. Ela é apagada.

Então o rapaz começou a ligar alguns pontos. Aquilo significava que os poderes de uma pessoa poderiam ser determinados por aquela pedrinha? Mas como ele poderia ativar ela e saber os seus? E parando para pensar, Rafaela até aquele momento não tinha mostrado a sua em nenhum momento. Que cor será a dela? E por que ela não carrega consigo como a maioria dos alunos?

Antes que pudesse abrir a boca para perguntar qualquer coisa, a ruiva pediu silêncio.

— Depois conversamos sobre isso. Agora ouve enquanto eu vou ficar de guarda. — Ela deu um tapinha em seu ombro e sorriu. — Se acontecer alguma coisa, saia correndo.

— Espera… O quê? — Mas ela virou-lhe as costas. — Menina maluca.

Ele se endireitou e colocou o ouvido perto do minúsculo duto. De alguma forma, ele se sentia desconfortável em ser tratado daquela maneira pela sua amiga. Porém seu incômodo logo foi embora ao passo que de fato ouviu alguma coisa; do andar de cima.

— Pol favol, mudem os telitórlios de vocês, pelos seus alunos. A situação não é das melholes, como podem vel. — Aquela era uma voz velha e um pouco cansada. Diego reconheceu na mesma hora como sendo o diretor Kim.

— Acho que é uma pena — disse uma outra voz, enjoada e sarcástica. Esta era Rúnica. — Bom, se for apenas isso então eu vou me retirar.

— Espera aí, Rúnicazinha. — Aquela sem dúvidas era a Prof. Borstmann. — V-você não acha um ultraje o que vai acontecer com aquelas pobres pessoas?

— Faça-me o favor, Giulia, eles são apenas leigos!

— M-m-mas… Rúnica...

— Exatamente! — gritou uma outra voz autoritária que Diego não reconhecia. — Sejamos realistas! É uma infestação de nocivos! Amarelos e vermelhos! Os leigos não conseguem dar conta nem de simples verdes, quem dirá de uma infestação dessas!

Então ouviu-se um choro baixinho que vinha da professora Borstmann.

— C-calma, professora Giuliane. — Esse era o Prof. Nemo, a última pessoa naquela pequena reunião. — Tenho certeza que ele não quis dizer isso...

— Quis dizer sim!

— Pelo amor de Deus! — exclamou Nemo. — Não fique assim, Giulia, não fique assim. Olha, tenho certeza de que os diretores já pensaram em como vão resolver essa situação. Não é mesmo, diretor?

— Ah, Bluce… Você é um bom homem. Mas infelizmente não. A infestação está na álea do comandante Vinícius, e embola o comandante seja muito bom, ele não está disponível.

— Obviamente que não! — gritou o autoritário. — Há dois anos que esse… comandantezinho não fica quieto! Não tem prioridades desde sua promoção!

— M-mas… P-porque n-não? — perguntou Borstmann, chorosa. — O-o-os trabalhos n-não são d-d-divididos para as o-outras tropas também?

— Aí, Giulia, como você é inteligentinha — desdenhou Rúnica. — Era para ser do jeito que você está falando, mas depois dos Murdock a organização tem mantido o Vinícius bem ocupado. Mal tem tempo para o próprio território.

— Eu diria que mal tem tempo de limpar a bunda!!!

— M-m-mas… q-q-que infestação f-f-foi essa? — perguntou a professora.

— Explica para ela você, Bruce — ordenou Rúnica. — Você é o professor de história.

— Ahm… Certo. Tá. Lembra que a dois anos atrás teve aquela infestação no terreno dos Murdock? Então, o Vinícius perdeu metade da tropa dele naquele dia só para limpar a área. O que significa que era uma infestação bem forte. E por isso a organização tá de olho nele.

— M-mas n-não f-foi o Elizel que salvou o-o D-D-Diego?

— Bom, o Elizel estava lá também. Mas eu não sei o que aconteceu, o Elizel não é de falar muito sobre isso. Mas… Bom. Depois daquele dia o cargo de comandante dele foi retirado... e dado… Bom…. Dado para o Vinicius.

— Uma tremenda armação! Se quer saber minha opinião! — gritou Riddley com autoridade.

— Mas acho que ninguém queira saber a sua opinião, professor Riddley — disse Rúnica. — Nós sabemos que o Vinicius não é esse tipo de pessoa…

— O que você sabe sobre pessoas!? Aposto o que quiser que o Vinícius armou uma para o Dragão Negro! Só para pegar o cargo de comandante dele! Isso é óbvio!

— Talvez nessa sua cabeça isso faça sentido…

— Como é?!?!

Enquanto uma pequena briga se iniciava, Diego deixou de ouvi-los. Era como um zumbido que o impedia de prestar atenção em qualquer coisa. Conhecendo o tio, sabia que era mais provável que ele armasse algo para Vinicius do que o contrário. Mas um novo pensamento lhe causou náuseas.

Desde que soube que as histórias que o tio contavam eram verdadeiras e não apenas contos fantásticos, o rapaz pensava que seu tio tinha lhe salvado e dado abrigo. Agora descobriu que se não fosse o atual comandante estaria morto.

— Plofessoles, pol favol — começou o diretor. — Eu só chamei vocês aqui polquê achei que tinham o dileito de sabel. Não pala ver vocês bligando!

— Tá, tá. — resmungou Rúnica. — Mas se o comandante está ocupado então porque não enviem os Diano? Ou os Balthazar?

— Estão ocupados — respondeu o diretor. — E os Balthazal Já mandalam os dois filhos em uma missão. Disselam que não iliam aceitar nenhuma missão pol agola.

 — Aquela família de branquelos não faz nada a anos! — gritou o professor. — São todos fracassados! Envie o Dragão Negro! Ele com certeza não iria recusar uma missão tão importante assim.

— O senhol Elizel e a Senhola Lidja já folam enviadas em outla missão. Vão demola um pouco pala voltal.

— Há! É verdade! — comemorou Ridley. — Não é como se um Dragão Negro fosse ajudar aquele comandantizinho! Aquele Elizel é um dos meus! Não colabora com qualquer comandantezinho meia-boca!

— M-m-mas por que não? — perguntou a professora Borstmann, já se recuperando da choradeira. — S-S-Se ele estivesse aqui, eu tenho certeza que o Elizel iria fazer alguma coisa a respeito...

— Claro que não! Os dois se detestam desde muito antes da infestação dos Murdock!

— Palem com isso! Olhem, nós já alumamos alguém para cuidar do problema: O Loudini se voluntaliou. Ele é mais que o suficiente pala….

— Só o capitão Roudini?! — Dessa vez o grito foi tão alto que possivelmente todos da biblioteca ouviram. — Um único homem para cuidar de toda uma infestação!? Uma infestação com nocivos AMARELOS e VERMELHOS?

Ouviu-se a professora Borstmann começar a chorar e sair correndo.

— P-professora Giuliane, volta aqui! — E Nemo foi atrás dela.

— Acalmem-se, pol favol. O capitão Loudini é considelado o melhor opulento do mundo…

— É claro! — disse Ridley, sarcástico. — Ele é o capitão da tropa do Vinicius! O melhor comandante do mundo, não é!?

— Para de falar, por favor! — exclamou Rúnica, que ainda estava ali. — A gente já sabe da inveja que você tem pelo Roudini e o Vinicius.

— Inveja?! Eu não invejo pessoas inferiores a mim!

— Eles não são inferiores. Você que é! Todos nós sabemos que se não fosse a sua ficha cheia de frustações você nem se daria o trabalho de ser professor.

— Plofesoles, pol favol...

— Pois saiba que você também é uma professora! E uma das piores! Geralmente as professora são comportadas! Já você só tem fogo…

Não foi preciso ouvir o som do tapa pelo duto. Todo mundo da biblioteca ouviu — e Diego suspeitava que até aqueles nos banheiros também poderiam ter ouvido.

— Palem com isso! — dizia o diretor.

— Exijo respeito, seu ignorante! — resmungava a professora.

— Diretor! O senhor é testemunha dessa agressão! — gritava o autoritário.

Agora certamente todos os alunos estavam ouvindo e chegando perto dos andares superiores para saber o que estava acontecendo. A bibliotecária começou a se descabelar de tanto trabalho que estava tendo para impedir os curiosos de subir as escadas.

Rafaela chegou a tempo de puxar Diego para longe.

 

 

Então fora o atual comandante Vinicius quem o tinha salvo, e não Elizel? E por que mais seu tio teria uma rixa pessoal justamente com Vinícius, que estava lá no dia que seus pais morreram? Mas por que seu tio mentiria sobre ter lhe salvado? E se mentiu, o que o impediria de não mentir sobre outras coisas também?

Seus pensamentos estavam tão lotados de perguntas e questões que acabou se desligando totalmente do mundo ao seu redor. Só voltou do mundo da lua quando Rafaela soltou uma exclamação de comemoração enquanto desciam de elevador: 

— Que legal!

— O quê?

Será que ele sem querer deixou escapar os seus pensamentos?

— As informações que você conseguiu pegar. Sobre as infestações que o diretor falou.

— Ah sim! É… É verdade.

No fim das contas, Rafaela não tinha poderes de ler pensamentos.

— Sabia que era uma boa ideia ter te trazido. Você foi muito bem, Amante-De-Portas. — E ela deu um soquinho no seu ombro.

Diego riu meio forçado. Ser tratado daquela forma por Rafaela estava lhe incomodando. Era como se ele fosse uma espécie de ferramenta e não um amigo de verdade.

— Ahm… Raposa…

— Sim?

Assim que ele encarou aqueles olhos amarelados, perdeu toda a coragem de dizer o que ia falar. Achou melhor deixar para lá e concluir que sua intuição estava lhe pregando uma peça; ficando incomodado por nada.

— Ahm… O que foi exatamente aquela conversa? — perguntou, desviando do assunto. — Eu não entendi nada.

— É verdade! Tenho que te explicar! Você se lembra daquela vez em que ouvimos a conversa dos diretores com o seu tio?

— Sim, ontem. Falaram que iam enviar ele para bem longe.

— Isso! Para um território da Flor-de-lis. O que o diretor Nebeque deu a entender era que eles estavam precisando de ajuda. Mas lembra o que o diretor Augusto falou?

Aquela altura o rapaz já sabia que o Craveiro tinha três diretores: Kim, Nebeque e Augusto e cada um cuidava de uma área em específico; embora Diego não tivesse feito questão de decorar quais eram suas funções.

— Aquele com sotaque de português? Só lembro dele falando todo certinho, e dizendo um monte de ora pois.

— Sim — riu. — Ele também falou de custo-benefício. Ou seja, existem outras intenções nessa missão. Algo além da ajuda: Conseguir alguma coisa. Uma vantagem. Um material, como eles bem disseram.

— Tá, onde quer chegar?

— Que o Craveiro precisa de algo que apenas aquela vila, no território da Flor-de-lis, tem! — ela falou sussurrando, entusiasmada. — Um material que nós precisamos!

Diego não conseguiu devolver a animação na mesma escala. Parecia uma grande baboseira. Se fosse verdade, não via motivo para se empolgar com aquilo.

— Hm. Tá bom. Então o Craveiro precisa de alguma coisa e está ajudando alguém para conseguir isso. É, parece OK para mim.

— OK? Isso é um escândalo! O Craveiro tem de tudo. Então o que pode ser que está faltando? Tem que ser algo muito inacreditável. E você vai me ajudar a descobrir o que é.

— O quê? Eu? Por quê?

— Porque você sabe o meu segredo, e eu sei alguns dos seus — disse em tom de brincadeira.

Diego esperava ouvir algo como “Porque somos amigos”. Da forma como ela disse, só parecia que estava usando ele como se a sua relação fosse uma espécie de troca.

Não era o melhor do mundo em escolher boas amizades, mas sabia identificar quando uma só era baseada em interesses; uma experiência ganha por conta de Rúbio, Cleiton e Piti.

Então a porta do elevador abriu no refeitório. Não havia muitas pessoas ali. Diego saiu do elevador, porém Rafaela não o acompanhou.

— Você não vem comer?

— Diego, você sabe como minha barriga é sensível. Eu fico o tempo todo no banheiro.

Ela deu um grande sorriso e um tchauzinho com os dedos enquanto a porta se fechava.

Pensativo, Diego foi pegar sua comida. Pegou tudo que tinha direito e mais um pouco, lotando toda a sua bandeja. Após isso, foi se sentar em uma mesa vazia que tinha por ali perto.

Se sentiu um pouco sozinho. Bem que podia estar lá fora brincando com os novos colegas, ou então arrumando confusão, quem sabe. Qualquer coisa era melhor do que almoçar sozinho. 

Ao menos tinha sacrificado seu lazer por uma causa nobre: ajudar sua amiga, Rafaela. Mas o rapaz tinha dúvidas se deveria considerá-la assim.

Em pouco tempo ela já sabia mais sobre Diego do que ele fora capaz de contar. Ela também tinha poderes interessantes e que o rapaz considerava perigosos. Fora que sabia muito sobre aquele garoto no banheiro. Talvez ela também sabia mais sobre Diego do que ele poderia imaginar.

A verdade, era que ele sabia tanto sobre Rafaela quanto sabia sobre a morte de seus pais.

Uma batida forte em sua mesa fez ele voltar mais uma vez para a realidade. Era uma figura zangada o olhando com ameaça, as sobrancelhas loiras arqueadas, os olhos azuis por trás dos óculos fundo de garrafa o fitando com seriedade. Era Tiago.

Aquela atitude era incomum. Principalmente quando o loiro levantou o queixo, cruzou os braços e encheu as bochechas rosadas para dizer:

— Não se envolva com a Rafaela!



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